quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

O Artesão das Manhãs*


Quando nasci, as manhãs tinham tonalidades de esperança. Meu primeiro sorriso guardava a pureza das flores mais belas. A liturgia do tempo sacramentalizava minha simplicidade. Descobri-me ser humano antes mesmo de saber que eu viria a ser. Fui tecido com tramas de amor e pontos de ternura. Construí-me na pluralidade das descobertas e na singularidade dos meus gostos.

E foram tantos os desgostos, que de agosto a agosto as estações foram cumprindo seu ritual de invernos e primaveras. Hoje encontro-me em tempos que não me reconheço e em abraços que nunca recebi. Convivo com saudades que ainda não sei nomear. Descubro-me feliz em meio a infelicidades.

Continuo sendo recortado por palavras que no fio do silêncio sangram minhas memórias. A dor de tantos anos reaparece em noites estreladas que ao longe reacendem as esperanças de um novo alvorecer.

Saudade define meu ser que nas tardes sem perspectiva aos poucos repousa nos antônimos de meus medos.  Tantos verbos sem ação. Tantos sujeitos sem pronomes. Tantas mágoas sem lágrimas. Não foi fácil encontrar as pérolas que diziam  haver nas ostras. Fechadas não se permitiram revelar a beleza do encanto.

E de desencanto comecei a regar jardins e cultivar tulipas. Na matéria-prima do cuidado sementes germinaram em meio as dores e feridas. A tristeza por vezes chegava no solo seco dos sertões da decepção, porém afastava-as com o espantalho de outros pretéritos.

No composto da vida renasci dos mitos e desbravei cavernas. Hoje recolho as belezas dos aprendizados que vez ou outra nascem em meio as ervas daninhas que nascem à beira de tantos outros rincões que povoam minha alma.

Recolho flores e folhas secas. Nos canteiros de minha alma há sempre um espaço para o novo que o futuro do presente sempre inaugura nas estações do meu ser.

*Pe. Flávio Sobreiro
Teólogo. Filósofo. Escritor. Estudante de Filosofia Clínica.
Inconfidentes/MG

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