quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


" (...) a rua tem alma!"

"A rua continua matando substantivos, transformando a significação dos termos, impondo aos dicionários as palavras que inventa, criando o calão que é o patrimônio clássico dos léxicons futuros"

"Para compreender a psicologia da rua não basta gozar-lhe as delícias como se goza o calor do sol e o lirismo do luar. É preciso ter espírito vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo incompreensível, é preciso ser aquele que chamamos flâneur e praticar o mais interessante dos esportes - a arte de flanar"

"(...) ruas melancólicas, da tristeza dos poetas; ruas de prazer suspeito próximas do centro urbano e como que dele muito afastadas; ruas de paixão romântica, que pedem virgens loiras e luar"

"Qual de vós já passou a noite em claro ouvindo o segredo de cada rua ? Qual de vós já sentiu o mistério, o sono, o vício, as ideias de cada bairro ?"

"(...) são ruas da proximidade do mar, ruas viajadas, com a visão de outros horizontes"

"Se as ruas são entes vivos, as ruas pensam, têm ideias, filosofia e religião. Há ruas inteiramente católicas, ruas protestantes, ruas livres-pensadoras e até ruas sem religião"

"As ruas têm os rolos, as casas mal-assombradas, e há até ruas possessas, com o diabo no corpo"

"Mas a quem não fará sonhar a rua ? A sua influência é fatal na palheta dos pintores, na alma dos poetas, no cérebro das multidões"

*João do Rio in "A alma encantadora das ruas. Ed. Cia de Bolso. SP. 2009.

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