segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) a cultura nunca nos oferece significações absolutamente transparentes, a gênese do sentido nunca está terminada. Aquilo a que chamamos com razão nossa verdade, sempre o contemplamos apenas num contexto de signos que datam o nosso saber"

"(...) a palavra intervém sempre sobre um fundo de palavra, nunca é senão uma dobra no imenso tecido da fala"

"Muito mais do que um meio, a linguagem é algo como um ser, e é por isso que consegue tão bem tornar alguém presente para nós: a palavra de um amigo no telefone nos dá ele próprio, como se estivesse inteiro nessa maneira de interpelar e de despedir-se, de começar e terminar as frases, de caminhar pelas coisas não ditas. O sentido é o movimento total da palavra, e é por isso que nosso pensamento demora-se na linguagem" 

"A linguagem é por si oblíqua e autônoma e, se lhe acontece significar diretamente um pensamento ou uma coisa, trata-se apenas de um poder secundário, derivado da sua vida interior. Portanto, como o tecelão, o escritor trabalha pelo avesso: lida apenas com a linguagem, e é assim que de repente se encontra rodeado de sentido!

"Dizem que a gravação exata de uma conversa que parecera brilhante dá em seguida a impressão de indigência. Falta-lhe a presença daqueles que estavam falando, os gestos, as fisionomias, o sentimento de um evento que está acontecendo, de uma improvisação contínua"

"Basta que tenha algumas vezes e por tempo suficiente aprendido a deixar-se ensinar por uma outra cultura, pois a partir daí dispõe de um novo órgão de conhecimento, retomou posse da região selvagem de si mesmo que não é investida em sua própria cultura e através da qual se comunica com as outras"

"Não há uma filosofia que contenha todas as filosofias: a filosofia inteira está, em certos momentos, em cada uma delas. Repetindo a famosa expressão, seu centro está em toda parte e sua circunferência em parte alguma"

"Lembrando Bergson: 'Se o cientista, o artista, o filósofo aferram-se à busca da fama, é por faltar-lhe a absoluta segurança de haver criado algo viável. Deem-lhes esta segurança, e vocês os verão imediatamente fazer pouco-caso do rumor que cerca seu nome"' 

*Maurice Merleau-Ponty in "Signos". Ed. Martins Fontes. SP. 1991.

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