sexta-feira, 24 de março de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Temos tanta necessidade das lições de uma vida que começa, de uma alma que desabrocha, de um espírito que se abre"

"Ver e mostrar estão fenomenologicamente em violenta antítese"

"Não é também no devaneio que o homem se mostra mais fiel a si mesmo ?"

"(...) o psicanalista pensa demais. E não sonha o bastante. Ao pretender explicar o fundo do nosso ser por resíduos que a vida diurna deposita na superfície, ele oblitera em nós o sentido do abismo. Em nossas cavernas, quem nos ajudará a descer ? Quem nos ajudará a reencontrar, a reconhecer, a conhecer o nosso ser duplo, que, de uma noite para outra, nos guarda na existência, esse sonâmbulo que não caminha nas estradas da vida, mas que desce, sempre e sempre, em busca de jazidas imemoriais ?" 

"(...) Os grandes sonhadores são mestres da consciência cintilante. Uma espécie de cogito múltiplo se renova no mundo fechado de um poema. Por certo serão necessários outros poderes conscienciais para se tomar posse da totalidade do pema"

"O devaneio poético é sempre novo diante do objeto ao qual se liga. De um devaneio a outro, o objeto já não é o mesmo; ele se renova, e esse movimento é uma renovação do sonhador"

"Que importam para nós, filósofo do sonho, os desmentidos do homem que reencontra, após o sonho, os objetos e os homens ? O devaneio foi um estado real, em que pesem as ilusões denunciadas depois. E estou certo de que fui eu o sonhador. Eu estava lá quando todas essas coisas lindas estavam presentes no meu devaneio. Essas ilusões foram belas, portanto benéficas. A expressão poética adquirida no devaneio aumenta a riqueza da língua"

"Que convite para sonhar o que vemos e o que somos! O cogito do sonhador se desloca e vai emprestar o seu ser às coisas, aos ruídos, aos perfumes. Quem existe ? Que distensão para a nossa própria existência"

*Gaston Bachelard in "A poética do devaneio". Ed. Martins Fontes. SP. 2001.

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