quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) esses grandes continuadores da literatura tradicional em todas as suas possíveis gamas não cabem mais dentro dela, são acossados pela obscura intuição de que alguma coisa excede as suas obras, de que quando vão fechar a mala de cada livro há mangas e fitas penduradas para fora e é impossível encerrar"

"(...) se alguém se levanta como Holderlin nos alvores do romantismo ou como Mallarmé em sua decadência, esse alguém segue cegamente a intuição infalível que o encaminha à linguagem poética, não estética, linguagem em que é possível superar as limitações do verbo por via da imagem - essa ideia do verbo que os homens poetas conseguem apreender e formular" 

"Os escritores ampliam as possibilidades do idioma, levam-no ao limite, buscando sempre uma expressão mais imediata, mais próxima do fato em si que sentem e querem manifestar, quer dizer, uma expressão não-estética, não-literária, não-idiomática. O escritor é o inimigo potencial - e hoje já atual - do idioma. O gramático sabe disso e portanto está sempre vigilante, denunciando tropelias e transgressões, aterrado diante desse deslocamento paulatino de um mecanismo que ele concebe, ordena e fixa como uma perfeita, infalível máquina de enunciação"

"(...) uma poderosa investida de dentro para fora, a intenção primordialmente estética do literário, certa construção verbal se dá hoje como atividade coexistente com a atividade total de seu autor, e faz parte de sua integral expressão humana"

"Há um estado de intuição para o qual a realidade, seja ela qual for, só pode ser formulada poeticamente, dentro de modos poemáticos, narrativos, dramáticos: e isso porque a realidade, seja ela qual for, só se revela poeticamente"

"A rigor, não existe nenhum texto surrealista discursivo; os discursos surrealistas são imagens amplificadas, poemas em prosa no sentido mais fundo da expressão, em que o discurso sempre tem (...) uma referência extradiscursiva"

*Cortázar, Julio. "Obra crítica 1". Ed. Civilização brasileira. RJ. 1998.

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