quinta-feira, 10 de novembro de 2016

A palavra vertigem*

 
   
"O idioma está sempre em movimento, mas o homem, por ocupar o centro do redemoinho, poucas vezes percebe essa mudança incessante."
                               Octávio Paz

Um ser irreconhecível se desdobra na expressividade fugaz. Seu aspecto de invasor ameaça o saber encastelado, seu ritmo alucinado de vivências subjetivas re_apresenta um devir quase esquecido. Ao pensar o impensável realiza uma excursão pela partícula de infinito desconsiderada. Sua ótica de incerteza desconstrói o mundo de uma só verdade. 
  
Os sons murmurados nas entrelinhas apresentam o instante entre um e outro. Sua lógica de estorvo, o caráter de percepção excessiva denuncia espaços, amplia escutas, vislumbra imaterialidades. As associações desgovernadas esboçam um contato com o absurdo. Parece recordar que a vida não tem ponto final. 

Sua estranha dialética é ser registro de uma ausência. Como um acesso de desrazão, seu teor de expressividade não cabe numa definição. Nas possibilidades entreabertas pelo discurso novo, uma sensação de embriaguez involuntária, gestada na própria estrutura, ensaia lonjuras. 
 
A palavra vertigem aparece como um fundamento da lógica dos excessos. Em sua ótica de nuance se estabelecem múltiplos acenos. Como um não lugar em vias de acontecer, sua tensão desconfigurada e de viés imprevisível, interroga a vida para reinventar o sonho.      
     
Talvez sua maior contribuição seja precipitar novas verdades. Seu discurso, até então desconhecido, apresenta uma novidade em cada versão. Nessas idas e vindas percorre itinerários para acolher e descrever matérias-primas. Seu caráter obtuso expõe fragmentos na transgressão da estrada querendo partir.

Os deslocamentos da singularidade, quando em direção às ideias complexas, apresentam estéticas não lapidadas. O deslize da pena do autor, pelos subúrbios inclassificáveis da reciprocidade, tenta apontar o refúgio dos inéditos.

Numa perspectiva de lógica delirante, ao decifrar sua linguagem, é possível se ter subjetividade, tempo e lugar como integrantes da mesma estrutura de pensamento. Nela o teor precursor reivindica a palavra vertigem em poéticas da não-lucidez. 

*Hélio Strassburger

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