quinta-feira, 31 de março de 2016

A palavra devaneio*

      
                                     

É incomum notar a existência de algo que restaria silenciado, não fora um olhar absorto, indeterminado, sentir improvável de um sonhar acordado. Esse lugar de refúgio aos desatinos da criação, concede uma estética de acolhimento ao viajante das quimeras.   

Nessa região, onde eventos sem nome rascunham invisibilidades, é possível intuir vias de acesso de essência não epistemológica. Seu teor, ao pluralizar versões desconsideradas, faz acordar aquilo que dormia. Ao desalojar esses fenômenos, desconstrói o aspecto irrealizável das promessas. Esses eventos reivindicam a singularidade alterada para se mostrar. Assim a pessoa, deslocando-se por esses refúgios, ao ser ela mesma, já é outra.  

Uma estética do devaneio, ao convidar para o exercício da ficção, oferece achados imprevisíveis. Inicialmente desconfortável nesse chão desconhecido, o sujeito pode vivenciar insegurança, dúvida, receio. No entanto, ao persistir as visitas por esse ambiente especulativo, pode desvendar-se em projetos, reminiscências, criação. Assim, não é raro um transbordamento da irrealidade no mundo real.  

Nesse treino de aproximação com o inesperado, algo se acrescenta, se perde, modifica-se ao divagar entre tudo e nada. Sua brisa leve, ao convidar singularidades, redesenha esconderijos, onde o sujeito acorda para seguir sonhando. Quase sempre é improvável saber ser a alma do sonhador, um terreno onde o devaneio acontece. Num endereço habitado por infinitudes, ao tentar descrevê-lo nos múltiplos aparecimentos, remexe a realidade conhecida, oferecendo outras realidades.  

Aprender a conviver com as lógicas da inconclusão, da provisoriedade discursiva, do ponto final resignificado em vírgulas, pode valer muito. Na relação com a incerteza a alma se permite rascunhar novos acontecimentos. Aqui se cuida de encontrar algum vocabulário, alguma semiose, para contar, traduzir, interpretar os pensamentos, as ideias, deslocamentos por onde os inéditos se apresentam.

Pensando nos termos da filosofia clinica, uma viagem interminável elabora seus convites. Quando traduzíveis pelos envolvidos na interseção, encontram em seu cotidiano, uma base para as construções compartilhadas, um chão aos ensaios, elaborações para a subjetividade alterada. Talvez assim consiga desdobrar a irrealidade numa obra de arte singular. Seu teor, ao roçar as dialéticas do absurdo, denuncia eventos de lógica extraordinária.  

*Hélio Strassburger
    Filósofo Clínico

quarta-feira, 30 de março de 2016

O apanhador de desperdícios*


Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

*Manoel de Barros

terça-feira, 29 de março de 2016

Buscas*


santa a semana
me convida a recolher
na intimidade de mim
silenciar a existência
viver a solitude essencial
mergulhar mares infindos
entrar florestas outonais
voar cosmos estrelares
dissolver-me no espaço
encontrar O TaoCristo
a tanto adormecido
na minha vastidão
em oração
pedir perdão
pela culpa dos desamores
pelas escravidões
pelas criticas e julgamentos
pelas infinitas tagarelices
pois, passou da hora
de ser apenas superfície
e me tornar fresta de amor

*Dra. Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Escritora. Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

segunda-feira, 28 de março de 2016

Prefácio*


Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) —
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
Dependimentos demais
E tarefas muitas —
Os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
Que as moscas iriam iluminar
O silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
Que as moscas não davam conta de iluminar o
Silêncio das coisas anônimas —
Passaram essa tarefa para os poetas.

*Manoel de Barros

domingo, 27 de março de 2016

Manifesto de uma poesia existencial*


Talvez poucos estejam dispostos a ler o mundo; talvez poucos estejam dispostos a ler o seu próprio íntimo; talvez poucos estejam dispostos a ler o que está nos livros e no coração do mundo; talvez poucos estejam dispostos a ler o que eu escrevo aqui...

Mas o que seria da arte, do desvelamento ou da poesia se houvesse rendição ou desistência? Porventura, o professor aprende, inspira e ensina enquanto o sábio ilumina, espera e tolera. Entretanto, quando impera numa nação o clamor de extremos e isso ainda é agravado por incitação e manipulação mentorada por uma minoria privilegiadíssima, facilmente a sensatez e o diálogo se perdem em detrimento ao antigo ato de digladiar ideologias na ilusão de ser uma solução enquanto, na verdade, tudo vai se tornando cada vez mais incipiente, diluído ou líquido parafraseando maliciosamente o sociólogo europeu Zygmunt Bauman.

Forças opostas no vigor de suas disposições bem intencionadas para a ação, quando desprezam as possibilidades de união e entendimento se perdem no afastamento do fundamental, presentes em si mesmas, no outro e na coletividade. Forças opostas, mesmo sem querer, no embate abrem a guarda necessariamente para a ocultação ou esquecimento do que realmente importa e deve ser tratado.

E por mais que se levante a guarda e se aperfeiçoe a movimentação, quando se ataca, assumimos o risco de um contra golpe ou, nesse caso, assumimos um risco de golpe e amarguras tremendamente duradouras. Talvez devessem perceber o valor da defesa e da ternura. Forças oposta quando escolhem extremos ao invés de uma justa medida, desprezam o amor e nutrem o ódio.

Ora pois, sem diálogo e a coragem para a busca de uma equação através do diálogo e do respeito às diferenças, o princípio vital da ética preconizada sistematicamente desde Aristóteles e muito antes do eurocentrismo se impor, já difundida na África na grandeza e profundidade do sentido e significado do que se convencionou chamar de Ubuntu, que tanto deveria ser reconhecido no âmago da cultura sul americana, tende a se tornar pueril, assumindo um caráter inegável de banalização, descuido e rasura.

É insano, ingênuo ou arrogante demais crer que seria solução cabível apenas uma banalização regida por extremos que de um lado demonizam pessoas e uma realidade e, de outro, apenas endeusam e abençoam. Isso, necessariamente, desvia, aliena e deturpa ainda mais o que é importante e urgente de fato implementar, isto é, efetivamente fazer valer a constituição, combater a corrupção punindo severamente os culpados através de julgamentos justos nos quais se apresentem provas concretas e não somente suspeitas, acusações infundadas e especulação.

E ainda, é sumamente necessário jamais deixar de lado a luta com justiça e sem perder o foco numa busca de uma reforma política abrangente e ao mesmo tempo profunda. Outrossim, desprivilegiar conquistas sociais, destituir direitos constitucionalmente adquiridos e estimular retrocessos que fortalecem doenças como machismo, racismo, homofobia e tantos outros preconceitos que depõe contra a democracia, a inclusão, a dignidade, as relações equânimes entre gêneros, certamente não é um caminho saudável e muito menos favorável verdadeiramente a nenhum um dos lados que se opõe com tanta veemência. Lindo mesmo seria denotar tamanha energia gerada por opostos transcendendo e se convertendo numa egrégora capaz de dar as mãos em prol da superação de tanta hipocrisia, abusos, desigualdades e misérias da alma regadas por incontáveis atos demagógicos.

Enfim, que prevaleça a esperança mas do verbo esperançar, jamais do verbo esperar, visto que esperançar implicar em correr atrás, buscar fazendo, logo, é uma remissão a fazer acontecer; que o esquecimento do outro, o desprezo a vida e ao equilíbrio, a superficialidade, a ignorância de si mesmo e dos fatos da história e de hoje tornem-se passado; e que, essencialmente, o amor prevaleça para a nossa própria salvação. Musa!

*Prof. Dr. Pablo Mendes
Filósofo. Mestre e Doutor em Educação. Filósofo Clínico.
Porto Alegre/RS

sábado, 26 de março de 2016

Retrato do artista quando coisa*


A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.

*Manoel de Barros

sexta-feira, 25 de março de 2016

Conexão...*


Há momentos na vida que uma voz interna te chama. Nesses momentos vive-se uma profunda interação do ser interno com o ser externo. Há uma conexão!!!

Encontro a paz tão desejada pela humanidade e sinto-me estranha no mundo ao redor. Parece que estou envolvida em cores que dançam ao luar, tudo soa luz. As coisas aparentemente maldosas tornam-se nada e o nada torna-se não-ser! Caminhar e decidir a direção através da intuição não é tarefa fácil, mas é preciso.

E de repente, teu destino se torna tuas decisões e tuas renúncias. Entretanto, por mais insegurança que eu tenha, se o caminho que escolhi é o melhor a seguir, mais confio que o é!!!

A loucura do livre arbítrio cura as mazelas da falta de responsabilidade da própria biografia. A vida se enche de artefatos, parafusos, chaves, fechaduras e portas diversas...
Surge, então, uma pequena agonia, fria, vazia, sem conexão.

O medo tenta invadir o coração que conquistou a paz tão desejada, porém a certeza da proteção maior faz o temor minimizar. A tristeza chega de mansinho, bem devagarinho, de fininho.
Fecho a porta!!!

Não! Não é isso que quero biografar...
Muitas coisas ainda não foram claramente reveladas, a ansiedade insiste em tentar se abrigar no meu coração, escolho que não!!!

Renuncio a estabilidade do escuro existencial e abro a porta da oportunidade para viver melhor, mais plena, mais amena, mais serena e feliz...

Sempre desejei uma felicidade ostensiva, grande, cheia de enfeites existenciais, mas só hoje percebo que a verdadeira felicidade é possível através de coisas simples do cotidiano. Incrível ter buscado tão longe, fora, em algum lugar, o que sempre esteve perto, dentro da chama sagrada que vive no centro do meu peito.

Floreio meu jardim com amigos e amores. Pessoas e coisas queridas. Escolho com mais tranquilidade onde e com quem quero estar. Não lamento o que passou, agradeço o agora e espero flores perfumadas na longa caminhada terrestre. Ainda que a dor bata e tente entrar por entre a fresta da porta, seguirei confiante na colheita da minha semeadura.

Eis uma lei infalível!
Gratidão pelos anjos que me rodeiam e pelas mais belas vibrações que se revelam no meu ser, quase não caibo em mim de tanto contentamento.

Tudo parece estranho, um estado nada comum na minha jornada. Reflito se não estou delirando, contudo, se tudo que sinto hoje for delírio, que seja eterno e terno a cada dia esse processo de encantamento pela existência e pelo sentimento de liberdade de ter certeza que somente eu posso conduzir meu viver!!!

A vida vale muito.
Viver é escolha e não opção.
Opção é sobreviver das migalhas derramadas pelo caminho tortuoso da falta de esperança e fé. Da certeza de que tudo pode ser controlado por nosso bel prazer, embora, por muitas vezes, num profundo engano, esqueçamos que nada podemos controlar.

Há uma inteligência maior que harmoniza a totalidade, ainda que seja necessário o caos, que é apenas um lado da polaridade do equilíbrio.

Enquanto entrego meu destino para a felicidade e para a paz, vou dançando, estudando, trabalhando, colorindo, amando, sendo...
Simplesmente.
Eu Sou!!!!

*Vanessa de S. Ribeiro
Professora, atriz, filósofa clínica, dançarina
Petrópolis/RJ

quinta-feira, 24 de março de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes, Criativos*



"A sensação de que as palavras nem sempre conseguem traduzir as manifestações do espírito não é nova. Mesmo quando se pensa esclarecer adequadamente seus segredos, a natureza logo surge sob nova roupagem. Como se quisesse dizer algo mais, nas contradições a denunciar um só olhar." 

"No mosaico das tentativas para ler as verdades delirantes, se demonstra a escassez das lógicas da tradição. Referencial empobrecido na diversidade dos eventos inclassificáveis ao viver singular."

"As fisionomias da loucura são resultantes das intervenções do alienista, o fiscal da sociedade normal. A farmacologia e seus derivados, ao desqualificar - internando e tratando - a expressividade do louco, deslizam para a reincidência daquilo que finge evitar."

"Novos paradigmas apreciam surgir nas lógicas incompreendidas."

"A pluralidade subjetiva internada em uma só pessoa aprecia o caos para ensaiar releituras existenciais. Mesmo quando inadequada à estrutura dos vislumbres, segue a desvendar instantes em busca de algo para chamar de seu."

"O estado de espírito alterado ou a confusão mental pode ser prefácio às mudanças pessoais. Lucidez absurda no devir da loucura. Ao ser distorção no visar da normalidade e na impossibilidade de realizar significações adequadas, a lógica dos excessos pode descobrir outras verdades."

"O pátio do hospício é um desses lugares onde o extraordinário esboça preferências. Muros, paredes e vigias atualizam a contenção do corpo, para que a alma consiga refúgio em devaneios de transgressão. Institui arranjos de novidade na arte de existir sem razão."

"Qualificar diálogos com a natureza das desestruturas reivindica plasticidade e uma aptidão aprendiz fora do normal. Son incerto aspecto, se trata de transitar por onde a vida acontece, mesmo quando em contrastes com o mundo conhecido."

"O caos precursor pode ser o ponto de partida às resignificações da pessoa. Assim, a estrutura do olhar pode desvendar ou ocultar o milagre da singularidade, nem sempre expresso na forma da lógica formal. Entremeios de enredo para si mesmo, o sujeito peregrino descortina-se para além da alienação diagnóstica."

"Ao observar os sonhos e delírios incessantes, é possível antever uma epistemologia dos excessos. Na diversidade dos desequilíbrios pessoais, outras verdades escapam aos critérios conhecidos."

*Hélio Strassburger in "Filosofia Clínica - Diálogos com a lógica dos excessos". Ed. E-papers. RJ. 2009. 

quarta-feira, 23 de março de 2016

Mundo perdido*


Quando saia da infância e passava para adolescência o mundo estava em trânsito, ou pelo menos parte dele. Esta parte que estava em trânsito saia do "socialismo", que muitos chamam de economia planificada ou tentativa fracassada da aplicação das teorias marxistas. Seja como for, estávamos saindo disso para o capitalismo, o restante do mundo já era capitalista. O Brasil, no mesmo período, fim da década de 80, início dos anos 90 também saia de uma ditadura e passava para a democracia. Assim, na minha transição da infância para a adolescência, o mundo também estava passando de um modelo para outro, ao menos o meu mundo. Os que já eram capitalistas desmereciam os socialistas, dizendo aos outros e a sui próprios que estavam certos e que todos deveriam fazer parte do seu modelo de vida. Nesta parte parece que nasci no tempo certo, num Brasil democrático e capitalista, mesmo que seja um país pseudo democrata e pseudo capitalista.

Depois da transição vieram os ajustes, alocando cada coisa no seu lugar. Para que isso acontecesse foram necessárias algumas guerras, boa parte delas no Oriente Médio, terra já castigada historicamente. A Ásia tem lá seus encantos com um boa guerra, mas não foi dessa vez, acabou ficando de fora, mas a ameaça de uma Coreia do Norte se faz presente nos pensamentos estadunidenses. No Oriente Médio os discípulos de Maomé, orientados sob o Alcorão também entendem que o mundo deve viver à luz de sua verdade, do seu modelo de vida. Aliando política e religião tornaram o Estado uma ferramenta de imposição religiosa, já fizemos isso e não deu certo. Talvez eles entenda e cedo ou tarde deixem essa ideia de lado. Talvez no intuito de mostrar esse erro os Estados Unidos interviram em alguns casos e instalaram a "democracia", o modelo politicamente correto. Ao menos é o que dizem. Esses ajustes onde cada país foi se adaptando ao novo mundo capitalista e democrático já executou muita gente e ainda vai executar.

O caminho que parece estar sendo trilhado, agora que cheguei a idade adulta, é aquele onde os grandes dão as mãos e impõem o seu ponto de vista aos pequenos. Pode ser que esteja errado, mas cada passo dos grandes percebe-se uma única corrente de pensamento. Desde a Rússia até os EUA, passando pela Europa, todos começam aos poucos a falar um mesmo idioma político e econômico. Parece que entenderam haver entre si uma certa interdependência, onde a minha desgraça é a sua desgraça. A formação de um governo único não é descartada, ao menos na teoria, já que as práticas parecem dar conta de que ainda muitas diferenças precisam ser ajustadas até chegar a este ponto. Meu país ainda não escolheu um lado, historicamente caminha entre um e outro lado tentando encontrar o seu próprio caminho. Talvez não seja uma boa hora para mostrar-se indeciso ou decidido pelo lado errado.

O que vem pela frente é algo interessante, é algo que aqueles que trabalham com gente já perceberam, o desaparecimento da individualidade e o surgimento da consciência coletiva. Não no sentido de pensar no outro, no planeta, ma no sentido de que cada vez menos se pensa por si próprio, mas se pensa coletivamente. O desaparecimento do indivíduo facilita criação de doenças, criação de modelos de beleza, assim como outras questões que tendem a ser assumidas como verdade sem a devida reflexão. A morte anunciada do indivíduo já observada por algumas organizações é parcamente atacada com políticas de bem estar, que nada mais são que afagos ao ego de alguém que nem sabe direito o que lhe faz bem. Parece que passei de um mundo onde as pessoas lutavam pelo que queriam para uma massa uniforme que não tem uma visão de mundo sua, não parece que seja falta de informação, mas falta de conhecimento, coisas diferentes. Reconhecer-se ignorante sobre o que está em andamento pode ser um passo para se dar conta de que o Eu está morrendo.

Aos colegas filósofos clínicos do país, está é uma narrativa que tem base forte no tópico 01, (Como o mundo me parece). Não que ela seja certa ou errada, boa ou ruim, é um relato de como a pessoa vê o mundo ao seu redor. Pode ser que nem seja assim, mas é assim para quem o descreve. Se a opinião que ela tem sobre o mundo tiver peso subjetivo maior, isso relativo ao conteúdo dos outros tópicos, pode orientar a forma como ela age sobre o mundo, as pessoas e ela mesma.

*Rosemiro A. Sefstrom
Filósofo Clínico
Criciúma/SC

terça-feira, 22 de março de 2016

Fragmentos Filosóficos, Literários, Delirantes*



"(...) Esse ponto, donde as vemos irredutíveis, coloca-nos no infinito, é o ponto onde o infinito coincide com lugar nenhum. Escrever é encontrar esse ponto. Ninguém escreve se não produzir a linguagem apropriada para manter ou suscitar o contato com esse ponto."

"O poeta é aquele que ouve uma linguagem sem entendimento."

"É verdade que muitos criadores parecem mais fracos do que os outros homens, menos capazes de viver e, por conseguinte, mais suscetíveis de se espantar coa vida."

"Kafka, talvez sem o saber, sentiu que escrever é entregar-se ao incessante (...)"

"As lembranças são necessárias, mas para serem esquecidas, para que nesse esquecimento, no silêncio de uma profunda metamorfose, nasça finalmente uma palavra, a primeira palavra de um verso. Experiência significa, neste ponto: contato com o ser, renovação do eu nesse contato - uma prova, mas que permanece indeterminada."

"(...) A escrita automática tendia a suprimir as limitações, a suspender os intermediários, a rejeitar toda mediação, punha em contato a mão que escreve com algo de original (...)"

"A música pintura, são mundos em que penetra aquele que possui a chave para eles. Essa chave seria o 'dom', esse dom seria o encantamento e a compreensão de um certo gosto."

"Pois esse movimento é também encorajado pela própria natureza da obra de arte, provém dessa profunda distância da obra em relação a si mesma, pela qual esta escapa sempre ao que é, parece definitivamente feita e, no entanto, inacabada, parece, na inquietação que a furta a toda a apreensão, tornar-se cúmplice das infinitas variações do devir."

"O poema denomina o sagrado, é o sagrado que os homens escutam, não o poema. Mas o poema denomina o sagrado como o inominável, o que diz em si o indizível, e é, envolto, dissimulado no véu do canto (...)"

"O errante não tem sua pátria na verdade mas no exílio, mantém-se de fora, aquém, à margem, onde reina a profundidade da dissimulação, essa obscuridade elementar que não o deixa conviver com ninguém e, por causa disso, é o assustador."

"O poema é a ausência de resposta. O poeta é aquele que, pelo seu sacrifício, mantém em sua obra a questão aberta."

"Holderlin tinha formulado assim o dever da palavra poética, essa palavra que não pertence nem ao dia nem à noite, mas sempre se pronuncia entre a noite e o dia, e de uma só vez diz o verdadeiro e o deixa inexpresso (...)"

*Maurice Blanchot in "O espaço literário". Ed. Rocco. RJ. 2011

segunda-feira, 21 de março de 2016

Dispersos*


Não havíamos marcado hora, não havíamos marcado lugar. E deu-se este encontro. Andávamos pelas ruas da cidade tão felizes. Por fim não sabíamos mais se andávamos ou se voávamos...

Corria um vento tão gostoso. A brisa balançava os cabelos dela para lá e para cá. E eu ficava com ciúme do vento e dos carinhos que ele fazia nos cabelos dela.

Os estranhos eram apenas os amigos que nós ainda não conhecíamos. Nossos olhinhos diziam que todo mundo gostaria de se mudar para um lugar mágico

Corríamos e soprávamos o vento andando por aí. Ríamos dos relâmpagos e dos trovões. E bebíamos as águas das tempestades.

Quando nos dávamos conta do lugar onde estávamos, já tínhamos ido embora.

A meia noite fechou seus olhinhos e na madrugada o canto e a dança dela impediram que eu fosse embora.

E descobrimos que a palavra amor andava meio vazia, tinha tão pouca gente dentro dela....

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Estudante na Casa da Filosofia Clínica.
Porto Alegre/RS

domingo, 20 de março de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*



"Tornar imprevisível a palavra não será uma aprendizagem de liberdade ? Que encanto a imaginação poética encontra em zombar das censuras!"

"Com a poesia a imaginação coloca-se na margem em que precisamente a função do irreal vem arrebatar ou inquietar - sempre despertar - o ser adormecido nos seus automatismos."

"Pelos poemas, talvez mais que pelas lembranças, chegamos ao fundo poético do espaço da casa."

"(...) os poetas são nossos mestres. Com que força eles provam que as casas para sempre perdidas vivem em nós!"

"Quando um sonhador reconstrói o mundo a partir de um objeto que ele encanta com seus cuidados, convencemo-nos de que tudo é germe na vida de um poeta."

"Mas o verdadeiro armário não é um móvel cotidiano. Não se abre todos os dias. Da mesma forma a chave, de uma alma que não se entrega, não está na porta."

"Para entrar no âmbito do superlativo, é preciso trocar o positivo pelo imaginário. É preciso escutar os poetas."

"Falta essa pitada de sonho que poderia passar do escritor para o leitor. Para fazer crer, é preciso crer."

"Poderíamos dizer que a imensidão é uma categoria filosófica do devaneio. Sem dúvida, o devaneio alimenta-se de espetáculos variados; mas por uma espécie de inclinação inerente, ele contempla a grandeza. E a contemplação da grandeza determina uma atitude tão especial, um estado de alma tão particular que o devaneio coloca o sonhador fora do mundo próximo, diante de um mundo que traz o signo do infinito."

*Gaston Bachelard in "A poética do Espaço". Ed. Martins Fontes. SP. 2003  

sábado, 19 de março de 2016

A pretexto de jardins*












Existe uma fonte extraordinária onde a obra de arte decaída se encontra. Nela é visível o apelo silencioso das raridades. Nalgumas pode se notar a exuberância dos contornos, em outras a raiz mergulha na terra em busca de proteção. Ainda àquelas a lançar sementes na brisa passageira.  

Quando muito próximo pode significar conviver com os espinhos uma da outra. Os sinais descrevem nuances de uma estória onde antes e agora se integram, fazendo a pétala renascer, se alternando nas estações. Sua essência plural realiza uma poesia sem palavras nesses espelhos da natureza.  

Existem jardins com uma história de descuidos, maltratados uma vida inteira. Ao vivenciar alguma forma de atenção, carinho, perseguem o subsolo de si mesmos. Nesse sentido, desacostumados à luz do sol, num movimento de quase semente, se refugiam nas sombras conhecidas, cercam-se de muros, paredes de difícil acesso.  
O dom da jardinagem conhece a linguagem ritual de morte e renascimento. Esses movimentos deixam rastros sem pegadas, reivindicando cuidados, dedicação. Um lugar onde o jardineiro nascido dos jardins exerce sua poética, numa fluência singular da mão com a terra, a água, o ar.     

Sua percepção atenta exercita habilidades de aprendiz. O diálogo com os brotos frágeis, as folhas maltratadas e a raiz tênue, pode significar vida as sementes desmerecidas. A escolha da matéria-prima aos medicamentos, o afago carinhoso das manhãs, os tempos e momentos de cada planta, podem florescer a vida nova.   

Nessa estética a céu aberto brotam rosas, dálias, gerânios, ipês, flamboyants, num solo cultivado pelo encontro do artesão com seu barro. Nesse paraíso onde a lagarta se faz borboleta, existe uma contraditória harmonia, onde uns completam os outros.   

Ao semeador da fauna e da flora o pretexto se anuncia em cada broto desconsiderado. Talvez a queda da folha, flor ou fruto, ao fecundar um pedaço de chão, permita ao mago da natureza o encanto transformador de sua magia em um belo jardim.

*Hélio Strassburger 

sexta-feira, 18 de março de 2016

Tabacaria*


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é
( E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.

*Fernando Pessoa

quinta-feira, 17 de março de 2016

Ser Mulher*


Amazonas... Correm com lobos
Feiticeiras... Filhas da lua
Afrodite's... Amantes e divinas
Múltiplas e Universais
Mãe de todos...
Ser mulher é ser....
Lagos e oceanos
Chuva e tempestades
Fogo e estrelas
Mistério e magia
Noite vasta e deslumbre
Todos os dias são nossos
Hoje é apenas mais um....
*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Escritora. Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Escritora. Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

quarta-feira, 16 de março de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*



"Ninguém pode filosofar em seu lugar: o que eu poderia encontrar, e ainda que tal resultado me satisfizesse totalmente, ou o que Kant ou Hegel puderam encontrar, por maior que seja a genialidade deles, nada prova que valha para você! Portanto você tem de pôr pessoalmente mãos à obra, e é isso que se chama filosofar."

"Ora, a sabedoria outra coisa não é que essa simplicidade de viver. Se é preciso filosofar, é para redescobrir essa simplicidade."

"A eternidade é agora: não é um futuro que nos é prometido, o presente mesmo é que nos é oferecido."

"Lembrando Wittgenstein: 'Se se entender por eternidade não uma duração temporal infinita, mas a atemporalidade, então vive eternamente quem vive no presente.'"

"(...) a fugidia e perene eternidade do devir!"

"(...) não há verdade científica: só há conhecimentos científicos, sempre relativos, sempre aproximados, sempre provisórios, sempre de algum modo duvidosos ou sujeitos a caução..."

"A palavra só me interessa quando é o contrário de uma proteção: um risco, uma abertura, uma confissão, uma confidência... Gosto de que falem como quem se despe, não para se mostrar, como crêem os exibicionistas, mas para parar de se esconder..."

"(...) A vida verdadeira é quase sempre uma ressurreição."

"O efeito de um livro depende tanto de quem o lê, e do momento em que o lê, quanto do seu conteúdo ou do seu valor próprios."

*André Comte-Sponville in "O amor a solidão". Ed. Martins Fontes. SP. 2001

terça-feira, 15 de março de 2016

O Bem Deliberar*


A herança de Aristóteles, filósofo grego que viveu entre 384 a.C. a 322 a.C., passa pela lógica, metafísica, biologia e até pela economia. Aristóteles foi um dos grandes influenciadores do pensamento ocidental.

Há um pensamento grego atribuído a Aristóteles sobre virtude, onde se diz que “a virtude está no meio”, agora se essa ideia for tirada do contexto em que ela foi escrita, algumas pessoas acabam interpretando errado.

- Você é de esquerda ou de direita? Não, eu não sou nem de esquerda nem de direita, eu sou do centro.

- Você gosta de vinho ou cerveja? Então você pensa antes de responder: Não vou gostar nem de vinho, nem cerveja, vou gostar de outra coisa e algumas pessoas vão achando que ficar em cima do muro é que é ser virtuoso.

Para Aristóteles, ficar em cima do muro era a pior coisa que podia acontecer. Pessoa em cima do muro só merece uma coisa, ser derrubado do muro. Essa é uma atitude que não há virtude alguma.

A virtude está no meio, significa no meio da balança. Lembra-se daquelas balanças mecânicas antigas, onde tinha dois pratos e no meio uma seta indicando para onde o prato pesava mais?

Pois é, a virtude está no meio significa no meio da ponderação. Não é que a virtude está ali no meio da balança, mas é ali a mensuração para onde vai pender o prato da balança.

A ideia então que a virtude está no meio é a ideia de pesar os dois lados e ponderar porque para Aristóteles a virtude é o bem deliberar. Como cidadãos de bem, temos que deliberar corretamente, temos que decidir corretamente e, para decidir corretamente, ponderando os dois lados da balança eu tomarei a decisão correta, aí eu serei virtuoso.

Pode acontecer que na ponderação a virtude não esteja no meio, pode ser que um peso puxe mais e você acabe decidindo pela esquerda ou direta aí então você toma sua decisão. A ideia então que a virtude está no meio não significa que você deva ficar em cima do muro (o caminho do meio), mas significa que você vai refletir sobre, e para cada caso.

Isso era assim para Aristóteles. E para você, o que é o bem deliberar?

*Beto Colombo
Administrador de Empresas. Escritor. Palestrante. Coordenador da Filosofia Clínica na UNESC. Filósofo Clínico.
Criciúma/SC

segunda-feira, 14 de março de 2016

Os poemas*


Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhoso espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...

*Mário Quintana