sábado, 9 de janeiro de 2016

Vanitas e o lembrar de viver*


Geralmente, quando olhamos a imagem de uma caveira, associamos a morte. Parece que ali está a imagem da escuridão, do abismo, do sem volta, da tristeza, do sofrimento... Mas isso se deve a que? Isso me faz lembrar os quadros “Vanitas”, obras que traziam em sua configuração sempre a imagem de uma caveira, para nos lembrar de que um dia vamos morrer. 
A chamada expressão natureza-morta demonstra motivos da vaidade deste mundo. Sabemos, ou melhor, deveríamos saber que nem tudo é para sempre, muito menos a vida. Mas para isso precisamos falar sobre ela, a morte, discutir, comentar, lembrar que ela, mesmo não aparecendo em imagem, está presente, esperando o momento certo para dar o “bote” e concretizar seu objetivo que é a finitude. 
Para isso, precisamos deixar nossas vaidades de lado, deixar de se importar com o corpo, corpo esse que vai ficar, vai virar pó. Deveríamos lembrar, que o mais importante são nossas atitudes e momentos que vivenciamos, e não a parte concreta, que em nossa sociedade atual é dado um indevido valor. Narciso olha seu reflexo no lago e se apaixona por ele mesmo, admirando sua própria imagem, acaba morrendo demonstrando o imenso valor que dava a si próprio. Os Vanitas nos lembram de que em vida devo me preparar para morte, preparar ela no meu eu, pois um dia vou sentir.
A lembrança da morte me faz recordar um passeio que fiz, em um grande cemitério de Porto Alegre, onde um historiador nos conta a memória do cemitério, curiosidades, fatos históricos e a principal ideia da visita, o respeito pela morte, principalmente respeitando a memória dos que já se foram. Uma bela frase que me chamou muito a atenção, e que está escrita em muitos mausoléus é: “Nós, ossos que aqui estamos, pelos nossos esperamos”, esta frase mostra que a vida é breve e deve ser utilizada com sabedoria.
        Hoje com as redes sócias (estou falando diretamente daquela rede social), onde todos nós colocamos fotos de acontecimentos, de conquistas, de lugares, de comidas, de bebidas, de tragédias, de catástrofes, etc. Tudo para mostrar um acontecimento e se possível que o “eu” faça parte desse acontecimento, um meio que se mostra ou a desgraça dos outros ou o lado sempre positivo de nossas “vidas”, perfeitas, que não aparecem às dificuldades, as desavenças, as fraquezas, as tristezas reais, onde geralmente sempre espera uma atenção desmerecida. 
             Nos dias de hoje, deixamos de lado o principal, a essência do homem natural, o homem sem camadas de proteção ao real, vivenciando as frustrações e não mascarando a fraqueza de todos nós. Nisso, ela, a morte deve ser sempre lembrada como algo real e não surreal, esperando que um dia ela vá aparecer e não desaparecer.

*Marcelo Ávila Franco
Psicólogo. Especialista em Educação. Estudante na Casa da Filosofia Clínica.
Porto Alegre/RS

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