terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Apontamentos sobre a ótica das lacunas*



“(...) o que se encontra lá onde ninguém o tinha ainda encontrado (...)”
                                           Jacques Derrida

Uma incerta busca para oferecer depoimentos sobre os incríveis momentos na década de 90 me fez acreditar na possibilidade de divulgar, tal qual se apresentavam, os desdobramentos das primeiras sessões. Hoje vejo os eventos de consultório como instantes únicos, irrepetíveis e nem sempre possível de compartilhar.

Naqueles dias pensava em ter um registro das primeiras repercussões: críticas e ressentimentos, inseguranças e temores, esperanças e sonhos. Agora consigo ver melhor as desavenças iniciais como aliadas na legitimação do novo paradigma. Longe de desmerecer o método da filosofia clínica fortaleceram a ideia de paradoxo com aquilo que se buscava superar.

A conversação com amigos e colegas ia mostrando a melhor resposta para o infortúnio das verdades satisfeitas: trabalho, trabalho, trabalho. Não tínhamos tempo para o famigerado e interminável debate acadêmico e seus rituais delirantes de fogueira das vaidades. A internação em nossos espaços de atendimento buscava legitimá-los por eles mesmos. A relação de ajuda sustentando a própria relação de ajuda.

Dessa época as atividades no PSF (programa de saúde da família) na Vila Alto Erechim em Porto Alegre, uma comunidade desassistida de 2.500 pessoas. No início tínhamos um barraco velho para atender, quando um profissional entrava o outro tinha de sair. O apoio gigantesco das agentes comunitárias, indo de casa em casa e oferecendo filosofia clínica lotou o consultório. Uma atuação clandestina e distante das disputas políticas da prefeitura. Um tempo de desafios e incrível beleza.

Sua continuidade era sustentada pelo sonho de dias melhores e na interseção com a comunidade. Os atendimentos priorizavam a população periférica e abandonada da capital gaúcha. Na clínica particular os desafios não eram menores.

Essa constatação sobre a timidez das palavras para se tentar descrever os eventos da terapia veio depois. Comecei a observar a pobreza dos exemplos quando relatados, os quais desmereciam a atmosfera fantástica dos encontros.

Aquele texto de teor preliminar teve sua importância como anúncio, inclusive deixando entrevistas de haver muito mais. A disposição dos primeiros anos de consultório, a mescla de sentimentos, percepções e desconstruções ajudam a melhorar o ser filósofo clínico. Ainda assim, a interseção aprendiz prossegue como uma incerta arte da reciprocidade. As leituras e releituras dos textos e contextos mostram um velho iniciante na concepção clínica da filosofia.

Na poética de Marcel Proust: ‘Não compreendia que misteriosa semelhança unia minhas dores aos mistérios solenes que se celebravam nos bosques, no céu e sobre o mar, mas sentia que sua explicação, seu consolo, seu perdão fora proferido, e o fato de a minha inteligência não estar a par do segredo não fazia a menor diferença, já que meu coração o entendia tão bem’.

A elaboração do novo paradigma não vem acontecendo somente com a pesquisa bibliográfica. A ela se associam a matéria-prima das práticas discursivas, consultorias, aulas, clínicas. Inacreditável  saber por onde a realidade se emancipa em muitas outras. Um ponto absurdo em que a fenomenologia das sessões acontece.

Na releitura desse fragmento sinto a história como algo diferente, assim como sua autoria. Até mesmo as estéticas da errância possuem historicidade e sentido próprio. Nenhum gesto existe por si só, sua fundamentação reivindica escutas, diálogos e interseções com a fonte de onde partiu. A epistemologia forasteira se insinua por entremeios de uma vidência atemporal.  O lugar de ruptura com as certezas também se oferece na ocasião distraída de si mesma. A novidade contida na palavra falada possui intencionalidade sem pressa de tradução.

A incrível farmácia da natureza aprecia invisibilidades para se esconder e se mostrar. Seu padrão de esquiva cuida de torna-la inacreditável aos olhos da ciência normal. Em um jeito mundano de ser, esboça seu saber andarilho, compartilhando indícios de uma prática para vislumbrar raridades.
À primeira vista, parecem ser os enganos que melhor se apresentam. As hermenêuticas da convicção são as preferidas das armadilhas do olhar. Talvez os sussurros da inconclusão desvendem a vida extraordinária, cujos sinais se refletem ao seu redor. Que sabe a fenomenologia das coisas possa encontrar abrigo no vocabulário por inventar.

Essa perspectiva de copresença dos eventos desconsiderados possui linguagem aforística e de saber imprevisível, aprecia se oferecer no espanto dos relatos incompreendidos. Sua ótica de lacuna revela apontamentos até então irreconhecíveis. A expressividade assim disposta possui seus próprios rituais na estrutura do dizer. Sem algum viés compartilhável podem ficar uma vida inteira desmerecidos.

O mundo longe das aparências também faz escolhas, um agora de quase tudo segue indecifrável pela lógica das premissas. Num contexto em que nada é muito verdadeiro, outras amanhãs se preparam.

*Hélio Strassburger in “Pérolas imperfeitas. Apontamentos sobre as lógicas do improvável”. Editora Sulina. Porto Alegre/RS. 2012.

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