sábado, 17 de dezembro de 2016

Leitor incomum*


“(...) Suas palavras chegavam aonde outros não conseguiam.”
                    Virginia Woolf

Um dizer protagonista aprecia surgir na vida do texto. Sua mensagem parece se divertir em passar despercebida a primeira vista. A textura inaudita ressoa poesia, musicalidade, convida ao sonho da vida real.

Sua eficácia parece estar associada à multiplicação dos significados, reinvenção dos sentidos, descrição de um discurso a se traduzir como a própria autoria. Com ele a pluralidade de eventos, personagens se desdobra nas páginas da obra, uma trama convidativa às transgressões do leitor singular.   

A essência da leitura parece ser a qualidade da interseção entre autor e leitor. As revisitas ao teor discursivo inicial, recheado de nuanças, brechas, incompletudes, dão boas vindas ao estranhamento dos originais. Esses momentos restariam perdidos sem a aptidão multiplicadora das palavras.  
  
Uma de suas expressividades é apontar o que não pode ser dito naquilo que se diz. Assim uma apercepção se desenha nos refúgios da folha recheada de frases, parágrafos, conjugações. Seus acenos sugerem segredos à deriva da vontade inicial.  
   
A relação leitor_autor, ao transcrever os trajetos por si mesmo, reivindica leituras e releituras para compreender a lógica das fontes. Lugar de onde a poética evidencia rastros ao território das originalidades. As páginas diante de si se instituem como vivencias subjetivas. 

   O leitor, agora autor impróprio, a partir dos enredos de transgressão, concede suas próprias representações ao texto de partida. A biografia de cada um pode ser descoberta na escolha dos termos, nos encontros da estrutura significante com as derivações da leitura incomum. Essa prática reivindica um saber de periferia, onde o pensar de um é o pensar de outro.

A intencionalidade dos rascunhos se oferece na descrição literal para transbordar na palavra transcendência. Fonte de matéria-prima onde a escritura se abastece para transcrever suas visões. Ao ser esboço numa arquitetura pessoal, aguarda a interseção para traduzir singularidades.

*Hélio Strassburger

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