sábado, 31 de dezembro de 2016

Soneto da Manhã Primeira*



Quero a manhã exata, a manhã viva,
pois estas luzes e estes vôos na aurora,
são só ensaios de manhãs.  

E agora o que eu quero é a manhã definitiva,
a autêntica manhã pura, exclusiva,
manhã nascida de si mesma e fora
desta jubilação falsa e sonora
que só por um momento nos cativa.

Ah, a manhã da última promessa,
manhã de um novo mundo que começa,
mais acessível, mais humano e bom.

Meu Deus, seria como chegasse
a manhã do primeiro sol que nasce,
a cor primeira e do primeiro som.

*José Chagas        


sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Geometria dos ventos***


Eis que temos aqui a Poesia,
a grande Poesia.

Que não oferece signos
nem linguagem específica, não respeita
sequer os limites do idioma. Ela flui, como um rio.
como o sangue nas artérias,
tão espontânea que nem se sabe como foi escrita.

E ao mesmo tempo tão elaborada -
feito uma flor na sua perfeição minuciosa,
um cristal que se arranca da terra
já dentro da geometria impecável
da sua lapidação.

Onde se conta uma história,
onde se vive um delírio; onde a condição humana exacerba,
até à fronteira da loucura,
junto com Vincent e os seus girassóis de fogo,
à sombra de Eva Braun, envolta no mistério ao
                                       mesmo tempo
fácil e insolúvel da sua tragédia.
Sim, é o encontro com a Poesia.

*Rachel de Queiroz
**(Poesia feita em homenagem ao poema
"Geometrida dos Ventos" de Álvaro Pacheco)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Apontamentos de lógica superlativa*


Existe um mundo exageradamente singular. O lugar constitui-se de eventos descritos num vocabulário de exuberâncias. Uma estrutura onde tudo se agiganta diante das expressões de êxtase. Sua sobrevida se alimenta de anúncios nos eventos realçados. Seu teor fantástico traduz rumores de imensidão. Seu ser extraordinário transborda numa perspectiva exaltada.

Nas entrelinhas do discurso bem ajustado essa lógica dos excessos busca emancipar-se. Um devir assim aprecia o refúgio numa dialética dos sobressaltos. Ao sujeito constituído nalguma esteticidade, não é raro seu meio prescrever tipologias. 

Ao surgir em intensidade máxima contrapõe-se a rotina mediana. Seu dizer superlativo emancipa o cotidiano para engendrar sonhos. Os relatos dessa linguagem sugere um brilho incomparável ao seu autor. Desdobrando-se para além dos territórios reconhecidos, modifica o lugar_espaço_tempo ao seu redor.  

Uma fonte inesgotável de paixões renova suas armadilhas existenciais. Assim, caminhar pelas calçadas é sempre mais que caminhar pelas calçadas. Tomar um banho, ler um livro, conversar com amigos ou apreciar um café significa sempre algo mais. Nesse sentido sua melhor contradição é a noção de equilíbrio.    

A fartura de seu vocabulário denuncia uma subjetividade exaltada. Avista e emancipa horizontes maravilhosos, atreve-se a vislumbrar o que ninguém via antes de si. Ao que se tinha como dado e cristalizado, sua distorção oferece uma visão diferenciada. Seu caráter misto de religioso e profano convive e se abastece das sagradas heresias. Talvez por isso sua evidência seja tão ameaçadora! Ao rascunhar pressentimentos atua na desconstrução das paredes, insinua ampliar fronteiras. 

Um ser incomparável se associa na abundância dos eventos exóticos. Abalar menos vida com mais vida é seu papel existencial preferido. Um transbordamento discursivo compartilha-se nas janelas escancaradas de si mesmo. Ao sustentar utopias desconsideradas sua natureza se expressa em lógica superlativa. 

*Hélio Strassburger                                                         

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

O Livro*


Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, indubitavelmente, o livro. Os outros são extensões do seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da vista; o telefone é o prolongamento da voz; seguem-se o arado e a espada, extensões do seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.

Em «César e Cleópatra» de Shaw, quando se fala da biblioteca de Alexandria, diz-se que ela é a memória da humanidade. O livro é isso e também algo mais: a imaginação. Pois o que é o nosso passado senão uma série de sonhos? Que diferença pode haver entre recordar sonhos e recordar o passado? Tal é a função que o livro realiza.

(...) Se lemos um livro antigo, é como se lêssemos todo o tempo que transcorreu até nós desde o dia em que ele foi escrito. Por isso convém manter o culto do livro. O livro pode estar cheio de coisas erradas, podemos não estar de acordo com as opiniões do autor, mas mesmo assim conserva alguma coisa de sagrado, algo de divino, não para ser objeto de respeito supersticioso, mas para que o abordemos com o desejo de encontrar felicidade, de encontrar sabedoria.

*Jorge Luís Borges

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Caminhar à deriva*


O tempo não mudou, o que mudou foi a prioridade"
Mario Sergio Cortella

As pessoas escravizadas pelo conceito do trabalho limitam-se à prática da vida e não praticar a vida no seu uso mais ordinário, a de viver na busca de tudo e de nada, o de simplesmente viver o instante em cada investigação de sua subjetividade. 

Depois, o mais adiante é o que está em frente a si mesmo, o prático da vida. Ter essa força interna faz com que lidamos melhor a vida, é como saber ouvir o som das coisas, como saber compreender o sentido da linguagem que sai dos sons, saber flutuar nas cores existentes na palheta do pintor.

Sim, é preciso termos mais tempo no nosso tempo de pensar sem o pensamento prático, buscar um pouco mais o ato de indagar, o investigar é a esperteza que só aprendemos com a vida, com aqueles que souberam viver bem esse tempo. 

Aí, a importância de um dia termos andado de mãos dadas com os pais, com a nossa mãe pelas ruas da cidade escura. A noite é o silêncio que nos leva ao ato de ir ao tempo na busca da compreensão infinita das coisas, é a descoberta de que somos donos das cores do sonho. A arte é minha, o sonho é meu, enfim, aboli a filosofia prática.

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) o viajante apresenta um risco moral inegável, e isso por ser portador de novidades!"

"É seu escapismo, essa capacidade de se movimentar, que o predispõe toda hora à sublevação, aos transbordamentos afetivos, à quebra da ordem estabelecida. O errante não perdeu nada em sua propensão ao movimento, até faz disso uma cultura, e isso é intolerável quando prevalecem os valores estabelecidos" 

"A nostalgia do outro lugar engendra a errância que, por sua vez, favorece um ato fundador. A anomia e a efervescência são fundações sólidas de qualquer nova estruturação"

"É uma boa metáfora do aspecto fundador do nomadismo que, por saber escapar da esclerose da instituição, pode ser eminentemente construtor"

"Em constantes peregrinações, sempre à margem, vivendo e suscitando a aventura, o profeta está nas encruzilhadas. Seu discurso está sempre no limite, sua atitude é um desafio ao instituído. Seu discurso está sempre no limite, sua atitude é um desafio ao instituído. Na comunidade é que ele se situa, fazendo-a viver na inquietude"

"A realidade em si não é mais que uma ilusão, é sempre flutuante, e não pode ser compreendida a não ser em seu perpétuo devir"

"Ninguém pode se gabar de ter uma morada permanente. Em suas diversas manifestações, a vida é sempre um caminhar entre o aqui e o alhures"

"O olhar exterior, na verdade, tem uma visão mais penetrante, mais límpida também, pelo fato de saber ver aquilo que nossos olhares, por excessivamente habituados, vêem de modo deformado"

"(...) a errância - e as múltiplas identidades que suscita - é antes de tudo um sinal de vitalidade, é a expressão de uma verdadeira sabedoria do precário, dedicando-se a viver intensamente o presente através de suas alegrias e de suas penas"

"Não há erro, escapar por pouco é sempre sinônimo de excesso. Em relação ao sedentário, o errante é, de fato, sempre inquietante. O errante carrega consigo muitos sonhos complexos. Sonhos, sobretudo, de que ele não abdicou. Sonhos que continuam a animar sua vida e que, justamente, o mantêm no caminho"

*Maffesoli, Michel. "Sobre o nomadismo - Vagabundagens pós-modernas". Ed. Record. RJ. 2001.

domingo, 25 de dezembro de 2016

Onde encontrar a poesia ?*


- Oi, quem bate?
- É uma poesia!!
Insiste a poesia
Em bater levemente
Assim, de forma tímida
À portinha dum paraíso
Coração feito abrigo
Para que ele se abra
Abracadabra!!!
Desfaz o feitiço
Pela doçura
De alguma poesia
Não existe
Poesia em si
Existe , sim,
poesia em mim
Existe , sim,
Poesia em ti.
Poderia ainda o amor
Ser o contato
Entre duas poesias?
Até a queda livre
pode ser livre...

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

sábado, 24 de dezembro de 2016

Retrato do artista quando coisa*


A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.

*Manoel de Barros

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Descrevendo o lógos como um zôon, Platão segue alguns retóricos e sofistas que, antes dele, opuseram à rigidez cadavérica da escritura a fala viva, regulando-se infalivelmente sobre as necessidades da situação atual, as expectativas e a demanda dos interlocutores presentes, farejando os lugares onde ela deve se produzir, fingindo curvar-se no momento em que ela se apresenta ao mesmo tempo persuasiva e constrangedora. O lógos, ser vivo e animado, é também um organismo engendrado"

"O  lógos é, pois, o recurso, é preciso voltar-se para ele, e não somente quando a fonte solar está presente e nos ameaça queimar os olhos se os fixarmos nela; é preciso ainda voltar-se para o lógos quando o sol parece ausentar-se em seu eclipse. Morto, apagado ou oculto, esse astro é mais perigoso do que nunca"

"Durante o reino de Osíris (rei-sol), Thot, que era também seu irmão, 'iniciou os homens nas letras e nas artes', 'criou a escritura hieroglífica para lhes permitir fixar seus pensamentos'"

"Thot repete tudo na adição do suplemento: suprindo o sol, ele é outro que o sol e o mesmo que ele; outro que o bem e o mesmo que ele, etc.. Tomando sempre o lugar que não é o seu, e que se pode chamar também o lugar do morto, ele não tem lugar nem nome próprios. Sua propriedade é a impropriedade, a indeterminação flutuante que permite a substituição e o jogo"

"Todas as traduções nas línguas herdeiras guardiãs da metafísica ocidental têm pois, sobre o phármakon um efeito de análise que o destrói violentamente, o reduz a um dos seus elementos simples ao interpretá-lo, paradoxalmente, a partir do posterior que ele tornou possível. Uma tal tradução interpretativa é, pois, tão violenta quanto impotente: ela destrói o phármakon, mas ao mesmo tempo se proíbe atingi-lo e o deixa impenetrado em sua reserva"

"Aquele que fala, ao contrário, não se submete a nenhum esquema preestabelecido; ele conduz melhor seus signos; ele está ali para acentuá-los, infleti-los, retê-los ou soltá-los segundo as exigências do locutor. Assistindo seus signos em sua operação, aquele que age pela voz penetra mais facilmente na alma do discípulo para produzir nela efeitos sempre singulares, conduzindo-a como se ela habitasse, aonde bem entendesse"

"Os encantamentos inspirados pelos deuses através das palavras trazem o prazer, afastam o luto. Confundindo-se, de imediato, como o que a alma pensa, a potência de encantamento a seduz, persuade e transforma pela fascinação"

"Mas antes de ser dominado, subjugado pelo kósmos e pela ordem da verdade, o lógos é um ser vivo selvagem, uma animalidade ambígua. Sua força mágica, 'farmacêutica', deve-se a esta ambivalência, e isso explica que ela seja desproporcionada a esse quase nada que é uma fala" 

*Jacques Derrida in "A farmácia de Platão". Ed. Iluminuras. SP. 2005.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Desejos*


Há muito, muito tempo começamos a gestar o micróbio da realidade que temos agora. Os anos calcificaram tanto a percepção até não mais lembrarmos que as agruras enfrentadas são justamente os males um dia pensados, materializados nas condições físicas e materiais do entorno ora vil.

Um ditado para isso: “cuidado com o que desejas, pois pode se realizar”. Naquele tempo, não se sabia do “Segredo”, essa geração espontânea a partir do pensamento. E foi-se, dia após dia, não podendo mudar as circunstâncias nem a si mesmo, elaborando pragas e perjúrios, fornecendo substância para o que seria, no meio da jornada, uma pedra oca a guardar a escuridão.

Numa estrada de terra no meio do quase nada, o motorista diz: “Olhe como são as coisas. Quando eu era menino, ficava andando nas estrada no Ceará, andava muito mesmo; de vez em quando, pegava carona e eu pensava – ainda vou dirigir um carro por essa terra toda. E hoje to aqui, sou motorista”. Por isso a gente precisa planejar o que quer. E livrar-se do mal, que é o mesmo pensamento. Se o desejo afetará negativamente alguém, não pode se realizar, ou será magia negra e virá acompanhado sabe-se lá de que outro pesar.

Ocidente maniqueísta. Parece que tudo vindo do oriente é melhor. A noção do uno, somos todos um. Mas quem é quem está do lado? De que importa viver com a mínima consideração pelos sofrimentos espalhados pelos caminhos, as joaninhas andando lentamente sobre as plantas, igualmente massacradas pelas crianças que pisam nas lesmas, quando não vítimas de sal.

Pois bem, chega um momento em que cada um que envelhece – caso viva tanto – se torna a lesma com sal e já não se volve solene e flexível sobre a terra. A alimentação por ar ou nutrientes e a excreção lhe serão difíceis e aos poucos seu corpo endurecerá como tábua, precisando de ajuda, que é piedade.

Mas cada década revela a menor importância que cada um tem como gente, enquanto não se transforma em cyborg portador de novidades e distrações continuamente, com uma tela na altura dos olhos. É tempo de se recolher e olhar para dentro.

*Vânia Dantas
Poetisa. Filósofa Clínica
Uberlândia/MG

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) o Viajante curioso é para o Passageiro responsável aproximadamente o que o camaleão era para o urso. O primeiro investigador, etnógrafo, no limite, espião, para recolher conhecimento, tem antes de mais nada necessidade de se fazer admitir no espaço-tempo onde transita: é por isto que, seja qual for o lugar onde se introduz, ele tem que se disfarçar segundo a 'cor local', até quase confundir-se com o Outro, sem chegar, no entanto, jamais a querer se fundir nessa identidade diferente (...)"

"(...) Desse ponto de vista, a mudança, esperada, desejada, assumida, torna-se paradoxalmente produtora de identidade. Aderir a ela, não é nesse caso 'morrer um pouco' deixando partir, como o que foi, uma parte de si que não será mais: é talvez, exatamente ao contrário, um dos meios mais elementares de afirmar sua própria existência, tanto ao olhar de si mesmo como diante de outrem. É mudar se não 'a vida', em todo caso, o sentido de sua própria vida"

"Se o devir pressupõe logicamente o ser, a certeza de ser 'eu' pressupõe, por sua vez, a experiência - a visão, no caso, retrospectiva - de meu próprio devir. Fortuita ou deliberada, a ressurreição autobiográfica  do passado é um meio privilegiado de prover a isso"

"Como numa espécie de intercâmbio, cada um dos dois universos empresta ao outro uma parte essencial do que o caracteriza, de tal modo que, embora permanecendo em princípio distintas, as duas ordens de fenômenos terminam, na prática dos agentes sociais, por se juntar, se assemelhar, e com frequência quase se confundir"

"Visitante por princípio respeitador dos equilíbrios que fundam a especificidade de um lugar ou de um meio estrangeiros, ele rejeita a ideia de os perturbar por sua presença ou sua ação. As paisagens que ele admira, tal como os espaços sociais, secretam cada um, ele o sabe, sua temporalidade própria para quem os sabe 'ler'"

*Eric Landowski in "Presenças do outro". Ed. Perspectiva. SP. 2002. 

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Parafraseando***


Antes de libertas,
As palavras sonham.
A emoção, então, prevalece
E a razão se aquieta
O sonho das palavras é destemido
É urgente!

As sensações estão presentes
E as palavras brotam.
Veem com os olhos do coração
Ouvem o que com elas se parece
E retumbam, céleres os seus anseios.

Palavras vão, palavras sonham
Sonhos utópicos e realizam o seu espanto...
Destroem, constroem em devaneios
O destino a elas se apresenta em forma de labirinto
Um rascunho, pelo meio...incompletas...
À moda de mensagens certeiras, destemidas.

Ilegíveis, inaudíveis? Talvez...
Mas, por vontade, realizáveis
São fortes as palavras tímidas...

A mesma natureza, que as move,
Faz do rascunho que elas montam
O percurso das ideias proibidas
Em busca da fresta que as conduza
Por aquelas zonas indecifráveis.

Por que, então, o sisudo discurso
Em tensos rompantes, já esquecido?
Discurso inaudível, invisível sim
Pois as palavras ditas se esvaem ...

As ainda não ditas, aquelas que escondem
Sensações proibidas
Essas palavras, ah! essas palavras
Só buscam corações!

*Profa. Ms. Rose Chalfoun
Mestre em Literatura Brasileira. Filósofa Clínica. Membro da Academia Lavrense de Letras.
Lavras/MG

**Parafraseando o texto: “O Sonho das Palavras” de Hélio Strassburger.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Noite*


“O sol data o tempo interpretado nas ocupações.”
Martin Heidegger

Eu não sei se a solidão maior é estar sozinho ou é estar diante das certezas absolutas da vida. Se a certeza é uma definição, o absoluto de todas as coisas afunda-se nas incertezas de algo que é coisa do humano, demasiado humano. Estamos envolvidos até a morte com as certezas. O sujeito chega e solta sua sentença, ele vem com suas armas de morte, não de vida, pois a vida está bem distante das certezas do sujeito que as sentencia. É melhor tomar conta da vida que simplesmente desaparecer.

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

domingo, 18 de dezembro de 2016

Clarice Lispector entrevista Pablo Neruda*













Clarice Lispector — Você se considera mais um poeta chileno ou da América Latina?

Pablo Neruda — Poeta local do Chile, provinciano da América Latina.

Clarice Lispector —Escrever melhora a angústia de viver? 
Pablo Neruda — Sim, naturalmente. Tra­ba­lhar em teu ofício, se amas teu o­fí­cio, é celestial. Senão é infernal.

Clarice Lispector — Quem é Deus? 
Pablo Neruda — Todos algumas vezes. Nada, sempre.

Clarice Lispector — Como é que você descreve um ser humano o mais completo possível? 
Pablo Neruda — Político, poético. Físico.

Clarice Lispector — Como é uma mulher bonita para você? 
Pablo Neruda — Feita de muitas mulheres.

Clarice Lispector — Escreva aqui o seu poema predileto, pelo menos predileto neste exato momento? 
Pablo Neruda — Estou escrevendo. Você pode esperar por mim dez anos?

Clarice Lispector — Em que lugar gostaria de viver, se não vivesse no Chile? 
Pablo Neruda — Acredite-me tolo ou patriótico, mas eu há algum tempo es­crevi em um poema: Se tivesse que nascer mil vezes. Ali quero nascer. Se tivesse que morrer mil vezes. Ali quero morrer…

Clarice Lispector — Qual foi a maior alegria que teve pelo fato de escrever? 
Pablo Neruda — Ler minha poesia e ser ouvido em lugares desolados: no deserto aos mineiros do norte do Chile, no Estreito de Ma­ga­lhães aos tosquiadores de ovelha, num galpão com cheiro de lã suja, suor e solidão.

Clarice Lispector — Em você o que precede a criação, é a angústia ou um estado de graça? 
Pablo Neruda — Não conheço bem esses sentimentos. Mas não me creia in­sensível.

Clarice Lispector — Diga alguma coisa que me surpreenda. 
Pablo Neruda — 748. (E eu realmente surpreendi-me, não esperava uma harmonia de números)

Clarice Lispector — Você está a par da poesia brasileira? Quem é que você prefere na nossa poesia? 
Pablo Neruda — Admiro Drummond, Vinícius, Jorge de Lima. Não conheço os ma­is jovens e só chego a Paulo Men­des Campos e Geir Campos. O poema que mais me agrada é o “Defunto”, de Pedra Nava. Sem­pre o leio em voz alta aos meus amigos, em todos os lugares.

Clarice Lispector — Que acha da literatura engajada? 
Pablo Neruda — Toda literatura é engajada.

Clarice Lispector — Qual de seus livros você mais gosta? 
Pablo Neruda — O próximo.

A que você atribui o fato de que os seus leitores acham você o “vulcão da América Latina”? 
Pablo Neruda — Não sabia disso, talvez eles não conheçam os vulcões.

Clarice Lispector — Qual é o seu poema mais recente? 
Pablo Neruda — “Fim do Mundo”. Trata do século 20.

Clarice Lispector — Como se processa em você a criação? 
Pablo Neruda — Com papel e tinta. Pelo menos essa é a minha receita.

Clarice Lispector — A critica constrói? 
Pablo Neruda — Para os outros, não para o criador.

Clarice Lispector — Você já fez algum poema de encomenda? Se não o fez faça agora, mesmo que seja bem curto. 
Pablo Neruda — Muitos. São os melhores. Este é um poema.

Clarice Lispector — O nome Neruda foi casual ou inspirado em Jan Neruda, poeta da liberdade tcheca? 
Pablo Neruda — Ninguém conseguiu até agora averiguá-lo.

Clarice Lispector — Qual é a coisa mais importante no mundo? 
Pablo Neruda — Tratar para que o mundo seja digno para todas as vidas humanas, não só para algumas.

Clarice Lispector — O que é que você mais deseja para você mesmo como indivíduo? 
Pablo Neruda — Depende da hora do dia.

Clarice Lispector — O que é amor? Qualquer tipo de amor. 
Pablo Neruda — A melhor definição seria: o amor é o amor.

Clarice Lispector — Você já sofreu muito por amor? 
Pablo Neruda — Estou disposto a sofrer mais.

Clarice Lispector — Quanto tempo você gostaria de ficar no Brasil? 
Pablo Neruda — Um ano, mas depende de meus trabalhos.

*A entrevista foi concedida em 19 de abril de 1969. Publicada no livro “De Corpo Inteiro”, Editora Rocco, em 1999.

sábado, 17 de dezembro de 2016

Leitor incomum*


“(...) Suas palavras chegavam aonde outros não conseguiam.”
                    Virginia Woolf

Um dizer protagonista aprecia surgir na vida do texto. Sua mensagem parece se divertir em passar despercebida a primeira vista. A textura inaudita ressoa poesia, musicalidade, convida ao sonho da vida real.

Sua eficácia parece estar associada à multiplicação dos significados, reinvenção dos sentidos, descrição de um discurso a se traduzir como a própria autoria. Com ele a pluralidade de eventos, personagens se desdobra nas páginas da obra, uma trama convidativa às transgressões do leitor singular.   

A essência da leitura parece ser a qualidade da interseção entre autor e leitor. As revisitas ao teor discursivo inicial, recheado de nuanças, brechas, incompletudes, dão boas vindas ao estranhamento dos originais. Esses momentos restariam perdidos sem a aptidão multiplicadora das palavras.  
  
Uma de suas expressividades é apontar o que não pode ser dito naquilo que se diz. Assim uma apercepção se desenha nos refúgios da folha recheada de frases, parágrafos, conjugações. Seus acenos sugerem segredos à deriva da vontade inicial.  
   
A relação leitor_autor, ao transcrever os trajetos por si mesmo, reivindica leituras e releituras para compreender a lógica das fontes. Lugar de onde a poética evidencia rastros ao território das originalidades. As páginas diante de si se instituem como vivencias subjetivas. 

   O leitor, agora autor impróprio, a partir dos enredos de transgressão, concede suas próprias representações ao texto de partida. A biografia de cada um pode ser descoberta na escolha dos termos, nos encontros da estrutura significante com as derivações da leitura incomum. Essa prática reivindica um saber de periferia, onde o pensar de um é o pensar de outro.

A intencionalidade dos rascunhos se oferece na descrição literal para transbordar na palavra transcendência. Fonte de matéria-prima onde a escritura se abastece para transcrever suas visões. Ao ser esboço numa arquitetura pessoal, aguarda a interseção para traduzir singularidades.

*Hélio Strassburger

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Os Ombros Suportam o Mundo*

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

*Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Milagres*


Ora, quem acha que um milagre é alguma coisa de especial?
Por mim, de nada sei que não sejam milagres:
ou ande eu pelas ruas de Manhattan,
ou erga a vista sobre os telhados
na direção do céu,
ou pise com os pés descalços
bem na franja das águas pela praia,
ou fale durante o dia com uma pessoa a quem amo,
ou vá de noite para a cama com uma pessoa a quem
                                                                                     /amo,
ou à mesa tome assento para jantar com os outros,
ou olhe os desconhecidos na carruagem
de frente para mim,
ou siga as abelhas atarefadas
junto à colmeia antes do meio-dia de verão
ou animais pastando na campina
ou passarinhos ou a maravilha dos insectos no ar,
ou a maravilha de um pôr-de-sol
ou das estrelas cintilando tão quietas e brilhantes,
ou o estranho contorno delicado e leve
da lua nova na primavera,
essas e outras coisas, uma e todas
— para mim são milagres,
umas ligadas às outras
ainda que cada uma bem distinta
e no seu próprio lugar.

Cada momento de luz ou de treva
é para mim um milagre,
milagre cada polegada cúbica de espaço,
cada metro quadrado da superfície da terra
por milagre se estende, cada pé
do interior está apinhado de milagres.

O mar é para mim um milagre sem fim:
os peixes nadando, as pedras,
o movimento das ondas,
os navios que vão com homens dentro
— existirão milagres mais estranhos?

*Walt Whitman in "Leaves of Grass"