segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Fragmentos filosóficos, delirantes*



"Quando a vida se torna invivível, deve-se inventar uma vida nova."

"Cada reorganização produz, implicitamente, versões diferentes da história de um indivíduo."

"No decorrer da existência, cada indivíduo experimenta então, diferentes versões de si mesmo, que incluem trechos não traduzidos na linguagem das camadas seguintes."

"O sujeito delirante acha-se, assim, no centro de um embate entre lógicas que, em diferentes períodos, estruturaram, separadamente, a experiência atingível e agora não conseguem explicar a con-fusão dos respectivos conteúdos. (...) Sua mente torna-se, então, a matriz de novas traduções impróprias, absurdas e bizarras, mas adequadas ao novo mundo em que ele se encapsula." 

"O delírio dilacera o cenário opaco do mundo da vida, dado por todos como pressuposto, e o coloca em discussão abertamente. Onde nada é óbvio, tudo deixa de ser familiar, tudo é submetido a um exame cuidadoso e a uma revisão radical."

"O sujeito delirante é incoerente e absurdo somente em relação ao mundo compartilhado, porque é muito coerente e razoável na ótica do mundo 'substituto'.

"(...) mais do que um defeito ou uma ausência, encontra-se no delírio uma plenitude excessiva, um transbordamento."

"Esta verdade, no entanto, é tão importante do ponto de vista subjetivo que não pode ser apagada, de forma que a camuflagem é seu único salvo-conduto."

"Justamente por ser a verdade, com certa frequência, inverossímil, os poetas e todos que, com audácia, recorrem ao auxílio da imaginação estão, às vezes, em condição de colhê-la antes e melhor do que os cientistas, sempre vinculados a imperativos de cautela, observantes de procedimentos e saberes que exigem o reconhecimento oficial e, às vezes, preocupados em não arriscar seu nome respeitado."

"A diferença mais significativa entre lógica comum e delírio parece residir no fato de que a primeira coloca limites à 'razão', ao passo que o segundo é relapso ou ab-solutus, totalmente livre de qualquer vínculo, desenfreado, excessivo, transbordante."   

"O delírio é tão perturbador e temido precisamente porque ameaça e coloca escandalosamente, em dicussão o mundo de cada um, com sua presumida obviedade."

*Remo Bodei in "As lógicas do delírio" EDUSC - Editora da Universidade do Sagrado Coração.SP. 2003

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