sábado, 7 de janeiro de 2017

Migrante na linguagem*

“Eis como meu gosto pessoal, ligado à finitude dos prazeres materiais, adquire uma dimensão infinita, imaterial, espiritual.”
José Gil (A imagem-nua e as pequenas percepções)

Ainda existe o jamais ouvido, o nunca lido, aquele que nunca foi trilhado pelos olhos? Há! O que vive é o que já está prestes ao vivido. Depois é tudo passado. Pois, o que o corpo quer é só mesmo mostrar ao Outro o que a ele não lhe pertence.

O desejo de pertencimento deixa de ser o melhor, o que vive do outro lado do rio é que se quer. A meu ver, só para ser manter no espaço do inaudito, o que quero primeiro é ter este pertencimento. Por dentro, até o fundo de todas as cores, o que o olho alcança não é limite para o sentir.

A letra tem sua tradução. O purista que me perdoa, ele só quer ser inaudito para dificultar o olhar do que possa deslegitimá-lo.  Esse é só um mais tradutor seco, não é um transcriador. Precisamos de quem possa ler ao mundo toda a produção, que possa ir além de sua fronteira. Os nacionalismos correm esse risco, de confinar novamente a criação, de eleger o melhor e depois transformar em um produto inalcançável.

O seco, o tinteiro do tempo permanece úmido da última poética. Imagem estonteante ao migrante que descobre a língua distante. O que não é dele não tem dono. Entra pelo mundo com sua dor, sua fuga, ele não quer saber de religião, não deseja um país tal qual ele conhecia.

Quer poder sentir a possibilidade de pensar em viver mais do que só o presente imóvel. Quer acordar, planejar atravessar a rua até uma praça, ver gente sorrir, crianças despojadas da moralidade imposta.
O desejo do migrante é mais sagrado do que a leitura inaudita do leitor. Ele quer todos ao mesmo tempo. Uma nova forma de criar pode ir aquém do tempo, como as mulheres escravas da Idade Média que faziam sarja com a lã do senhorio, que engordavam a vida dos donos, moeda de troca, do local que existia do outro lado da cidade.

Hoje, escravidão está no inominável sentimento de posse para depois se deixar como enriquecimento, tal qual a produção da lã, a criação é querer ser dono de uma cultura e render bônus entre os pares. Existe o inaudito, mas na fuga, na tangente que a linguagem se forma e destrói o que vem por todos os lados, na “communio spiritus”, na trânsfuga das línguas o corpo em massa é um levante, a revolta sem cátedra. Onde estão os leitores deste tempo?

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

Nenhum comentário:

Postar um comentário