quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Eu não tenho nenhuma espécie de superstição pelos nossos títulos escolares ou universitários; eles dão algumas vezes algum saber profissional, muito restrito e ronceiro, e nunca uma verdadeira cultura"

"Os leitores hão de dizer que não era possível encontrar isso numa casa de loucos. É um engano; há muitas formas de loucura e algumas permitem aos doentes momentos de verdadeira e completa lucidez"

"Digo com franqueza, cem anos que viva eu, nunca poderão apagar-me da minha memória essas humilhações que sofri"

"Esta passagem várias vezes no hospício e outros hospitais deu-me não sei que dolorosa angústia de viver que eu me parece ser sem remédio a minha dor"

"Caído aqui (hospício), todos os médicos temem pôr logo o doente na rua. A sua ciência é muito curta, muito prevê; mas seguro morreu de velho e é melhor empregar o processo da Idade Média: a reclusão"  

"Amaciado um pouco, tirando dele a brutalidade do acorrentamento, das surras, a superstição de rezas, exorcismo, bruxarias, etc., o nosso sistema de tratamento da loucura ainda é o da Idade Média: o sequestro"

"Aqui no hospício, com as suas divisões de classes, de vestuário, etc, eu só vejo um cemitério (...) a loucura zomba de todas as vaidades e mergulha todos no insondável mar de seus caprichos incompreensíveis"

"Todos eles estão na mão de um poder que é mais forte do que a Morte"

"(...) fora da humanidade, só ligado a ela pelos livros preciosos, notáveis ou não, que me houvessem impressionado, sem ligação sentimental alguma no planeta, vivendo no meu sonho, no mundo estranho que não me compreendia a mágoa (...) no meio de maravilhas"

"(...) crítica que, neste e naquele ponto, já vinha sendo feita pelos espíritos mais livres, mais ousados, libertos das tiranias da tradição das academias e universidades"

*Lima Barreto in "O cemitério dos vivos". Ed. Planeta. SP. 2009

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