quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) o Viajante curioso é para o Passageiro responsável aproximadamente o que o camaleão era para o urso. O primeiro investigador, etnógrafo, no limite, espião, para recolher conhecimento, tem antes de mais nada necessidade de se fazer admitir no espaço-tempo onde transita: é por isto que, seja qual for o lugar onde se introduz, ele tem que se disfarçar segundo a 'cor local', até quase confundir-se com o Outro, sem chegar, no entanto, jamais a querer se fundir nessa identidade diferente (...)"

"(...) Desse ponto de vista, a mudança, esperada, desejada, assumida, torna-se paradoxalmente produtora de identidade. Aderir a ela, não é nesse caso 'morrer um pouco' deixando partir, como o que foi, uma parte de si que não será mais: é talvez, exatamente ao contrário, um dos meios mais elementares de afirmar sua própria existência, tanto ao olhar de si mesmo como diante de outrem. É mudar se não 'a vida', em todo caso, o sentido de sua própria vida"

"Se o devir pressupõe logicamente o ser, a certeza de ser 'eu' pressupõe, por sua vez, a experiência - a visão, no caso, retrospectiva - de meu próprio devir. Fortuita ou deliberada, a ressurreição autobiográfica  do passado é um meio privilegiado de prover a isso"

"Como numa espécie de intercâmbio, cada um dos dois universos empresta ao outro uma parte essencial do que o caracteriza, de tal modo que, embora permanecendo em princípio distintas, as duas ordens de fenômenos terminam, na prática dos agentes sociais, por se juntar, se assemelhar, e com frequência quase se confundir"

"Visitante por princípio respeitador dos equilíbrios que fundam a especificidade de um lugar ou de um meio estrangeiros, ele rejeita a ideia de os perturbar por sua presença ou sua ação. As paisagens que ele admira, tal como os espaços sociais, secretam cada um, ele o sabe, sua temporalidade própria para quem os sabe 'ler'"

*Eric Landowski in "Presenças do outro". Ed. Perspectiva. SP. 2002. 

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