sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Ivan Dmitritch sabia muito bem que eles haviam chegado ali para reformar o fogão na cozinha, mas o medo sugeriu-lhe que eram policiais disfarçados de limpa-chaminés"

"O Dr. Andréi Iefimitch, (...) receitou compressas frias na testa e gotas de louro e cereja, balançou tristonho a cabeça e saiu, dizendo à senhoria que não voltaria mais, pois não se devia impedir as pessoas de perder o juízo"

"(...) centenas de loucos passeiam em liberdade, porque a ignorância de vocês é incapaz de distingui-los dos sãos. Por que então eu e estes infelizes devemos ficar aqui, por todos, como bodes expiatórios ? O senhor, o enfermeiro, o vigia e toda esta canalha de hospital está, no sentido moral, muito abaixo de cada um de nós, por que então nós estamos aqui, e não vocês ? Onde está a lógica ?"

"(...) quando, num futuro distante, tiverem terminado sua existência as prisões e os manicômios, não existirão grades nas janelas, nem roupões de internados. Está claro que essa época chegará cedo ou tarde"

"Numa obra de Dostoiévski ou de Voltaire alguém diz que, se Deus não existisse, seria inventado pelos homens. E eu creio profundamente que, se a imortalidade não existe, será inventada cedo ou tarde por uma grande inteligência humana"

"O pensamento livre e profundo, que procura compreender racionalmente a vida, e um desprezo absoluto às vaidades estúpidas do mundo - eis os dois bens mais elevados que o homem jamais conheceu. E o senhor pode possuí-los, ainda que viva atrás de três grades, Diógenes viveu num barril, embora fosse mais feliz que todos os reis da terra"

"A tranquilidade e a satisfação do homem não estão fora, mas dentro dele"

"Um homem comum espera de fora o bom e o mau, isto é, da carruagem e do escritório, e quem pensa, de si mesmo"

"Saindo da prefeitura, o Dr. Andréi Iefímitch compreendeu que fora examinado por uma comissão, encarregada de verificar o seu estado mental. Lembrou-se das perguntas que lhe foram feitas, corou e por alguma razão, pela primeira vez na vida, teve uma pena profunda da medicina"

*Anton P. Tchekhov in "O Beijo e outras histórias. Enfermaria n. 6". Ed. 34. SP. 2006.

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