terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) que mais poderia convir à Loucura do que ser o arauto do próprio mérito e fazer ecoar por toda parte os seus próprios louvores ? Quem poderá pintar-me com mais fidelidade do que eu mesma ?"

"(...) os meus progenitores não eram ligados pelo matrimônio (...) Sou filha do prazer e o amor livre presidiu ao meu nascimento. (...) Nasci nas ilhas Fortunadas, (...) Não se sabe, ali, o que sejam o trabalho, a velhice, as doenças. (...) Nascida no meio de tantas delícias, não saudei a luz com o pranto, como quase todos os homens; mas quando fui parida, comecei a rir gostosamente na cara da minha mãe" 

"(...) haverá no mundo coisa mais doce e mais preciosa do que a vida ? E quem, mais do que eu, contribui para a concepção dos mortais ? Nem a lança poderosa de Palas, nem a égide do fulminante Júpiter, nada valem para produzir e propagar o gênero humano"

"Sois todos muito sábios, uma vez que, a meu ver, loucura é o mesmo que sabedoria"

"Quero que me chamem de mentirosa, se não for verdade que os jovens mudam inteiramente de caráter logo que principiam a ficar homens e, orientados pelas lições e pela experiência do mundo, entram na infeliz carreira da sabedoria. Vemos, então, desvanecer-se aos poucos a sua beleza, diminuir a sua vivacidade, desaparecerem aquela simplicidade e aquela candura tão apreciadas. E acaba por extinguir-se neles o natural vigor" 

"O delírio e a loucura não serão, talvez, próprios das crianças ? Que é que, a vosso ver, mais agrada nas crianças ? A falta de juízo. Um menino que falasse e agisse como um adulto não seria um pequeno monstro ?"

"(...) Júpiter, com receio de que a vida do homem se tornasse triste e infeliz, achou conveniente aumentar muito mais a dose das paixões que a da razão (...) relegou a razão para um estreito cantinho da cabeça, deixando todo o resto do corpo presa das desordens e da confusão"

"Todas as coisas são de tal natureza que, quanto mais abundante é a dose de loucura que encerram, tanto maior é o bem que proporcionam aos mortais. Sem alegria, a vida humana nem sequer merece o nome de vida"

"Não haveria, pois, diferença alguma entre os sábios e os loucos, se não fossem mais felizes estes últimos. Sim, porque estes o são por dois motivos: o primeiro é que a felicidade dos loucos não custa nada, bastando um pouquinho de persuasão para formá-la; o segundo é que os meus loucos são felizes mesmo quando estão juntos com muitos outros. Ora, é impossível gozar um bem quando se está sozinho" 

*Erasmo de Rotterdam in "Elogio da loucura". Ed. Abril. 1972. SP.

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