sábado, 15 de abril de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"É necessário lembrar que a classificação das vozes humanas - como toda classificação elaborada por uma sociedade - nunca é inocente"

"(..) o corpo dispensa o sujeito e a pintura de Réquichot vai, então, ao encontro do que seria a extrema vanguarda: aquela que não é classificável e cujo caráter psicótico a sociedade denuncia, pois que, assim fazendo, pode, pelo menos, nomeá-la"

"Ora, é mais u menos o que ocorre na cura analítica: a própria ideia de 'cura', inicialmente muito simples, transforma-se, torna-se distante: a obra, como a cura, é interminável: trata-se, em ambos os casos, menos de obter um resultado do que modificar um problema, isto é, um tema: livrá-lo da finalidade em que se encerra seu início" 

"A metáfora é a única maneira de nomear o inominável (transforma-se, então, em catacrese): a cadeia de nomes substitui o nome que falta"

"A polissemia desenfreada é o primeiro episódio (iniciático) de uma ascese: a ascese que leva para fora do léxico, para fora do sentido"

"Tomemos um objeto usual: não é seu estado de novo, virgem que melhor traduz sua essência; é mais bem seu estado de resíduo um pouco desgastado, um pouco abandonado: é no resíduo que se lê a verdade das coisas. É no seu rastro que está a verdade do vermelho; é na tênue marca de um traço que está a verdade do lápis"

"(...) o sentido depende do nível em que o leitor se coloca"

"Procedimento inovador, raro, sustentado contra uma prática majoritária (a da significação), o sentido obtuso surge, fatalmente, como um luxo, uma despesa sem retorno; esse luxo ainda não faz parte da política de hoje, mas já faz parte da política do amanhã"

"O sentido obtuso parece desdobrar suas asas fora da cultura, do saber, da informação; analiticamente, tem algo de irrisório; porque leva ao infinito da linguagem, poderá pareer limitado à observação da razão analítica; pertence à classe dos trocadilhos, das pilhérias, das despesas inúteis; indiferente às categorias morais  ou estéticas (o trivial, o fútil, o postiço e o pastiche), enquadra-se na categoria do carnaval. Obtuso convém, pois, perfeitamente"

*Roland Barthes in "O óbvio e o obtuso". Ed. Nova Fronteira. RJ. 1990.    

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