terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Numa cidade distante*



Tem mais de quarenta anos, e pela primeira vez viaja ao exterior, cheia de incertezas.

A vontade mesmo era ficar no conforto dos objetos familiares e da vida previsível cujos contornos às vezes pareciam se estreitar demais.

Vai num grupo de trabalho, mas no hotel e em algumas atividades está sozinha. Uma tarde vê-se obrigada a atravessar sem companhia a cidade desconhecida: dá os primeiros passos repetindo mentalmente o roteiro, segura a bolsa como se fosse a bússola de sua alma. Ao seu redor fragmentos de frases no idioma estrangeiro que ela entende mais ou menos, os cheiros e cores diferentes.

O sol incide sobre todas as coisas de uma forma nova.

Então é tomada de euforia: está num país remoto, numa cidade desconhecida, consegue andar e orientar-se - e não sente medo. É uma alegria inquietante para ela, que nunca imaginou sentir-se tão bem e contente longe da casa e da família. Antes, isso lhe pareceria uma traição. Agora, caminhando no chão do imprevisível, começa a dizer em voz alta: "Eu sou uma pessoa! Eu sou uma pessoa!"

E, sentindo-se ridícula, ri de si mesma, lágrimas nos olhos, como se tivesse acabado de nascer. Está só. Está livre, está completa, e, nesse instante, sem nenhuma culpa.

É capaz - sabe disso agora.

Nada a teria impedido de descobrir isso antes, não poderia acusar ninguém de estar querendo podar ou abafar sua personalidade. Eram amarras consentidas que a prendiam, muitas auto-impostas, um confortável papel que aceitara e assumira porque assim esperavam dela.

Mas ali, naquela breve caminhada, libertara em si uma pequena alma transgressora, ainda que de limites tão ínfimos que alguns até achariam graça. Nesse dia compreendeu que amadureceu. Entrou numa joalheria e comprou um anel, um aro muito simples, que nunca mais tirou do dedo: sua aliança consigo mesma e com a sua verdade.

Amadurecer passou a ser retirar as máscaras e ver no espelho o verdadeiro eu - onde se lia uma severa contabilidade de gastos e lucros, saldos nem sempre tranquilizadores, pouca ousadia. Quanto de amargura, quanto de bom humor tinha sobrado, quanta capacidade e fervor para se renovar antes que a resignação encobrisse tudo ?

Percebeu que não importava tanto o que havia lhe acontecido naqueles quarenta anos, mas o que ela estava fazendo com o que eventualmente acontecera. Era uma oportunidade assustadora e maravilhosa: amadurecer não significava estagnar, mas reafirmar - ou reinventar - cada dia aquilo que mesmo inconscientemente ela se propunha como o sentido, o rumo e o tom de sua vida. 

Precisara chegar àquela cidade distante para fazer essa descoberta.

Levara quarenta anos para se encontrar como pessoa: talvez levasse mais quarenta para achar que entendera todos os significados disso.

Mas aí precisaria de outros quarenta para enfim ver que nada tem explicação, e que o interessante na vida não são as respostas: são os enigmas.

* Lya Lyft in "Pensar é transgredir". Ed. Record. RJ. 2004

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