quarta-feira, 23 de novembro de 2016

A cidade das palavras esquecidas*


“É possível que desde Sófocles todos nós sejamos selvagens tatuados. Mas na Arte existe alguma outra coisa além da retidão das linhas e do polido das superfícies. A plástica do estilo não é tão ampla como toda a ideia (...) Temos coisas demais para as formas que possuímos”
                              Flaubert

Num cotidiano de atividade limite existe uma aproximação com a subjetividade do não dito. O não sentido concede vestígios ao artesão das palavras. Uma nova conjugação se anuncia na rasura do texto conhecido. Manuscritos assim costumam se expressar em linguagem própria.

A expressividade desses fenômenos, um pouco antes de significar-se no traço da autoria, se insinua nalguma forme de transbordamento. Sua subjetividade acolhe essa intencionalidade para resignificar seus dias. Busca compartilhada da contradição com a estrutura do delírio.  

Um leitor de incompletudes desvenda esses horizontes por vir. Sua atividade inclui rituais de tradução a essas páginas chegando. Acolhe a referência às lacunas como fonte de inspiração, descreve um lugar de integração para texto e contexto. As brumas contidas nos jogos de linguagem protegem seus ensaios estruturais.  

Nessa matriz de onde se apresentam as novas derivações, um devir compartilhado acolhe o que restaria distorcido. A quebra discursiva é um desses vestígios por onde a fala estrangeira se diz. Sua composição rasura a página com uma crônica absurda. Essa vontade distorcida, ao elaborar dialetos inusitados, se faz poesia existencial.  

A reciprocidade permite encontrar a fonte desses esboços desmerecidos. Neles a natureza, ao desajustar o mundo conhecido, se desdobra tal qual ela é. Seu devir libertário se expressa em linguagem própria. Nela a condição exilada rascunha seus propósitos, elabora significados, reapresenta-se ainda sem nexo.

É possível à multidão de personagens surgir em meio às poéticas clandestinas. Seu inesperado descreve uma fenomenologia do porvir. A compreensão dessas narrativas descreve um terapeuta da palavra fora de si. Sua percepção em sintonia lhe autoriza a transitar pela cidade das palavras esquecidas.  

*Hélio Strassburger

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