quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

*Buscas


Que em 2016 sobre tempo...
Pra encontrar os amigos
Pro ócio criativo
Pra navegar através dos livros
Pra escrever mais livremente
Pra brincar e dançar
Pois, afinal a vida é poesia
Pra quem sabe tudo desfrutar

*Dra. Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Filósofa Clínica. Escritora
Juiz de Fora/MG

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Acho tão Natural que não se Pense*


     Acho tão natural que não se pense
     Que me ponho a rir às vezes, sozinho,
     Não sei bem de quê, mas é de qualquer cousa
     Que tem que ver com haver gente que pensa ...
     Que pensará o meu muro da minha sombra?  
     Pergunto-me às vezes isto até dar por mim 
     A perguntar-me cousas. . .
     E então desagrado-me, e incomodo-me
     Como se desse por mim com um pé dormente. . .

     Que pensará isto de aquilo?
     Nada pensa nada.
     Terá a terra consciência das pedras e plantas que tem?
     Se ela a tiver, que a tenha...
     Que me importa isso a mim?
     Se eu pensasse nessas cousas,
     Deixaria de ver as árvores e as plantas
     E deixava de ver a Terra,
     Para ver só os meus pensamentos ...
     Entristecia e ficava às escuras.
     E assim, sem pensar tenho a Terra e o Céu.

    *Fernando Pessoas

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Acordar*


Dormir é uma necessidade fisiológica. A cada 16 horas o corpo exige uma pausa para descanso. Neste período ocorrem liberação de hormônios, sonhos e recuperação do cansaço e fadiga. O sono é um poderoso revigorante físico e emocional, diminuindo o estresse, melhorando a memória, o raciocínio, rejuvenescendo a pele, controlando o apetite.

Acordar é diferente. Acordar é uma benção, um presente. Normalmente, depois de seis a oito horas adormecidas, as pessoas acordam. No entanto, as mais diversas religiões afirmam que durante o sono um pedaço da alma, ou sua totalidade, se desprende do corpo e, conforme a vontade divina, retorna ou não para que o individuo possa acordar. Por isso, fiéis rezam antes de dormir, pedindo que sejam protegidos pelo altíssimo durante o sono e abençoados com o acordar.

Como as certezas podem mudar de lugar, para os insones a regra é outra, dormir é considerado uma benção e ficar acordado, uma maldição. 

Dormir sob efeito de uma anestesia já é outra coisa, completamente diferente do sono fisiológico e do acordar abençoado.  Tanto na anestesia como no sono normal, as pessoas permanecem de olhos fechados, mas as semelhanças param por ai. Um processo é farmacológico, o outro fisiológico.  Durante muito tempo, o acordar anestésico foi uma incerteza bem maior que o acordar bendito. Alguns tiveram a sorte de passar pela vida sem jamais chegar perto de uma anestesia, outros a experimentaram de forma esporádica. Alguns acordaram, outros não.

A primeira anestesia que se tem noticia, está descrita no Gênesis capitulo 2, versículo 21: “Então o Senhor Deus fez vir sobre o homem um profundo sono. E ele adormeceu. Tirou-lhe uma das costelas e fechou com carne. Versículo 22: “Depois, da costela tirada do homem, o Sr. Deus formou a mulher e apresentou-a ao homem”.

Depois disso, a anestesia virou um processo químico e não foi mais aplicada por seres divinos, anjos ou pelo próprio deus. Passou a ser praticada por homens, e seu aprendizado teve que ser feito na base da tentativa do acerto e do erro. Barbeiros, curandeiros, curiosos, alquimistas, sacerdotes, enfermeiras, estudantes e até mesmo médicos do passado, desconhecendo os efeitos poderosos dos anestésicos, exerceram de forma rudimentar a função de anestesistas e catalogaram em seus currículos complicações sérias e até mesmo fatais.

A garantia bíblica de acordar depois de uma anestesia deixou de ser assegurada. O temor do sono eterno provocado por complicação anestésica se instaurou e quando alguém precisava realizar uma cirurgia, familiares choravam, despediam-se do infeliz, e rezavam para que tivesse a sorte de sobreviver a anestesia sem sequelas. 

Uma pesquisa recente, realizada pela Sociedade Americana de Anestesiologia, revelou que 75% dos entrevistados disseram temer a anestesia. De cada quatro pacientes, um tem tanto receio que acaba adiando ou mesmo desistindo do procedimento cirúrgico.

Nem todos podem fugir. Mesmo não sendo desejada, a anestesia é uma necessidade que eventualmente se impõe e não há como escapar. Nesta circunstância, acontecia o fatídico encontro entre paciente e o malquisto anestesista, personagem indicado pelo cirurgião ou entidade assistencial, quase sempre em cima da hora do procedimento e por vezes ainda vestindo a máscara cirúrgica.

Mil fantasias e dúvidas invadem a mente do paciente, vitima em potencial de uma situação nova a ser enfrentada, potencialmente arriscada, acrescida da impossibilidade de resolução pelo próprio individuo e dependente de um terceiro desconhecido.  O que vai acontecer comigo quando eu perder a consciência? Quem assegura que vou acordar? Vão cuidar direito de mim ou ficarão contando piadas, lendo jornal, tomando café? E se eu acordar durante a operação? E se a anestesia não pegar?

A anestesiologia evoluiu, e hoje, profissionais que exercem a especialidade são médicos com formação acadêmica multidisciplinar, trabalham com recursos tecnológicos sofisticados, drogas extremamente seguras e estão disponíveis para esclarecer dúvidas a qualquer momento. Dormir e acordar depois de uma anestesia já se tornou um desafio ultrapassado. A mortalidade devido a fatores anestésicos está em torno de 0,0005 %, índice considerado baixíssimo e altamente aceitável.

Controlada a mortalidade, anestesiologistas passaram a ter novas funções. Além de bloquear a consciência, aliviar a dor, monitorar o organismo, manter as funções vitais, prover reposição de líquidos e manter a temperatura corporal, foi preciso também reverter a herança cruel deixada por seus antepassados e reconquistar o direito de fazer o outro dormir, mostrando-se um sentinela atento e cuidadoso, capaz de perceber o menor sinal de dor ou perigo, provendo segurança e tranqüilidade ao ser humano que irá se entregar em suas mãos. 

Se as semelhanças entre o sono anestésico e o sono fisiológico são mínimas, a analogia entre o acordar abençoado e o acordar anestésico também não é tão evidente. Anestesia é uma palavra de origem grega, que significa privação de sensações. Durante a anestesia, são suprimidas as sensações dolorosas, táteis, olfatórias, degustatórias e visuais. No sono fisiológico acontece justamente o contrário, as emoções, que eventualmente são reprimidas pelo indivíduo consciente, libertam-se durante os sonhos, dando vazão a sentimentos inconscientes. 

Ao acordar da anestesia, gradativamente as sensações vão regressando, e o paciente, em pouco tempo, retoma sua normalidade. No acordar abençoado, as emoções liberadas nos sonhos, podem vir à superfície ou voltar a se esconder no fundo do poço. Depende de muitas variáveis, por isso leva o adjetivo “abençoado”, para não ser um simples abrir os olhos acompanhado de um bom dia. Acordar abençoado significa acordar afortunado, despertar para a vida, fazer a diferença. E todos os dias recebemos esta dádiva. Um 2016 abençoado em cada despertar.

*Ildo Meyer
Médico. Filósofo Clínico. Escritor. Palestrante.
Porto Alegre/RS

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Fragmentos filosóficos, delirantes*



"Aliás, uma intuição não se prova, se vivencia."

"(...) o tempo é uma realidade encerrada no instante e suspensa entre dois nadas."

"Veremos então que a vida não pode ser compreendida numa contemplação passiva; compreendê-la é mais que vivê-la, é efetivamente impulsioná-la."

"O que pode haver de permanente no ser é a expressão não de uma causa imóvel e constante, mas de uma justaposição de resultados fugidios e incessantes, (...)"

"Roupnel, como historiador minucioso, não podia ignorar que cada ação, por simples que seja, rompe necessariamente a continuidade do devir vital."

"(...) ela leva em conta não apenas os fatos, mas também, e sobretudo, as ilusões - o que, psicologicamente falando, é de uma importância decisiva, porque a vida do espírito é ilusão antes de ser pensamento."

 "No fundo, o indivíduo já não é mais que uma soma de acidentes - mas, além disso, essa soma é, ela própria, acidental. Da mesma maneira, a identidade do ser nunca se realiza plenamente, ela é afetada pelo fato de a riqueza dos hábitos não ter sido regida com atenção suficiente."

"Mais que uma doutrina do eterno retorno, a tese roupneliana é, pois, uma doutrina do eterno recomeço. Ela representa a continuidade da coragem na descontinuidade das tentativas, a continuidade do ideal apesar da ruptura dos fatos."

"A consciência do tempo é sempre, para nós, uma consciência da utilização dos instantes, é sempre ativa, nunca passiva (...)"

"Ensina-nos a ver e escutar o Universo como se só agora tivéssemos dele a sã e súbita revelação. Reconduz a nossos olhares a graça de uma Natureza que desperta. Devolve-nos as horas encantadoras da manhã primitiva banhada de criações novas."

*Gaston Bachelard in "A intuição do instante" Ed. Verus. Campinas/SP. 2007

domingo, 27 de dezembro de 2015

Compreensão*


“O que seria a vida sem esquecimento.”
Hans-Georg Gadamer

Que bom envelhecer e esquecer, e que não devemos esquecer de viver, e que todo esquecimento é viver mais um pouco, é lembrar viver mais um tanto outro muito de vida. Porque viver é esquecer um pouco de tudo, é viver um tudo de nada dos poucos instantes vividos. 

Viver e não deixar de sentir as imagens, de não deixar de provar o vento como se o olfato fosse um som a cruzar um eterno campo de vida, e nosso voltar para o tempo é cheirar mais um pouco do esquecido, do ar que passa sobre a cabeça. E um vasto oceano e todo movimento a desaguar na vida.

E morder a vida com aquilo que o esquecer nos deixou sentir: Viver os últimos dias como se vivesse os primeiro anos de vida, viver por viver sem deixar de cuidar da vida. Viver sem as certezas da exatidão, das verdades, e sentir todas as verdades vividas nesse caminho de vida intensa.

*Dr. Luis Antônio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Professor. Livre pensador.
Porto Alegre/RS

sábado, 26 de dezembro de 2015

Dá-me a tua mão*


Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta. 

De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia. 

Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.

*Clarice Lispector

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Sobre diminutivos*


Falo:
-Vamos fazer um chimarrão?
-Vamos..
-Só se você me pedir.
- "Josezinho', vamos fazer um chimarrão...?

Nunca pegou um apelido em mim...

Já me chamaram de "Zezinho". Parece pequeno demais. Eu já me sinto no diminutivo. Zezinho me reduz a quase nada. Abraço a minha fumaça. Desenho sobre o meu nevoeiro. Toco-me para ver se ainda existo...

Já me chamaram de "Zé". Zé é todo mundo e cada um. Parece uma bolinha de pingue-pongue na boca do povo. Sinto-me em praça publica...

Já me chamaram de "José". Percebo-me duro e áspero. Me carrega ao mundo dos compromissos e responsabilidades. Lembra-me São José, Virgem Maria e Jesus... desculpa... é muito peso para carregar....

Já me chamaram de "Josezinho". Gosto. Me sinto um pouco mais comprido. Consigo olhar por cima do muro. Para espiar as flores do outro lado. E ela brincando no meio delas. Me espicho e consigo ver o horizonte, e além dele. E vejo ela retornando bem ao longe.

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Antes do nome*


Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o “de”, o “aliás”,
o “o”, o “porém” e o “que”, esta incompreensível
muleta que me apoia.

Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.

A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.

Em momentos de graça, infrequentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.

Adélia Prado*

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Fronteiras do pensar!*


O que penso?
É certo?
Ou será errado?
O que será que penso?
E porque penso?
Ou melhor, será que penso?
Quantas vezes penso em um dia?
Penso com razão?
Fico a pensar!
Sofro por pensar?
Penso e me lembro do que penso?
E será certo pensar?
Pensei hoje?
Pensarei amanhã?
Será que pensei ontem?
Serei um falso pensante?
Seria possível pensar em etapas?
Início, meio e fim!
Que de alguma forma: seria o ontem, o hoje e o amanhã!
Indiferente do que pensar só você manda nos seus pensamentos e mais ninguém!
E acima de tudo!
Você pensa o quê!
Quando!
E o quanto quiser pensar!

*Marcelo Ávila Franco
Psicólogo. Especialista em Educação. Estudante na Casa da Filosofia Clínica.
Porto Alegre/RS

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Receita de ano novo *


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

*Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Te convido*


À ouvir as ondas,
Ouvir seu coração,
ouvir o meu,
ouvir o que o vento nos diz.
Te convido:
Aquietar os pensamentos,
perceber o aqui e agora,
respirar profundamente,
depois suavemente.
Te convido:
sentir-se vivo,
perceber-se como integrante desta cena,
como natureza que és.
Apenas, te convido...

*Adriana Miranda
Filósofa. Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

domingo, 20 de dezembro de 2015

Seiscentos e Sessenta e Seis*


A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas: há tempo…
Quando se vê, já é 6ª-feira…
Quando se vê, passaram 60 anos…
Agora, é tarde demais para ser reprovado…
E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre, sempre em frente…
E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.

*Mário Quintana

sábado, 19 de dezembro de 2015

A palavra inesperada*

                                                    
Uma suspeita de imensidão aprecia os deslizes da palavra refugiada na palavra. Ponto de fuga em subterfúgios de especulação, ao exibir renúncias de ser previsível, amplia o mundo das possibilidades.  
  
A admissão compreensiva desses desvãos se oferece no acolhimento de um talvez. Uma de suas características é o descompromisso em sustentar verdades a qualquer preço. Seu estado de espírito sobressaltado qualifica deslocamentos pela arquitetura subjetiva de um mundo fatiado. Aqui o vislumbre repentino das pequenas coisas permite o acesso às zonas de exclusão.   

Por esses episódios a perder de vista, um teor extemporâneo pode desconstruir as fronteiras conhecidas. Seu saber ameaça os fundamentos conhecidos daquilo que se tinha definitivo. Nesse viés de aparência deslocada anuncia novos horizontes, esparrama indícios de originalidade para se fazer ciência. 

O discurso imprevisível onde ela se esboça, procura inseri-la num contexto de notícia compartilhável. Mesmo assim, prefere um caráter marginal, improvável vestígio de escritura a reinventar interseções.

Essas lógicas da raridade subjetiva se rascunham em tempo próprio. Com elas, a súbita percepção de algo desconsiderado pode traduzir o novo se constituindo. Os eventos extraordinários, incompreendidos, inaceitáveis, quando não tratados a golpes pela medicina psiquiátrica, podem anunciar um novo viés, essencial ao viver singular. Por outro lado, em alguns casos, a drogaria do hospício incita aquilo que busca combater.  

Um instante fugaz onde a percepção é capaz de entrever uma perspectiva inacabada para si mesma. Realidades fugidias em um mundo de expressões desconhecidas. Nesse sentido, fica uma sensação de janela entreaberta, por onde se move a irrealidade em busca da palavra inesperada. Existem sinais de alma nova diante daquilo que não é em vias de tornar-se.  

*Hélio Strassburger

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Philip Roth no cartório*


          Algumas palavras, difíceis palavras, do escritor americano Philip Roth, que li em um post de Guilherme Freitas no "Prosa On Line", não cessam de me incomodar. Elas foram transcritas de uma entrevista que o escritor concedeu à revista francesa "Les Inrockuptibles", em outubro passado, quando anunciou o fim de sua carreira literária. Diz Roth, de 79 anos: "Escrever é estar sempre errado. Todos os nossos rabiscos contam a história de nossos fracassos".

          Sábias, preciosas palavras para um mundo em que não apenas muitos escritores, mas intelectuais, políticos, gurus, doutores, cientistas, especialistas de todas as áreas, agitam enfaticamente suas verdades. Não é qualquer um que consegue, como Roth, admitir (aceitar) a insuficiência dos próprios pensamentos. Não é qualquer um que sustenta, com coragem, os próprios (e estreitos) limites. No entanto, as duras palavras de Roth, ao delimitarem a potência humana, tornam a vida mais aceitável. E mais ainda: tornam a criação possível.

         Andei relendo, com meus alunos do Laboratório On Line de Jornalismo Cultural, do Itaú Cultural, relendo como se fosse pela primeira vez, as "Seis propostas para o próximo milênio" de Italo Calvino. Assim como Roth, Calvino foi também um escritor de grande coragem intelectual. Por mais que apostemos em valores como a clareza e a precisão, ele nos mostrou, a maior parte do que desejamos dizer fica, inevitavelmente de fora. Escritores se parecem com os velhos lanterninhas de cinema: na sala escura, com seu foco de luz bizonho, desenham (escrevem) um delicado caminho. Um destino. Ele nos permite avançar (ler). Mas a maior parte da cena permanece nas sombras.

         Para não me perder, volto a Roth: "Escrever é se frustrar: passamos todo nosso tempo escrevendo a palavra errada, a frase errada, a história errada. Nos enganamos sem parar, falhamos sem parar, e assim precisamos viver em uma frustração perpétua". Uma ficção não passa do resultado de um acúmulo de ensaios, tentativas e decepções. Eles se sucedem, como pragas: você quer dizer isso e escreve aquilo. Experimenta clarões, é tomado por imagens, iluminações, sonhos, mas as palavras não os capturam. E, a cada esforço, uma decepção. A cada parágrafo, a cada linha, a cada palavra, a certeza de que não se conseguiu. Contudo, é pelo acúmulo de enganos que, enfim, se escreve. Não o que se desejou escrever, mas o que se impôs. O que enfim se escreveu. Autonomia absoluta da verdade, que é sempre indiferente às conclusões humanas.

         "Passamos o tempo dizendo a nós mesmos: isso não está funcionando, preciso recomeçar" (Roth). Há uma hora, porém, na qual - por cansaço, por desespero, ou (que seja) por vaidade _ o escritor, apesar de si, contra si, declara o livro pronto. Mas ele não está pronto. Não é o que desejou escrever. Se relê, já não aceita o que releu. Aquelas palavras já não parecem suas. Já não lhe pertencem. E, no entanto, ousadia máxima: é preciso assinar. Por exemplo: "José Castello". Cada vez que assino meu nome no fecho de um texto, sou dominado pelo sentimento de fraude. Não era isso o que eu buscava. Não: isso não sou eu. Não consegui _ como se outro tivesse tomado meu lugar. Como diz Roth: "Isso não está funcionando", pois uma assinatura não é garantia de nada. No entanto, nós a conservamos em seu lugar de ouro. Firma reconhecida, ou desconhecida? E o pior: ao leitor _ mesmo o mais corajoso _ só resta acreditar no que lê. Um leitor não tem escolha: o máximo que pode fazer é fechar um livro.

          Curioso que o romance de despedida de Roth se chame "Nêmesis". No "Aurélio", encontro um verbete que me ajuda: "indignação provocada por uma partilha injusta ou desigual". É injusta e desigual a relação que o escritor estabelece com seu texto. Costumamos acreditar que o escritor é o "autor": aquele que faz e acontece. Dizemos: Philip Roth, "autor de Nêmesis". Contudo, na partilha das origens, a maior parte não vem de quem escreve. Ou vem, mas é à sua revelia. A maior parte não lhe pertence, e ele só mal, muito mal, a sustenta. E, se faz isso, é porque tem consciência de seus limites. "Preciso recomeçar", o escritor se diz, enquanto luta para chegar a si. Recomeça, mas logo se desvia de novo. Desvia-se? O escritor (a escrita) é esse desvio, e não outra coisa. Diz Roth: "Escrever é se frustrar". Você não acerta e, no entanto, precisa ficar com seu erro. Porque você é isso: você é o seu erro.

         O que podia ser mais humano? Desse deslocamento (dessa fratura) não procedem só a piedade e a compaixão, mas também a coragem. Saber que será assim, sempre assim, e no entanto seguir em frente. "Escrever é estar sempre errado" (Roth), mas tudo o que resta é persiste no erro como _ estranho destino _ única via possível para uma aproximação da verdade. Solavancos, tropeções, derrapadas, deslizes: esses são os verdadeiros materiais do escritor. Palavras, textos, firmas irreconhecíveis. Por isso, eu acredito, a literatura é tão potente: ela faz de sua fraqueza _ exposta, como uma ferida escandalosa, mas verdadeira _ a sua força.

*José Castello

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Papéis Existenciais*


Perguntaram-me:- Você é assim mesmo? Ri e respondi:
- Sou em processo! Imperfeita! Mulher, mãe... Amante dos livros, do cuidar da casa, do Ser Terapeuta, dos múltiplos lugares do mundo, da quietude da noite, do aconchego amigo.

Cada dia um milagre, por isto sou gratidão.

Faxineira, cozinheira, costureira, escritora... Múltipla na vastidão de ser eu mesma, singular. Angustiadamente feliz. Triste com o caos do mundo. Feliz em ser como sou, parte deste universo infinito.

- O que me falta? - Ainda desapegar de muitas coisas! "Difícil é ser simples!" Vou Zen...do! E basta!

*Dra. Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Filósofa Clínica. Escritora.
Juiz de Fora/MG

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Fragmentos filosóficos, delirantes*



"(...) o conteúdo que designamos como o 'agora' nada mais é do que a fronteira eternamente fluida que separa o passado do futuro."

"A concepção mítica da linguagem, que em toda parte precede a filosófica, caracteriza-se sempre por esta diferença entre a palavra e coisa. Para ela, a essência de cada coisa está contida no seu nome. Efeitos mágicos se vinculam de maneira imediata à palavra e à sua posse."

"(...) mesmo a ambiguidade inerente à palavra não constitui uma mera deficiência da linguagem, e sim um momento essencial e positivo da força expressiva que nela reside. Porque nesta ambiguidade se evidencia que os limites da palavra, tais como os do próprio ser, não são rígidos, e sim fluidos."

"Toda realidade - tanto a espiritual quanto a física - é, de acordo com a sua essência, uma realidade concreta, individualmente determinada. Por isso, a fim de apreendê-la, é preciso que nos libertemos da universalidade falsa, enganosa e 'abstrata' da palavra."

"(...) toda forma de espírito verdadeiramente original cria a forma linguística que lhe é apropriada."

"Para determinar com precisão o caráter específico de toda e qualquer forma do espírito, faz-se necessário, antes de tudo, medi-la pelos seus próprios padrões. Os critérios segundo os quais ela é avaliada e que norteiam a apreciação de suas produções não lhe devem ser impostos de fora, sendo, ao invés, indispensável que derivemos estes critérios das próprias leis básicas que determinam as suas formações."

*Ernst Cassirer in "A Filosofia das Formas Simbólicas". Ed. Martins Fontes. SP. 2001 

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Imagens do Pensar*


“O imaginário e o real tornam-se indiscerníveis”
Gilles Deleuze
“Quando tudo foi dito, quando a cena maior parece terminada, há o que vem depois.”
Michelangelo Antonioni

Minha, a letra que vem do pensamento,
A roupa, visto – a música, sinto na pele.
Transfiguro em tua boca, triste é viver neste buraco,
A solidão é o começo da liberdade, me faz cantarolar,
Acordar noturno é o começo do tempo que se despede.

A narrativa em filigranas discorre no tempo,
Folhas perdem a força, sequência do pensar disperso,
O presente está depois da imagem, em signos, na nuvem.
O movimento é de Antonioni, reúne os tempos,
O vazio mescla com o tempo morto.

O que está aí, feito está. O que foi dito está aqui.
Presa do tempo, o homem, inventa o que vem depois,
O Imaginário e o Real é o café da manhã à linguagem da vida.

O mundo é feito não mais de heróis, 
os excessos perderam 
para os subjetivos obsedantes das Redes.

* Luis Antônio Paim Gomes
Professor. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre-RS  

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Fragmentos filosóficos, poéticos, delirantes*


"Assim, como disse, tenho apenas minhas perplexidades a lhes oferecer. Estou perto dos setenta. Dediquei a maior parte de minha vida à literatura, e só posso lhes oferecer dúvidas."

"E a vida, tenho certeza, é feita de poesia. A poesia não é alheia - a poesia, como vemos, está logo ali, à espreita. Pode saltar sobre nós a qualquer instante." 

"Creio que Emerson escreveu em algum lugar que uma biblioteca é um tipo de caverna mágica cheia de mortos. E aqueles mortos podem ser ressuscitados, podem ser trazidos de volta à vida quando se abrem as suas páginas."

"(...) Berkeley escreveu que o gosto da maçã não estava nem na própria maçã - a maçã não pode ter gosto por si mesma - nem na boca de quem come. É preciso um contato entre elas."

"(...) gostaria de dizer que cometemos um erro bastante comum ao pensar que ignoramos algo por sermos incapazes de defini-lo."

"Os homens buscaram parentesco com os derrotados troianos, e não com os vitoriosos gregos. Isso talvez porque haja uma dignidade na derrota que dificilmente faz parte da vitória."

"(...) uma língua não é, como somos levados a supor pelo dicionário, a invenção de acadêmicos ou filólogos. Ao contrário, ela foi desenvolvida através do tempo, através de um longo tempo, por camponeses, por pescadores, por caçadores, por cavaleiros. Não veio das bibliotecas; veio dos campos, do mar, dos rios, da noite, da aurora."

"(...) imagino que uma nação desenvolve as palavras de que necessita."

"Suponho que haja tantos credos, tantas religiões, quantos são os poetas."

*Jorge Luis Borges in "Esse ofício do verso". Ed. Cia das Letras. SP. 2007

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Entre a Vida, o Amor e a Morte*


Trigêmeas que andam de mãos dadas. Como falar de uma sem falar das outras...

Tarde de bate papo informal sobre a morte, em Canoas.

Francisco de Assis referia-se a morte como "minha irmã morte", em seus cânticos.

Não me foi dado a liberdade de escolher viver. Outros fizeram esta escolha. Se esta liberdade tivesse me sido dada, poderia ainda escolher por não viver. Isto, porém, não me foi concedido.

Minha existência, todavia, me foi dado fazê-la. Sou, de certa forma, o resultado daquilo que fizeram de mim, e o que eu fiz daquilo que fizeram de mim (parafraseando Sartre). Neste palco da vida, entre o meu nascimento e a minha morte, sou o meu ator insubstituível.

A morte é, parece-me, a única certeza da qual não consigo me esquivar. Espreita-me, sorrateiramente, sem hora marcada para uma visita. Diante da morte nosso olhar volta-se sobre o passado (ou para o futuro? Talvez). Que ainda assim possa ser um olhar benevolente para reafirmar que a vida valeu a pena. E que a minha existência seria repetida, caso me fosse dado uma nova oportunidade..

E o amor?
Ah, o amor..
O amor é uma boa surpresa
O amor é uma alegre incerteza
Não vem com hora marcada

Vem antes e nos leva
Chega cedo e toma conta
Nos surpreende pelas costas
Nos assusta no escuro da noite.

E então ficamos assim:
Amamos quando do amor
Já não queríamos mais nada

Quando do amor
Já não esperávamos mais nada
Quando já tínhamos ido embora
E temos que voltar.

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS