sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Mas a função do filósofo não será a de deformar o sentido das palavras o suficiente para extrair o abstrato do concreto, para permitir ao pensamento evadir-se das coisas ?"

"(...) leva em conta não apenas os fatos, mas também, e sobretudo, as ilusões - o que, psicologicamente falando, é de uma importância decisiva, porque a vida do espírito é ilusão antes de ser pensamento"

"Para as concepções estatísticas do tempo, o intervalo entre dois instantes é apenas um intervalo de probabilidade; quanto mais seu nada se alonga, maior é a chance de que um instante venha terminá-lo"

"Cumpre, pois, apreender o hábito em seu crescimento para captá-lo em sua essência; ele é assim, por seu incremento de sucesso, a síntese da novidade e da rotina, e essa síntese é realizada pelos instantes fecundos"

"Mas, por firmes que sejamos, jamais nos conservamos inteiros, porque nunca fomos conscientes de todo o nosso ser"

"Há decerto forças históricas que podem reviver, mas para isso elas devem receber a síntese do instante, assumir o 'vigor dos atalhos' - nós mesmos diríamos: a dinâmica dos ritmos"

"Como realidade, só existe uma: o instante. Duração, hábito e progresso são apenas agrupamentos de instantes, são os mais simples dos fenômenos do tempo"

"Lembra Roupnel: '(...) Ensina-nos a ver e a escutar o Universo como se só agora tivéssemos dele a são e súbita revelação. Reconduz a nossos olhares a graça de uma Natureza que desperta. Devolve-nos as horas encantadoras da manhã primitiva banhada de criações novas'" 

*Gaston Bachelard in "A intuição do instante". Ed. Verus. Campinas/SP. 2004.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Tudo passa*


Passarão as tempestades
O vento e a seca passarão
Passarão a fome e a sede
A chuva haverá de passar
Passará o dia e a noite
O tempo passará
Tudo passa
Tudo se esvai
Cai e vai...
A riqueza passará
Passará a graça
Passarão todas as dores
O riso e o choro passarão
Um dia passarão os amores
A vida e a morte passarão
Passarão o céu e a terra
Eu passarinho
Passarinho você.
Para onde vai, afinal
Aquilo que teima
Em não passar?

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Especialista em Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Retrato do artista quando coisa*


A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.

*Manoel de Barros

terça-feira, 15 de agosto de 2017

A liberdade e a gratidão*


Jamais deixamos de orbitar em nós mesmos, por isso, o contato com outras vidas é tão determinante e fundamental. É esse o fenômeno que nos lança na direção das descobertas que tanto precisamos encontrar e que sempre provém de dentro para fora de nós mesmos.

E assim, me parece que prosseguimos produzindo pontes altamente capazes de nos conectar, sobretudo, quando ousamos atravessá-las. Foi assim que encontrei em tantos abraços a força que faltava, pois de tão apertados, "pois-se" tudo no lugar.

Foi assim, que os melhores momentos se tornaram eternos figurando sempre no agora. Foi assim, que um beijo roubado despertou as melhores flores dos jardins de duas almas, as quais, em silêncio, conhecem a fundo os legados que deixaram tão somente por amor.

Foi assim que a poesia transbordou em mim trazendo a tona o melhor de nós mesmos e ainda, por conseguinte, o melhor que podíamos alcançar. Foi assim que nós nos transformamos e nos superamos juntos, não raro sob a aurora das suas brisas e sombras tão confortantes.

E fora justamente desses confortos que pude extrair forças para que outras vezes eu pudesse nos manter firmes mesmo quando a terra parecia tremer anunciando uma grande tempestade.

Portanto, pouco importa se a poesia aqui existe ou persiste, porque o seu ímpeto mais sincero do início ao fim mesmo não crendo em finitude, é que cada vez mais tudo venha a se converter ora em ecos de resistência e luta; ora de liberdade e gratidão. Musa!

Prof. Dr. Pablo Mendes
Filósofo. Filósofo Clínico. Educador. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Lemos, penso eu, para sanar a solidão, embora, na prática, quanto melhor lemos, mais solitários ficamos"

"Não temos palavra adequada para explicar Shakespeare: ele escapa a qualquer categorização disponível"

"Não somos a medida das coisas, mas os logrados pelas coisas. A Caverna é pessoal, uma toca fechada, isolada do mundo comum"

"Lembrando Samuel Johnson: '(...) ensinou-nos que a essência da poesia é a invenção, no sentido de descoberta'"

"Citando Alexander Nehamas: '(...) defende a hipótese de que Nietzsche encara a vida como um texto literário, seres humanos como personagens literários e o conhecimento como critica literária'"

"Tudo o que buscamos já está na nossa presença, e não distante de nós"

"O que há de melhor e mais maduro em nós há de responder, integralmente, àquilo que pretendemos enxergar"

"Contemplamos na vasta escritura de Cervantes aquilo que já somos"

*Harold Bloom in "Onde encontrar a sabedoria ?". Ed. Objetiva. 2004. RJ. 

domingo, 13 de agosto de 2017

O imaginar das palavras*

“Nós somos o seu mundo e elas o nosso. Para capturar a linguagem não precisamos mais que usá-las. As redes de pescar palavras são feitas de palavras.”
Octavio Paz

O que não nos permite mais nos vermos é o que permite de nós sermos sozinhos, por breve espaço do tempo, onde tudo se evaporou. Hoje ficou um vazio, uma solidão alojada ao lado do corpo inerte.

A tortuosa solidão está aí, na tela, no espaço entre os minutos que não lembraremos nunca mais e o que não permitirá que eu vá mais além, mas mesmo assim, mesmo, existe um processo de memória recente, algo que tange o lado sensível da reflexão. 

E os outros sentidos? O espaço imaginal, lugar em que tecemos nossos sonhos, e de lá tratamos de registrar, esse espaço que é o lugar do momento mútuo de ainda existir a possibilidade dos encontros.

Como se eu sentisse algo por alguém no plano virtual, mas que a idéia, numa construção, acaba dando espaço para a memória reconstituir todos os dias essa idéia.

Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

sábado, 12 de agosto de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"Toda a vida da alma humana é um movimento na penumbra. Vivemos, num lusco-fusco da consciência, nunca certos com o que somos ou com o que nos supomos ser. Nos melhores de nós vive a vaidade de qualquer coisa, e há um erro cujo ângulo não sabemos. Somos qualquer coisa que se passa no intervalo de um espetáculo (...)"

"Que coisa morro quando sou ?"

"Transeuntes eternos por nós mesmos, não há paisagem senão o que somos. Nada possuímos, porque nem a nós possuímos. Nada temos porque nada somos. Que mãos estenderei para que universo ? O universo não é meu: sou eu"

"Há metáforas que são mais reais do que a gente que anda na rua. Há imagens nos recantos de livros que vivem mais nitidamente que muito homem e muita mulher"

"Mas, felizmente para a humanidade, cada homem é só quem é, sendo dado ao gênio, apenas, o ser mais alguns outros"

"Posso imaginar-me tudo, porque não sou nada. Se fosse alguma coisa, não poderia imaginar. O ajudante de guarda-livros pode sonhar-se imperador romano; o Rei de Inglaterra não o pode fazer, porque o Rei de Inglaterra está privado de ser, em sonhos, outro rei que não o rei que é. A sua realidade não o deixa sentir"

"Sou o intervalo entre o que sou e o que não sou, entre o que sonho e o que a vida fez de mim, a média abstrata e carnal entre coisas que não são nada, sendo eu nada também"

"Vivemos todos, neste mundo, a bordo de um navio saído de um porto que desconhecemos para um porto que ignoramos; devemos ter uns para os outros uma amabilidade de viagem"

"(...) esse episódio da imaginação a que chamamos realidade"

*Fernando Pessoas in "Livro do desassossego". Ed. Cia de Bolso. SP. 2014. 

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Oh beleza! Onde está a tua verdade?


Mulheres anorgásmicas por não conseguirem desligar suas mentes da imagem do corpo perfeito e capaz de seduzir, conquistar e prender o amor de um homem.

Escondida em conceitos de superficialidade, escondida em complexos de inferioridade, escondida em contextos de intelectualidade, escondida em buscas pela espiritualidade, escondida em aparentes estados de auto-suficiência, conformidade e integralidade.

A beleza que nunca é enxergada em sua essência, muitas vezes é encontrada na visão de mundo de cada um de acordo com o que é conveniente ou desejável apenas. Padrões e estereótipos são produzidos aos quilos diariamente aprisionando o ser humano, formatando seus níveis de desejo e aniquilando veementemente todo seu potencial de entrega em uma relação a dois que deveria ser vivida de forma saudável e desprendida de conceitos.

Mulheres anorgásmicas por não conseguirem desligar suas mentes da imagem do corpo perfeito e capaz de seduzir, conquistar e prender o amor de um homem. Frígidas em primeiro plano de tanto cultuar o próprio corpo em detrimento do envolvimento e do prazer que uma relação gostosa pode proporcionar.

Homens impotentes perante a imagem da Deusa em estatueta que inibe e constrange na medida do que é considerado intocável e pela inércia exercida em forma de inexperiência e valores absolutamente confusos. Impotentes também por sua autoestima em baixíssimo nível por, muitas vezes, relacionar sua virilidade ao padrão de homem moderno que, além de tudo, tem que vir em forma de galã de telenovelas.

Homens e mulheres cheios de saúde que poderiam usufruir em plenitude dos prazeres da carne somados a integralidade da alma, fazendo fluir pelos seus corpos as mais potentes energias, desperdiçando o que de verdade o sexo tem para oferecer.

Este é mais um mal da sociedade pós-moderna. Tanto se fala de sexo, tanto se cobra das posturas sexuais, tanto se conhece tanto se faz e nada contenta e nem completa. O desencontro é total. Faz-se sexo por sexo. Faz-se sexo porque é permitido fazer sexo, contudo, o descontentamento é geral.

O que ocorre frequentemente é que os parâmetros de escolha e seleção dos parceiros estão muito confusos. Diante de tanta imposição do mercado de consumo, as pessoas estão cada dia mais procurando parceiros cada dia mais difíceis de serem encontrados e, quando encontrados em sua forma física desejável, já estão com as cabeças detonadas de tanto buscar a tal perfeição. É complexo, mas é explicável.

Tem o caso de uma mulher que ficou bem aborrecida porque tinha encontrado um namorado interessante e parecia que tudo ia dar certo, a química bateu, tinham boa afinidade, eram maduros e, de repente, ele desistiu. Argumentou dizendo que se achava feio e velho para ela, que já nem era tão nova assim. Tinham cinco anos de diferença. Ele desistiu porque não aguentou a pressão de vê-la mais bonita e com aparência mais jovem. Ela era mesmo uma jovem senhora muito bonita e não aparentava a idade que tinha. Temeu pelo futuro, temeu sentir-se inseguro, temeu ser rejeitado por ela, temeu sentir ciúmes e simplesmente abriu mão de tudo que estavam sentindo, inclusive o enorme tesão. Ele era bem sucedido profissionalmente e pelo que ela me contou, tinha uma boa aparência. Era sensual, viril e muito divertido. Ela ficou muito entristecida e inconformada, mas acreditando nos argumentos dele respeitou sua decisão.

Outro caso interessante, foi o de uma outra mulher que era feliz com o próprio corpo mesmo sendo bem cheinha. Era sexy, bonita, cheirosa e tinha pleno domínio e conhecimento do que seria uma boa relação afetiva e sexual. Sabia amar sem restrições. Era sensual e tinha uma libido a toda prova. Sua dificuldade era encontrar um homem que não estivesse selecionando “aviões” para suas relações. Muito autêntica e muito extrovertida, teve a coragem de procurar saber o porquê de tanta rejeição, e alguém não menos corajoso, mas a meu ver, bem pretensioso disse a ela que estava fora dos padrões. Linda, 35 anos, independente economicamente e muito bem cuidada. Excluída do direito de amar e ser amada. Não fiquem triste, isto foi há algum tempo e ela hoje já tem alguém muito especial.

Outro caso interessante, foi o de uma outra mulher que era feliz com o próprio corpo mesmo sendo bem cheinha. Era sexy, bonita, cheirosa e tinha pleno domínio e conhecimento do que seria uma boa relação afetiva e sexual. Sabia amar sem restrições. Era sensual e tinha uma libido a toda prova. Sua dificuldade era encontrar um homem que não estivesse selecionando “aviões” para suas relações. Muito autêntica e muito extrovertida, teve a coragem de procurar saber o porquê de tanta rejeição, e alguém não menos corajoso, mas a meu ver, bem pretensioso disse a ela que estava fora dos padrões. Linda, 35 anos, independente economicamente e muito bem cuidada. Excluída do direito de amar e ser amada. Não fiquem triste, isto foi há algum tempo e ela hoje já tem alguém muito especial.

Tenho vários outros casos para contar onde pessoas sofrem por estarem fora dos padrões de beleza estabelecidos pela mídia. Pessoas com muito a oferecer, para somarem em tudo na vida de alguém.

O que as pessoas precisam entender definitivamente é que no sexo, vale muito mais o que se sente. É muito possível se realizar sexualmente com alguém que não se enquadre nestes tais padrões de beleza atuais. É certo que o fator atração, conta muito, mas acontece de nos sentirmos atraídos por alguém e não atendermos ao nosso desejo simplesmente por uma convenção. Às vezes, é nos braços de alguém assim que vamos ter as melhores sensações, que vamos vibrar mais, que vamos nos entregar sem amarras, que vamos deixar de buscar sempre por algo que nos complete que vamos sossegar nossos anseios.

Nesse afã de filtrar e selecionar o que é melhor para nós, baseados no que os outros ou no que o mundo estabelece, nos perdemos como pessoas integrais e perdemos oportunidades maravilhosas de sentir prazer de verdade, daquele chega até a alma. Por estarmos sempre preocupados em manter as aparências nos descuidamos do que é importante para nós.

Não quero dizer aqui, que não devemos nos cuidar, é claro que devemos, mas os exageros, como sempre podem provocar efeitos indesejáveis, como por exemplo, relações sexuais vazias, sem envolvimento sem a dose certa de excitação e com um prazer muito mais a nível egóico e incapaz de nos satisfazer.

É importante que compreendamos que somos um todo e que precisamos desse todo para chegarmos perto do que se chama felicidade.

Abraço bem apertado.

*Jussara Hadadd
Escritora. Palestrante. Especialista em Filosofia Clínica
Juiz de Fora/MG

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*



"(...) cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda a parte"

"(...) passarinho que se debruça - o voo já está pronto!"

"(...) eu toda a minha vida pensei por mim, forro, sou nascido diferente. Eu sou é eu mesmo. Divêrjo de todo o mundo... Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa"

"Para pensar longe, sou cão mestre - o senhor solte em minha frente uma ideia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos (...)"

"Qualquer sombrinha me refresca. Mas é só muito provisório"

"Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo"

"(...) tudo quanto há, neste mundo, é porque se merece e carece"

"O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado!"

"(...) o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando"

"Eu me lembro das coisas, antes delas acontecerem"

*João Guimarães Rosa in "Grande sertão: veredas". Ed. Nova Fronteira. RJ. 2001.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Caro Professor*


Como está a semana? Após o retorno das férias de inverno a Escola de Humanidades está começando bem os trabalhos. Contudo, algo não me sai da cabeça.

Após meu retorno, retomando diversas das leituras sobre orientação educacional, e convivendo com os senhores lá presentes, me vem ressaltando a preocupação com aqueles alunos ditos especiais e a necessidade de uma avaliação adaptada. 

É colocado como nulo em nossa escola filosófica os conceitos de especial, doença ou saúde. No entanto, no meio educacional corre o fantasma materializado de uma necessidade tanto da instituição como da família para o seu alívio, a visão de uma vestimenta palpável para se trabalhar.

Este tipo de trabalho está cada vez mais tenebroso, visto que não se contempla a historicidade da criança, isto é, não menciono ainda o tópico de singularidade. Se ao menos os nossos orientadores contemplassem mais este tópico, poderíamos podar estas "vestimentas do caminho para a saúde". 

Não menciono nossos professores, pois estes noto que estão vislumbrando a singularidade. Ouço nos diálogos que nossa conjuntura muda, parece que há uma aura no magistério com visão de um belo horizonte. Ainda assim há trabalho a ser feito.

Por enquanto é isso que tenho para o momento.
Abraços fraternos, Professor!
Breve retorno de sua viagem.

Porto Alegre, 8 de agosto de 2017.

*Prof. Diego Baroni Menegassi
Historiador. Educador. Especialista em Filosofia Clínica e Metodologia de Ensino em História e Geografia. Acadêmico em Filosofia. Pós-Graduando em Gestão da Educação.
Porto Alegre/RS

terça-feira, 8 de agosto de 2017

A vida e o mundo*


Contaria-se agora
Por metáforas
Cada vez mais esquisitas
As grades de papel prendiam
Quem estava do outro lado
As paredes de vidro separavam
A liberdade dos livres
Era deste lado
Que o mundo acontecia
E o tempo passava tão lento
O tempo girava em círculos
A loucura morava ali
Dentro dele, na casa ao lado
A poesia seria sua arma
Carregada de tiros de festim
Afinal, para entender
Apenas uma vida
É preciso engolir o mundo.

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Especialista em Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"(...) é indispensável perdermos o hábito de só ouvir o que já compreendemos"

"Estamos sempre no perigo de sobrecarregar um poema com excesso de pensamento e assim impedir que o poético nos toque"

"A essência da linguagem dá notícia de si mesma como indício, como a linguagem de sua essência"

"Tanto a poesia como o pensamento movimentam-se no elemento do dizer"

"(...) uma coisa, chamada palavra, confere ser a uma outra coisa"

"Falamos da linguagem dando sempre a impressão de estarmos falando sobre a linguagem quando, na verdade, é a partir da linguagem que falamos. Pois é na linguagem que a linguagem, sua essência seu vigor se deixam dizer"

"A linguagem foi chamada de a "casa do ser". Ela abriga o que é vigente à medida que o brilho do seu aparecer se mantém confiado ao mostrar apropriante do dizer. Casa do ser é a linguagem porque, como saga do dizer, ela é o modo do acontecimento apropriador"

"O que, portanto, deve manter-se impronunciado resguarda-se no não-dito, abriga-se no velado como o que não se deixa mostrar, é mistério"

*Martin Heidegger in "A caminho da linguagem". Ed. Vozes. Petrópolis/RJ. 2004.

domingo, 6 de agosto de 2017

Emoções*


Cresci num lar cognitivo.
Ainda sinto o cheiro dos livros no escritório do meu pai localizado no piso superior da nossa casa. As escadas conduziam exclusivamente, ao local.

Ele, Alfredo Gevieski, técnico rural que, juntamente com os botânicos Pe.Raulino Reitz e Roberto Klein, dedicaram-se à catalogação dos diferentes tipos de Bromélias, do reflorestamento e da demarcação das áreas da Serra do Tabuleiro / SC, numa política de controle à malária, em fins das décadas de 1940 à 1970, aproximadamente.

Abrir os diversos livros e coleções eram de uma grande curiosidade para mim. Meu pai costumava, faceiro, levar-me a algumas reservas florestais onde o observava atentamente, aos detalhes da seleção de alguma espécime nova encontrada de Bromélias. Enquanto se dedicava às anotações de seu trabalho, costumava deixar que eu manuseasse algum livro com fotos de plantas.

A visita ao Herbário Horta Barbosa ( Itajaí/SC), foi sempre uma grande satisfação. Lembro dos fósseis de troncos das árvores. Uma curiosidade difícil de imaginar eram aquelas esferas e cubos de pedras que foram outrora árvores. Adorava subir em árvores, mas vê-las ali, como blocos de pedras , era um tanto difícil para aquela menina que beirava os cinco anos de idade.

As lembranças, nesse deslocamento longo, reavivam emoções prazerosas. Creio ter sido, o contato com os diversos livros, que traduziram meu gosto por leituras. Para o pensador, as leituras são referências de pensares e de experiências. 

Podemos nos embrenhar e podemos nos desembrenhar das idéias dos diversos escritores e filósofos. As representações dos nossos pensares, remetem ao conhecimento singular e circunstancial, traduzindo o mundo que se vive. O nosso agir e pensar é fruto de nossas experiências. A forma como expressamos e significamos é única e não se afasta daqueles os quais, por outras razões, se dedicaram ao ofício das Letras.

*Marize Ouriques
Filósofa. Educadora. Especialista em Filosofia Clínica
Florianópolis/SC

sábado, 5 de agosto de 2017

Cores do Tempo*


“Um borrão. Um claro. Claro obscuro. Ora um. Ora outro.” Samuel Beckett

De todas as cores, de todos os sons, nem espaço existe para se deixar de pensar. Todos os números dão a exatidão, exatamente no plano abstrato onde o real aparece na representação. A única certeza está no código: a precisão infinitesimal percorre o tempo sem trégua para o olho do observador. 

Aí pensei, e se eu pudesse discorrer até o fim do mundo? Pensei que o tempo pudesse dar uma trégua aos corações libertários, que os deixassem parar um pouco no instante infinito do prazer, que a realidade pudesse ser a mesma da eternidade da metamorfose [...] 

Viral, correr dos sons possa se transformar em signos do escape total do Real. A maneira de percorrer o outro lado da vida é não deixar de viver, eu sei. 

Armei mais um truque para me manter aceso ao próximo século como uma lanterna à deriva no mar. Se tornar-me imortal − juro, darei um jeito nisso, voltarei a comer glúten. Promessa de leitor!!!

*Prof. Dr. Luis Antonio Paim Gomes 
Filósofo. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"O sonhador inventa a sua própria gramática"

"O bricoleur, diz Lévi-Strauss, é aquele que utiliza 'os meios à mão', isto é, os instrumentos que encontra à sua disposição em torno de si, que já estão ali, que não foram especialmente concebidos para a operação na qual vão servir e à qual procuramos, por tentativas várias, adaptá-los, não hesitando em trocá-los cada vez que isso parece necessário, em experimentar vários ao mesmo tempo, mesmo se a sua origem e a sua forma são heterogêneos, etc."

"Um sujeito que fosse a origem absoluta do seu próprio discurso e o construísse 'com todas as peças' seria o criador do verbo, o próprio verbo"

"Não existe um verdadeiro termo para a análise mítica, nem unidade secreta que se possa apreender no fim do trabalho de decomposição. Os temas multiplicam-se ao infinito. Quando julgamos tê-los destrinçado uns dos outros e poder mantê-los separados, apenas constatamos que eles voltam a unir-se, em resposta às solicitações de afinidades imprevistas"

"(...) Husserl sempre acentuou a sua aversão pelo debate, pelo dilema, pela aporia, isto é, pela reflexão sobre o modo alternativo em que o filósofo, no termo de uma deliberação, pretende concluir, isto é, fechar a questão, parar a expectativa ou o olhar numa opção, numa decisão, numa solução"

"Contrariamente ao Ser e ao Livro leibnizianos, a racionalidade do Logos pela qual a nossa escritura é responsável obedece ao princípio da descontinuidade"

"No escritor o pensamento não dirige a linguagem do lado de fora: o escritor é ele próprio como um novo idioma que se constrói"

*Jacques Derrida in "A escritura e a diferença". Ed. Perspectiva. SP. 2005. 

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

A palavra devaneio***













É incomum notar a existência de algo que restaria silenciado, não fosse um olhar absorto, indeterminado. Sentir improvável de sonhar acordado. Esse lugar de refúgio à esteticidade acolhe um viajante das quimeras.

Nessa região, onde eventos sem nome rascunham invisibilidades, é possível descobrir vias de acesso de essência não epistemológica. Seu teor de matriz intuitiva, ao pluralizar versões desconsideradas, faz acordar aquilo que dormia. Ao desalojar esses fenômenos, desconstrói o aspecto irrealizável das promessas. Esses momentos reivindicam a singularidade alterada para se mostrar. Assim a pessoa, deslocando-se por esses labirintos da interseção, ao ser ela mesma, já é outra.

As estéticas do devaneio convidam ao exercício de ficção. Um desses lugares onde o inesperado atua. Inicialmente desconfortável nesse chão desconhecido, o sujeito pode vivenciar insegurança, dúvida, receio. No entanto, ao persistirem as visitas por esse ambiente especulativo, pode desvendar-se em projetos, reminiscências, criação. Assim, não é raro um transbordamento da irrealidade no mundo real.

Nesse exercício de aproximação com a irrealidade, em trânsitos por territórios indefinidos, algo se acrescenta, perde-se, modifica-se. Esse deslocamento, ao preencher espaços vazios, concede sabor e cor ao que se tinha destituído de vontade. Nem sempre é possível acessar o lugar onde os devaneios se constituem e se movimentam. Interseção onde uma parcela generosa de infinito se abriga. Ao se apresentar nos múltiplos rastros, contradiz a realidade conhecida para expressar seus inéditos.

Aqui se trata de um aprendizado com as lógicas da singularidade, provisoriedade discursiva, inclusão. Na relação com a incerteza a alma se permite rascunhar novos rumos. Aqui se cuida de encontrar algum vocabulário para traduzir, interpretar, compreender a geografia interna da pessoa, por onde seus originais transitam.

Na clínica filosófica, por seu viés metodológico, uma viagem interminável elabora seus convites. Quando traduzíveis, encontram, em seu cotidiano, uma base para as construções compartilhadas com a subjetividade em vias de tornar-se. Seu teor, ao roçar as dialéticas do absurdo, denuncia eventos de lógica extraordinária.

*Hélio Strassburger
**Texto da nova obra "A palavra fora de si" que terá lançamento em breve pela Editora Multifoco em Porto Alegre, Rio de Janeiro e Buenos Aires.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Fragmentos Filosóficos, Delirantes*


"O povo só lê, só apóia, só populariza a quem escreve a língua que ele fala"

"(...) a literatura no Brasil é mero diletantismo, a que só por irresistível pendor natural se entregam sonhadores, os quais mais naturalmente propendem para o verso, propício aos sonhos e fantasias, que para a prosa, mais amigas das realidades"

"Não há prazer que valha o prazer mental. Todos os mais são passageiros, e deixam borras amargas"

"(...) a alma da palavra é o sentido, e a sua forma apenas matéria perecível"

"E a ideia que se pretende inocular na criança é mister que vá para o livro medida e pesada com o rigor do químico, sementes que vão germinar, para o resto da vida, em terreno virgem"

"O prazer mental, porém, perfuma-nos o cérebro, irisa-o, e reconcilia-nos com a vida. Ora, é Machado de Assis o maior mestre que temos na arte sutilíssima de nos proporcionar ao espírito este prazer dos deuses. Lê-lo é arejarmos o cérebro como se abríssemos uma janela para um jardim de Armida"

"Queixam-se de que não temos literatura. Queixam-se de que o pouco que temos não é conhecido nem estimado como deveria ser. E as razões são óbvias. Não temos tido editores que ponham os livros ao alcance do povo, em edições baratas, isto é, de preço razoável e justo"

*Monteiro Lobato in "Críticas e outras notas". Ed. Brasiliense. SP. 1965.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

O equilíbrio e a harmonia


No lugar de equilíbrio, devemos buscar harmonia. Porque a ideia de se manter em equilíbrio perpétuo ou duradouro é muito frágil quando aplicada. Já tentou viver sempre se equilibrando numa corda bamba? 

Nem mesmo o maior de todos os equilibristas lograria êxito dessa forma. Pois, equilíbrio serve somente para espetáculos ou para exibir-se em alguns momentos muito bem delineados. Mas viver em harmonia é uma medida ousada, provável e possível. 

E bastaria buscar aprender cada vez mais sobre nós mesmos vivendo num caminho de descobertas de modos cada vez mais qualificados para lidar tanto com os momentos de adversidades quanto com os momentos de glória. Afinal, a vida é uma rica somatória de momentos que sempre valem a pena estar presente. Musa!

*Prof. Dr. Pablo Mendes
Filósofo. Educador. Escritor. Filósofo Clínico
Uberlândia/MG – Porto Alegre/RS