sexta-feira, 31 de março de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Feitiçaria é o mundo onde as palavras têm poder. O feiticeiro fala e a palavra, sem o auxílio das mãos realiza o que diz. Deus diz 'Paraíso', e um jardim de delícias aparece. A bruxa diz 'Sapo!', e o príncipe se transforma em sapo"

"O mundo humano é construído com palavras. Como dizem os textos sagrados: 'No princípio de todas as coisas está a palavra...' E, à semelhança da aranha, é dentro do corpo que a palavra é gerada. É ali, no caldeirão mágico do corpo, que se processa a transformação alquímica de palavras em carne"

"Cada conclusão faz parar o pensamento. Como nos livros de Agatha Christie: resolvido o crime, nada sobra em que pensar. E não adianta ler o livro de novo. Quando o pensamento aparece assassinado, pode-se ter a certeza de que o criminoso foi uma conclusão"

"A etiqueta da ciência. Sua primeira regra é que só devem ser comidas palavras solidamente enraizadas nas coisas. Ao cientista é interditado gozar a palavra, pelo simples prazer que ela contém. Na verdade, ele afirma que o prazer estraga a refeição. Ele não acredita no testemunho de seu corpo, no prazer da boca, na alegria do nariz"

"'A ciência normal', diz T.S. Kuhn, "não procura nem novidades de fato nem de teoria. Quando é bem sucedida, ela não encontra novidades"

"Ensinar é mapear o mundo, fazer visíveis, pelo poder da palavra, os lugares desconhecidos. 'Minha linguagem denota os limites de meu mundo', dizia Wittgenstein..."

"Os gregos sabiam que a verdade mora na escuridão: os que vêem são cegos, e somente os cegos podem ver. Aqueles que possuem bons olhos e são sóbrios não podem"

"Palavras de ordem não toleram as brumas, pois é lá que moram os sonhos. Luminosidade total para tornar impossível sonhar. Pois os sonhos são testemunhos de que a alma se recusa a se tornar um pássaro engaiolado"

*Rubem Alves in "Lições de feitiçaria - meditações sobre a poesia". Ed. Loyola. SP. 2003.  

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