segunda-feira, 27 de março de 2017

Da coleção de contos "As mulheres que não fui"*


Daliza se formou na leitura das revistas de 1950, na linha do Clube das Moças e nos filmes da sessão da tarde que padronizavam o romantismo, com Fred Astaire, Elvis e o humor inocente de Jerry Lewis. Assim, era velho seu nascimento cultural, um óvulo desabrochando num corpo mignon. Palavra antiquada, agora gostam mesmo é de picanha, vitelas com gordura pouca, só para dar o charme da sedução visual.

Estava ligada ao movimento lascivo da vida instintiva por poucos fios... pena que ela não se alimentava de verduras, carnes e carboidratos como os seres normais. Pensava num tanto de preocupações sobre isso, os efeitos da vida medicamentosa para os órgãos.. mas... é a vida que conseguia ter, e os desdobramentos ela sempre pagava.

Às vezes se sentia a moça casamenteira, ao estilo da sobrinha em "Meu amigo Harvey". Daliza era uma musa pin up. Tinha a leveza das panquecas com espessura de papel; diria que ela seria uma geleia de pêssego, se gostasse de doces. Deles só saboreava os cheiros: a volúpia dos figos, mesmo que frescos, com pistilos abertos, se deflorando quando pressionados com os dedos. A tez do pêssego mesmo, com o odor das festas de fim de ano. A visão dos morangos q têm sementes na casca fina. A explosão das jabuticabas numa surpresa, mais doce ou amarga.

Daliza tinha que se enganar para comer. Até parece que o estômago estava caminhando por aí e vez por outra voltava, ébrio reclamando. Realmente, uma parceira para Macabéa, de Clarice. Quem sabe se nutrir de sol daria algum resultado na sua opacidade? Aparentemente, o ar pequeno que entrava era suficiente. Desse modo, sua vida era sutil, como se se desprendesse constantemente para a quarta dimensão e tocasse nela através dos aromas.

*Vania Dantas
Filósofa Clínica
Uberlândia/MG

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