quarta-feira, 15 de março de 2017

Primeiro ler, depois filosofar*


A literatura é um ponto de partida fundamental para quem quer se aventurar a pensar filosoficamente a própria existência. Aliás, só há filosofia em seu sentido originário – tal como proposto e exercido por Platão e Aristóteles – se for intrinsecamente ligada à vida, à própria vida. E em tempos nos quais as chamadas ideologias estão em voga, a realidade perde a vez para atribuições que se propõem a descrevê-la quando, na verdade, a reduz a elementos limitantes: direita/esquerda, proletariado/burguesia, cativeiro/libertação etc. Mas, o que tem a ver a filosofia com a literatura?

Nossa vida é constituída de experiências restritas. Não conseguimos viver todas as possibilidades por nossas próprias condições limitantes: geográfica, somática, psíquica, social, histórica etc. Com isso, pensar a vida em seu caráter mais amplo, em busca dos elementos universalmente constitutivos somente é possível ampliando o horizonte de perspectivas e experiências. Para isso é que a literatura auxilia.

O convívio com a obra literária nos aproxima das possibilidades de existência pensadas e imaginadas pelo escritor. O conjunto de perspectivas acrescentadas à nossa experiência por meio de inúmeros autores amplia a visão de mundo de tal modo a dar abertura para a reflexão filosófica. Mas, o que é uma reflexão filosófica?

A filosofia não é um conteúdo, mas uma ação. Quando se coloca a filosofar, o filósofo envereda pelo processo de conhecimento de algo, mais especificamente, o que podemos chamar de realidade. A realidade é o todo no qual estamos imersos e do qual fazemos parte.

Outro aspecto fundamental a se compreender é que a filosofia é mais ampla do que um experimento efetuado pela ciência moderna. Quando um cientista investiga um fenômeno da natureza ou um comportamento humano, é necessário que haja controle das variáveis ambientais de modo geral. Os resultados são válidos na medida em que o experimento seja passível de ser repetido obtendo o mesmo resultado. A explicação do recorte da experiência deve estar sob o crivo da repetição. Em suma, a compreensão se dá na própria execução reproduzida tantas vezes quantas forem necessárias.

No entanto, a vida nunca apresenta um resultado idêntico em todas as vezes que se propõe a fazer a mesma coisa. As pessoas, o ambiente, o tempo, enfim, tudo está em mudança. Essa não é acessível a um juízo científico. Para que se encontre um dado comum a todas as variáveis da vida, não se deve tomar a “régua”, mas a mente. A imaginação possui a riqueza das variações possíveis de uma experiência. É nela que a unidade ou universalidade é possível.

Para que seja compreendido a partir de casos extremos, tomemos como exemplo a abordagem científica e sua negação da experiência subjetiva religiosa. Isso não é um demérito, mas simplesmente algo constitutivo dos limites e alcances do método científico. Ora, toda experiência religiosa é subjetiva e as variáveis são tantas quanto são as pessoas que a vivenciam. Diante disso, como proceder? Por enriquecimento da imaginação. Pois, somente quando se pode imaginar as variantes de uma experiência, algo que há em comum em todas elas pode ser percebido. Geralmente não são os estados hormonais ou sinápticos que ditarão essa unidade – o que seria acessível às ciências – mas a realidade objetiva desses fatos.

Outro exemplo: tomemos a experiência dos primeiros cristãos. Cientificamente nenhum milagre pode ser provado naqueles relatos. Curiosamente, os relatos de milagres não são exclusividade do tempo que precedeu a escrita dos Evangelhos. Há relatos até hoje. E não digo o gerado pela histérica manifestação de diversos cultos contemporâneos que bem servem para enriquecer o “líder” da instituição. Digo mais naqueles casos em que pessoas mudaram de vida e testemunharam a presença de algo que os elevou.

Nesses dois casos, poderia se questionar sobre a viabilidade de prova de verdade de tais experiências. Como nenhuma pode ser reproduzida – nem pela ciência, nem pelos crentes – ela pode se tida como falsa, ilusória, fruto do delírio, histeria individual e coletiva etc. Todavia, são relatados. E quem as relata não está tentando provar nada para ninguém. Ela apenas vivenciou. Dito isso, pode-se perceber que essas experiências jamais poderão ser provadas, o que não as invalida enquanto possibilidades da vida. Enquanto a ciência explica os fatos pelos resultados obtidos na repetição de seus experimentos controlados, a filosofia compreende a vida a partir da variabilidade e irrepetibilidade de seus acontecimentos.

Portanto, é aí que reside a necessidade de enriquecer a imaginação. Não de uma imaginação pejorativamente ilusória. Trata-se de um imaginário enquanto possibilidades da própria vida. Se houve, como os exemplos citados, relatos de milagre, em vão se debaterá sobre a afirmação ou negação de sua veracidade. Resta, assim, perceber a realidade em sua riqueza de possibilidades.

Se nos exemplos mais radicais, a imaginação pode ser uma arma poderosa para compreensão da realidade, no âmbito mais cotidiano ela o será igualmente e com maior facilidade de aceitação. Para pensar em questões da vida como culpa, medo, dor, sacrifício e amor as experiências próprias ajudam, mas não contemplam a rica extensão de possibilidades nas quais estes termos podem ser compreendidos na realidade. 

Diante do que foi dito, fica a seguinte reflexão: se queremos ser filósofos, sejamos antes assíduos leitores da boa literatura. Comece pelos autores de seu idioma. Esses além de enriquecer seu vocabulário de palavras e expressões que relatam a realidade, explicam sua própria história, seu próprio povo, o que constitui sua cultura – no caso, é claro, de autores de língua portuguesa que vivem no Brasil. Depois de poder dizer sua realidade com maior riqueza de detalhes possíveis e de compreendê-la até sem conseguir expressá-la, a leitura de textos filosóficos ajudará nesse segundo passo de contemplação da realidade, da sua vida, da existência.

*Prof. Dr. Miguel Angelo Caruzo
www.atotalidadedavida.blogspot.com.br
Filósofo. Educador. Escritor. Filósofo Clínico
Teresópolis/RJ

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