sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Ainda estamos juntos*


Sonhei com meu pai. Estava com uma aparência saudável, avental de médico e muito animado. Chamou-me para ver o consultório que montara em seu novo plano existencial. Se quiserem, também podem chamar de céu. Era um consultório nos mesmos moldes que mantinha aqui na terra: papel de parede diferenciado, grande sala de espera, aquário com peixinhos, poltronas confortáveis, diplomas e quadros nas paredes.

Disse-me que demorou quase um ano para se ajeitar por lá, mas que agora já estava em condições de atender seus clientes. Parecia feliz em mostrar sua adaptação.

Despertei e não me preocupei em interpretar nada. Signifiquei apenas que a partida dele foi tranqüila, que estava bem por lá, que mantinha conexão comigo. Passei a manhã inteira animado e com uma sensação de leveza, missão cumprida e proteção espiritual. Bateu uma saudade forte também.

Acontece que sendo filósofo, não pude me furtar de pensar que onde quer que meu pai esteja, seu consultório não terá poltronas, mesas, estetoscópios, quadros. Até onde eu saiba, lá em cima não existe corpo, não há matéria. No sonho, desloquei-me até lá, mas fui com a visão de mundo terrena, com aquilo que conheço, com as idéias que me povoam.

Não entrei verdadeiramente em sua morada atual, não sei como funcionam as coisas por lá. Para mim é algo muito vago, confuso, misterioso, e até certo ponto, impenetrável para quem ainda reside num corpo. Meu subconsciente fez de conta que fui até lá, mas certamente o consultório dele é bem diferente do que sonhei, o que não diminuiu, de forma alguma, o prazer de sonhar com meu pai.

Fazemos este mesmo tipo de confusão conceitual quando tentamos nos colocar no lugar do outro e sentir o que esta pessoa sentiria, caso estivéssemos na mesma situação vivenciada por ela. Pedro está desanimado porque perdeu o emprego e vem pedir minha ajuda. Marta terminou um relacionamento, quer ouvir meu conselho. Não tenho a menor noção de como são seus mundos, suas buscas, sentimentos, princípios. Como ajudá-los?

Na maior parte dos casos em que nos dispomos a auxiliar, apenas acolhemos o outro com a bagagem de nossas próprias experiências, com as idéias, preconceitos e valores que nos habitam. Não entramos em seus mundos de fato, limitamo-nos , apressadamente, a dizer algumas palavras de consolo.

Escutar é diferente de entender, e entender é diferente de sentir. Quando digo que entendo o sofrimento de Pedro ou Marta, permaneço em meu mundo lógico e racional tentando confortá-los, mas não vou ao universo deles. A intenção pode ser boa, mas a viagem até o outro não acontece e o sentimento não se transmite. Faço de conta que entrei na pele deles, mas levando comigo meu cérebro particular, limitado e parcial, mais ou menos como tentei entrar no céu com meu corpo físico.

Sentir é ir além, é ultrapassar a fronteira do entender. Sentir é chorar junto com Pedro e Marta, como se a dor e o problema deles fossem meus. Não é dizer o que eu faria se estivesse em seus lugares ou tratá-los como eu gostaria de ser tratado. Sentir é entrar em suas histórias, envolvendo e identificando-me com eles. Um sorriso, uma lágrima, um abraço, podem falar mais que palavras.

Quando o outro abre a porta e me permite entrar em seu território sagrado, humildemente entro despido de considerações ou pareceres. Meus julgamentos precisam ficar do lado de fora.  Estou transpondo um portal desconhecido imensurável, entrarei para sentir, não para ajuizar. O mundo do outro funciona como o consultório de meu pai no céu: desconhecido e amplo.

Possuo um arsenal de ferramentas que costumo empregar para resolver meus problemas, mas não sei se Pedro e Marta sabem utilizá-las, querem que eu as empreste ou funcionarão em suas vidas. Não posso barbaramente invadir seus mundos com minhas ferramentas e sair dizendo como devem se comportar. Meus conselhos refletem minha forma de pensar e sentir, que é diferente de Pedro, que é diferente de Marta.

Em muitos casos, sequer consegue-se chegar perto do mundo do outro. Apesar da porta aberta, não estamos prontos para entrar, a distância existencial é enorme. Um bebê não consegue entrar no mundo de um idoso, faltam-lhe vivências. Casais podem se distanciar emocionalmente, pais relatam desconhecer seus filhos, pacientes nem sempre alcançam seus terapeutas, leitores podem não entender escritores. Patamares autogênicos diferentes, visões de mundo diversas. Não existe regra, mas parece mais fácil ao sábio descer de seu patamar e ir ao encontro do outro para que a aproximação aconteça.

Foi o meu caso. Como não consegui alcançar o plano existencial elevado de meu pai, ele veio até mim através de um sonho.  Sabiamente utilizou as ferramentas que conheço, para se comunicar e me fazer sentir que ainda estávamos juntos. Simples assim. Não cabem suposições ou conjecturas. “Ainda estamos juntos”, foi o recado dado, meramente isto. Ou melhor, tudo isto. De uma forma ou de outra, quando existe amor, as portas nunca fecham.

*Ildo Meyer. Médico. Filósofo Clínico.
Porto Alegre/RS

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