sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*



"(...) Não pode imaginar o quanto é amargo para mim quando as pessoas não me compreendem, quando deturpam o que eu disse e veem tudo distinto do que eu pensei.."

"Querido irmão, Perdoe-me por não ter escrito antes. Estou tendo, como de costume, um monte de aborrecimentos para resolver. Meu romance, do qual simplesmente não consigo fugir, mantém-me eternamente trabalhando. Se eu soubesse de antemão como seria isso, eu jamais teria começado a escrevê-lo. Decidi refazê-lo totalmente e, meu Deus, como isso fez o texto melhorar."

"(...) Estive apaixonado pela esposa de Panaiev, mas passou, ainda que siga pensando nela. Minha saúde está terrivelmente abalada. Estou neurótico e temo ficar febril a qualquer momento. Não consigo viver decentemente, sou um dissoluto. Se não conseguir me banhar no mar durante o verão, serei um desgraçado. Adeus. Por favor, escreva. Perdoe-me por essa carta desajeitada. Eu estou com pressa. Um beijo, meu irmão. Seu, Dostoiévski."

"A cada dia surgem tantas novidades, tantas mudanças e impressões, coisas boas e agradáveis, outras desvantajosas e desagradáveis, que não tenho tempo para refletir sobre elas. Em primeiro lugar, estou sempre ocupado. Tenho montes de ideias e escrevo incessantemente. Mas não pense que para mim isso seja um mar de rosas. Longe disso."

"Mais uma vez, muito obrigado pelos livros. Eles distraem-me mais que qualquer outra coisa. Por quase cinco meses tenho vivido exclusivamente de minhas próprias provisões - ou seja, de minha própria mente e apenas dela."

"Meu tão querido irmão! Tudo está resolvido! Fui sentenciado a quatro anos de trabalhos forçados em uma fortaleza (ao que tudo indica, Orenburg), e depois, alistamento como soldado raso."

"Escreva para mim mais vezes, e com mais detalhes, cartas mais extensas. Alongue-se nos assuntos familiares, nas bagatelas, não se esqueça disso. Isso me trará esperança e vida. Se você soubesse como suas cartas confortaram-me na prisão..."

"Fico imensamente feliz por ter descoberto que trago paciência em minha alma por tanto tempo, que não desejo as coisas materiais e não preciso de nada mais que livros e a possibilidade de escrever e de estar sozinho por algumas horas todos os dias. Esse último desejo é o que mais me angustia. Por quase cinco anos tenho estado sob constante vigilância, ou com várias outras pessoas, e nem uma hora sequer sozinho comigo mesmo."

"A constante companhia de outros funciona como um veneno ou uma praga;"

"(...) Vivo sozinho aqui. Como de costume, escondo-me das pessoas. Depois de cinco anos de contínua vigilância, um de meus grandes prazeres é ter meus momentos de solidão." 

"Até breve, meu querido amigo. Perdoe-me pel incoerência desta carta. Nunca se escreve apropriadamente em uma carta. (...) Quem sabe ? Talvez eu possa estreitá-lo em meus braços novamente. Permita-nos Deus! E pelo amor de Deus, não mostre esta carta a nonguém (absolutamente ninguém!) Um abraço. Seu, Dostoiévski."

*Fiodor Dostoiévski in "Dostoiévski: correspondências 1838-1880" Ed. 8Inverso. Porto Alegre/RS. 2011.

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