segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Poéticas do indizível*


“(...) Graças às sombras, a região intermediária que separa o homem e o mundo é uma região plena, de uma plenitude de densidade ligeira. Essa região intermediária amortece a dialética do ser e do não-ser.”
                       Gaston Bachelard

Uma crença muito antiga aprecia atualizar-se desse enigmático hoje que um dia foi amanhã. Poderia ser o pretérito imperfeito de uma busca ou aquele quase nada onde tudo acontece. Atualização de um dialeto nem sempre dizível, a se alimentar nas fontes inenarráveis, nos paradoxos, nas desleituras criativas.

Seu visar inédito sugere desvãos ao mundo que se queria definitivo. Costuma ser abrigo do acaso na versão do avesso das coisas. Ao referir o encantamento das pequenas devoções, parece traduzir esse texto interminável, por onde a vida escoa seus segredos. Realiza um esboço sobre as tentativas de decifrar um mundo que é mistério por natureza.  
  
A característica de ser imprevisível seria insuportável, não fora a poesia re_significada em lógica delirante. No submundo dos outros é possível reconhecer parte do nosso, isso pode acontecer no elogio, censura, crítica. Essa contradição parece fundamentar uma distância aproximada de cara metade. Assim ódio e paixão podem se reconhecer no mesmo objeto de desejo.

O transbordamento discursivo relata a vida num desses lugares onde os sonhos acontecem. A recriação estética imprecisa sua matéria-prima nas gavetas desmerecidas, na via marginal, no rastro dos rituais exóticos. Ao primeiro olhar, a inexatidão dos rascunhos aponta manuscritos ilegíveis. Há que se conviver em meio às brumas para aprender sua dialética, a trama significativa de um existir absurdo.  

Talvez os papéis existenciais de cada um se ofereçam na percepção de consciência alterada, oferecendo vislumbres sobre os fenômenos ao seu redor, como ousadia retórica a testar o limite das palavras.

Nesse universo subjetivo, inconformado com a definição refém de si mesma, ao deixar entrever sua fonte de originais, se alimenta nas ressonâncias dos ensaios irrefletidos.  

As poéticas do indizível se associam em código próprio. Para desvendar sua arquitetura irreal, reivindicam uma interseção nem sempre cabível a verdade dos consensos. Ao se colocar numa ótica de devaneio e invenção sua decifração percorre os instantes de um discurso que silencia. 

*Hélio Strassburger                                   

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