sábado, 2 de abril de 2016

Sábado*


Tenho praticado nas últimas semanas uma experiência sensorial e, por que não dizer, espiritual. Comecei desligando o telefone celular por vinte e quatro horas, pois já estava praticamente viciado no aparelho. Logo ao acordar, antes mesmo de sair da cama, verificava as mensagens recebidas por e-mail e facebook durante a noite. No caminho para o trabalho,  enquanto o carro ficava parado no trânsito, conversava via whatsapp.  Por vezes, até mesmo em movimento,  dirigia e conversava ao celular. Algumas multas e muitos pontos na carteira. Puxar o telefone do bolso em meio a um jantar  ou festa para registrar o momento e postar na Internet já havia se transformado em rotina. O vicio de não conseguir se desligar do celular  é  conhecido como nomofobia, derivado do termo inglês “no mobile phobia”.

No inicio foi angustiante ficar vinte e quatro horas fora do ar. Ficava aflito se estaria deixando de atender alguma ligação importante, uma mensagem urgente ou ficando por fora de assuntos fundamentais. Então, ao invés de desligar o aparelho, colocava-o no modo silencioso e, de vez em quando,  conferia as mensagens recebidas. A ansiedade gerada havia se tornado pior que o suposto benefício de um celular desligado. Sinal claro de abstinência.

O tempo foi passando e, depois de algum tempo me enganando, fazendo de conta que me desligava, resolvi me libertar de vez. Apertei o botão off e guardei o celular em uma gaveta. Para minha surpresa, descobri que ficar com o celular desligado por 24 horas no final de semana, não estava acabando comigo, sequer me deixando alienado. Quem precisasse realmente me encontrar, saberia como fazê-lo, e, se desgraçadamente o mundo estivesse desabando, de alguma forma também seria afetado. Então relaxei e passei a gozar os benefícios de me afastar do mundo e ficar comigo.

Depois de desligar celular, facebook, email e google, foi a vez da televisão, rádio, vídeo game e dvd.  Também não foi fácil. Como ficar sem saber que houve um atentado, um assalto, uma avalanche, um acidente, um estupro, uma execução em massa, uma fraude, uma desgraça qualquer? Não estava acostumado a ficar desconectado do mundo agitado e frenético. Dependia de respostas imediatas, estava viciado em adrenalina e noticias ruins.

Logo tratei de arranjar algo para fazer. Colocar em dia trabalhos profissionais atrasados, escrever artigos, arrumar a casa, trocar lâmpadas queimadas, consertar pneu furado do carro. Tudo para preencher o tempo e fazer com que as 24 horas terminassem o mais rápido possível. Mais uma vez, havia caído na armadilha da promessa de uma qualidade de vida que não se realizava. Qual a graça de propor me desligar do mundo por um dia na semana e ficar contando as horas e arranjando tarefas para o tempo passar, esperando ansiosamente o dia terminar para voltar a  ficar conectado?  Algo não estava funcionando.

O próximo passo foi suspender todo e qualquer trabalho. Tornar aquele dia diferente dos demais. Sem compromissos, sem chamadas desagradáveis, sem relógio. De preferência sem incomodação. Um dia de descanso, de contemplação,  de reflexão. Um dia para mim. Um dia para ficar comigo. Trabalharia seis dias por semana, mas no sétimo, descansaria. Seria o meu prêmio.

Nitidamente este dia foi se tornando diferente dos demais, cada semana mais prazeroso, quase um dia perfeito. Comprava, guardava e reservava o melhor vinho, a melhor comida, a melhor sobremesa para desfrutar naquele dia, que seria minha ilha no tempo. As refeições seriam banquetes, o relógio pararia, a família se reuniria. Pouco a pouco, este dia foi se refinando e se tornando cada vez melhor. Escolhia uma roupa bonita para vestir, um livro bom para ler, um convidado especial para compartilhar toda esta comemoração.

Descobri no maremoto que agitava minha vida, uma ilha segura. Ao cuidar deste dia, indiretamente, estava cuidando de mim. Deixei de ser náufrago e me tornei conquistador. Em um único dia, construo uma fortaleza onde consigo aquietar a alma, recuperar a energia física e espiritual, escutar e observar tudo aquilo que durante a semana não consigo perceber. Escuto e observo a mim, aos outros, o universo. Converso comigo, com outros, com Deus. Fico em paz.

E sabe o que mais? Assim que termina este dia, já começo a pensar, imaginar, planejar e contar as horas para que o próximo chegue logo. Shabat Shalom – Sábado de Paz.

*Ildo Meyer
Médico. Escritor. Palestrante. Filósofo Clínico

Porto Alegre/RS

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