terça-feira, 31 de maio de 2016

Beija Flor***


Nem sei se posso dizer isto.
Há no ar uma interrogação.
Faz-se no ar silêncio.
No entre, uma pausa.
Desamor pulula no egoísmo.
Vaidades tomam o poder.
Comparações criam complexos.
Julgamentos são revólveres de projeções.
Críticas se tornam jogos de saber/poder.
Fofocas exaltam a inveja dos impotentes.
Ressentimento alimentam mágoas.
E, os ventos sopram...
Os raios rasgam horizontes.
Outono queima as matas.
Num ato intenso de amor,
Chega o Beija-flor.
Em seu bico uma gota de amor.
Treme beijando o orvalho.
Seduz encantando e despertando.
Analisa e se desfaz em graça.
O mínimo se torna mais.
Como mágica acende a lua.
Distribui amor sem nada esperar.
Entrega-se às flores e goza
Na dança de SerAmor!

*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Escritora. Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

** do livro: Ser Amor que está no prelo

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Valéry angustiado*


Leio em "Monsieur Teste", livro do genial Paul Valéry relançado, em edição ampliada, no ano de 1946, um ano após a morte do escritor: "Enfastiado de ter razão, de fazer o que tem sucesso, da eficiência dos procedimentos, tentar outra coisa". Na metade do século passado, Valéry ataca, assim, alguns dos valores mais divinizados em nosso século 21: o império da razão, a necessidade do sucesso a qualquer preço, o endeusamento da eficiência e do desempenho. A idolatria da vitória. Não vacila: diz. Não se poupa: expõe-se. Foi também um crítico de grande coragem intelectual.

Em "Monsieur Teste", um dos livros mais importantes de Valéry (1871-1945), o filósofo se dedica a pensar o pensamento. Seu objeto não é o mundo, não está interessado em refletir a respeito das coisas a seu redor. Interessa-se, apenas, por sua própria maneira de pensar. Na edição ampliada que tenho nas mãos, estão incluídos fragmentos e anotações que Valéry pretendia acrescentar a seu livro, originalmente publicado no ano de 1896. Faleceu antes de fazer isso. As fortes ideias do pensador francês me chegam através de uma edição brasileira, publicada pela Ática, com tradução de Cristina Murachco, em 1997.

Continuo a seguir as pegadas de Paul Valéry. Para se defender de acusações injustas e de preconceitos intelectuais, ele se apressa em fazer, em um dos fragmentos póstumos, uma defesa enfática da "aberração". Lamenta que a palavra seja usada, quase sempre, de forma negativa, como "um afastamento da norma que vai na direção do pior". Lembra, ao contrário, que, em alguns ramos da ciência, a mesma palavra pode designar "algum excesso de vitalidade, uma espécie de transbordamento do energia interna, que leva a uma produção anormalmente desenvolvida de órgãos ou de atividade física ou psíquica". Faz assim a defesa do "homem observado, vigiado, espiado por suas ideias, de memória". Faz uma defesa de si mesmo, não para elevar-se, mas, ao contrário, para se expor.

A aberração escapa da vigilância e, em consequência, abre portas para mundos antes desconhecidos. Abre portas para o próprio homem. Deveria, por isso mesmo,interessar positivamente os cientistas. Lembra então Valéry que, até a adolescência, seu personagem Monsieu Teste _ pois o livro mescla ensaio e ficção _ "absolutamente não desconfiava da singularidade de sua mente". Ao contrário: "Achava-se mais tolo e mais fraco do que a maioria". Em Teste, o que parece fraqueza _ o que é fraqueza _ é valor. É na derrota que ele se ampara para ser.

Passa então à enumeração de alguns dos pensamentos de Teste. "Deve-se entrar em si mesmo armado até os dentes", pensava Monsieu Teste. A suspeita contra si, apesar do simultâneo acolhimento de si, deve prevalescer. Ao entrar em si (ao examinar-se), o sujeito deve "criar uma espécie de angústia para resolvê-la". É um grande escândalo fazer, em nosso mundo adestrado, a defesa da angústia e do tormento como instrumentos de saber. De novo, a imagem (falsa) do fracassado se cola a Valéry, mas ele não tem medo disso. Ao contrário: tranforma o obstáculo _ o fracasso _ em um valor positivo. Faz do fracasso não sua derrota, mas seu ponto de partida.

Nesse estado em que a angústia é essencial para o conhecimento, prossegue Valerý através de Teste, os sujeitos devem "considerar suas emoções como tolices, inutilidades, imbecilidades, imperfeições _ como o enjôo no mar, ou a vertigem nas alturas, que são humilhantes". Ao contrário: devem suspeitar do que sentem em vez de glorificar os próprios sentimentos. "Desprezo o que sei _ o que posso", ele escreve. O desprezo é, no fundo, um mecanismo de suspeita. E a suspeita, em vez de entorpecer, fortalece. Asuspeita, e não a retidão ou a eficiência, é a forma mais segura de pensamento. Mas como homenagear a suspeita em um mundo de pessoas "cheias de si"? Em um mundo no qual o brilho do Eu nos cega?

Prossegue Valéry com a voz de Teste: "Minha alma começa no ponto exato em que não enxergo mais, em que não posso mais nada _ onde meu espírito bloqueia a estrada para ele mesmo _ e voltando das maiores profundezas, olha com pena para o que a linha de sondagem marca". Defesa enfática do obstáculo, da impossibilidade e do limite, o pensamento, mais uma vez, contrasta com um mundo fascinado pelos recordes, pelas altas das bolsas e pelo consumo desmesurado. Fascinado, sobretudo, pela precisão. Falhar é o grande pecado de nossos dias. Por essas e outras ideias, Paulo Valéry se torna, assim, um pensador essencial para o século em que vivemos.

*José Castello

domingo, 29 de maio de 2016

Jardim dos Amores*


A rosa há muito se desentendeu com a margarida,
que sonhava com o amor do girassol
que olhos tinha somente para o sol,
e abandonou a acácia
que de triste ficou só,
mas um dia decidiu recomeçar
e foi em busca do cravo,
que sem nenhuma cerimônia
disse estar comprometido com a tulipa.
O gerânio ouviu a conversa
e contou para a hortênsia,
que apaixonada pelo cravo
chorou noites e dias sem fim.
Vendo as lágrimas da hortênsia
a açucena foi consolar,
que de nada conseguiu ajudar.
Desesperada de tantos conselhos ouvir,
foi em busca dos aromas da alfazema,
que naquele dia estava em viagem,
pois fora encontrar-se com a tulipa,
que nos braços do cravo prometia juras de amor.
Mas seu ardor mesmo em meio as juras de amor
ainda germinava secretamente na esperança de um dia encontrar
com a margarida, que abandonada foi pelo girassol.

*Pe. Flávio Sobreiro
Filósofo. Teólogo. Poeta. Estudante de Filosofia Clínica
Cambuí/MG

sábado, 28 de maio de 2016

Sonhos de singularidade*



Sonhei que havia um rio chorando em mim e nesse sonho, escolhi seguir o seu curso navegando no desconhecido rumo ao autoconhecimento da minha própria jornada. E foi assim até desaguar num mar de emoções e sensações profundas demais. E quando cheguei lá tive que continuar porque o mar não bastou em mim. 

E prosseguindo cheguei no oceano que margeava o meu próprio continente chamado pessoa e lá, dentro de um instante estavam todos os outros, sim; percebi ali todos os continentes do mundo. 

Ora, o mar não era meu, nem o oceano também; eu apenas os compartilhava doando tudo do melhor de mim. É incrível perceber o quão podemos ser plenos e unidos respeitando as singularidades de cada um que sempre são riquezas necessárias para a soma de qualquer totalidade que nos contempla e completa. 

Mas o rio que outrora acreditei chorar em mim, na verdade, sempre verteu sorrisos convidando-me para navegar em seu curso afora. Ora pois, é quando o rio sorri que ele supera qualquer seca, liberando um farto fluxo que vale a pena respeitar, preservar e prosseguir sem cessar. Musa!

*Prof. Dr. Pablo Mendes
Filósofo. Educador. Escritor. Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*



"(...) não se trata de maneiras diferentes pelas quais algo real em si se revela ao espírito, e sim de caminhos que o espírito segue em direção à sua objetivação, isto é, à sua auto-revelação."

"(...) o processo da formação da linguagem mostra como, para nós, o caos das impressões imediatas somente passa a se aclarar e articular no momento em que lhe 'damos nome', permeando-o, assim, com a função do pensamento linguístico e a expressão linguística."

"Não apenas a ciência, mas também a linguagem, o mito, a arte e a religião caracterizam-se pelo fato de nos fornecerem os materiais com os quais se constrói, para nós, o mundo do 'real' e do espiritual, o mundo do Eu."

"(...) o conteúdo que designamos como o 'agora' nada mais é do que a fronteira eternamente fluida que separa o passado do futuro."

"(...) Somente assim se obtém uma solução crítica geral para a questão proposta por Kant, que buscava entender por que razão o fato de 'algo' existir implica necessariamente a existência simultânea de uma 'outra coisa', totalmente diferente."

"(...) a suprema verdade objetiva que se revela ao espírito é, em última análise, a forma de sua própria atividade."

"A concepção mítica da linguagem, que em toda parte precede a filosófica, caracteriza-se sempre por esta indiferença entre palavra e coisa. Para ela, a essência de cada coisa está contida em seu nome. Efeitos mágicos se vinculam de maneira imediata à palavra e à sua posse."

"(...) mesmo a ambiguidade inerente à palavra não constitui uma mera deficiência da linguagem, e sim um momento essencial e positivo da força expressiva que nela reside. Porque nesta ambiguidade se evidencia que os limites da palavra, tais como os do próprio ser, não são rígidos, e sim fluídos."

*Ernst Cassirer in "A Filosofia das Formas Simbólicas. I - A linguagem." Ed. Martins Fontes.SP. 2001

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Partilha*


Uma máscara aparece aleatoriamente no meio da multidão é o "V" de vingança, resta saber: que vingança é essa? São estarrecedoras as  razões distorcidas, que muitas vezes, ignoram  completamente a raiz de sua determinação.

A politica sempre foi um prato cheio para projeções, quando alguém se enche de ódio para falar de um determinado politico  ou partido, o exagero e a exacerbação pode estar  denunciando algo inversamente oposto ao discurso,  aproveitando o personagem como um veiculo para desaguar frustrações de outra ordem. Algumas represas afetivas podem dar conta de justificar silenciosamente tais respostas comportamentais,   quando se trata por exemplo, de sentimentos antagônicos ligados a uma figura de  laço afetivo profundo, com  a proximidade de tal evidência, que não permitiria nem um tipo de sentimento se quer parecido com ódio.

 A hera tecnológica sistematizou  a coisa da infestação humana excluindo o isolamento por percepção cognitiva, este a quem da noção do isolamento Geográfico e Físico, vai induzindo o mundo sensorial que sofre reformulações de alguns padrões mais primitivos, é interessante  pensar em sensações que nascem a  partir do pensamento .

O que no passado selava um acordo através do  aperto de mãos, hoje se faz  com um  click entre milhares de pessoa, estes asseguram o compartilhamento do mundo.

Se compartilha de tudo, inclusive dimensões e versões de moral, afetos e possibilidades de comportamentos.

Enquanto a mente observa, muitas vezes displicentemente, conquistas e barbarias de múltiplas culturas, passa a ter também por essa via, mais sinapses de consciência, ainda que a banalização das imagens amorteça as  reações, tanto da inércia quanto do movimento, chegamos ao novo sistema de partilha, só que agora não é mais de alimentos e serviços agora é o de consciência.

Na ordem pratica e imediata  das necessidades mais sutis da vida humana, isso pode não significar muito, mas ao longo prazo é revolução certa .

Podemos sentir, ver, ouvir, invadir, espiar, marcar, corrigir, ocultar e diluir nossas ideias, fazemos  nossas próprias censuras. Acredito que um dia a máxima "respeitar as diferentes culturas", mude de sentido, devido a proximidade e a paridade de ideias e  que a grande  cultura a ser consagrada no mundo, seja a do valor a vida, ao amor  e as múltiplas formas  existência.

*Alba Regina Bonotto
Psicóloga. Filósofa Clínica.
Curitiba/PR

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Dá-me a tua mão*


Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta. 

De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia. 

Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.

*Clarice Lispector

terça-feira, 24 de maio de 2016

Sobre a arte de redigir silêncios*


Uma fenomenologia da espera descreve seu vocabulário pela quimera a se mostrar esconderijo. A palavra refugiada na estrutura do silêncio parece dizer mais. Seu instante fugaz aponta entrelinhas de um esboço. Seu viés multiplica-se nos enredos da expressão absurda.

A suspeita de uma razão vigiada persegue eventos pelos contornos da ficção. Talvez essa novidade, como um deslize da ideia não declarada, se mostre nas páginas em branco. Esses episódios se sucedem em pretextos para um sentido à margem do discurso principal. 

Os manuscritos do inesperado podem ser anúncio ao relatar invisibilidades. Ao interrogar esses indizíveis esconderijos das perolas imperfeitas, um olhar escuta a geografia dos exílios. Os espaços desacreditados se protegem no retiro das fórmulas secretas. Os rituais da linguagem singular apreciam a redescoberta desses espaços calados. Ânimos de diversidade na interseção entre a promessa de se mostrar e os rastros.   

A interrogação que se desdobra para além das respostas conhecidas, busca transbordar eventos ainda sem tradução. Num brevíssimo intervalo de tempo entre dizer e não-dizer, uma legião de personagens e territórios se insinua. Esteticidades a proteger um continente nem sempre dizível. Na penumbra das possibilidades a quase realidade sugere uma metafísica do anonimato.

O excesso de ruído costuma afugentar a expressividade do silêncio, um desses lugares por onde a alma se manifesta. A pronúncia irrefletida desse vocabulário por vir aprecia o descaso do leitor desavisado. Não tem vontade de retornar ao modelo com o qual aprendeu a decifrar sempre as mesmas coisas. Eis aí um desses refúgios onde a classificação e o gesso acadêmico não conseguem entrar.
Uma singularidade híbrida abriga a estrutura de pensamento impregnada de mistérios, segredos por onde o silenciar esboça caricaturas. Aprisionada nos entremeios de verdade e ficção, essa mescla indefinível de imagens se oferece na pluralidade dos contra sensos. 

Há rumores e pressentimentos dessas vozes da interioridade em lógicas superlativas. Assim de súbito, parece ser a errância a cúmplice dessa emancipação da realidade conhecida como fantasia. A sensibilidade calada, ao tentar ser vida cotidiana, parece sussurrar episódios fora de si.

Ao repensar um texto graças à incompletude da autoria, inúmeros espaços de atuação existencial podem ser recriados, assim descontinua-se a obra inicial na direção de outros inéditos. A retórica das quietudes aguarda a nova fonte de originais (você),

*Hélio Strassburger
   Filósofo Clínico

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Não-coisa*


O que o poeta quer dizer
no discurso não cabe
e se o diz é pra saber
o que ainda não sabe.

Uma fruta uma flor
um odor que relume...
Como dizer o sabor,
seu clarão seu perfume?

Como enfim traduzir
na lógica do ouvido
o que na coisa é coisa
e que não tem sentido?

A linguagem dispõe
de conceitos, de nomes
mas o gosto da fruta
só o sabes se a comes

só o sabes no corpo
o sabor que assimilas
e que na boca é festa
de saliva e papilas

invadindo-te inteiro
tal do mar o marulho
e que a fala submerge
e reduz a um barulho,

um tumulto de vozes
de gozos, de espasmos,
vertiginoso e pleno
como são os orgasmos

No entanto, o poeta
desafia o impossível
e tenta no poema
dizer o indizível:

subverte a sintaxe
implode a fala, ousa
incutir na linguagem
densidade de coisa

sem permitir, porém,
que perca a transparência
já que a coisa ë fechada
à humana consciência.

O que o poeta faz
mais do que mencioná-la
é torná-la aparência
pura — e iluminá-la.

Toda coisa tem peso:
uma noite em seu centro.
O poema é uma coisa
que não tem nada dentro,

a não ser o ressoar
de uma imprecisa voz
que não quer se apagar
— essa voz somos nós.

*Ferreira Gullar

domingo, 22 de maio de 2016

Viagens e viajantes*


Quando inicia a madrugada
Os grilos cantam a lua que brilha
Sinto os anjos brincando estrelas
Talvez as nuvens passem
trazendo sonhos
Recolho sob a coberta a espreita
Será que ele vem?
Os pirilampos anunciam a chegada de Hermes
Dioniso também se apresenta
Meu coração solta de alegria
Bendigo a imaginação e os uivos dos lobos
Minha mulher selvagem se apresenta
Mistério e fantasia real
Porque a lua brilha
Eu me dissolvo no pó cósmico, pois,
Viajante intergaláctica eu sou!

*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Escritora. Poeta. Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

sábado, 21 de maio de 2016

Receita pra lavar palavra suja*



É que eu queria dizer uma coisa que eu não posso sair dizendo por aí
Na verdade é um segredo que eu guardo
É uma revelação que não posso sair dizendo por aí
Que eu tenho medo que as pessoas se desequilibrem de si
Que elas caiam delas mesmas quando eu disser
Eu descobri que a palavra não sabe o que diz
A palavra delira
A palavra diz qualquer coisa
A verdade é que a palavra nela mesmo em si própria
Não diz nada
Quem diz é o acordo estabelecido entre quem fala e quem ouve
Quando existe acordo, existe comunicação
Quando esse acordo se quebra, ninguém diz mais nada
Mesmo usando as mesmas palavras
A palavra é uma roupa que a gente veste (…)

*Viviane Mosé

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Os Opostos*


Os Opostos se atraem, dizem
Ele lutava com os opostos
Dia a dia
Dentro de si.
Para ele não havia vida na linha do equador. Havia, sim, vida acima ou abaixo do equador. Viver na linha mediana, para ele, era não viver. Definhava sob o ar condicionado. Fugia do meio termo como o capeta foge da cruz. O morno nem o esquentava, nem tampouco, o esfriava. O morno cheirava a mofo. Se negava a jogar no meio de campo. Fechava as balizas de um lado, ou estufava as redes do outro. Na loteria da vida não marcava a coluna do meio. Mas existiam empates.
Quem o conhecia sabia.
Seu "oito" era um grãozinho de areia. Um fiozinho de fumaça que sumia. Uma miragem de nevoeiro que sumia. Um pedacinho de nuvem quebrada que sumia num buraco negro. Diminuto, virava diminutivo e se transformava em Mínimo Múltiplo Comum. Virava nada, nada fazia e repousava nas espumas das águas do nada.
Mas não se entregava
Há que inventar a vida a cada dia.
Seu "oitenta" era mil. Um milhão. Zeros ao infinito. Aumentativo, virava superlativo e procurava algum Máximo Divisor Comum. Voava, sem ser pássaro. Nadava, sem ser peixe. Virava tempestades... leves. Virava terremotos... leves. Virava tsunamis... leves e suaves. Só para levar um susto. Não para destruir. Mas para pintar tudo de um colorido novo. Para recomeçar maior e melhor. Para acolher e envolver de outra forma. E fazer crer que assim a vida vale a pena. Afinal a vida pode ser assim como nós a fazemos.
Pensava o impensável
Dizia o inominável
Escrevia o inimaginável
E via tudo aquilo que Deus ainda não havia criado.
E que os homens ainda não acreditavam.

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Os deslimites da palavra*


Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu
destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas

*Manoel de Barros

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Renovação*


Percebi que para estar bem, totalmente liberta das amarras dos agendamentos incutidos durante anos em nossas vidas, precisamos dar um salto de coragem. Esse salto é deveras dolorido pois o medo tende a rondar pelas esquinas do caminho das mudanças mais profundas da alma.

Entretanto com a ajuda correta, escolhida pelo ser-singular, através de terapia e da autoaceitação, é possível. Não importa as ferramentas para a decidida mudança, basta "querer mudar", sair do conforto do que se conhece para abrir as portas para o novo. Sei que este novo traz muitos questionamentos e receios profundos. Choros compulsivos, inseguranças, dúvidas são algumas das tentativas de atrapalhar esse salto. Nossas sombras mais escondidas ou enterradas pelo nosso Ego, gritam tentando nos impedir de enxergá-las para ir de encontro à passarela da felicidade. Mas, depois de expurgar as purulentas dores emocionais, eis que aparece luz, um ponto ao longe, quase imperceptível.

Só, somente, quando focamos nesse ponto de luz é que há a possibilidade das mudanças de percursos para o melhor, para a celebração da verdadeira vida feliz, livre de mágoas, dores acumuladas. É nesse momento que se faz preciso coragem para se preparar para o salto e seguir sem olhar para trás. E aí, fechamos os olhos do medo, do inseguro e saltamos para cair de pé.

Como foi e é difícil caminhar ao encontro da clareza, dessa luz devassadora que por vezes nos cega de tanta franqueza quanto ao nosso modo de ser e agir no mundo. Os papéis existenciais vão se costurando como uma colcha de retalhos, o resultado final é uma satisfação e contentamento de ser quem se é. O senso comum se torna quase desnecessário para novas tomadas de decisão. As novas escolhas, muitas vezes, assustam àqueles que mais estão próximos de nós. Contudo, o julgamento alheio se torna argumento fraco. Nos tornamos novamente estrangeiros dentro de nossos círculos sociais, nada previsíveis. Os olhares são mais recatados, somos analisados de todas as formas. Mas a certeza do caminho de luz que decidimos seguir não nos incomoda mais com olhares de quase investigação do novo ser que sempre existiu, contudo, apresentamos nessa nova mudança.

Como é bom sair do casulo e voar livremente para qualquer lugar onde se deseja, verdadeiramente, estar! O arco-íris da vida nos mostra mil possibilidades de ir de encontro para nossas convicções de se apresentar como queremos e sabemos, é claro, seres ainda aprendizes de uma caminhada constante, eterna, contínua... 

O dia amanhece mais colorido mesmo nublado, o café se torna mais saboroso, as manhãs são motivos de celebrar, a música se torna uma companheira constante, o desenhar de nossos movimentos parecem mais harmoniosos, a gratidão invade nossa alma e o sorriso escondido aparece quão luz no caminho do outro, irmão de caminhada, tão aprendiz quanto nós. 

As palavras se tornam mais acolhedoras, calmas, refletidas. Surge uma sabedoria sagrada latente, a vida se faz leve, saborosa, as risadas ficam mais acentuadas, as notícias desastrosas não nos pesam mais... Tudo muda ao redor, refletimos nosso interior e a vibração muda de acordo com nosso novo estado de liberdade de ser.

Brindemos!
Sejamos!
Permita-mo-nos!
Porque merecemos tudo àquilo que plantamos.
Que a felicidade, realmente, se torne rotina!!!  

*Vanessa de S. Ribeiro
Professora, dançarina, professora de teatro, consultora de beleza e filósofa clínica.
Petrópolis/RJ  

terça-feira, 17 de maio de 2016

O guardador de rebanhos*


Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),

É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.

*Fernando Pessoas

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Brevidade do sempre*


      “Ora, aqui não se trata apenas de confrontar ideias mas de as encarar e fazer viver, e só experimentando se pode saber do que são capazes.”
Maurice Merleau-Ponty

A vida é breve. É o tempo insuficiente para se dar o fim de todas as dúvidas. Li certa vez em um livro, do qual não me recordo o nome, que a brevidade da vida é que faz um ateu, que o mundo é vasto demais para se ter tempo de senti-lo, que se Deus existe se precisaria mais do que um século para conhecê-lo. Herético esse livro. No mínimo eu deveria suprimir todas as dúvidas filosóficas e existenciais que vem no andar dos dias, na velocidade do tempo.

Ando em busca do tempo que fale mais aos meus ouvidos, não do tagarela moralista a incomodar o lado mais puro, ou seja, crer no não crer é uma atribuição saudável ao Ser.

Pensando bem, não li em livro algum, foi um texto que comecei escrever ainda quando era um jovem estudante de filosofia. Na época queria ter a possibilidade de conhecer o mais longe possível sem abrir mão de brevidade do presente, sem ceder um segundo do presente vivido. Com o passar dos anos, dei-me conta que jamais chegaria ao nível de um sábio pensador, pois o presente estava colado ao corpo. Conseguia no máximo divagar em átimos de solidão que pudessem silenciar diante dos alaridos das pessoas, dos professores, dos amigos, da namorada, etc. 

A partir de um dia, não lembro mais, teve um dia sim, uma manhã em que acordei com a grande revelação. Pensei, disse em voz alta ‒ não vou mais tentar vencer a dúvida, vou viver a contingência na coexistência, me apropriei de Maurice Merleau-Ponty. Desde já, o “sempre” começou a fazer parte de meu vocabulário, até tive problemas com o “sempre”. 

Um professor disse-me certa vez que não devia escrever num texto acadêmico “sempre”. Refleti. Acatei momentaneamente o comentário. Depois retornei à expressão do “sempre”, penso, tento abraçar a linguagem, mas o formalismo nos mete medo criando regras. Muitas vezes as regras são descumpridas em nome da liberdade, da criação, das leituras que possamos ter do “sempre”. Nem o próprio professor acreditava no que estava a falar, pois quando se pensa o pensamento já se está no mundo da incerteza da existência do pensante.

Passado os dias, escrevi que o legado da modernidade hiper-racional, que a fundação de um mundo que não consegue mais dar conta de seus pressupostos racionais sobre o mundo. Voltei ao professor, entreguei o texto, com alguns “sempre”, ele me olhou com uma expressão de quase um desde sempre e sentenciou: “maravilhoso, está pronto, precisa de pequenos reparos”.

Volto à brevidade das coisas. O ano do meu nascimento, 1961, morria o filósofo francês Maurice Merleau-Ponty, para muitos o filósofo do que sobrou dos grandes, que não serve para atar o sapato esquerdo de Hegel ou de um Kant. Mas minha simpatia a ele é de longa data, talvez o nome bonito de se pronunciar fez conhecê-lo um pouco mais. Leio até hoje com a frequência desorganizada de um “sempre” fora de ordem e um não seguir de regras definidas de estudo.

*Prof. Dr. Luis Antônio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Educador. Escritor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS