sábado, 11 de março de 2017

Poemas inéditos*


Se deixar, eu me apaixono por todo mundo
só que nem sempre minhas paixões envolvem sexo
- quase nunca
e aí é que ninguém entende
É que de onde venho, nós vivemos em estado de graça
uns pelos outros
e só nos casamos quando concebemos um filho
- naturalmente
e nem sempre vivemos embaixo do mesmo teto
é que de onde venho não existe teto
o que coroa nossas cabeças se chama amor

*
Todo mundo vai e eu fico. Olha lá todo mundo indo e eu fico. Todo mundo
vai. Tem, tem assento vago ainda, eu fico. Todo mundo vai e eu fico. Olha lá
o moleque entrou, todo mundo indo, e eu fico. Eu fico porque que de repente
cai chuva grande. Aí você, vai também que é pra cair chuva grande. Vai que
eu fico. Eu fico e todo mundo vai. Eu fico, sempre de olho grande esperando a
chuva. Vendo todo mundo ir. Vai todo mundo. Eu fico.
Ficamos, eu, a chuva que vai que cai, a rodoviária.

*
A poesia é um idioma. Cada um tem o seu,
e há quem fale e entenda vários. Qualidade
não conta. Não existe idioma de qualidade.
O valor de um idioma é identificar. Vai daí
que cada um conversa mais com quem fala
a mesma língua.

*
Quem
de qual barro
a que molde
quem molda
quais tintas
quantas
qual carne
se tantas
se tentas
quem eras
quais eras
emboras
se tanto
plural
se pouco
afloras

*
Deus me livre de ser o mesmo
hoje amanheci outro
amanhã serei outro outro
depois ainda outro
e além, já outro
Porque vai chegar o dia
em que não me lembrarei
de mim, mesmo
E só então poderei ser todos esses outros
outros
por inteiro

*Ana Peluso

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