quinta-feira, 30 de junho de 2016

O fazedor de amanhecer*


Sou leso em tratagens com máquina.
Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis.
Em toda a minha vida só engenhei
3 máquinas
Como sejam:
Uma pequena manivela para pegar no sono.
Um fazedor de amanhecer
para usamentos de poetas
E um platinado de mandioca para o
fordeco de meu irmão.
Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias
automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.
Fui aclamado de idiota pela maioria
das autoridades na entrega do prêmio.
Pelo que fiquei um tanto soberbo.
E a glória entronizou-se para sempre
em minha existência.

*Manoel de Barros

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Voo Livre*


na pausa de um instante
suspiro de eternidade
ninho de acolhimento
gestação de liberdade
tecedura de amizade
no encanto da entrega
encontro novas possibilidades!

*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Escritora. Poeta. Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

terça-feira, 28 de junho de 2016

Noções*


Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos. 

Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que
a atinge. 

Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se
encontram. 

Virei-me sobre a minha própria existência, e contemplei-a
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza. 

Ó meu Deus, isto é a minha alma:
qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e
precário,
como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e
inúmera...

*Cecília Meireles

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*



"Os criadores são banidos da vida do povo e se vêem apenas tolerados, como curiosidades marginais. Como ornamentos de adorno e extravagâncias, alheias à vida."

"O mundo do espírito se transforma em cultura, em cuja criação e conservação o indivíduo procura, ao mesmo tempo, aperfeiçoar-se a si mesmo."

"O presente é precisamente o que, no acontecer, desaparece."

"Questões filosóficas, porém, jamais poderão ser, em princípio, resolvidas no sentido de as podermos, algum dia, extinguir."

"Rússia e América, consideradas metafisicamente, são ambas a mesma coisa: a mesma fúria sem consolo, da técnica desenfreada e da organização sem fundamento do homem normal." 

"A filosofia situa-se num domínio e num plano da existência espiritual inteiramente diverso. Na mesma dimensão da filosofia e de seu modo de pensar situa-se apenas a poesia."

"Em razão dessa superioridade o poeta fala sempre, como se o ente se exprimisse e fosse interpelado pela vez primeira. No poetar do poeta, como no pensar do filósofo de tal sorte se instaura um mundo, que qualquer coisa, seja uma árvore, uma montanha, uma casa, o chilrear de um pássaro, perde toda monotonia e vulgaridade."

"Toda forma essencial do espírito é sempre ambígua. Quanto mais for incomparável com qualquer outra coisa, tanto maior será o índice de sua incompreensão."

*Martim Heidegger in "Introdução à metafísica". Ed. Tempo brasileiro. RJ. 1999  

domingo, 26 de junho de 2016

Pedaços*


Ela era ela
Que ele achava
Que conhecia
Mas ela era ainda outra
Que ele desconhecia.
Ele era ele
Que ele achava
Que, inteiro, oferecia
Mas ele ainda desconhecia
O que os outros percebiam.
Afinal quem era ela?
Quem, afinal, era ele?
No fim das contas
Afinal...
Final...

*José Mayer
Filósofo. Poeta. Livreiro. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

sábado, 25 de junho de 2016

Fragmentos Filosóficos, Literários, Delirantes*



"(...) a escritura começa onde a fala se torna impossível (...)"

"Há no amor por um país estrangeiro uma espécie de racismo às avessas: encantamo-nos com a diferença, aborrecemo-nos com o Mesmo, exaltamos o Outro."

"Certas linguagens são como o champanha: desenvolvem uma significação posterior à sua primeira escuta, e é nesse recuo do sentido que nasce a literatura."

"Um livro vem lembrar-nos de que (...) existe um prazer da linguagem, de mesmo estofo, da mesma seda que o prazer erótico, e de que esse prazer da linguagem é a sua verdade. (...)"

"Repetir o exercício (ler várias vezes o texto) é liberar pouco a pouco os seus 'suplementos'"

"Ora, os desvios (com relação a um código, a uma gramática, a uma norma) são sempre manifestações de escritura: onde se transgride a norma, aparece a escritura como excesso, já que assume uma linguagem que não estava prevista."

"(...) Já a escritura, esta é integralmente 'o que está por inventar', a ruptura vertiginosa com o antigo sistema simbólico, a mutação de todo um flanco da linguagem."

"Fico imaginando hoje, um pouco à moda do grego antigo, tal como o descreve Hegel: interrogava, diz ele, com paixão, sem esmorecimento, o rumor das folhagens, das fontes, dos ventos, enfim, o estremecer da Natureza, para ali captar o desenho de uma inteligência. E eu, é o estremecer do sentido que interrogo escutando o rumor da linguagem - dessa linguagem que é a minha Natureza (...)"

Roland Barthes in "O rumor da língua". Ed. Martins Fontes. SP. 2004

sexta-feira, 24 de junho de 2016

A poesia e o amor*



Só conhecemos quando temos coragem de superar as superfícies, as ilusões. Conhecimento não se conquista se ficarmos apenas nas margens ou nos lugares confortáveis e seguros. É preciso o risco do mergulho profundo e em nós mesmos para descobrirmos caminhos de superação de apegos, de angústias e de dores produto da nossa própria ignorância.

É preciso mergulhar fundo em tudo que devemos aprender para concretizar sonhos sejam eles ordinários por serem comuns, sejam eles extraordinários por serem únicos. E, ainda, concomitante, é preciso sentir para escolher o que realmente faz sentido, uma vez que assim poderemos inspirar um mundo melhor naqueles que tocamos.

Porventura, onde houver poesia haverá amor e, se somos mesmo continentes chamados pessoas é porque somos sim banhados por oceanos profundos que nos unem e nos fortalecem, transbordando-nos todos em um e um em todos. E somente vencendo a superfície que poderemos conhecer e nos surpreender, por exemplo, pelo fato de que distante um mar pode ser azul e de perto pode ser ora turvo ora esverdeado.

Mas é quando mergulhamos que nos descobrimos incluímos e percebemos que na verdade, toda a água de um mar é translúcida e reveladora de auroras coloridas e coloríveis que sustentam a vida do mundo de todos e de cada um de nós mesmos.

Afinal, conhecer implica necessariamente na ousadia de mergulhar, movido por uma dinâmica sutil, poderosa e irônica demais que revela o quão é libertária a conquista da sabedoria, pois o que sufoca nesses casos são somente as superfícies. Musa!

*Prof. Dr. Pablo Mendes
Educador. Livre Pensador. Filósofo Clínico
Uberlândia/MG – Porto Alegre/RS

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Via Láctea*




Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?

E eu vos direi: Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.

*Olavo Bilac

quarta-feira, 22 de junho de 2016

O sonho das palavras*

                                   

Um enredo malabarista se insinua em rasuras de quase traço. O sonhar das palavras rascunha vontades, antecipa delirando aquilo desconsiderado pela razão conhecida. Seus apontamentos de estética maldita dizem mais do que consegue traduzir. Não-ser acontecendo nalgum ponto entre realidade e ficção. 

Essa sensação do fenômeno ter alguma sobrevida nos termos agendados no intelecto, possui rasgos de transcendência inevitável. Parece reverenciar o lugar instante onde a exceção, o acaso, se desdobram no agora continuado.   

É possível ao verso irreal conter mensagens ilegíveis. Sua referência ao texto repleto de incompletudes parece querer dizer, ao leitor atento, sobre as alternativas de reescrever-se com sua leitura. Como se fora um rascunho a silenciar sobre a linguagem da natureza da linguagem. Desvendar aspectos de renúncia em se descrever por inteiro, registrar aparecimentos, desaparecimentos diante do mesmo com vestígios do outro.

A folha em branco a espera do traço, rememora o que se cala nas afirmações. O sujeito assim descrito esboça, no chão de suas vertigens, uma estética dos excessivos roteiros. Interseção onde temor e tremor transbordam expressividades de anúncio. Sua errância descreve peripécias ilegíveis ao dado literal, sua sobrevida acontece nos contornos e margens do mundo conhecível. Ao cogitar uma ideia insinua a embriaguez de ser nada, se faz entrelinhas na quimera, na lenda. 

O inédito percurso da ideia ou sensação, antes de ser palavra, transita pela irrealidade das zonas intermediárias, possui viés de prefácio inacabado, sedução dos devaneios da luz do dia pelas fantasias da noite. Um texto assim busca sua essência na sobrevida das desconsiderações. Realiza-se na utopia, ressoa em vozes da distância e da proximidade.   

Território misto a contemplar movimentos de abertura e fechamento, oferece uma redação precária, no ser provisório dos relatos. Nesse sentido, um discurso ensimesmado desconsidera o mundo ao seu redor, para, em seguida, ser poética discursiva e se encontrar com as alquimias do cotidiano. Os jogos de linguagem assim descritos renunciam a percepção especialista, preferem a ingenuidade do olhar.   

Um viés de retórica maldita oferece laços com a realidade da qual se afasta. As questões essenciais nem sempre podem ser encontradas no cotidiano. Para se aproximar com as evidências dessa matéria-prima, os significantes oferecidos reivindicam um papel existencial também investigativo. 

A palavra mais que perfeita sugere uma multidão de personagens. Sua articulação reflete um manuscrito de silhuetas, franjas, dobras a descobrir-se nas releituras. Na frase começada existem outros roteiros possíveis. Ao esboçar esse desconhecido na própria voz, sugere algo mais sobre as recusas do verbo definitivo. Eis um lugar para o indizível ter um nome, quase sempre impróprio, num chão que não lhe pertence por inteiro.

*Hélio Strassburger

terça-feira, 21 de junho de 2016

Poetando com o Mário*


Emergência*

Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo —
para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.

Poeminha do Contra*

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!

Relógio*

O mais feroz dos animais domésticos
é o relógio de parede:
conheço um que já devorou
três gerações da minha família.

*Mário Quintana

segunda-feira, 20 de junho de 2016

AmarAmando...*


AmarAmando
Sem tons de cinzas
Em tons roseosazuis
No mar na floresta
Em sons e tonsutis

AmarAmando
No céu da imaginação
Tecendo aracnídeas redes
Fisgando sonhos
Em contos de estrelas

AmarAmando
No tempo presente
Rasgando o peito
Entregando a alma
Oferencendo a Afrodite

AmarAmando
No compasso dionisíaco
Dançando com pés descalços
No rodopio do vento

AmarAmando
No mandala rodando o tempo
Encontrando o centro no todo
De mim de você de nós
SendoAmor em verso múltiplo.

AmarAmando
Apenas sino no hino
No beijo no gozo no corpo
Na vida delicadamente fluindo

*Dra Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Escritora. Poeta. Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

domingo, 19 de junho de 2016

Fragmentos Filosóficos, Literários, Delirantes*



"(...) não há saídas a escolher. Uma saída é algo que se inventa. E cada um inventando sua própria saída, inventa-se a si mesmo. O homem é para ser inventado a cada dia."

"O poeta está fora da linguagem, vê as palavras do avesso, como se não pertencesse à condição humana, e, ao dirigir-se aos homens, logo encontrasse a palavra como uma barreira."

"Assim  como a física submete aos matemáticos novos problemas, que os obrigam a produzir uma simbologia nova, assim também as exigências sempre novas do social ou da metafísica obrigam o artista a descobrir uma nova língua e novas técnicas."

"(...) a cada um de nossos atos, o mundo nos revela uma face nova."

"É o esforço conjugado do autor com o leitor que fará surgir esse objeto concreto e imaginário que é a obra do espírito."

"(...) a leitura é criação dirigida. (...) por um lado o objeto literário não tem outra substância a não ser a subjetividade do leitor (...) Assim, para o leitor tudo está por fazer e tudo já está feito; a obra só existe na exata medida de suas capacidades (...)."

"Escrever é, pois, ao mesmo tempo desvendar o mundo e propô-lo como tarefa à generosidade do leitor."

"(...) uma obra do espírito é naturalmente alusiva. Ainda que o propósito do autor seja dar a mais completa representação do seu objeto, ele jamais conta tudo (...)"

"(...) no fundo, deseja conservar a ordem social para nela sentir-se um perpétuo estranho."

"Marx, Engels, Lenin disseram mil vezes que a explicação pelas causas devia ceder o passo ao processo dialético, mas a dialética não se deixa confinar em fórmulas de catecismo."

*Jean-Paul Sartre in "Que é a literatura ?" Ed. Vozes. Petrópolis/RJ. 2015.

sábado, 18 de junho de 2016

Palcos e Tramas da Vida*


Representamos o mundo com nossas emoções, sentimentos e razões, ou não. Cada ser humano representa para si aquilo que sua alma vê, sente, ama, odeia, grita, silencia... Vamos construindo nosso mundo de acordo com os nossos olhares sobre a vida e os seus desdobramentos.

Uma senhora caminhava pela rua e contemplava as folhas sendo levadas pelo vento outonal... Sua amiga curiosa parou diante dela e lhe perguntou:
- Porque olha com tamanha ternura para estas folhas secas e sem vida?

Nisto aquela senhora com os olhos iluminados por um brilho distante respondeu:
- Não são folhas! São os meus sonhos que um dia o vento levou e nunca mais consegui alcançar.

Viver talvez seja está linda descoberta, de darmos significado ao momento presente, representando com nossas alegorias o que alma ainda não sabe nomear.

Caminhamos pela vida representando papéis, elaborando roteiros, despedindo personagens e contratando novos atores. Nos perdemos em tramas, e buscamos sempre um final feliz para a novela que criamos para nós mesmos.

Buscamos aplausos para os papéis que desempenhamos e choramos quando é preciso deixar o rascunho de um projeto inacabado e viver a obra original na qual estamos inscritos.

Talvez a vida seja mais bonita quando a alma faz dos sonhos uma aquarela de possibilidades e onde representamos não o ator coadjuvante, mas o personagem principal no palco da vida.

Pe. Flávio Sobreiro
Filósofo. Teólogo. Estudante de Filosofia Clínica
Cambuí/MG

sexta-feira, 17 de junho de 2016

O livro sobre nada*


É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.

*Manoel de Barros

quarta-feira, 15 de junho de 2016

(In) certos corações*


Tolo fui. Agora sei
Cultivei um jardim
Fora de época
E as rosas que brotavam
O gelo da geada gelada
As queimavam a cada manhã
É que havia perdido
O endereço da entrega
Das rosas que cuidei
Suspeito que ficaram sabendo
Murcham, por isso, ao tocá-las
Queimam-se ao frio da geada
Secam ao primeiro raio de sol
Elas me entendem
E sofrem comigo
Neste frio gelado.
Tolo fui. Errei de estação
E errei de coração
Deveria ter-me feito oleiro
Fazendo taças de vinho de barro
Reunido amigos e amados
E livros e cantos e danças
E junto à lareira
Beber vinho para espantar
O frio desta estação tão fria
Uma taça de vinho
Do barro da terra
A alegria
Os corações certos
E o calor dos amigos.

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Estudante na Casa da Filosofia Clínica.
Porto Alegre/RS

terça-feira, 14 de junho de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*



"Se amar bastasse, as coisas seriam simples. Quanto mais se ama, mais se consolida o absurdo. Don Juan não vai de mulher em mulher por falta de amor. É ridículo representá-lo como um iluminado em busca do amor total. Mas é justamente porque as ama com idêntico arroubo, e sempre com todo o seu ser, que precisa repetir essa doação e esse aprofundamento."

"Por que seria preciso amar raramente para amar muito ?"

"'O espetáculo - diz Hamlet - é a armadilha com que vu capturar a consciência do rei'. Capturar é a expressão adequada. Pois a consciência anda rápido ou recua. É preciso pegá-la no voo, no momento inapreciável em que lança um olhar fugidio sobre si mesma."

"Sabendo que não há causas vitoriosas, gosto das causas perdidas: elas exigem uma alam inteira, tanto na derrota quanto nas vitórias passageiras."

"Ao mesmo tempo, sua única força é a criação contínua e inapreciável à qual se entregam, todos os dias de sua vida, o comediante, o conquistador e todos os homens absurdos."

"O artista, tanto quanto o pensador, compromete-se com sua obra e se transforma dentro dela."

"Toda a arte de Kafka consiste em obrigar o leitor a reler."

"O mundo de Kafka é na verdade um universo indizível onde o homem se dá o luxo torturante de pescar numa banheira, mesmo sabendo que dali não sairá nada."

"(...) Sua obra é universal na medida que nela aparece o rosto comovente do homem fugindo da humanidade, extraindo de suas contradições razões para acreditar e de seus desesperos fecundos razões para esperar, e chamando de vida sua apavorante aprendizagem da morte."

"Como as grandes obras, os sentimentos profundos significam sempre mais do que têm consciência de dizer."

"(...) o absurdo é o pecado sem Deus."

"Pensar é reaprender a ver (...)."

*Albert Camus in "O mito de Sísifo". Ed. Record RJ. 2005

segunda-feira, 13 de junho de 2016

O coração e as palavras*


Andavam de um lado para o outro. Corriam, juntavam-se e separavam-se. Grupos de três, quatro ou um bando. Revezavam-se e trocavam de lugar, mas ele ria-se delas! Ria-se o coração, das palavras tentando dizer o que nele havia.

A certa altura, com ar cansado e condescendente, chamou-as para acompanhá-lo a um passeio. Levou-as a um parque, com flores de muitas cores, árvores ao redor de uma balaustrada branca que cercava uma área de grama verde, sobre a qual brincavam um menininho e dois cachorros, um maior e outro menor.

Divertia-se muito o menino, corria, tropeçava e caía para em seguida ser completamente lambido pelos amigos abanando seus rabos felizes! - Viram? Disse ele. - É isso! Então, algumas se foram desconsoladas.

Outras ficaram pra contemplar a cena mais um pouco, e, rendidas finalmente, concluíram que embora sentissem exatamente o que era, seriam incapazes de dizer aquilo!

Foram-se algumas, decididas que dali por diante iriam bailar, melhor era divertirem-se, pois sabiam que para o coração, a linguagem era outra.

*Valter Bende
Filósofo Clínico
Campo Grande/MS

domingo, 12 de junho de 2016

Por Não Estarem Distraídos*


Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles.

Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos!

Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali.

Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram.

Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

*Clarice Lispector

sábado, 11 de junho de 2016

Localização Existencial I*


Onde habitam nossos pensamentos ?

Talvez você nunca tenha parado para perceber a localização das coisas que lhe constituem enquanto sujeito. Talvez nunca tenha parado para localizar o seu pensamento, as suas emoções, as suas sensações. Talvez acredite que seu corpo estar em um lugar signifique que você também ali esteja, não é?

Trabalho em consultório com um método denominado Filosofia Clínica. Nele há algo chamado de Espacialidade, ou seja, a localização daquilo que habita dentro de cada um de nós. É algo simples e que pode nos livrar de uma série de problemas.

Certas queixas relacionadas a este assunto têm trazido muitas pessoas ao consultório ultimamente. Entre as frases que mais lhes exemplificam estão estas: nada tem graça nessa vida; não consigo curtir as coisas; não me sinto em paz esteja onde estiver; meus pensamentos não me deixam dormir; parece que nunca consigo descansar, sentir paz. Muitos destes sujeitos relatam uma constante sensação de que elementos sensoriais já não fazem mais efeito sobre o seu pensamento, as suas emoções, a sua alma. São pessoas que parecem não mais sentir seu corpo, exceto quando este começa a reclamar, a somatizar e a se tornar um problema.

Costumeiramente caminho em certos lugares desta bela Chapecó, tais como o Eco parque, e percebo fenômenos curiosos intimamente ligados a tais queixas. Por exemplo, por aquele lindo lugar, cheio de árvores, flores, água e até mesmo frutos, dependendo da época do ano, dezenas de pessoas encontram-se caminhando, seja sozinhas ou acompanhadas. Quase todas, porém, possuem algo em comum, parecem não estarem lá. E de fato, muitas delas não estão. Isto por que encontrar-se fisicamente em um lugar não significa estar de fato nele.

Como seria caminhar por um belo lugar como aquele estando de fato nele? Seria vivenciar o que ali existe. Seria sentir a terra e as pedras sob nossos pés, coisa que grossos tênis normalmente não permitem. Seria sentir o cheiro das amoras amadurecendo, o odor dos eucaliptos, curtir aquele pedacinho de mata, observar o pequeno lago. 

Seria vivenciar fisicamente aquelas belas árvores, e curiosamente a maioria das pessoas que por lá passa diariamente nunca tocou em uma delas. Seria se alegrar com o sorriso daquelas crianças correndo, entrando e saindo pelo parquinho infantil. Seria perceber o vento que faz aquelas altas árvores emitirem sons tão calmos em meio a uma cidade tão barulhenta. E claro, cada pessoa faz isso ao seu modo.

Porém, o que costuma se passar? As pessoas ali adentram e em questão de cinco, dez segundos, já estão pensando nos seus filhos, maridos ou esposas. Dali o pensamento delas já as leva para um compromisso do trabalho, o que segundos depois já as faz pensar naquilo que farão amanhã. E quando percebem estão irritadas, lembram-se de algo ruim e caminham mais rápido. E então, dez minutos depois, percebem que acabaram de dar a volta completa pela pista de caminhada. Param então para tomar água e voltam a fisicamente caminhar por aquele lindo lugar e seu pensamento volta a habitar em lugares abstratos, caóticos, aleatórios e muitas vezes "infernais".

*Gilberto Sendtko
Filósofo Clínico
Chapecó/SC

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Motivo da rosa*


Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim. 

Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim. 

Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim. 

E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.

*Cecília Meireles

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Descrituras*

                                        

Uma redação se faz página cotidiana na vida de qualquer pessoa, quer ela entenda ou não. Algo que restaria esquecido, não fora a ousadia semiótica a tentar decifrar essa trama de códigos imperfeitos. Por esse esboço a lógica descritura se incompleta para prosseguir inconclusa, aberta, viva.

Nem sempre se escolhe escrever, muitas vezes são as palavras a escolher você para dizer suas coisas. Conteúdos de rascunho, ilação, percepção extemporânea de ideias, reflexão. Aproximações com a zona interdita das margens de cada um.

O tempo aprecia conceder eficácia de tradução aos traços persistentes. O sujeito prisioneiro dessa armadilha conceitual experimenta liberdades nem sempre possíveis de mencionar na forma retórica. A relação do universo singular com o mundo dos outros aprecia se realizar em manuscritos compartilhados.

A trama constitutiva dos termos agendados exibe escolhas se desenvolvendo na pessoa fonte de vivências, como trânsito a mencionar labirintos desmerecidos. Esse olhar inédito a conter invisibilidades se aproxima de um intermediário entre o antes e o depois.

Um refém sugere seu extraordinário teor discursivo em dialetos de novidade. Quiçá à espera de algo que o mantenha vivo, um pouco antes de ser verdade cristalizada nalguma forma de religião. A desnecessidade aparece, ao autor dessas linhas, como um lugar provisório em busca dos textos por vir.

No encontro do acaso com a definição o sujeito desdobra-se numa linha tênue, por onde entreve seu ser passando. Assim as releituras podem conseguir um vislumbre desses traços mal_ditos.  Nalguns instantes a invenção de palavras pode sugerir a visão do paraíso pessoal.

Essa teia de signos possui intencionalidade transbordante, a qual, longe da singularidade que a produz nada é. Sua ameaça às certezas oscila com a frequência das interseções do seu entorno. Os rituais de autodescoberta esparramam vestígios de arquitetura indizível. Quiçá tentativa de expandir a janela diante do espelho.

Escreve-se por não saber por que. Quando se sabe já são outras as razões. Nessa dialética da expressividade a descritura pode aproximar o sonho da vida real. Já é outro aquele mesmo que se foi. Convivência absurda a parir virgindades. 

*Hélio Strassburger

terça-feira, 7 de junho de 2016

Embriaguem-se*


É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.

Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.

E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: "É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso". 

Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.

*Charles Baudelaire

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Vira e mexe*


Vira e mexe
Ela ficava assim
Mexia bem fundo
Mexia com a vida
Mexia a sopa
Chutava o balde
Mexia o vespeiro
Com vara bem curta
Mexia com a onça
De peito aberto.
Vira e mexe
Ela assim ficava
Virava a vida
De ponta cabeça
Virava uma fera
Quebrava os copos
Virava maluca
De tanto certinha
Virava-se em outra
Virava santinha.
Mexe e vira
Mexia as cartas
Virava-se do avesso
Mexia os pauzinhos
Virava a página
Virava a mesa
Mexia com todos
Mexia em tudo
Virava o jogo
Virava silêncio
Volta e meia
Sem mais
Nem menos...

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS