segunda-feira, 13 de março de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) ninguém pode penetrar no universo dos sonhos se não está dormindo; da mesma forma, ninguém pode entrar no mundo fantástico se não se torna fantástico"

"Se estou no avesso de um mundo pelo avesso, tudo me parece direito. Portanto, se eu habitasse, eu mesmo fantástico, um mundo fantástico, não poderia de modo algum considerá-lo fantástico"

"O artista teima ali onde o filósofo desistiu"

"As palavras, ademais, são 'instrumentos de atos úteis', de modo que nomear o real é cobri-lo, velá-lo com familiaridades, transpô-lo assim à condição daquilo que Hegel chamava 'das Bakannte': o demasiadamente conhecido, que passa despercebido. Para rasgar os véus e trocar a quietude opaca do saber pelo espanto do não-saber é preciso um 'holocausto das palavras', esse holocausto que a poesia realiza de saída" 

"O ponto de partida é o fato de que o homem nasce da terra: ele é 'engendrado pela lama'. Entendemos por isso que ele é o produto de uma das inumeráveis combinações possíveis dos elementos naturais"

"(...) só somos na medida em que nos descobrimos: o ser coincide com o movimento da descoberta"

"Se uma sociedade filosofa, é porque 'há folga na engrenagem', é porque há espaço para o sonho individual, para a fantasia de cada um, para a interrogação e para a incompreensão. E enfim porque não há ordem social perfeitamente rigorosa"

"(...) o olho prefigura, seleciona aquilo que vê. E esse olho não está dado de saída: ele tem de inventar sua maneira de ver; por isso determina-se a priori e por uma livre escolha o que se vê. As épocas vazias são aquelas que escolhem se ver com olhos já inventados. Elas não podem fazer mais que refinar as descobertas das outras; pois aquele que traz o olho traz ao mesmo tempo a coisa vista"

*Jean-Paul Sartre in "Situações". Ed. Cosacnaify. SP. 2005.  

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