sábado, 19 de dezembro de 2015

A palavra inesperada*

                                                    
Uma suspeita de imensidão aprecia os deslizes da palavra refugiada na palavra. Ponto de fuga em subterfúgios de especulação, ao exibir renúncias de ser previsível, amplia o mundo das possibilidades.  
  
A admissão compreensiva desses desvãos se oferece no acolhimento de um talvez. Uma de suas características é o descompromisso em sustentar verdades a qualquer preço. Seu estado de espírito sobressaltado qualifica deslocamentos pela arquitetura subjetiva de um mundo fatiado. Aqui o vislumbre repentino das pequenas coisas permite o acesso às zonas de exclusão.   

Por esses episódios a perder de vista, um teor extemporâneo pode desconstruir as fronteiras conhecidas. Seu saber ameaça os fundamentos conhecidos daquilo que se tinha definitivo. Nesse viés de aparência deslocada anuncia novos horizontes, esparrama indícios de originalidade para se fazer ciência. 

O discurso imprevisível onde ela se esboça, procura inseri-la num contexto de notícia compartilhável. Mesmo assim, prefere um caráter marginal, improvável vestígio de escritura a reinventar interseções.

Essas lógicas da raridade subjetiva se rascunham em tempo próprio. Com elas, a súbita percepção de algo desconsiderado pode traduzir o novo se constituindo. Os eventos extraordinários, incompreendidos, inaceitáveis, quando não tratados a golpes pela medicina psiquiátrica, podem anunciar um novo viés, essencial ao viver singular. Por outro lado, em alguns casos, a drogaria do hospício incita aquilo que busca combater.  

Um instante fugaz onde a percepção é capaz de entrever uma perspectiva inacabada para si mesma. Realidades fugidias em um mundo de expressões desconhecidas. Nesse sentido, fica uma sensação de janela entreaberta, por onde se move a irrealidade em busca da palavra inesperada. Existem sinais de alma nova diante daquilo que não é em vias de tornar-se.  

*Hélio Strassburger

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