quinta-feira, 22 de junho de 2017

Inocência*


“Mas quanto mais me tornava transparente e leve, mais meus despojos cinzentos ganhavam consistência para seus sentidos fatigados.”
Pierre Klossowski

Imagino meu corpo além do meu corpo. Além, um pouco mais distante do que hoje sou. Bem antes, quando bem pequenino ao lado de minha mamãe. Bem ao lado, sentadinho em um banquinho, enquanto ela cuidava de minha avó enferma. Estava ali, ainda sem a consciência real das coisas, nada a perder, e o lado humano de estar à deriva da lógica da vida. 

A vida dos homens não existia. A inocência e a vida, brincava com o Nada: suprema maneira de ser apreendida pelo pequeno Ser. Uma alegoria do impossível, desde que, hoje, já não sei o que estava a viver. Construí esse mundo, através do imaginário de minha mãe, pude ir além do que hoje posso compreender. 

Falava sozinho, como um humano que ainda está a ver o mundo, o poente é mais distante hoje. Minha mãe cuidava de sua mãe, olhava-me com lágrimas de dor e felicidade.

Essa é uma imagem que não lembro por mim mesmo, é a recordação de relato que minha mãe volta sempre a me contar. Já narrou inúmeras vezes, não importa, estou sempre pronto para ouvi-la novamente. Todos os ângulos, a vida é sempre a mesma, o amor está dentro e fora dessa narrativa. O amor é infinito, a dor morre logo ali [...] outras narrativas.

“Dalgum modo outra vez e todos outra vez no olhar fixo. Todos duma vez como uma vez.” Samuel Beckett

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Escritor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

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