quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Fragmentos Filosóficos Delirantes*



"Ao desenhar refúgios entrelinhas de saber excessivo, um velho conhecido se faz estrangeiro à natureza que muda para se manter. Na interrogação das incertezas o silêncio oferece novas versões na transgressão da palavra."

"O vocabulário da singularidade pode referir temas com significado próprio, mesmo quando se utiliza de expressões contidas no dicionário comum. Nesse sentido, pode ser importante superar os limites do mundo atual. As releituras costumam viabilizar essa decifração."

"O autor, como investigador de raridades, busca afinar seu estilo de acordo com as fontes por onde transita. A ele se oferece o desafio de encontrar o melhor ângulo, para realizar a magia da interseção aprendiz."

"Como um artesão a esculpir sua obra de arte, o Filósofo Clínico trata de aprender com os signos imprevistos. Elabora escutas, olhares e diálogos, no lugar onde a estrutura das profecias se manifesta."

"A natureza também insinua seus originais na impermanência de um talvez. Instantes em que a conexão propõe a novidade discursiva ao sem rosto das aparências. Assim, para além da mentira civilizada, outras verdades ensaiam inéditas versões."

"Verdades sem rosto conhecido parecem encontrar refúgio no discurso de aparência difusa. Talvez por isso a natureza do que se busca expressar reivindica palavras, sons, ressonâncias, a fazer sentido na ótica das invisibilidades."

"Nesse extraordinário idioma é possível localizar várias fontes - de saber - , devaneios de reinvenção. Contradição bem-vinda a inaugurar pontos de vista, até então, cristalizados num passado sem sentido. A pressa em querer consertar desajustes pode manter tudo como está."

"A terapia como inspiração, acolhe, tenta qualificar interseção e busca entender os tropeços iniciais, para antever escutas e vislumbrar sons de raridade inadequados às palavras. Em cada pessoa, uma obra aberta persegue-se na impermanência das crises. Dialetos de aparência estrangeira denunciam a realidade contaminada pela fugaz poesia dos delírios."

*Hélio Strassburger in "Pérolas Imperfeitas - Apontamentos sobre as Lógicas do Improvável". Ed. Sulina. RS. 2012

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Fragmentos Filosóficos Delirantes*



"Território escorregadio de questionamento e de reinvenções do novo, tela de fundo dos avanços ou retrocessos da sociedade, a modernidade cristaliza os processos sistematicamente feitos aos níveis social, político e estético. Com seus espelhos convexos, e côncavos, a modernidade é uma espiral de contradições, de esperanças, de decepções e de reinícios."

"Pensada como fábrica de transgressões, a literatura é uma construção, ao mesmo tempo histórica e imediatamente contemporânea."

"O que o deus Cronos não perdoa às vanguardas é o frescor e a espontaneidade de suas extravagâncias."

"O gesto vanguardista por excelência é a provocação verbal ou visual. Os criadores vanguardistas que se batizam de futuristas, surrealistas, dadaístas, criacionistas, minimalistas, maximalistas, proclamam sua diferença e operam a ruptura."

"Nesse polimorfismo literário, as vanguardas se destacam por marcarem, cada vez, o advento de uma linguagem nova. As vanguardas que reescrevem e perlaboram a modernidade também garantem sua sobrevivência para além de suas descontinuidades."

"Nietzsche avança a ideia da multiplicidade do sujeito tomado no sentido de uma vontade de ser e de um receptáculo fortuito dos diversos sentidos do mundo. O múltiplo destrói a concepção de uma presumida unidade fundadora do sujeito. Assim como o mundo é composto de um número indefinido de significados, o sujeito está submetido ao jogo das perspectivas."

"A performance pós-moderna desemboca antes no processo do que num objeto temporal acabado."

* Wladimir Krysinski in "Dialéticas da Transgressão". Ed.Perspectiva. SP. 2007

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Fragmentos Filosóficos, Criativos, Delirantes*


“Também sabemos que de início praticamente todas as obras-primas foram rejeitadas e vilipendiadas. É quase uma regra. Toda obra realmente forte tem que incomodar. Na verdade, isso é um sinal da sua força.”

“O fenômeno da identificação – a joia do cinema, a transferência mágica, a passagem secreta de um coração a outro – provavelmente está além da explicação racional. Ele mexe em demasia com parâmetros parcamente conhecidos.”

“Somos tocados apenas por uma realidade secundária, uma realidade de outra ordem, fácil de sentir, difícil de descrever.”

“Coincidências, eventos improváveis – a verdade não é sempre convincente. Sempre soubemos disso. O cinema, que tão frequentemente se aventura pelo irreal, constantemente renuncia a uma realidade que considera difícil demais de ser engolida.”

“O indefinível era melhor do que o específico, ainda que exótico. Buñuel, além disso, sonhava em introduzir sorrateiramente algumas informações falsas em todos os seus filmes, como que para minar e desviar ligeiramente o rumo da história e da geografia; a verdade fiel o aborrecia tanto quanto um espartilho apertado.”

“De fato, todo o filme parece dizer que não há diferença, que a vida imaginária é tão real quanto a outra, e que a vida que tomamos por real pode a qualquer momento se tornar inverossímil, absurda, anormal, perversa, levada a extremos por nossos desejos ocultos.”

“Lembro-me de Milos Forman na varanda de um café, observando o ir-e-vir de transeuntes e prostitutas num cruzamento de Pigalle e resmungando desconsoladamente: - Só Deus poderia ter dirigido isso!”

“O essencial é nunca abandonar o contato com a vida real, em favor da elaboração intelectual. É preciso começar explorando e dominando o que está à nossa volta, antes de conferir à realidade os necessários desvios e reviravoltas.”

*Jean-Claude Carrière.
‘A linguagem secreta do cinema’. Ed. Nova Fronteira. RJ. 2006

domingo, 27 de setembro de 2015

Atira-te ao Rio*


“Os panoramas, que anunciam uma revolução nas relações da arte com a técnica, são ao mesmo tempo expressão de um novo sentimento de vida.”
Walter Benjamin

Poucas músicas são como poucos olhos a ser visto na distância dos olhos. Ocultos, bem próximo da memória, minha mão acompanha o pensar, a curva do olhar dobra o velho porto abandonado. 

Então, eu estava a olhar o outro lado das coisas, estava a caminho do rio, passei por bares, mistura de sons, a alegoria das cores que vinha do rio, a conversa dos olhos, o sentido da música, o fim da rua. 

Estava à beira do Tejo. O fundo do rio surgia uma mesa na passagem do passado ao presente, um bar, o som perdido no vento brando das águas no ritmo contrário da cidade. As pessoas de um lado ao outro vinham ao mesmo tempo de onde estava olhar, a construção dos olhos é como um barco que aporta no velho cais. 

Algo que procurei, um som que não escutava, desde um tempo não tão longe dos olhos mas longe do sentir, a memória não deu trégua, veio com tudo, trouxe o som com a força da correnteza. Estava ali, os pés voltado ao Tejo.

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Editor. Professor. Livre Pensador
Porto Alegre/RS

sábado, 26 de setembro de 2015

Rumo*


Somente sou quando em verso.

Minhas faces mais diversas
são labirintos antigos
que me confundem e perdem

Meu pensamento perfura
muros de nada, à procura
do que não fui nem serei.

Ante a carne fêmea e branca
meu corpo se recompõe
ofertando o que não sou.

Meu caminhar e meus gestos
mal e apenas anunciam
minha ainda permanência.

Para chegar até onde
não me presumo, mas sou.
sigo em forma de palavra. 

*Thiago de Mello

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Essência e Acidentes*


Não é raro encontrar quem descredencie a filosofia como capaz de auxiliar em questões do cotidiano. Há quem postule que as “fórmulas abstratas e universais” dos livros de filosofia não resolvem problemas de cunho prático. Considerada mais uma abordagem filosófica, a filosofia clínica sofre pelos preconceitos de quem sequer se deteve por um tempo em sua análise. Diante disso, podemos levantar alguns aspectos que valem a pena serem pensados.

Aristóteles e Platão, além de suas divergências, chegavam num acordo acerca do “objeto” de conhecimento: o mundo sensível é constituído pelo devir. O Estagirita apontou para um processo de abstração do sensível que, a partir da suspensão dos acidentes, tornava-se possível pensar a essência. Assim, ficou possível pensar o homem para além dos homens particulares em suas diversas diferenças. Seu mestre formulou as Ideias como instância na qual se encontravam as formas puras das coisas concretas que, por sua vez, são imagens imperfeitas da concepção perfeita.

Mas, ambos não estavam discutindo o “sexo dos anjos” ao elaborar suas filosofias. Platão ao tratar do que era a justiça, por exemplo, tinha clara concepção de que era possível chegar a um acordo acerca do que consistia a justiça para, em seguida, pensá-la na prática. Afinal, assim como é no caso de uma lei justa, se ninguém tem uma noção do que é uma cadeira, qualquer objeto fabricado pode ser considerado algo para se sentar. Aristóteles buscou apresentar aquilo que era substancial em cada coisa concreta para que, àquele que cabia a possibilidade de buscar realizar sua natureza, esta lhe fosse clara. Assim, à semente caberia germinar, à arvore, dar frutos, ao homem, o bem que lhe correspondesse a fim de realizar sua natureza.

Note que para ambos, o mundo continua móvel em seus âmbitos singularmente únicos, enquanto as concepções tendem a ser mais diretivas para a vida. Eles não criaram leis nem regras rígidas de comportamento. Mas, pensaram elementos que, se trazidos para a vida, podem auxiliar nos procedimentos práticos da existência.

E o que a Filosofia Clínica tem a ver com isso? A clínica filosófica não tira das diversas particularidades seus universais. Mas, de cada singularidade tira os parâmetros para trabalhar a existência do partilhante. Ou seja, o “universal” das afirmações da filosofia clínica é que cada ser humano que busca o auxílio do filósofo clínico é uma singularidade que deve ser vista em sua complexidade, a partir de exames categoriais, estrutura de pensamento e submodos.

A filosofia em sentido mais tradicional e a filosofia clínica possuem algo em comum: a singularidade da existência. No entanto, enquanto filósofos como Platão e Aristóteles procuram da singularidade pensar o universal para, em seguida, utilizá-las para pensar a particularidade; a filosofia clínica toma a singularidade enquanto uma afirmação universal para que não seja possível formular qualquer afirmação aplicável a todo sujeito para, assim, permitir ao partilhante ser compreendido em sua singularidade.

Socialmente a justiça e a compreensão de homem continuarão sendo necessários para se pensar a vida comum. No entanto, a singularidade traz à tona a necessidade de mostrar que cada sujeito lidará com essa “vida comum” de algum jeito. E é aqui que o filósofo clínico age.

Assim, a filosofia pensa às essências enquanto o algo comum a todos os acidentes presentes no devir. Já a filosofia clínica pensa cada acidente como essencial a ser levado em conta em toda singularidade. Pensar as regras que regem o todo é tão fundamental quanto o modo como as partes lidam como essas regras.

Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG

quinta-feira, 24 de setembro de 2015


"(...) Desde que, adulto, comecei a escrever romances, tem-me animado até hoje a idéia de que o menos que o escritor pode fazer, numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, é acender a sua lâmpada, fazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e do horror. Se não tivermos uma lâmpada elétrica, acendamos o nosso toco de vela ou, em último caso, risquemos fósforos repetidamente, como um sinal de que não desertamos nosso posto."

*Érico Veríssimo

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Viver im_perfeito*


Que vivamos a loucura
De sermos como somos
Imperfeitos!
Que expressemos a loucura
De não representarmos e
Sermos transparentes
Que brinquemos loucamente
Pelo avesso, do avesso
Do avesso...
Pois, viver só vale a pena
Na coragem de transgredir
Loucamente! Boa noite!

*Dra. Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Filósofa Clínica. Escritora.
Juiz de Fora/MG

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Arte Poética*


Entre tantos ofícios exerço este que não é meu,
como um amo implacável
obriga-me a trabalhar de dia, de noite,
com dor, com amor,
sob a chuva, na catástrofe,
quando se abrem os braços da ternura ou da alma,
quando a enfermidade afunda as mãos.

A este ofício obrigam-me as dores alheias,
as lágrimas, os lenços saudadores,
as promessas em meio ao outono ou ao fogo,
os beijos de encontro, os beijos de adeus,
tudo me obriga a trabalhar com as palavras, com o sangue.

Nunca fui o dono de minhas cinzas, meus versos,
rostos obscuros escrevem-nos como atirar contra a morte.

*Juan Gelman

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Felicidade...*


"Freud escreve, retomando uma fórmula de Goethe: que não há nada mais difícil de suportar do que uma sucessão ininterrupta de três dias lindos....Três lindos dias, que se seguem numa potência máxima de felicidade podem não deixar mais grande coisa a esperar...." (André Comte-Sponville).

Quem suportaria a felicidade
Em toda sua intensidade
Por todos os dias?
Ainda que sinta sua falta
Amiga minha, alegria
Causa-me esforço demasiado
Repetir-te a cada dia
Por todos os dias....
Quem suportaria
A felicidade em toda sua potência
Por dias sem fim?
Deixa-me um espaço
Para alguma tristeza
Algum silêncio
Algum recolhimento
Assim lembrarei de ti, alegria
Sentirei saudades
E a tua falta.
Amanhã ou depois
Me alcançarás a mão
Minh'alma te acolherá novamente
Para nos alegrarmos
Mais e melhor, outra vez
Andando de novo
Por aí....

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

domingo, 20 de setembro de 2015

Fragmentos Filosóficos Delirantes*


-Cuidado com o homem cujo deus está no céu.

-O castigo do mentiroso, além de ninguém acreditar nele, é não poder acreditar nos outros.

-Todas as grandes verdades começaram como blasfêmias.

-A virtude não consiste em nos abstermos dos vícios, mas sim de não os desejarmos.

-Nenhum homem é suficientemente bom para ser o senhor de outro.

-Ele nada sabe e pensa que tudo sabe. Isso aponta claramente para uma carreira política.

-O homem razoável adapta-se ao mundo; o homem irrazoável obstina-se a tentar que o mundo se lhe adapte. Portanto qualquer progresso depende do homem irrazoável

-Muito cuidado com o homem que não devolve uma bofetada.

-Idéias são como pulgas: saltam de uns para os outros, mas não mordem todos.

-A razão escraviza todas aquelas mentes que não são suficientemente fortes para a dominarem.

-Não há satisfação em enforcar um homem que não faz objeção a isso.

-Liberdade significa responsabilidade. É por isso que a maioria dos homens a teme.

-As pessoas sempre culpam as circunstâncias por o que são. Não acredito em circunstâncias: as pessoas que seguem em frente neste mundo são aqueles que se levantam e procuram pelas circunstâncias que desejam, e se não as encontram, criam-nas.

-Não temos mais direito de consumir felicidade sem produzi-la do que consumir riqueza sem produzi-la.

-É impossível haver progresso sem mudanças, e aqueles que não conseguem mudar suas mentes nada mudam.

-Há uma única religião, embora haja centenas de versões da mesma.

-Exceto durante os nove meses antes de seu primeiro respiro, nenhum ser humano administra suas coisas tão bem quanto uma árvore.

-Aprecio a convalescença! É a parte que faz a doença valer a pena!

-A razão escraviza todas aquelas mentes que não são suficientemente fortes para a dominarem.

-O fato de um crente ser mais feliz que um cético não é mais pertinente que o fato de um homem bêbado ser mais feliz que um sóbrio.

-Não há satisfação em enforcar um homem que não faz objeção a isso.

-Liberdade significa responsabilidade. É por isso que a maioria dos homens a teme.

-As pessoas sempre culpam as circunstâncias por o que são. Não acredito em circunstâncias: as pessoas que seguem em frente neste mundo são aqueles que se levantam e procuram pelas circunstâncias que desejam, e se não as encontram, criam-nas.

-Não temos mais direito de consumir felicidade sem produzi-la do que consumir riqueza sem produzi-la.

-É impossível haver progresso sem mudanças, e aqueles que não conseguem mudar suas mentes nada mudam.

* George Bernard Shaw

sábado, 19 de setembro de 2015

Deixar de lado dói mais que ser deixado*


Deixar ou ser deixado? O que causa mais dor?
A esta altura da vida muito me confunde os tantos depoimentos somados à bagagem pessoal quando falando de amor e relacionamentos, é tocado o tema desamor.

Deixar ou ser deixado? O que causa mais dor?

Aparentemente, explicitamente e obviamente é claro que virou senso comum a dor do abandonado. Coitado. Foi largado!

Entretanto, fazendo valer aqui a veia inquiridora, própria de uma aura especulativa e da chatice inerente do Ser Filósofa, me detenho, como não raro, na contra mão das histórias que me contam e até das que vivi, me perguntando sobre quem foi que deixou mesmo “aquela” relação.

Acostumada a analisar comportamentos, mesmo antes de saber classificar isto, observava o sacrifício de uma mulher que deixava de gostar de seu parceiro e por estar atrelada a ele, presa, refém de alguma circunstância gerada por uma sua necessidade passada e alimentada por algum tempo, como que com dinheiro ou amparo psicológico ou emocional, coisa bem própria da maioria das mulheres aceitarem dos homens em momentos de desespero, sem conseguir se libertar e condenada por pressão do companheiro ou dela mesma em sua imaginária dignidade, em sacrifício, via-as e vejo-as, definhando. Acontece também com homens que se unem a mulheres por atração sexual pensando que suas parceiras serão para sempre deusas da beleza. Vejo-os expirando, aspirando novos ares.

Acontece não raro, com pessoas que pensaram amar muito e viram que não era bem assim. Ai.

Ser livre exige menos sacrifício e muitas pessoas não conseguem acreditar nisto. Primeiro pelo motivo básico de não acreditarem nelas mesmas e depois por acreditarem que sempre está nas mãos de alguém, cuidar de suas vidas. Que preguiça. Que coisa feia.

Amar sendo livre e escolhendo onde quer estar é bem mais gostoso e infelizmente não acreditamos nisto também.

E é nessa atmosfera que acontece a confusão. As pessoas deixam de gostar de seus parceiros e não são livres para desapegar e deixar ir ou ir. E é nessa orla que muita bobagem acontece. Aquele que deixou de gostar ou de verdade, nunca gostou, mas achou que podia ter alguma vantagem se unindo a alguém declarando ser por amor, se dedica a atormenta-lo.

Desapegar é mais honesto. Deixar ir é mais bonito. Não é sempre que precisamos fazer o outro nos odiar. Não é sempre que devemos fazer o mundo a nossa volta acreditar que o outro é o culpado. Não precisamos passar ao outro a nossa faixa de monstro. Isso é muito feio.

Em outra visão, fica aqui a impressão sobre a dor do deixar de gostar. Como é triste deixar de gostar de alguém quando tudo o que você mais queria sentir era amor. É quando não bate lé com cré. É quando você reconhece estar deixando para trás um grande tesouro, é quando você não tem capacidade de amar distraidamente. É quando você é um cara legal, mas outro cara legal não basta para você. Nossa, eu sei. Dói. E é disso que eu vim falar antes de dar aquela voltinha ali em cima pela vida dos não tão legais.

É essa analise que me interessa. A do que tem que abandonar, do que abandonou do que não conseguiu abrir o coração com tudo. Vim falar da dor do que tentou, mas mesmo recebendo de tudo não se deixou.

Vim falar que amar requer um pouco de se deixar. Vim falar que quando é leve, puro e desinteressado se torna incondicionalmente uma condição amar e não esperar nada em troca. Vim dizer que isto é tarefa árdua e nem sempre sabemos fazer. Vim dizer que amar de todo coração quase não existe mais. Dizer que reconhecer tudo isso, dói demais.

Queria dizer que não julgar é difícil, entender não é tão fácil assim. Queria dizer que às vezes ser um grande tesouro dificulta um pouco as coisas e que nem todo mundo sabe corresponder e que nem todo mundo sabe ser tão do bem.

É importante lembrar que se deixa também por não conseguir alcançar, que deixamos por não sermos capazes de fazer feliz, por pensar que não merecemos, por bondade, por consciência pura de que não merecemos.

Deixamos para continuar na estrada, apanhando, aprendendo e tentando merecer um amor que não complique tanto, por maldade ou por bondade, as nossas vidas.

Ai.

*Jussara Hadadd
Terapeuta Sexual. Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Ser Feliz*


Ser feliz! 

Ser feliz estava em mim, Senhora...

Este sonho que ergui o poderia pôr onde quisesse, longe até da minha dor, em um lugar qualquer, onde a ventura mora; onde, quando o buscasse, o encontrasse a toda hora, tivesse-o em minhas mãos...  

Mas, louco sonhador, eu coloquei muito alto o meu sonho de amor... Guardei-o em vosso olhar e me arrependo agora. 

O homem foi sempre assim... Em sua ingenuidade teme levar consigo o próprio sonho, a esmo, e oculta-o sem saber se depois o achará...  

E, quando vai buscar sua felicidade, ele, que poderia encontrá-la em si mesmo, escondeu-a tão bem, que nem sabe onde está!

*Menotti Del Picchia

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

A palavra vertigem*

                                                       
 


Um ser irreconhecível se desdobra na expressividade fugaz. Seu aspecto de invasor ameaça o saber encastelado, seu ritmo alucinado de vivências subjetivas re_apresenta um devir quase esquecido. Ao pensar o impensável realiza uma excursão pela partícula de infinito desconsiderada. Sua ótica de incerteza desconstrói o mundo de uma só verdade.   

Os sons murmurados nas entrelinhas apresentam o instante entre um e outro. Sua lógica de estôrvo e o caráter de percepção excessiva, denuncia espaços, alarga escutas, vislumbra imaterialidades. As associações desgovernadas esboçam um contato fugaz com o absurdo. Parece recordar que a vida não é definitiva.

Sua estranha dialética é ser registro de uma ausência. Como um acesso de desrazão, seu teor de expressividade não cabe numa definição. Nas possibilidades entreabertas pelo discurso novo, uma sensação de embriaguez involuntária, gestada na própria estrutura, ensaia lonjuras desconhecidas.  

A palavra vertigem aparece como um fundamento da lógica dos excessos. Em sua ótica de nuance se estabelecem múltiplas promessas. Como um não-lugar em vias de acontecer, sua tensão desconfigurada e de viés imprevisível, parece interrogar a vida para reinventar o sonho.  
         
Talvez sua maior aventura seja precipitar novas ideias, recomeços. Seu discurso, até então contido, elabora um novo dialeto. A velocidade das idas e vindas descobre itinerários por onde a matéria-prima se refugia. Seu caráter obtuso expõe fragmentos de invisibilidade, transgressão de limites, estrada querendo partir.

Os percursos da singularidade, quando em direção às ideias complexas, apresentam estéticas ainda não lapidadas. O deslize da pena do autor, pelos subúrbios de si mesmo, tenta descrever o refúgio desses inéditos. Assim um visar súbito encontra o inclassificável.

Numa perspectiva de lógica delirante, ao decifrar sua linguagem, é possível se ter subjetividade, tempo e lugar como reféns um do outro. Nela o teor precursor reencontra as poéticas da não-lucidez, reivindica a palavra vertigem para ressoar um mundo por vir.  

*Hélio Strassburger

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Vida*


“Você pode unir as duas verdades contrárias e me ver tanto mais sadio quanto mais doente estou.”
Edgar Morin

A vida é assim, todo mundo quer, todo mundo lembra: Vida.
A vida é isso, todo mundo fala mal, todo mundo quer: Vida.
A vida é um troço que dá na vida de cada um, todos a desejam: Vida.
A vida é tudo, tem gente que se mata para tê-la: Vida.
A vida é assim, eu vi e amei de cara quando nasci: Vida
A vida é perdição, a vida mais do que saber sobre a vida, esquecer: Vida
A vida é uma teoria para quem sabe viver, a vida é um Teorema, uma força: Vida.
A vida é o complemento da dor, a alegria do envolver, o lenço branco: Vida.
A vida é um país, lá se vive e lá se morre: Vida.
A vida é o sonho, velejar para bem longe, mandar notícias lá de vez em quando: Vida.
A vida é a única linguagem que as línguas se compreendem, se desconhecem, amam e se matam: Vida.

*Prof. Dr. Luis Antônio Paim Gomes
Editor. Professor. Escritor.
Porto Alegre/RS

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Quarto de Pensão*


Sou pensionista da vida.
Na mesma tábua em que durmo
Escrevo meu trabalho
E ela farfalha, embora já sem folhas,
Só da lembrança de ter sido tronco.
Tenho uma pia no canto,
Que goteja
E é meu lago, meu rio, meu
Fundo mar.
Tenho um rijo cabide
À cabeceira
Para dependurar a pele
A cada noite.
Me dão café com pão, e às vezes
Algum vinho.
Dizem que só paguei meia pensão.

Há uma fome indistinta que me habita
Enquanto o medo
Com felpudos passos
Percorre o labirinto das entranhas.
Mas agradeço essas quatro paredes
E que me tenham dado uma janela.
Pois sei que a qualquer hora
Sem possibilidade de recurso
E talvez mesmo sem aviso prévio
Serei intimada
A devolver o quarto.

*Marina Colasanti

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

A quem se destina o trabalho dos filósofos clínicos?


É uma pergunta frequente no meio acadêmico, nas áreas terapêuticas, na medicina – já que a Filosofia Clínica lida com a existência em sua singularidade, em sua plasticidade, em sua representatividade e subjetividade. Na prática quem nos procura ainda é a pessoa com uma queixa muito vista nas dores médicas, psicológicas, espirituais, sociais.

Acontece aqui um diferencial que costuma causar estranhezas fortes ao entendimento dos critérios e mecanismos de ação adotados pela Filosofia Clínica. O filósofo compreenderá a dor da pessoa a partir da historicidade dela. Somente a partir desse procedimento, a história de vida da pessoa, como esta se estruturou ao longo de uma existência é possível encontrar os mecanismos para lidar com esta dor (seja ela emocional, física, ética, religiosa, cultural e etc.).

Em Filosofia Clínica, nem sempre debelar uma dor é o melhor caminho para a pessoa. E isso quem vai nos orientar é a trajetória que percorremos com quem partilhamos os espaços da vida. Acontece, em alguns casos, por exemplo, a depressão ser indicada existencialmente.

Historicamente, a depressão é tida como apatia, renúncia, recuo, destituição dos elementos vitais. “Uma falácia compreensível, mas cada vez menos justificável, se você tomar a Filosofia Clínica como estudo”, diz o filósofo Lúcio Packter. Para os parâmetros da Filosofia Clínica a depressão é um movimento também de luta, de afirmação, de vida. Para algumas pessoas é assim, a dor é didática. E há quem tenha uma de estimação: “Um amigo me chamou pra cuidar da dor dele, guardei a minha no bolso” (Clarice Lispector).

*Rose Pedrosa
Filósofa Clínica. Professora. Coordenadora da Formação no Ceará.
Fortaleza/CE

domingo, 13 de setembro de 2015

Pensamento vem de fora*


Pensamento vem de fora
e pensa que vem de dentro,
pensamento que expectora
o que no meu peito penso.

Pensamento a mil por hora,
tormento a todo momento.

Por que é que eu penso agora
sem o meu consentimento?

Se tudo que comemora
tem o seu impedimento,
se tudo aquilo que chora
cresce com o seu fermento;
pensamento, dê o fora,
saia do meu pensamento.

Pensamento, vá embora,
desapareça no vento.
E não jogarei sementes
em cima do seu cimento.

*Arnaldo Antunes

sábado, 12 de setembro de 2015

Cuidar de si*


A nossa própria conduta nos define, sobretudo, quando fazemos sem obrigação ou quando parcelas originais de quem nós somos nos escapa por entre os dedos das censuras e das máscaras sociais tão sofisticadas.

Ora pois, a conduta revela demais mesmo quando se tenta enganar crendo numa ilusão que no fundo não passa de uma mentira para si mesmo. E o tempo vai passando na medida em que prioridades e vontades vão mudando conforme as circunstâncias que vivemos e a sabedoria que conquistamos a cada dia.

E prioridades e vontades mudam mais ainda quando não há reciprocidade no cultivo quase sempre, porque um lado fora ocupado por uma pessoa que quer tudo e, por isso, não conquista nada. Na verdade, pessoas assim nem sabem o que realmente querem e facilmente se dedicam cada vez mais ao consumo, ao ter para compensar a carência de ser.

Não raro, são essas pessoas as mais bem dotadas da triste escolha de se tornar potente condicionadora de desamores como apego, ciúme, egoísmo, inveja, competição e vingança. Curiosamente, quando próxima a nós, uma pessoa nesse estado se torna um grande desafio para que não nos rendamos à tentação de sentir pena ao invés de compaixão. Por isso, é tão importante que nos conheçamos de perto e, cada vez mais nos tornemos melhores na arte do cuidar de si.

Afinal, somente dessa forma poderemos acolher e ajudar com o respeito devido e a ternura humanamente merecida toda vez que uma pessoa carente de ser nos der uma chance para estendermos a nossa mão de modo a tocá-la na alma visando resgatá-la do seu próprio abismo. Musa!

Prof. Dr. Pablo Mendes
Filósofo Clínico. Professor. Poeta.
Porto Alegre/RS