domingo, 14 de fevereiro de 2016

Pedacinhos de si mesmo*



Era assim...
Seu tempo era demorado. Silenciava e olhava para um lugar perdido. Quando perguntado dizia:
- Sou assim...

Havia prometido, mil vezes, ser um bom menino. Mas dentro dele alguma coisa andava na direção oposta. Era da sua natureza ser sem rumo. Viver e amar sem destino. Um caos interno fazia sua estrela brilhar mais forte.

O tempo havia lhe ensinado paciência. O que passou, tinha que passar. O que ficou, ficará até que chegue a sua hora. Afinal, o que custa viver, e esperar uma vida inteira?
-Sou assim .... - dizia sempre que perguntado.

Trazia uma gentileza no olhar. Coisas que só ele fazia como fazia.
Pedia desculpas pelo espaço dos outros que ocupava. Desculpava-se antecipadamente por uma ofensa recebida. Pelo rumo do vento que batia nele. Pelo raio de sol que impedia de passar.

Agradecia por tudo. Era grato a quem o amava. E aos amores quando estes partiam , desculpava-se e agradecia.

Quem o conhecia, dizia:
-Deixa ele. Ele é assim mesmo....

Duvidava da Providência. Seu anjo da guarda andava sempre bêbado. Caía mais do que ele. Seu coração tinha um cupido que não aprendia a usar o arco e a flecha. Amava e escondia em seu coração.

Tirava um pedacinho de si mesmo para dar a quem não tinha....

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

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