terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Acordar*


Dormir é uma necessidade fisiológica. A cada 16 horas o corpo exige uma pausa para descanso. Neste período ocorrem liberação de hormônios, sonhos e recuperação do cansaço e fadiga. O sono é um poderoso revigorante físico e emocional, diminuindo o estresse, melhorando a memória, o raciocínio, rejuvenescendo a pele, controlando o apetite.

Acordar é diferente. Acordar é uma benção, um presente. Normalmente, depois de seis a oito horas adormecidas, as pessoas acordam. No entanto, as mais diversas religiões afirmam que durante o sono um pedaço da alma, ou sua totalidade, se desprende do corpo e, conforme a vontade divina, retorna ou não para que o individuo possa acordar. Por isso, fiéis rezam antes de dormir, pedindo que sejam protegidos pelo altíssimo durante o sono e abençoados com o acordar.

Como as certezas podem mudar de lugar, para os insones a regra é outra, dormir é considerado uma benção e ficar acordado, uma maldição. 

Dormir sob efeito de uma anestesia já é outra coisa, completamente diferente do sono fisiológico e do acordar abençoado.  Tanto na anestesia como no sono normal, as pessoas permanecem de olhos fechados, mas as semelhanças param por ai. Um processo é farmacológico, o outro fisiológico.  Durante muito tempo, o acordar anestésico foi uma incerteza bem maior que o acordar bendito. Alguns tiveram a sorte de passar pela vida sem jamais chegar perto de uma anestesia, outros a experimentaram de forma esporádica. Alguns acordaram, outros não.

A primeira anestesia que se tem noticia, está descrita no Gênesis capitulo 2, versículo 21: “Então o Senhor Deus fez vir sobre o homem um profundo sono. E ele adormeceu. Tirou-lhe uma das costelas e fechou com carne. Versículo 22: “Depois, da costela tirada do homem, o Sr. Deus formou a mulher e apresentou-a ao homem”.

Depois disso, a anestesia virou um processo químico e não foi mais aplicada por seres divinos, anjos ou pelo próprio deus. Passou a ser praticada por homens, e seu aprendizado teve que ser feito na base da tentativa do acerto e do erro. Barbeiros, curandeiros, curiosos, alquimistas, sacerdotes, enfermeiras, estudantes e até mesmo médicos do passado, desconhecendo os efeitos poderosos dos anestésicos, exerceram de forma rudimentar a função de anestesistas e catalogaram em seus currículos complicações sérias e até mesmo fatais.

A garantia bíblica de acordar depois de uma anestesia deixou de ser assegurada. O temor do sono eterno provocado por complicação anestésica se instaurou e quando alguém precisava realizar uma cirurgia, familiares choravam, despediam-se do infeliz, e rezavam para que tivesse a sorte de sobreviver a anestesia sem sequelas. 

Uma pesquisa recente, realizada pela Sociedade Americana de Anestesiologia, revelou que 75% dos entrevistados disseram temer a anestesia. De cada quatro pacientes, um tem tanto receio que acaba adiando ou mesmo desistindo do procedimento cirúrgico.

Nem todos podem fugir. Mesmo não sendo desejada, a anestesia é uma necessidade que eventualmente se impõe e não há como escapar. Nesta circunstância, acontecia o fatídico encontro entre paciente e o malquisto anestesista, personagem indicado pelo cirurgião ou entidade assistencial, quase sempre em cima da hora do procedimento e por vezes ainda vestindo a máscara cirúrgica.

Mil fantasias e dúvidas invadem a mente do paciente, vitima em potencial de uma situação nova a ser enfrentada, potencialmente arriscada, acrescida da impossibilidade de resolução pelo próprio individuo e dependente de um terceiro desconhecido.  O que vai acontecer comigo quando eu perder a consciência? Quem assegura que vou acordar? Vão cuidar direito de mim ou ficarão contando piadas, lendo jornal, tomando café? E se eu acordar durante a operação? E se a anestesia não pegar?

A anestesiologia evoluiu, e hoje, profissionais que exercem a especialidade são médicos com formação acadêmica multidisciplinar, trabalham com recursos tecnológicos sofisticados, drogas extremamente seguras e estão disponíveis para esclarecer dúvidas a qualquer momento. Dormir e acordar depois de uma anestesia já se tornou um desafio ultrapassado. A mortalidade devido a fatores anestésicos está em torno de 0,0005 %, índice considerado baixíssimo e altamente aceitável.

Controlada a mortalidade, anestesiologistas passaram a ter novas funções. Além de bloquear a consciência, aliviar a dor, monitorar o organismo, manter as funções vitais, prover reposição de líquidos e manter a temperatura corporal, foi preciso também reverter a herança cruel deixada por seus antepassados e reconquistar o direito de fazer o outro dormir, mostrando-se um sentinela atento e cuidadoso, capaz de perceber o menor sinal de dor ou perigo, provendo segurança e tranqüilidade ao ser humano que irá se entregar em suas mãos. 

Se as semelhanças entre o sono anestésico e o sono fisiológico são mínimas, a analogia entre o acordar abençoado e o acordar anestésico também não é tão evidente. Anestesia é uma palavra de origem grega, que significa privação de sensações. Durante a anestesia, são suprimidas as sensações dolorosas, táteis, olfatórias, degustatórias e visuais. No sono fisiológico acontece justamente o contrário, as emoções, que eventualmente são reprimidas pelo indivíduo consciente, libertam-se durante os sonhos, dando vazão a sentimentos inconscientes. 

Ao acordar da anestesia, gradativamente as sensações vão regressando, e o paciente, em pouco tempo, retoma sua normalidade. No acordar abençoado, as emoções liberadas nos sonhos, podem vir à superfície ou voltar a se esconder no fundo do poço. Depende de muitas variáveis, por isso leva o adjetivo “abençoado”, para não ser um simples abrir os olhos acompanhado de um bom dia. Acordar abençoado significa acordar afortunado, despertar para a vida, fazer a diferença. E todos os dias recebemos esta dádiva. Um 2016 abençoado em cada despertar.

*Ildo Meyer
Médico. Filósofo Clínico. Escritor. Palestrante.
Porto Alegre/RS

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