segunda-feira, 6 de março de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Por uma certa parte de nós mesmos, vivemos todos além do tempo. Talvez só tomemos consciência de nossa idade em certos momentos excepcionais, sendo, na maior parte do tempo, uns sem-idade"

"Vivera com a mãe em sua casa, passeara com ela no jardim, acolhera suas irmãs e suas sobrinhas, fingira escutá-las, mas durante esse tempo, na imaginação, ele vivera só em seu apartamento de solteiro; depois da morte da mãe, não fizera senão mudar-se para onde há muito tempo já morava em espírito"

"Existe uma fronteira quantitativa a não ser ultrapassada; mas essa fronteira não é vigiada por ninguém, e talvez até mesmo ninguém saiba de sua existência"

"A vocação da poesia não é nos deslumbrar com uma ideia surpreendente; mas sim fazer com que um instante do ser se torne inesquecível e digno de uma insustentável nostalgia"

"Outra coisa, retoma Agnes, mesmo que minha pergunta lhe pareça boba. Os que vivem lá, onde você está, têm rostos ? Não. O rosto só existe aqui onde vocês estão. E os que estão lá, como se diferenciam uns dos outros ? Lá, por assim dizer, cada um é a sua própria obra. Cada um inventa-se a si mesmo inteiramente"

"(...) quanto mais velho ele era, mais a atraía, porque quanto mais se aproximava da morte, mais ele se aproximava da imortalidade. Só um Goethe morto estaria em condições de tomá-la firmemente pela mão e conduzi-la para o Templo da Glória. Quanto mais ele se aproximava da morte, menos ela pretendia renunciar a ele"

"Em nossos mundo, em que aparecem cada dia mais e mais fisionomias que se parecem cada vez mais, não é tarefa fácil para o homem querer confirmar a originalidade do seu eu e conseguir convencer-se de sua inimitável unicidade"

"Nada na realidade exige mais esforço do pensamento do que a argumentação necessária para justificar o não-pensamento. Pude constatar isso pessoalmente depois da guerra, quando os intelectuais e artistas entraram como bezerros para o partido comunista, que depois, com o maior prazer, liquidou-os sistematicamente. Você faz exatamente a mesma coisa. Você é o brilhante aliado de seus próprios coveiros"

*Milan Kundera in "A imortalidade" Ed. Nova Fronteira. RJ. 1990.

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