domingo, 1 de janeiro de 2017

Quando nosso corpo virou uma máquina*


Na última coluna vimos que algumas pessoas encontram-se caminhando por lindos lugares da nossa cidade, tais como o Ecoparque, mas que não estão lá de fato, pelo menos não do ponto de vista do seu pensamento, das suas emoções, das suas ideias. Vimos que uma das consequências de ter isto como um padrão é a dissociação entre corpo e mente, entre o ambiente em que estamos e o que se passa dentro de nós. A pessoa fica com o seu pensamento pulando de quadro em quadro, de ideia em ideia, de coisas boas do nada para coisas horríveis.

Entre as consequências usuais destes padrões de espacialidade encontram-se queixas como o fato de a pessoa não ver mais graça de estar em lugar algum, não importa o quanto belo ele seja, e assim acaba se fechando em casa, em uma sala muitas vezes escura, de janelas fechadas, como se o mundo lhe fizesse mal.

Outras vezes a pessoa reclama que nada mais lhe agrada, que não consegue saborear uma boa comida, que não consegue sentir atrações físicas pela esposa ou marido, que são pobres de um ponto de vista sensorial. Sente-se como se seu corpo tivesse se tornado apenas um veículo de carga, levando ela de um lado para o outro, quase como uma máquina, insensível, morta.

Também não é incomum que pessoas assim caminhem para coisas grotescas, extravagantes, como se estando anestesiadas para a vida precisassem de coisas cada vez maiores, caminhando rumo a atitudes primeiramente radicais, depois perigosas, depois proibidas, algumas acabam até precisando do uso de drogas para conseguirem “sentir algo”, ou, como elas mesmas dizem, “se sentirem vivas”.

Quando escutam uma música suave, por exemplo, isso lhes incomoda, pois seus corpos só funcionam a base de “fortes batidas”, tendo perdido a sensibilidade, a delicadeza, a capacidade de viverem coisas brandas e consequentemente coisas como paz, serenidade e quietude. Filosoficamente falando, não há nada de errado ou feio em habitar em mundos como estes, porém eu duvido que a maioria das pessoas goste de assim estar. Estes efeitos tendem a se potencializar quando na Estrutura de Pensamento do sujeito a corporeidade tiver desempenhado um papel significativo na sua construção histórica. 

Querido leitor, pare e reflita um pouco. Quando você era criança, jovem, adolescente, as vivências corporais constituíam uma parte importante de você? Coisas como andar de bicicleta, sentir a água de um rio, o gosto de um sorvete, o toque com a pele de outrem eram importantes? 

Hoje você se encontra afastado disso tudo? Encontra-se padecendo em mundos mentais dolorosos, problemáticos e sem gosto? É curioso como alguns estão tão dissociados da sua identidade corpórea que não conseguem, por exemplo, entender quando os seus filhos ou netos precisam se exercitar, brincar, correr, se sujar, dando a impressão de que eles nunca fizeram isso nessa idade.

Se você se identificou com o tema deste mês ou acha que alguém próximo padece destes estados existenciais, acompanhe a coluna da próxima semana. 

*Gilberto Sendtko
Filósofo Clínico
Chapecó/SC

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