Incompletudes


Esconderijos do espírito

Idalina Krause
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


Uma luz qualquer acompanha os rabiscos mentais, não que se desconheça o sombrio das coisas todas. O obscuro tem seus brilhos, sabe quem transita nos esconderijos do desconhecido espírito seu. Mares de incertezas, nús desertos, floração repentina, centelha no caos apocalíptico, tinturas, ondas, cores fugidias, variações, cabeça repleta, incessantes pensares, tempestade de signos, vertiginosa contemplação de vastas realidades...



Farpas

Sonia Prazeres
Filósofa Clínica
São Paulo/SP


Às vezes o peso do mundo desconcerta
Certas vidas e as dores envolvidas
As escolhas que não podem ser feitas
As lancinantes farpas espetando ainda.

Um jogo de querer viver e esconder-se
Receio de arriscar, uma descrença
A voz das chagas que não cicatrizam
A cor do medo tingindo a redondeza

A dor de não retroceder no tempo
Distanciar-se dos fatos e do sofrimento
Para recobrar a luz de outrora por inteiro.

Kronos que escapou e ainda repercute
Sem a benção de uma alma que lhe escute
E lhe acorde anunciando que foi só um pesadelo.




Mutismo

Andréa Kubota
Filósofa clínica em formação - Instituto Interseção


Não me importa a palavra, esta corriqueira,
Desejo o esplêndido caos de onde ressurge a sintaxe,
Esta incompreensível muleta que me apóia
A palavra é máscara de coisa mais grave, surda-muda
Foi inventada para ser calada.
Puro susto e terror.



Jiló

Olympia
Juiz de Fora/MG

Maria acorda cedo
O sol dormindo esta
Faxinar é preciso
Para o pão poder comprar
Milena acorda....
" Mãe trás jiló "
De noite Maria trás o jiló
Faz um angu molinho e jiló
Milena come até enfartar
Acorda com o rosto inchado
Maria pensa...
"Ah... jiló."



Estrada de Terra

Olympia
Juiz de Fora/MG


Amo estrada de terra

Vou descobrindo o caminho

Passo por caminhos estreitos

No meio dos arvoredos

Numa curva

Inesperadamente aparece uma casinha abandonada

Nas paredes o tempo

Descubro o caminho com as pessoas que encontro

O tempo traçou seus rostos, vozes... até o respirar.

Subir e descer

A poeira delineando o ar

O cheiro do fogão a lenha

Pássaros cantando

O vento fazendo a segunda voz

Vejo a frente Santa Sophia

Portão de ferro

Grama e musgos

Sombra e luz

Casario

Avisto uma velha senhora de cabelos brancos

Largo sorriso

Aconchego

Criança

Não têm placas sinalizando.




O trem da vida

Aninha Simioni
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


Ele desembarcou... deixou seu lugar vazio...mas nunca será esquecido, por que seu legado é instigante, unico, e faz a diferença para os que ficaram.

Há algum tempo atrás, li um livro que comparava a vida a uma viagem de trem. Uma leitura muito interessante, quando bem interpretada. Isso mesmo, a vida não passa de uma viagem de trem, cheia de embarques, alguns acidentes, surpresas agradáveis em alguns embarques e grandes tristezas em outros.

Quando nascemos entramos nesse trem e nos deparamos com algumas pessoas que julgamos que estarão sempre conosco: nossos pais. Infelizmente, isso não é verdade, em alguma estação eles descerão e nos deixarão órfãos no cominho, amizade e companhia insubstituível... Mas isso não impede que durante a viagem, pessoas interessantes e que virão a ser mais que especiais para nós embarquem.
Chegam nossos irmãos, amigos e amores maravilhosos.

Muitas pessoas tomam esse trem apenas a passeio. Outros encontrarão nessa viagem somente tristeza. Ainda outros circularão pelo trem, prontos a ajudar a quem precisa. Muitos descem e deixam saudades eternas, outros tantos passam por este trem de forma que , quando desocupam seu acento, ninguém sequer percebe.

Curioso é perceber que alguns passageiros que nos são tão queridos, acomodam-se em vagões diferentes dos nossos, portanto somos obrigados a fazer esse trajeto separados deles, o que não impede, é claro, que durante o percurso, atravessemos, mesmo que com dificuldades, o nosso vagão e cheguemos até eles... só que, infelizmente, jamais poderemos sentar ao seu lado para sempre.

Não importa, a viagem é assim, cheia de atropelos, sonhos, fantasias, esperanças, despedidas... porém, jamais retornos. Façamos essa viagem, então da melhor maneira possível, tentando nos relacionar bem com todos os passageiros, procurando, em cada um deles, o que tiverem de melhor, lembrando sempre que em algum momento do trajeto, eles poderão fraquejar e provavelmente precisaremos entender, pois nós também fraquejamos muitas vezes e, com certeza, haverá alguém que nos entenderá.

Eu me pergunto se quando eu descer desse trem sentirei saudades... acredito que sim. Separar-me de algumas amizades que fiz será, no mínimo, dolorido. Deixar as pessoas queridas,com as quais aprendo, sinto a cada momento novas emocões, que me possibilitam um novo olhar, uma nova possibilidade, uma nova palavra, um novo gesto, um novo abraço, um novo pensamento, protagonista de algo novo, como mais uma luzinha a acender...um novo sentimento, a percepçao de uma energia mais brilhante de um ser singular que busca construir um mudo melhor e tenta abrir os olhos da humanidade.

Sim, ele chegou a Estação e desembarcou do trem, mas deixou um mapa que indica um caminho para a humanidade, muita luz para o pensamento e espírito Humano, um novo e inédito olhar...Quando todos padecem de cegueira, o mais dificil não é estar cego, terrivel mesmo, é ser o unico a enchergar....

Querido Saramago, o seu lugar está vazio, mas você contribuiu e continua a contribuir com seu legado para as transformações que acontecem e acontecerão neste trem. Deixará saudades, recordaçoes e o pipocar de novos pensamentos, questionamentos quanto a natureza do homem, amor a justiça social, ao respeito as diferenças, ao combate a violencia e dominaçao de um povo sobre o outro... Tudo isso e muito mais ficará para aqueles que prosseguirem a viagem da vida neste planeta.

Suas palavras encontraram ressonância em em minha vida, como socióloga, filósofa, cuidadora, humanista, pesquisadora autodidata, ser humano, pessoa, mulher....

Adeus José Saramago, senti a maior emoção... , lágrimas inundaram os meus olhos e rolaram pelas faces, sem nada que as controlasse... quando me vi diante de você, assistindo e participando de suas palestras nos FSM (Fórum Social Mundial) de Porto Alegre, oportunidade, aproveitada e que com certeza ajudou-me a crescer um pouco mais e tornar-me um pouquinho melhor, nas relaçoes indiviuais humanas, religiosas, sociais e politicas dentro deste trem! Obrigada!!! Vocè deixa saudades e Esperança.



Cá e Lá

Eugenio Montale
São Paulo/SP


Há tempos estamos ensaiando a peça
mas a desgraça é que não somos sempre os mesmos.
Muitos já morreram, outros trocam de sexo,
mudam barba, rosto, língua ou idade.
Há anos preparamos (há séculos) os papéis,
as tiradas principais ou apenas
"a mesa está posta" e nada mais.
Há milênios esperamos que alguém
nos aclame no palco com palmas
ou até em assobios, não importa,
desde que nos reconforte um nous sommes là.
Infelizmente não falamos francês e assim
ficamos sempre no cá e jamais no lá.




Para não morrer

Elza Fraga
São Paulo/SP


Eu escrevo pra não morrer implodida,
com tudo preso na garganta!
Eu escrevo como quem canta!

Eu escrevo pra dar sabor a vida,
porque as vezes ela fica tão vazia!
Eu escrevo pra não debruçar no choro
até o amanhecer
e adormecer de pura exaustão,
ao clarear o dia!

Eu escrevo como uma vadia!
Eu escrevo pra não perder a sanidade,
o equilíbrio, o tino ,
a lucidez e a paciência!

Eu escrevo como quem faz penitência!
Eu escrevo pra apagar as burradas
que vou cometendo pela vida a fora!
Eu escrevo porque a solidão,
a dois, me apavora!


Eu escrevo para não me perder
nas esquinas da vida,
nas horas mortas!

Eu escrevo por oficio,
profissão ou apatia.
Eu escrevo por pura mania!

Eu escrevo como quem socorre,
como quem pede socorro...
--------------------------------
Eu escrevo como quem morre!




Sem vento

Fernanda Moura
São Paulo/SP

Eu sempre te quis por perto
Seu silêncio
Seu vazio eterno
Eu sempre te quis por perto

Minha doída fantasia
Seu lábio parado - fechado
E o olhar distante...
Na sua intensidade natural
Diante do silêncio

Momento santo
Onde a minha alma vaga
Por idéias em pensamento
Que vão e vêm como passa o vento
Que te leva embora
mas também te traz de volta
Pra perto de mim
Do meu silêncio

Meu vazio eterno
Que só se satisfaz
Na quietude de toda a minha loucura
Por um momento entre você e mim
Em silêncio e
Sem vento.




Escritura

Idalina Krause
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


Escrever é desacordar
Uma solidão brutal
Somos "pugilistas"
Socamos hipocrisias
Vitórias momentâneas
Lutas marcadas
E o mundo lá fora
Mas um "cheiro" cai bem
Aquece entranhas
Tempera criações
Tchau!



Oceano

Sonia Prazeres
Filósofa Clínica
São Paulo/SP

Nessas horas enxergo um rio,
Vida que passa mansamente
Luar refletido,
acompanhado de estrelas.
Sol da manhã e este leito doura;
Manso e morno aquece a alma.
Nessas horas navego as mesmas águas
Que me conduzem - barco -
e sou levada.
Escuto risos, soluços, passos...
percebo tuas mãos.
Nada de correntezas ou tempestades
Remanso, aconchego, teu sorriso;
E o oceano em que deságuo - teus olhos
É mar imenso...é tudo que preciso.



Divagações de Uma Pedra

Márcia Avelino
Filósofa Clínica
São Paulo/SP

A rosa presente em minhas contemplações,
Adorna meu espírito com doces ilusões.
Em todos os dias, e a todo tempo,
Prende meus olhos em seu movimento,

Seu perfume é embriagante,
Sua forma ao vento, baila elegante;
Sua cor, é uniforme e aveludada,
Suas pétalas, profundas e delicadas.

Sei que muitos também a reparam.
Pois, enquanto as outras apenas exalam,
Essa, mais que inspira, revela sentimentos,
Lutas, angústias, paixões, questionamentos.

Quis chegar para além dos muros do jardim
E, talvez, arrancá-la para mim.
Andei angustiada por não poder me aproximar.
Mas, no fundo, prefiro que viva
Para que eu a possa admirar.

Então, disse-me o vento que carrega seu odor
- como fosse um recado de amor -:
“A beleza das rosas é de todos e de ninguém;
Mas rosa que contemplas, olha-te também”.

Pode uma rosa estar entre pedras, sem sufocar?
Permitiria seu criador tamanha façanha?
O vento suave já sinto ao longe sussurrar.
E a resposta embaraçosa já não temo escutar.
Pelo que temerei, senão pela felicidade da amada?
Pois é sua alegria que me deixa encantada.
Tal beleza a enfeitar outras vidas, não me faz desafiada,
Afinal, a vantagem das pedras não pode ser negada:
Ainda que as rosas não possam receber pedradas,
Ela pode receber rosas e sentir-se acariciada.




Mãos dadas

Rosângela Rossi
Juiz de Fora/MG

Eu e você
Pura compreensão
Das diferenças e singularidade.
E não espero que faça o que desejo.
Eu sou eu e você é você.
Somos caminhantes.
Lado a lado.
Cada um em busca de si mesmo.
É amor. Amor real.
No compartilhar e respeitar.
Só isto.
Mãos dadas.
Liberdade.
E por não precisar de você,
é bom estar ao seu lado.
Isto basta!



...

Idalina Krause
Porto Alegre/RS


... Há uma ordem oculta no caótico. O amor muitas vezes fracassa, mas como Fênix gloriosa sobrevoa as roupas que insistem em ficar no varal. Com olhar enigmático dos amantes observa crianças brincando de soldadinhos de chumbo, com balas que retiram de suas casas invadidas.



A janela encantada

Rosangela Rossi
Juiz de Fora/MG


Há um caminho e um caminhar.
Peito que se abre em profundo respirar.
Possibilidades infinitas,
Para além da janela,
Mundo encantado a me esperar.
Descer ou subir?
Em baixo o chão do dia a dia,
Pão nosso a trabalhar.
Em cima anjos divinos,
Cantos e encantos,
Sonhos e fantasias,
Vontades da alma a serenar.
Eu transparente a vagar
Posto que a vida me chama
A encantar.
Olho a janela e sento na escada,
Mistérios a se desvelar.
No dentro e no fora,
Sou puro instante no ato de olhar.





Poeira

Olympia
Juiz de Fora/MG


Gosto é um trem gozado.
Tem gente que gosta de lavar a Alma no mar,cachoeira, chuveiro
ou simplesmente lavar os pés
cansados e empoeirados numa bacia d'agua.
Gostam do asfalto tapete.
Restaurante e Hotel cinco ***** .
Óia que que já tem até um tal de Resort.
Lembra a Ilha da Fantasia do Sr Roarke e do anão Tatoo.
Trem bão mesmo é uma estrada de terra com muitos buracos e costelinhas.
A Alma e as idéias ficam molinhas de tanto sacolejar.
Lavo minha Alma com a poeira quente da estrada de chão...
Com as pessoas e a vida que nelas encontro.
Num milésimo de segundo encontro Deus.



Instantes únicos

Idalina Krause
Porto Alegre/RS


Quando as pessoas que tu acompanhas, em seus dramas existenciais, começam a reecontrar seu pontos cardeais. Fluxos libertos, forças em movimento, vida pulsante, abertura de portas, fluição da antiga represa-alma. Águas encontrando mares, criaturas em alegria, momentos que compartilhamos, não sem marejar os olhos, tal a potência da rosa-dos-ventos.