sábado, 30 de abril de 2016

A palavra interminável*


Existe uma suspeita, de caráter duradouro, sobre a essência da escrita pessoal. Essa trama de eventos cotidianos inscritos na historicidade de cada um. Pode ser uma mescla de lugares, recordações, períodos, épocas, relações, cultura.

Um conjunto de momentos por onde a vida se irrealiza. Quase nunca considerada eficiente enquanto acontece, muitas vezes recuperada, quanto a importância e significado pessoal, bem depois, nalguma terapia, autobiografia ou menção por alunos, familiares, amigos.

O ser interminável em cada um parece proclamar-se na forma ilimitada dos recomeços, enquanto duradouros. Um processo existencial que se desdobra em meio aos afazeres da vida prática, ela mesma integrante dessa eternidade efêmera que se move pelos dias.

Uma fonte de aspecto inesgotável parece querer dizer sobre as possibilidades de ser e não-ser em cada um, na diversidade dos instantes, na superação daquilo feito para perdurar, para além de uma só forma.

A natureza do que permanece em cada um, pode assumir formas estranhas, inéditas até, em busca de sustentação para ser duradouro. Assim nascem as prerrogativas da certeza, as convicções de aspecto inabalável, as sustentações iradas de verdades que não se sustentam sequer na mesma geração de pensadores.

Talvez um texto de maior alcance na linha de um tempo interminável, reivindique acolher ideias de impermanência para se manter. O esboço pessoal compartilhado nas rotinas e surpresas do cotidiano pode requerer, de vez em quando, uma borracha para apagar o que não se quis dizer.

Nesse processo de inacabamento pessoal, por onde transitam as possibilidades de quem ainda vive, existem múltiplos labirintos inexplorados, desvios realizados a contragosto, tragédias, comédias, paixões, que desenvolvem, muitas vezes, aptidões ou vocações desconsideradas.

A palavra interminável acontece sem aviso prévio, sustentação teórica ou prática. Ela chega de repente para poder se mostrar no curso de um evento qualquer. Seu ser irrestrito aponta, sugere, contradiz, repercute, poetisa, descreve, inventa. Por uma vivacidade que afronta os limites do normal, precisa ser cuidada com um carinho e acolhimento de um jardineiro eficaz.

Nessa fonte inesgotável de vida, desdobram-se as homenagens a Dionísio. Apolo também se apresenta, em busca de formalizar os ímpetos de viver e sobreviver de sua cara metade. O inacabamento dos eventos da vida parece querer dizer coisas ininteligíveis à razão conhecida.

Ao tentar acolher o saber da palavra interminável, se descobre que a sua duração está intimamente ligada aos pequenos desfechos diários, as micro conclusões, aos términos e tentativas de fechamento eficaz, na relação com aquilo que busca se manter, ainda quando contrariados.

O discurso diário presente em cada período da historicidade, mais que dizer aquilo que quer dizer, aponta novidades até então desconhecidas, quem sabe até, por se tentar uma conclusão desmerecida pela descontinuidade dos dias, que se multiplicam para bem depois da palavra assassinada.    

*Hélio Strassburger
   Filósofo Clínico

sexta-feira, 29 de abril de 2016

O homem, a luta e a eternidade*


Adivinho nos planos da consciência
dois arcanjos lutando com esferas e pensamentos
mundo de planetas em fogo
vertigem
desequilíbrio de forças,
matéria em convulsão ardendo pra se definir.

Ó alma que não conhece todas as suas possibilidades,
o mundo ainda é pequeno pra te encher.

Abala as colunas da realidade,
desperta os ritmos que estão dormindo.
À guerra! Olha os arcanjos se esfacelando!

Um dia a morte devolverá meu corpo,
minha cabeça devolverá meus pensamentos ruins
meus olhos verão a luz da perfeição
e não haverá mais tempo.

*Murilo Mendes

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Mudança de ar*


“...Um e Infindo,
destruído,
eu-truído.
Luz havia. Salvação.”
Paul Celan

Isto não é um poema. A poesia é para lembrar o tempo difícil que está para começar, o tempo em que o livro deixará de ser o livro que ilumina. O livro é que clareia ideias, que faz viajar os corações dos leitores a outros mundos. 

Estaremos em outro tempo? A escuridão das ideias me assusta, temo pelo fim do espaço em que tudo pode ser dito, lido e compreendido, em que o que valerá são os restos de pensamento. Quase nada! Apenas por ser lei. 

Lei da exclusão, é que terá legitimidade. O mundo é esse eterno queimar, esse esquecimento do que é estranho ao Outro, o que não faz parte do meu pensamento, para os inquisidores faz parte do mundo. 

Eu preciso de todos os pensamentos para poder escolher meu livro preferido, meu filme, a minha música. É preciso existir a distância para poder ver o que está por perto.

*Prof. Dr. Luis Antônio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Escritor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Bem no fundo*


No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

*Paulo Leminski

terça-feira, 26 de abril de 2016

O menino que escrevia poesias*


Não era de flutuar nas superfícies. Primeiro mergulhava, para depois dar-se conta do perigo. Era do tipo que não conseguia não afundar. Vislumbrava as belezas nas profundezas. Sempre haveria uma salvação. Iludia-se, achando que seria acolhido nos braços das sereias. E sempre se salvara. Então, que fosse !!!!

Decidia o que deveria ser. E morria abraçado. Até se convencer do contrário, o que nem sempre era fácil. Pois achava que só se metia em coisas que valiam a pena. Sendo passarinho, virava elefante e se afastava do bando para sofrer. Doía muitas vezes, como não!! Em verdade para ele doía sempre. Então que fosse, já que tinha que ser...

Sabiam os mais próximos. Era torto das ideias. E perdido por natureza. Diziam que tinha um parafuso solto. Não sabiam que a linha de montagem ficara maluca e trocara as peças. Sua mãe que o diga. Não o teve. Achou-o encolhido num barco no meio do mar. E sorrindo, pensando no que viria....

Apegava-se as coisinhas pequeninas que os outros jogavam fora. Coisinhas de ontem, afinal o futuro ainda não podia guardar. Assim guardava amores que se negava a esquecer. Achava um lugar de conforto e cuidava. Uma pétala de rosa. Um bilhetinho amassado. Um perfume. Um olhar.....

Para o amor e o abraço, estendia as mãozinhas em forma de conchinha aberta. Entendia que o amor deve ser dado assim. Sem nada reter. De palma aberta, em oferenda. O amor, afinal, não cabe em espaços fechados. No amor guarda-se o que se deixa voar.. Eram ventos, pássaros e borboletas que voavam...
E ele guardava
O que achava
Que valia a pena....

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Só de Sacanagem*


Meu coração está aos pulos!
Quantas vezes minha esperança será posta à prova?
Por quantas provas terá ela ainda que passar?
Tudo isso que está aí no ar, malas, cuecas que voam
entupidas de dinheiro, do meu dinheiro, que reservo
duramente para educar os meninos mais pobres do que eu,
e para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus
pais, esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e
eu não posso mais.
Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança
vai ser posta à prova? Quantas vezes minha esperança
vai esperar no cais?
É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o
aprendiz, mas não é certo que a mentira de maus
brasileiros venha quebrar no nosso nariz.
Meu coração está no escuro, a luz é simples, regada ao
conselho simples de meu pai, minha mãe, meus avós e
dos justos que os precederam: “Não roubarás”, “Devolva
o lápis do coleguinha”,
“Olha, esse apontador não é seu, minha filhinha”.
Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido
que escutar.
Até habeas corpus preventivo, coisa da qual nunca
tinha ouvido falar e sobre a qual minha pobre lógica
ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao
culpado interessará.
Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do
meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear:
mais honesta ainda vou ficar.
Só de sacanagem!
Dirão: “Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo
o mundo rouba” e eu direi: Não importa, será esse
o meu carnaval, vou confiar mais, mais e outra vez. Eu, meu
irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a
quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês.
Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o
escambau.
Dirão: “É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde
o primeiro homem que veio de Portugal”.
Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal. Ouviram?
Eu repito, ouviram? IMORTAL!
Sei que não dá para mudar o começo mas, se a gente
quiser, vai dar para mudar o final!

*Elisa Lucinda

domingo, 24 de abril de 2016

Ser o que se é*


Em liberdade escolho...
assumo e respondo experimentando
com coragem.
Pensem o que quiserem
de mim e do mundo.
quem é livre, liberta.
Na escolha há perdas,
nas perdas aprendizagens.
Ser o que se é,
na contínua construção,
nos tira da condição de escravos.
O ontem habita o agora
no fazer o amanhã.
Somos o que pensamos
somos nossas ações.

*Dra. Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Escritora. Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

sábado, 23 de abril de 2016

Não sei quantas almas tenho*


Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.

*Fernando Pessoas

sexta-feira, 22 de abril de 2016

O segredo*


“A um ele confia uma coisa e confia outra coisa a outro, certificando-se de que eles jamais irão comunicar-se entre si.”
Elias Canetti

Vivemos num mundo onde o segredo deixou de existir, em que tudo o que é pensado, antecipadamente, já é sabido. O segredo é o lugar em que o indivíduo se submete à verdade daquele que sabe calar. Nas ditaduras o segredo é a vitalidade dos que sabem mandar, e principalmente dos que temem por algo que foge do seu controle. As massas alardeiam, o poder consente o seu silêncio em fúria. O poder mata o Outro com seu segredo, a massa divulga e joga o corpo aos leões. Todo segredo pode ser para o Bem e para o Mal.

O calar dos que recebem ordens é fruto do bom entendimento entre o que sabe mandar e o que sabe seguir as regras de forma ordeira. Esse fantasma jamais deixou de existir. As ditaduras de Direita e de Esquerda são o espelho dos que entendem o calar. Canetti demonstrou que o mais profundo dos segredos “é o que se desenvolve no interior do corpo”. 

Por estas bandas o que mais se sente no ar é o palavrório dos que falam e falam, mas calam quando deveriam se manifestar. Todo homem que fala demais é certamente o que tem a informação em seu excesso. O certo era ter um pouco de desconfiança, mas todo que demais se cala, deveríamos suspeitar ainda mais. Canetti observou que o segredo dos que calam é a certeza de sua sábia dedicação e inteligência de guardar o segredo dos poderosos, do outro lado, os que falam demais, também, podem estar entregando o ouro aos silenciosos donos do Poder.

O segredo, aquele que detém o poder sob o seu comando, consegue municiar o presente, ele mesmo é o que mais sabe preservar o segredo. Ao mesmo tempo, que tem o controle sobre o segredo, ele não consegue na sua amplidão ter o controle dos segredos existentes no tecido social. O ato de dissimular é propriedade de poucos que sabem manter o sigilo do seu lado. Aliados do silêncio, seus propósitos nunca deixam que o seu segredo se iguale aos demais, pois ele, o que controla, sabe medir o quanto o segredo que detém é preponderante ao imaginário social.

*Prof. Dr. Luis Antônio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes, Criativos*



"(...) o que descobrimos no transcorrer de uma vida criativa é uma série infinita de rupturas provisórias. Nessa viagem não há ponto de chegada, porque é uma jornada para dentro da alma."

"O processo criativo é um caminho espiritual. E essa aventura fala de nós, de nosso ser mais profundo, do criador que existe em cada um de nós, da originalidade, que não significa o que todos nós sabemos, mas que é plena e originalmente nós."

"Essa misteriosa entrega, a criativa surpresa que nos liberta e nos abre para o mundo, permite que algo brote espontaneamente. Se formos transparentes, se nada tivermos a esconder, o abismo entre a linguagem e o Ser desaparece. Então a Musa pode se manifestar."

"Ao se entregar às formas arquetípicas latentes na pedra, Michelangelo não produziu estátuas, mas libertou-as. Ele seguiu conscientemente a ideia platônica de que o aprendizado é na verdade memória."

"Sem divertimento, o aprendizado e a evolução são impossíveis. O divertimento é a raiz de onde brota a arte original; é o material bruto que o artista canaliza e organiza com as ferramentas do conhecimento e da técnica."

"A brincadeira, na forma da livre improvisação, desenvolve nossa capacidade de lidar com um mundo em constante mutação. Brincando com uma enorme variedade de adaptações culturais, a humanidade se espalhou por todo o globo terrestre, sobreviveu a várias idades do gelo e criou artefatos surpreendentes."

"(...) os erros tem um valor inestimável. Antes de tudo, um valor como matéria-prima do aprendizado. Se não cometermos erros, provavelmente não chegaremos a fazer nada."  

"(...) Para criar ficção, tudo o que temos que fazer é lembrar de uma vendedora ambulante ou de um vendedor de computadores, e imediatamente surgem milhares de perguntas, que levam a outras tantas respostas, que por sua vez geram novas perguntas, e assim por diante."

"Qualquer pessoa que deseje expressar um significado por meio de símbolos, de palavras, da música, da pintura, precisa ter uma atração por tarefas impossíveis, uma disponibilidade para suportar grandes frustrações, algo de quixotesco."

*Stephen Nachmanovitch in "Ser criativo". Summus editorial. SP. 1990 

terça-feira, 19 de abril de 2016

Dispersos*


Não havíamos marcado hora, não havíamos marcado lugar. E deu-se este encontro. Andávamos pelas ruas da cidade tão felizes. Por fim não sabíamos mais se andávamos ou se voávamos...

Corria um vento tão gostoso. A brisa balançava os cabelos dela para lá e para cá. E eu ficava com ciúme do vento e dos carinhos que ele fazia nos cabelos dela.

Os estranhos eram apenas os amigos que nós ainda não conhecíamos. Nossos olhinhos diziam que todo mundo gostaria de se mudar para um lugar mágico

Corríamos e soprávamos o vento andando por aí. Ríamos dos relâmpagos e dos trovões. E bebíamos as águas das tempestades.

Quando nos dávamos conta do lugar onde estávamos, já tínhamos ido embora.

A meia noite fechou seus olhinhos e na madrugada o canto e a dança dela impediram que eu fosse embora.

E descobrimos que a palavra amor andava meio vazia, tinha tão pouca gente dentro dela....

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Poema de Sete Faces*


Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

*Carlos Drummond de Andrade

domingo, 17 de abril de 2016

A escuta das palavras*

                                          

A palavra, em deslocamento por seus muitos territórios, também busca uma legibilidade para sua escuta escutando-se. Aptidão rara em meio as ditaduras da semiose verbal. Ao conviver sempre no mesmo lugar, ainda que em línguas diferentes, é excepcional vivenciar as dialéticas da aventura. 
   
Em um mundo apropriadamente imperfeito, pode ser indizível, ao dicionário conhecido, encontrar o melhor para si. Essa suspeita se insinua nas possibilidades do instante perfeito nas entrelinhas da imperfeição. Essa transgressão da zona areia movediça de conforto existencial, se aproxima de um mundo razoável e suas contradições. Assim pode acolher e dialogar com a mutante medida de todas as coisas em cada um.  

Ao destacar o viés dessas poéticas da irreflexão, se esboça uma negação de que tudo já foi dito, pensado, tentado. Nele um espaço desconhecido se abre como proposta.

Talvez a escola, ao ensinar a ler e escrever, também pudesse incluir aprendizados na arte de ouvir, sonhar, flutuar, experienciar essa matéria-prima diante do olhar, muitas vezes refugiada em impróprias paredes. Quiçá emancipar-se além do tumulto silencioso das palavras.    
   
Nesse sentido, a convivência aprendiz, a decifração desses códigos da não-menção, presentes nela mesma, pode conceber a crise precursora, o desajuste social, a incompreensão, como rascunho de uma obra acontecendo. Em um chão de incompletudes, os subúrbios da expressividade acolhe o devir dos recomeços.

Ao Filósofo dos casos perdidos, acostumado a ter um não saber como ponto de partida, vislumbra-se essa dialética como um redirecionamento do olhar. Lógica principiante a conjugar o recém chegando vocabulário diante de si. Uma estética a reivindicar o cuidador singular para acolher e contribuir com a nova condição. Ao cogitar dos eventos inesperados o espelho da realidade também se move.

*Hélio Strassburger   
   Filósofo Clínico

sábado, 16 de abril de 2016

Soneto de Fidelidade*


De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

*Vinicius de Moraes

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Compreensão e Interpretação***



“A interpretação se funda existencialmente na compreensão e não vice-versa.”
                                           Martin Heidegger

Estamos num momento histórico do Brasil que precisamos compreender bem os acontecimentos, pois o ato de interpretar passa pela compreensão de todos os acontecimentos do cenário político do país e que servem de prato para os esfomeados que mais regurgitam suas interpretações, ou menos conseguem compreender o momento histórico devido à fome de interpretar.

Não é só a política. O Brasil não consegue mais se compreender. Está longe de ter a consciência do que está realmente acontecendo. O velado de verdades autoritárias surge como explicações para legitimar e consolidar uma ordenação de ideias irrefutáveis.

Uma boa parte da mídia sabe interpretar aquilo que não consegue compreender, ou melhor, se tem a capacidade de compreensão se ilude com suas próprias intenções ideologizadas de compreender o que está diante de si. Consegue apenas interpretar o que está no fundo das coisas.

Se soubesse ver que o que está na superfície é parte do todo, certamente não se valeria da linguagem mais rasteira de apontar o caminho ideal, de nomear sua linguagem como cura e verdade, abdicando o essencial, o que está para sempre ser pensado e construído a partir da compreensão de um problema, neste caso, de fatos arrolados na vida política e social do país. A mídia tem esse lado, um lado de outras partes existentes, de atribuir verdade em suas interpretações, sem mesmo saber o que está por todos os lados do ato de compreender.

Para Heidegger interpretar não é simplesmente se valer do conhecimento do que se compreendeu, é, isto sim, preparar as vias possíveis que estão na base da compreensão. A melhor maneira de compreender, por exemplo, os acontecimentos, é estar no mundo, no cotidiano, é estar inteirado do melhor é do pior dos mundos, mas, simplesmente estar em consonância com o “mundo da vida”. Os exemplos de interpretar os acontecimentos podem passar por princípios filosóficos que diferem da tradição hermenêutica lançada sob os olhos do século XX, mas que ainda hoje não desabitou o pensar sobre o mundo.

*Parte I - continua...

**Prof. Dr. Luis Antônio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Escritor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

quinta-feira, 14 de abril de 2016

As estações e o jardim*


Acontecia algo engraçado comigo
Toda vez que ela se alegrava
E me fazia sorrir
Eu sentia uma vontade
Enorme de explicar
O quanto eu a amava.
Não adianta atropelar as estações
Se apressar muito, machuca...
Primeiro amei a sua alma
E só bem depois
Apaixonei-me pelo seu corpo.
E na estação mais triste
Eu te prometo poesias
Me devolves cantos e danças
E se, acaso, eu te interpretar mal
Prometes te traduzir para mim
Pois és escrita em língua esquisita
E eu não consigo te ler...
As folhas do outono
Formaram um coração quebrado
No pátio do meu jardim...

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 13 de abril de 2016

O fazedor de amanhecer*


Sou leso em tratagens com máquina.
Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis.
Em toda a minha vida só engenhei
3 máquinas
Como sejam:
Uma pequena manivela para pegar no sono.
Um fazedor de amanhecer
para usamentos de poetas
E um platinado de mandioca para o
fordeco de meu irmão.
Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias
automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.
Fui aclamado de idiota pela maioria
das autoridades na entrega do prêmio.
Pelo que fiquei um tanto soberbo.
E a glória entronizou-se para sempre
em minha existência.

*Manoel de Barros

terça-feira, 12 de abril de 2016

Desapegar-se*










Desapegar-se é fundamental para que tenhamos paz no mundo a partir de nós mesmos; é determinante para o nosso próprio crescimento rumo à capacidade de ser feliz!

Outrossim, desapegar-se significa escolher corajosamente a sabedoria e a lucidez de destituir-se da obsessão da posse que outrora pudera ser tão alimentada. Significa ainda, abnegar-se da permissividade para que sentimentos tão vis não venham mais a nos possuir, entorpecendo os nossos sentidos tão somente para produzir uma tóxica pseudo ilusão de que perdemos ao desprender ou libertar justificados unicamente pela dignidade de respeitar e, logo, permitir que a vida siga fluindo como a água desde a nascente até desaguar no oceano que tanto toca e une sem prender continentes chamados pessoa.

Desapegar-se significa conquistar poder para que nada mais nos domine, para que nada mais brinque conosco como se fôssemos marionetes destituídas de livre arbítrio. Em outras palavras, desapegar-se representa não mais permitir que ocorra momentos oportunos à deturpação de nós mesmos ao ponto de nos enganar afastando do caminho da grandeza de nos autoconhecer.

Ora pois, não há maior prova de amor maior do que cuidar de nós mesmos, do outro e da coletividade de modo a jamais estimular ou permitir que se aprisione numa gaiola o pássaro capaz do canto e dos gestos que tanto comovem ou comoveram a nossa alma e o nosso corpo. Afinal, amar genuinamente o canto e os gestos musicados nunca implicaria na violência de cortar as asas ou de podar os passos e sonhos. Musa!

Prof. Dr. Pablo Mendes
Filósofo. Educador. Filósofo Clínico
Uberlândia/MG - Porto Alegre/RS