terça-feira, 30 de maio de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"No escritor o pensamento não dirige de fora a linguagem: o escritor é ele mesmo um novo idioma que se constrói, que inventa meios de expressão e se diversifica segundo seu próprio sentido. O que chamamos de poesia talvez seja apenas a parte da literatura onde essa autonomia se afirma com ostentação. Toda grande prosa é também uma recriação do instrumento significante, doravante manejado segundo uma sintaxe nova"

"Nossa língua reencontra no fundo das coisas a fala que as fez"

"(...) jamais encontramos na fala dos outros senão o que nós mesmos pusemos, a comunicação é uma aparência, ela nada nos ensina de verdadeiramente novo. Como seria ela capaz de nos arrastar para além de nossos próprio poder de pensar, já que os signos que ela nos apresenta nada nos diriam se já não tivéssemos em nosso íntimo sua significação?"

"(...) o olhar de minha memória a envolve, bastará que me reinstale no acontecimento para que tudo, os gestos do interlocutor, seus sorrisos, suas hesitações, suas frases reapareçam em seu justo lugar"

"(...) a perfeição da linguagem é de fato passar despercebida"

"Exprimir-se é portanto um empreendimento paradoxal, uma vez que supõe um fundo de expressões aparentadas, já estabelecidas, e que sobre esse fundo a forma empregada se destaque, permaneça suficientemente nova para chamar a atenção. Trata-se de uma operação que tende à sua própria destruição, uma vez que se suprime à medida que se propaga, e se anula se não se propaga. Assim, não se poderia conceber uma expressão que fosse definitiva, pois as próprias virtudes que a tornam geral a tornam ao mesmo tempo insuficiente"

"Lembrando Malraux, diz assim: 'o estilo é o 'meio de recriar o mundo segundo os valores do homem que o descobre'"

"(...) mas o que resta por fazer para exprimir ainda mais o encontro e o conflito do olhar com as coisas que o solicitam, do corpo com o mundo que ele habita, daquele que precisa ser com aquilo que é"

*Maurice Merleau-Ponty in "A prosa do mundo". Ed. Cosac & Naify. SP. 2002.

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