Resenhas

Resenha: Como ler a filosofia clínica*
Por Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG



AIUB, Monica**. Como ler a filosofia clínica? Prática da autonomia de pensamento. 2ª ed. São Paulo: Paulus, 2010.


Esse livro, como a autora afirma, pretende mostrar a filosofia clínica (FC) que, ao mesmo tempo em que foi pensada por Lúcio Packter como modalidade terapêutica, é uma extensão da filosofia que em seus 2.500 anos de história que em vários momentos intentou tratar de questões existenciais. Escrito em setenta páginas com doze breves capítulos, a linguagem do livro é um convite à reflexão e uma introdução fecunda a um conteúdo complexo apresentado de modo acessível não somente aos que não conhecem a FC, mas aos que não conhecem a filosofia em si. Além disso, Aiub suscita questões que podem ser pensadas pelo leitor que não conhece a filosofia em sua aplicação em consultório. Isso porque, como o subtítulo coloca, a FC intenta estimular a autonomia de pensamento. Portanto, mais do que uma exposição de conteúdo, a proposta é fazer pensar a própria vida.

Expomos abaixo o capítulo com seu respectivo título, seguido da apresentação do conteúdo em breves palavras:

1. Filosofia e vida cotidiana: uma relação antiga – Mostra que em sua gênese, a filosofia tratava de questões existenciais e que estas se desenvolviam no diálogo. Além disso, é uma atividade que gera desconforto por movimentar questões fundamentais do homem. A FC, portanto, é um resgate dessa forma de compreender a filosofia.

2. Questões existenciais – Os problemas que um partilhante (como em FC se chama o paciente) leva para o consultório não devem ser resolvidos com fórmulas previamente prontas. Tal como uma questão filosófica, o problema precisa ser contextualizado. Do mesmo modo que um filósofo somente deve ser compreendido em seus textos dentro do contexto, tanto do autor quanto da história da filosofia, o partilhante deve ser compreendido em sua lógica interna e em seu contexto histórico e circunstancial. Somente a partir disso é que se faz possível pensar soluções.

3. Construção de conceitos e qualidade de vida – Na esteira de Deleuze e Guattari para os quais a filosofia é criação de conceitos, a autora toma a ideia aplicada à formação do partilhante ao longo de sua historicidade. Pensando o partilhante e sua constituição ao modo de Heráclito, vendo o homem como em constante devir ou propenso a mudanças, abre-se a possibilidade de tomar antigos conceitos ou formar novos para que se possam trabalhar os problemas pessoais, dando novas formas à sua vida.

4. O conceito de clínica – Distinguindo clínica científica da clínica médica, a autora pensa a primeira como aquela que está voltada para delimitação do problema a ser tratado, enquanto a segunda visa a totalidade do paciente. Neste horizonte está Hipócrates, pai da medicina ocidental, para o qual a doença é basicamente um desequilíbrio. A FC parte da mesma perspectiva hipocrática em vista de pensar os problemas do partilhante em sua totalidade, reconhecendo elementos como sua história e circunstância.

Nos capítulos seguintes, Aiub apresenta propriamente a FC.

5. Filosofia clínica: de onde vem a ideia? – A FC foi criada pelo gaúcho Lúcio Packter, na década de 80. Formado inicialmente em medicina, ele constatou que havia problemas no hospital que não eram diretamente relacionados à doença, mas existenciais. Motivado a ajudar as pessoas nesse aspecto, Packter lança-se a pesquisa. Chega a conhecer a filosofia prática. Mas, desenvolve um método próprio. Partindo da anamnese (oriunda da medicina), Packter reconhece gradualmente a necessidade de um mínimo de intervenção para a colheita da historicidade do outro, na qual, aplicando Exames Categoriais, Estrutura de Pensamento (EP) e Submodos, conhecerá os problemas do partilhante contextualizados e significados por quem os vivencia. Aos poucos os filósofos da história foram acessados para o desenvolvimento mais amplo de sua metodologia, tal como está estruturada hoje.

6. Como funciona a prática da filosofia clínica? – Alguém, por motivos diversos, procura um filósofo clínico. A princípio o partilhante é motivado pelo terapeuta a dizer o que o levou ao consultório. Essa primeira queixa é denominada Assunto Imediato. Em seguida, o filósofo pedirá que o partilhante conte sua história de vida. Intervindo o mínimo possível (agendamento mínimo) no relato, a história vai sendo contada de modo que o problema seja reconhecido em seu contexto – Exames Categoriais. Então, o filósofo clínico monta a EP, ou seja, reconhece o modo como a pessoa é. Também é nos Exames Categoriais e na EP que é confirmado se o Assunto Imediato de fato corresponde com o conflito do partilhante, Assunto Último. É importante frisar que não há diagnósticos prévios. Dado que o partilhante é sempre um caso singular, os resultados serão sempre singulares.

7. Eu sou normal? Por que parece que todo mundo pensa diferente de mim? Em FC a singularidade é um conceito central. A partir dessa concepção, não há enquadramento em normas. Portanto, não há anormalidade. Qualquer juízo de valor por parte do terapeuta acerca de qualquer comportamento do partilhante ou divergência com o meio no qual convive é suspenso. Se o partilhante manifestar necessidade de se adaptar ao meio ou de mudar de ambiente, caberá ao filósofo ajudar a pensar opções e consequências de tais possibilidades. Na formação do filósofo clínico há a devida preparação para que, em casos de distúrbios químicos ou biológicos, o partilhante seja encaminhado a um médico.

8. Exames Categoriais: Como você se posiciona no mundo? – Os Exames Categoriais são a primeira parte dos procedimentos instrumentais da FC. Devido à plasticidade de cada singularidade, é atualizado constantemente. Assunto Imediato é a queixa inicial do partilhante. Assunto Último é o que de fato levou o partilhante a buscar ajuda. Circunstância é o meio no qual se vive: social, profissional, etc. Lugar é como se sente em cada ambiente. Tempo diz respeito ao como a pessoa vive o tempo objetivo (cronológico) e o subjetivo (kairológico). Relação é a constatação de como se dá as relações do partilhante consigo, com o próximo, com as coisas, animais e todo tipo de relações possíveis. Os Exames Categoriais são fundamentais para o bom andamento do acompanhamento clínico.

9. Estrutura de Pensamento: Como você é? A EP é basicamente o reconhecimento da estrutura da pessoa, sua constituição. A autora postula que essa estrutura não é rígida e são diversos os elementos que a constituem e que a influenciam. A EP constitui-se de 1. Como o mundo parece; 2. O que acha de si mesmo; 3. Sensorial & Abstrato; 4. Emoções; 5. Pré-juízos; 6. Termos agendados no Intelecto; 7. Termos: Universal, Particular e Singular; 8. Termos: Unívoco e Equívoco; 9. Discurso Completo e Incompleto; 10. Estruturação de Raciocínio; 11. Busca; 12. Paixões Dominantes; 13. Comportamento e Função; 14. Espacialidade: inversão, recíproca de inversão, deslocamento curto, deslocamento longo; 15. Semiose; 16. Significado; 17. Armadilha Conceitual; 18. Axiologia; 19. Tópico de Singularidade Existencial; 20. Epistemologia; 21. Expressividade; 22. Papel Existencial; 23. Ação; 24. Hipótese; 25. Experimentação; 26. Princípios de Verdade; 27. Análise de Estrutura; 28. Interseções de Estrutura de Pensamento; 29. Matemática Simbólica; 30. Autogenia. A EP possui organização e movimentos singulares que varia a cada partilhante.

10. Submodos: Como você age? O Submodo é o modo como se viabiliza o que a pessoa é (EP). São movimentos feitos pelo partilhante para resolver determinados conflitos, ou simplesmente seu modo de agir de acordo com sua EP. No caso clínico, após colheita da historicidade, Exames Categoriais e EP, o filósofo pode propor Submodos já utilizados pelo partilhante ou ensinar novos, de acordo com a necessidade. São Submodos: 1. Em direção ao termo singular; 2. Em direção ao termo universal; o 3º e 4º foi escrito errado, vou apresentá-los já corrigidos e o erro foi basicamente a repetição respectiva do 1º e 2º; 3. Em direção às sensações; 4. Em direção às ideias complexas; 5. Esquema resolutivo; 6. Em direção ao desfecho; 7. Inversão; 8. Recíproca de inversão; 9. Divisão; 10. Argumentação derivada; 11. Atalho; 12. Busca; 13. Deslocamento curto; 14. Deslocamento longo; 15. Adição; 16. Roteirizar; 17. Percepcionar; 18. Esteticidade; 19. Esteticidade seletiva; 20. Tradução; 21. Informação dirigida; 22. Vice-conceito; 23. Intuição; 24. Retroação; 25. Intencionalidade dirigida; 26. Axiologia; 27. Autogenia; 28. Epistemologia; 29. Reconstrução; 30. Análise indireta; 31. Expressividade; 32. Princípios de verdade.

11. Movimentos existenciais: o que se busca no consultório de filosofia clínica? Alguns pensam aristotelicamente que a “finalidade do ser humano é a felicidade”, outros erasmianamente que é “ser o que se é”, outros buscam apenas “perder-se na multidão”, e assim são algumas das diversas finalidades de um partilhante na clínica. O trabalho do filósofo clínico consiste em dominar a técnica, buscar estabelecer uma qualidade na interseção e construir com o partilhante um caminho próprio, seja ele qual for. Não há resultados prévios, somente singularidade.

12. Continuando a partilha... a autora propõe, por fim, uma abertura inconclusiva, próprio das obras filosóficas. Retomando tudo o que foi dito lembra que, mais do que o domínio da técnica, o vínculo do filósofo clínico com o partilhante deve ser da amizade ao saber e ao outro e a possibilidade de trazer pra si a riqueza da FC em prol da vida.

No fim de cada capítulo a autora dispôs de um questionário que visa “tirar o leitor de seu conforto” e lançá-lo na atividade da reflexão sobre si. A resposta, evidentemente, é deixada a cargo do leitor. Como a FC ensina: cada leitor é uma singularidade e, para cada pessoa, cabe uma resposta singular.

Essa obra constitui-se como uma introdução geral à FC. Os elementos apresentados de modo acessível para um grande público faz jus a finalidade dessa abordagem terapêutica: auxiliar o partilhante em suas questões, sejam elas quais forem.

Entretanto, quando se fala em uma abordagem baseada em vinte cinco séculos de história do pensamento Ocidental, deve ficar claro que a abordagem da FC busca nas filosofias elementos que podem ser aplicados à prática clínica. Em outras palavras, quando se fala das categorias aristotélicas e kantianas, não se quer um acesso ao ser ou ao fundamento último; o mesmo se pode dizer da linguagem wittgeinsteiniana ou da filosofia da história de Dilthey; estas somente possuem validade para FC à medida que contribuem para a formulação da metodologia e na aplicação da compreensão do partilhante em sua complexidade singular a fim de auxiliar em suas questões existenciais.

**Monica Aiub Monteiro é licenciada em Filosofia pela UNISANTOS, bacharel em Música pela UNESP, Pós-Graduada em Educação Brasileira pela UNISANTOS, Especializada em Filosofia Clínica pelo Instituto Packter, mestra em Filosofia pela UFSCAR e doutoranda em Filosofia na PUC-SP. Atualmente é professora de filosofia na UPM, professora titular do Curso de Especialização em Filosofia Clínica do Instituto Packter e dirige as atividades do Interseção - Instituto de Filosofia Clínica de São Paulo. É vice-presidente da APAFIC - Associação Paulista de Filosofia Clínica. É conselheira editorial da revista Filosofia, Ciência & Vida. (Fonte: Currículo Lattes).

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Lopez, Steve. O SOLISTA. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.


Por Ana Cristina da Conceição
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


Nathaniel começa a tocar,
abrindo caminho através da lou-
cura. Seus olhos estão fechados
e no seu mundo vedado existe
ordem, lógica, sanidade,
doce alívio.

Steve Lopez


O livro escrito por Steve Lopez, adaptado para o cinema: O Solista Inglaterra/EUA/França/2009. 117 min. Dir. Joe Wright, narra um encontro que, segundo Steve, mudou seu jeito de ver a vida.
Caminhava pelo centro de Los Angeles, com mais um prazo para a entrega da coluna estourando, quando Steve vê pela primeira vez Nathaniel. Um homem maltrapilho e de aparência solitária. Tocava Beethoven com um violino surrado em meio ao barulho caótico dos carros.

Essa cena lhe chamou a atenção. Se aproxima acreditando ter encontrado uma história que pudesse lhe render uma boa matéria para sua coluna no jornal Los Angeles Times.

Assim descreve o homem do violino: “Ele é negro, com pouco mais de 50 anos, olhos cor de caramelo que se animam com o elogio. Está parado junto a um carrinho de mercado onde se amontoam todos os seus pertences, mas, apesar da roupa manchada e encardida, tem uma elegância desarrumada.”

O talento musical desse homem impressiona e sua postura não é de quem toca para ganhar dinheiro. O som que tira do instrumento também não é de um iniciante, e fica claro que ele sofre de algum tipo de perturbação. O jornalista diz que pretende escrever sobre ele em sua coluna. Nathaniel não só aprova como fica empolgado com a idéia.

Os escritos sobre o “Homem do violino” chamam a atenção de seus leitores. Acham incrível a história de um homem atordoado por um golpe há trinta anos, a manter o espírito intacto. Sensibilizados, querem doar instrumentos novos para o músico das ruas.
Dias depois, a sala de trabalho de Steve se transforma em um depósito de instrumentos musicais. No entanto, sua situação é preocupante, pois morando nas ruas já havia sido roubado várias vezes e Steve temia o que pudesse acontecer devido aos instrumentos novos.

Entre uma conversa e outra o jornalista vai descobrindo detalhes da vida de seu personagem. O Homem do violino se chama Nathaniel Anthony Ayers, da cidade de Cleveland e diz ser um ex-aluno da Juiliard, uma das escolas de música mais conceituadas do mundo.
Ele resolve verificar se as informações são verdadeiras. Entra em contato com a escola e descobre que ele diz a verdade. Foi aluno da Juiliard, porém, devido às constantes crises de esteticidade bruta, as quais o levaram a internação, é afastado da escola.

Perguntas começam a surgir: Como ele veio parar nas ruas? Quem são seus familiares? Por que ele não aceita tratamento? Uma busca se inicia para tentar descobrir mais sobre esse homem.

Nathaniel, apesar de ser negro, num ambiente dominado pela elite branca, se destacou chamando a atenção de seus professores: um prodígio. Mas nenhuma de suas qualidades o privou dos problemas familiares: sofreu com a separação dos pais na infância e com o novo casamento da mãe.
Não entendia porque o pai foi embora. Na juventude sofre com a pressão da escola. Ninguém sabe ao certo a causa dessa mudança de comportamento, o fato é que ele foi forçado a abandonar o curso de música. Seu diagnóstico: esquizofrenia.

Após algumas internações e tentativas frustradas de tratamento, resolve morar nas ruas. Escolhe a solidão compartilhada com as ruas. Somente o carrinho de supermercado com seus pertences e a música, sua paixão dominante, o acompanham.

O envolvimento do jornalista com o músico aumenta a cada dia. Steve não consegue mais se distanciar. Fica apreensivo quando pensa na violência das ruas, pois Nathaniel insiste em continuar dormindo nas calçadas da Skid Row. Lugar de prostitutas, viciados, e todo tipo de má sorte vivida por moradores de rua.

Acredita que levá-lo para um abrigo, continuar o tratamento e seguir para uma possível “cura” possa ser o melhor para ele. Mas não adianta, Nath recusa qualquer forma de tratamento. Detesta médicos e remédios e não suporta a idéia de sair das ruas e ir para um abrigo.
Os empecilhos, porém, não o desanimam. Busca ajuda com técnicos especializados e descobre uma entidade no centro de Los Angeles direcionada a doentes mentais sem teto: A Lamp Community.

Nessa entidade Steve encontra Carol, mulher de 70 anos de idade. Sua fala faz com que ele reflita sobre o caso de seu amigo. Ela diz: “Sou diferente – diz Carol. – Reconheço que tenho muita raiva dentro de mim. E também paranóia. Não é tanto medo, é mais desconfiança.
Na última vez em que tentou os remédios, conta Carol, suas pernas viraram gelatina e ela passou dias confusa. Para ela, não há nada como abrir um bom livro, mas as drogas tornam isso impossível.”

Em parceira com os profissionais da Lamp, Steve consegue apoio e informação para ajudar seu amigo. Entende que ajudá-lo é, antes de tudo, aprender a esperar.
Sendo Nathaniel um apaixonado por música ele consegue, aos poucos, inseri-lo noutros ambientes de sua paixão: sinfonias no Disney Hall; encontros com antigos colegas da Juiliard; até receber aulas de violoncelo e ter acesso a um estúdio de gravação.

É somente através da música que Steve consegue se aproximar de algum resultado: “A música é uma âncora, uma ligação com grandes artistas, com a história e com ele mesmo. A sua cabeça está cheia de sinais misturados, uma mixórdia assustadora de significados fragmentados, mas na música há equilíbrio e continuidade.”

Ser músico é o papel existencial e a paixão dominante de Nathaniel, sua busca é voltar a tocar como antes. Nesse processo a amizade entre os dois homens aparece como um pilar importante nessa trajetória.

Esse momento da vida de Steve Lopez nos permite fazer várias leituras: aborda questões existenciais, política, ética, social e clínica, também fala de violência e preconceito. E abre uma questão: Qual o melhor tratamento para pessoas portadoras de sofrimento mental?

A atitude cuidadora do jornalista também merece atenção. Ele se propôs a acompanhar seu novo amigo em direção a um bem estar subjetivo e material, dentro dos parâmetros definidos por ele. Nessa caminhada descobre um referencial dentro do processo cuidador, as necessidades do outro não precisam partir de seus pré-juízos, e sim da representação de mundo do partilhante: suas buscas, paixões, emoções.

Os pré-juízos do cuidador, nesse momento, devem ser colocados de lado para poder vislumbrar o fenômeno surgindo com suas novidades e peculiaridades. Participando das verdades do outro, em recíproca de inversão, é possível se aproximar de algum resultado. Talvez seja possível realizar alguma forma de construção compartilhada.

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Strassburger, Hélio. Editora E-papers. Rio de Janeiro/RJ. 2009. Filosofia Clínica, diálogos com a lógica dos excessos
Por prof. Dr. José Mauricio de Carvalho
Chefe do Departamento de Filosofia da UFSJ

O livro de Hélio Strassburger apresenta um olhar sobre o fenômeno da loucura nascido de sua experiência de trabalho em clínicas psiquiátricas. Não se trata propriamente de uma descrição detalhada do fenômeno da loucura, mas de um enquadramento poético que baliza uma futura descrição. Vamos esclarecer: o método usado é o fenomenológico, mas o procedimento metodológico para tratar a linguagem delirante é a poética. Para o autor tal linguagem revela mais adequadamente os meandros da loucura.

A linguagem delirante, ele lembra, não é lógico-discursiva. Os delírios e alucinações traduzem um modo singular de expressão, própria de um mundo desestruturado. Afirma: “No saber desajustado dos delírios, algo se anuncia entrevista de tradução” (p. 7). A chamada loucura corresponde à desestruturação de pensamento e é examinada na Filosofia Clínica no tópico dez da EP conhecido por estruturação de pensamento. Loucura representa um nível tal de desestruturação que o filósofo clínico atende o caso a pedido da família e paralelamente ao atendimento médico. O livro traz a experiência do autor no atendimento a pacientes internados e é, simultaneamente, uma crítica a um tipo de atendimento médico isolado de outros profissionais. A crítica alcança toda forma de atendimento terapêutico pouco atento à singularidade existencial do louco.

Hélio Strassburger encontra algum encanto no que descreve como sendo a língua marginal que expressa o mundo das ideias delirantes. Este mundo é um território novo e sem vocabulário conhecido “que esparrama vestígios de multidão” (p. 8). Ao principiar a descrição fenomenológica emprega o que denomina “lógica das diferenças” (p. 8), alternativa às classificações feitas “com base no DSM-IV (Manual Psiquiátrico Americano)” (p. 9). Tendo como pressuposto a compreensão fenomenológica de que cada pessoa é um mundo singular, Hélio Strassburger defende que cada um pode se expressar de um modo próprio, inclusive “como incompletude” (p. 12). Ele esclarece que as lógicas delirantes demandam uma análise que fuja aos procedimentos tradicionais, se quiser trazer algo de novo sobre este assunto.

A linguagem da diferença é, na avaliação do autor, uma tentativa do louco se expressar e de se deixar conhecer, mas apenas a quem consegue compreendê-lo. Afirma: “Para além desse jogo de cena, o louco escolhe quem vai merecer sua tradução das coisas que vê, escuta e sente” (p. 13). A melhor forma de compreender tal mundo é mergulhar no dicionário íntimo de cada um que “pode oferecer algum esboço para fora de si” (p. 14). A lógica da diferença é, portanto, estratégia de inclusão, pois “ao sujeito chancelado com alguma patologia, é comum a segregação do seu meio social” (p. 16). De alguma forma a chancela de louco contribui para a sua segregação e preconceitos de parte da sociedade.

O livro traz também uma crítica ao chamado bio-poder. Os psicólogos de inspiração fenomenológica rejeitam o uso de fármacos para enfrentar o vazio existencial, a insegurança, sentimento de tragédia e as dores da existência que nos acompanham a todos. As dores da alma não são para serem tratadas com medicamentos. Hélio Strassburger estende tal crítica ao tratamento de parte dos denominados loucos, pois afirma que os fármacos e seus derivados afetam “a expressividade do louco deslizando para a reincidência daquilo que finge evitar” (p. 18). Logo adiante explica melhor o que quer dizer afirmando que algumas vezes a medicação pode favorecer a expressividade. Ele diz: “A prática médica reconhecida, sem saber, favorece a euforia criativa ao alargar horizontes improváveis da pessoa com suas drogas” (p. 22). Ao criticar o uso dos fármacos como controle genérico da chamada loucura, o autor não tem a ilusão de que será fácil o contato com a pessoa desestruturada. Ele diz que “nem sempre é possível conversar com a subjetividade delirante. Seus rituais de intimidade costumam estar protegidos aos acessos da versão normal” (p. 23). É claro que a crítica ao uso de medicamento não se estende a todo tipo de transtorno genericamente denominado loucura, mas nenhuma redução no uso de medicamentos agradaria a indústria farmacêutica, avalia: “É claro que a indústria farmacêutica não aprovaria essa ideia. Algo relacionado com lucros na venda de suas drogas” (p. 101). Assim, o modelo de tratar genericamente os loucos com fármacos se generaliza e amplia.

A descrição da loucura mostra que a aparente incompreensão do fenômeno vem da tentativa de classificá-lo com parâmetros lógicos. A linguagem simbólica usada pelo louco permanece incompreensível para tal linguagem. Ao autor parece inadequado continuar a tratar a loucura com procedimentos tradicionais dos hospitais psiquiátricos. Falham os procedimentos que “estruturam verdades, rituais de contenção e legalizam tratamentos na presunção de sanar desvios” (p. 33). O que mais importa é a qualidade da interseção que o terapeuta estabelece com o chamado louco. Se for bem sucedido conseguirá entender melhor o seu mundo e ajudá-lo “a suportar a travessia entre fenômenos de aparente sem nexo” (p. 37). Neste aspecto, o desafio é compreendê-lo e não explicar ou interpretar seus delírios. Ao compreender o outro, o filósofo clínico vive um papel existencial próprio do curador. Como tal ele é um companheiro de destino e divide com o partilhante a condição humana.

A expressividade delirante é um desvio do modo como as pessoas compartilham sua visão de mundo. Este fato decorre da trajetória singular do mundo delirante, seu “ensimesmar-se está em desacordo com o mundo ao seu redor” (p. 46). As formas que o louco percebe são inéditas estratégias de contato e é difícil identificar os contextos em que seus sinais se expressam, mas é para lá que o clínico precisa se dirigir, para o lugar “onde a pessoa desloca-se em seu singular desassossego” (p. 47).

O delírio é uma forma de expressividade de um mundo singular. A maneira como este mundo é percebido tem aspectos fantásticos e camuflados, algumas vezes as coisas ao redor parecem mais brilhantes e intensas que para as demais pessoas ou então ocorre o oposto, o mundo parece não ter cor nem a vida que os normais relatam. A tarefa do clínico é “desvendar ou ocultar o milagre da singularidade, nem sempre expresso na forma da lógica formal” (p. 52). Ninguém será compreendido se não forem desvendados seus sinais, sua linguagem, seus símbolos. Para esta tarefa pouco vale fazer os diagnósticos conforme o DSM –IV, pois o diagnóstico é na grande maioria das vezes uma forma de reduzir o sujeito à lógica social. Pior é se a descrição ali contida for entendida como um padrão uniforme que padroniza o fenômeno descrito como loucura. O sujeito delirante desconfia desta lógica, pois nela “nada lhe parece grande o suficiente para dizer dos seus amores, saudades, alegrias ou tristezas. Tudo parece fora da órbita normal das coisas” (p. 56). A expressividade singular do louco se manifesta em atividades sociais dos hospitais psiquiátricos como “o baile semanal, a rádio comunitária, o teatro, as igrejas, oficinas de desenho, pintura e criação, também a dança e o fenômeno carnaval” (p. 57). Todos estes eventos ajudam a pessoa a se expressar e mostrar aos normais sua realidade.

A lógica usada no diagnóstico psiquiátrico é denominada de lógica da exclusão. Parece ao autor que ela é um procedimento usado por quem não consegue lidar com os paradoxos da loucura. A linguagem da loucura tem uma organização própria. Aos olhos da forma tradicional de pensar “os sonhos e realidade se confundem ao transfigurar evidências em lógicas inimagináveis” (p. 64). O delírio é, para o filósofo clínico, espaço de expressão das ideias complexas, o que faz com que muitas vezes pareçam hermeticamente fechados e incompreensíveis. Sonhos relatados podem ajudar na compreensão dos delírios, mas isto não é uma regra. O que a lógica da diferença ou prática clínica pretendida espera é “desarticular a sensação da insegurança e medo, proporcionados pela descoberta das novas geografias” (p. 73). O filósofo clínico está aberto a novas abordagens da loucura. Ele buscará compreender o que se passa no mundo da pessoa, mesmo sabendo que “é incomum a busca para alguma tradução da linguagem da loucura” (p. 76) e que “nem sempre é possível realizar alguma forma de conversação com a subjetividade delirante” (p. 77). Fechada em si, a subjetividade delirante vive contradições profundas ao procurar desconstruir os personagens e histórias que cria. Assim, a epistemologia, que na Filosofia Clínica é o modo como se conhece o mundo pode ser “um refúgio, remédio ou veneno” (p. 85) para o louco, conforme a pessoa consiga lidar ou não com suas idéias e percepções.

O autor usa uma estratégia investigativa consagrada por Sigmund Freud para entender o fenômeno psíquico, isto é, reconhece que o mito consegue expressar lógicas improváveis, ele é “ponto de encontro dos discursos da insensatez. Diálogos sem palavras acolhem a exceção no devir dos encontros” (p. 92), diz o autor. A expressividade incomum do louco é uma forma de indagação da loucura a outras formas de viver mais conformadas e ajustadas, mas frequentemente incongruentes e sofredoras. Para acompanhar a lógica da loucura é preciso o talento do detetive e através da interseção positiva e “na reciprocidade dos encontros, traçar os roteiros para evidenciar aldeias antes inatingíveis” (p. 102).

Isto significa que o autor nutre a confiança de penetrar e decodificar a linguagem delirante, por mais difícil que seja a tarefa. “As dinâmicas de acolhimento e atenção com a vida desdobram-se no mundo como representação da pessoa” (p. 106). Assim se esclarece a prática do Filósofo Clínico, cujo domínio da técnica lhe propicia “compartilhar silêncios e ressonâncias, sem descuidar das perspectivas do outro” (p. 107).

A Filosofia Clínica criada por Lúcio Packter é um instrumento alternativo à prática psiquiátrica, quando estas de resumem ao diagnóstico e uso dos medicamentos. A técnica ajuda aqueles que não se sentem compreendidos pela família, amigos e colegas, e são internados por não se enquadrarem bem no ambiente social. Sentirem-se acolhidos e respeitados na sua singularidade existencial parece básico ao nosso autor. A internação algumas vezes é desejada pela própria pessoa, mas a internação só se justifica em situações muito especiais, pois “é improvável que a verdade delirante se estruture em um lugar onde as experiências concretas não exerçam influência” (p. 120). Em outras palavras, se os desdobramentos existenciais não forem vividos e compreendidos “as rotas de fuga e esconderijos que possuem autogenia imprecisa e altíssima velocidade” (p. 121), seriam ainda mais usadas. A loucura fechada em si mesma é um fenômeno truncado que se esconde mais quando não encontra formas de expressão.

Este livro de Hélio Strassburger é a porta de entrada da Filosofia Clínica no mundo das consciências desestruturadas. Trata-se, portanto, de mudança no movimento clínico inicialmente voltado para o tratamento de pessoas que não tinham tal desestruturação. O trabalho descrito abre as portas para as pesquisas que os filósofos clínicos deverão fazer com pessoas diferentes da consciência comum. Estas pessoas continuam a ser um sujeito humano completo, um mundo absolutamente singular que o filósofo clínico passa a acompanhar e procurará compreender. O que o clínico pesquisará é o tamanho de desorganização da estrutura de pensamento, saber quais os nexos existentes entre os tópicos, como eles se formaram, que tipo de autogenia encontramos, enfim, quais conflitos aparecem na malha intelectiva do partilhante.

Os nomes: louco, loucura e normais não são os melhores para descrever a desestruturação ou estruturação de pensamento segundo a Filosofia Clínica, mas foram preservados pelo uso comum e para tornar o texto mais claro.

José Mauricio de Carvalho
Departamento de Filosofia da UFSJ
Mauricio@ufsj.edu.br

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Filme - A vida secreta das palavras

Por Ana Cristina da Conceição
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


A vida secreta das palavras, filme escrito e dirigido por Isabel Coixet, produzido pela El Deseo e Mediapro em participação com TVE Agustín e Pedro Almodóvar. Europa Filmes. 115 min. Espanha. 2007.

Uma obra onde a trajetória existencial de Hanna Amiram se destaca do começo ao fim. Mulher solitária, misteriosa, direta e perfeita em seu papel existencial de enfermeira. Possui hábitos que realçam sua singularidade: comer somente maça, arroz e nugets de frango, também ao lavar as mãos sempre abre um novo sabonete.

Ficou surda e só liga seu aparelho para ouvir o que quer. Recebe cartas de sua orientadora e não as lê, por outro lado faz ligações para ela e nunca diz nada. Seu silêncio é reconhecido pela orientadora que não se incomoda e fica a sua disposição.

Apesar de ser uma funcionária exemplar chama a atenção de seus colegas e do sindicato, pois nunca tirou férias em seus quatro anos de trabalho na fábrica. Assim seu chefe é obrigado a dar férias a Hanna. Isso a desagrada, mas aceita. Sem ter o que fazer, se oferece como enfermeira voluntária para cuidar de Josef.

Josef é um homem bem humorado, faz parte de uma equipe de cinco funcionários de uma plataforma de petróleo, acredita ter cometido um erro em sua vida, se apaixonar pela mulher de seu melhor amigo, e sente-se ainda pior por ter contado a ele a existência desse sentimento.

O encontro de Josef e Hanna acontece quando ele sofre um grave acidente na plataforma. Josef tenta salvar seu amigo de um incêndio provocado por uma explosão de gases. Sofre várias queimaduras e fica cego temporariamente.

Josef tenta criar uma interseção positiva entre eles. A princípio não consegue fazer Hanna entrar em recíproca de inversão. Pergunta seu nome, tenta saber sobre sua vida pessoal, conta piadas, mas nada chama sua atenção. Ouve sua voz quando ela fala sobre seus remédios, quando Josef faz um comentário sobre seu sotaque, mas ela permanece inversiva, fria e silenciosa fazendo seu trabalho com atitudes distanciadas.

Josef usa o submodo em direção às sensações para melhorar a interseção com a moça. Enquanto Hanna dá a ele o jantar ele pergunta a ela qual comida mais gosta. Ao dizer que gosta de arroz, maças e nugets de frango ele a questiona: Mas e o sorvete de chocolate? O queijo?

Faz deslocamentos longos com ela, na tentativa de fazê-la experienciar algo novo. Para isso, faz comentários sobre o sabor da comida e o aroma. Quando ela vai devolver a bandeja na cozinha, pára no corredor, senta nas escadas e come o resto da comida com prazer e alegria.

Usa submodos como roteirizar e deslocamento longo, assim consegue fazer Hanna se divertir um pouco mais. O avanço na interseção positiva é percebido quando ela diz a Josef que é surda e só ouve quando quer. Refere não ter nascido assim, mas também não diz como ficou surda.

A moça passa a falar, cada vez mais, com Josef.

Quando Josef conta a Hanna não saber nadar e a razão do seu medo da água, acontece uma oscilação na interseção. Ele se irrita em perceber ter despertado nela um sentimento de compaixão. As histórias de cada um dos trabalhadores da plataforma agendam Hanna. A convivência lhe faz bem e ela expressa esse bem estar, ao mudar seu cardápio e compartilhar a mesa junto com a tripulação.

Nos seus últimos dias de trabalho como enfermeira, conta a Josef sua história de vida. Para isso, usa uma amiga para falar dela e somente no final, quando ele pergunta o nome da amiga ela diz seu próprio nome.

Não há progressos na situação do partilhante e ele precisa ser levado para o hospital. Acontece então a separação entre eles. Josef vai para o hospital e Hanna volta a trabalhar na fábrica. Quando ele recebe alta do hospital, descobre que Hanna esqueceu sua mochila. Nela encontra as cartas enviadas por sua orientadora.

Josef vai ao encontro da orientadora para descobrir onde encontrá-la. Com ela fica sabendo toda a história de Hanna, mas ainda quer encontrá-la, pois está apaixonado. A orientadora lhe mostra uma foto e ele vai ao seu encontro na fábrica.

Quando se encontram na saída da fábrica, ele a convida para ir embora com ele, mas ela reluta e diz ser impossível. Acredita que ele não suportaria “iria se afogar” quando ela entrasse em crise e caísse em lágrimas. Ele, então, respondendo na mesma linguagem, usando um vice conceito, diz a ela que aprenderia a nadar para poder ficar ao seu lado.

Esse filme nos remete a múltiplas possibilidades ao olhar clínico. Qualificar interseção, realizar os exames categoriais e aplicar os procedimentos adequados. Josef foi montando a estrutura de pensamento de Hanna aos poucos, com a convivência. Também agiu por intuição.

Para o filósofo clinico, sua melhor clínica parece ter origem em uma aptidão observadora diferenciada e sua escuta. Bem assim, de uma aplicação do método de acordo com a singularidade e seu contexto existencial.

A experiência de consultório tem mostrado a qualificação da interseção entre filósofo clinico e partilhante, desde o momento em que o sujeito liga procurando terapia. O primeiro contato com o filósofo clínico pode ser determinante para a seqüência ou não da clínica.

No caderno “H” Lucio Packter ensina: “A interseção filosofo clínico – pessoa que o procura abrange um código de reciprocidade ética. A pessoa identificará, certamente, os dados corpóreos oriundos do filósofo e os englobará aos demais vindos das idéias complexas; a resultante disso é determinante para todo o trabalho realizado.”

Nesse filme as interseções e desconstruções vão sendo construídos em ritmo próprio. Os obstáculos vão sendo superados no dia-a-dia, pela curiosidade e interesse de ambos, aliados à sensibilidade de Josef em querer se aproximar de Hanna. Bem assim, sua dedicação e carinho ao cuidar do engenheiro, ingredientes que realizaram a magia desse encontro, numa situação adversa.

Ao final do filme as autogenias ficam nítidas, momento onde Hanna e Josef se direcionam para uma construção compartilhada. O passado não é mais predominante na vida dos dois personagens. Um relacionamento diferente emancipou os dois em direção à nova realidade.

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A CURA DE SCHOPENHAUER
Por Marilene I. Carvalho Duarte e Márcio Matta de Nazareth
Filósofos Clínicos
Juiz de Fora/MG

Obra de Irvin D. Yalom, mesmo autor de “Quando Nietzsche Chorou”, contada em 42 capítulos entrelaçados entre a vida de um médico psiquiatra, as sessões de terapia em grupo e a vida de Arthur Schopenhauer.


Dr. Julius era um médico Psiquiatra de renome, reside na cidade de São Francisco, em uma casa, onde também atendia como terapeuta, que aos 65 anos, após fazer seus exames médicos de rotina anual, descobre que está com melanoma maligno, com possibilidade de vida saudável de 1 ano.Enquanto absorve esta nova realidade em sua vida, reflete, lendo sobre a doença, participando aos entes, passando noites em claro, com o pânico instalado em si, buscando uma resposta de como dar continuidade e sentido ao que resta. Examinando um exemplar de “Assim Falou Zaratustra”, de Nietzsche, que ensina como reverenciar e celebrar a vida descobre a resposta, o passaporte para lhe completar, usufruir, amar seu destino, morrer na hora certa, viver o melhor possível. Em suas reflexões, começa a pensar se realmente foi útil como terapeuta, e pensa naqueles casos difíceis, e um em especial lhe chamou atenção, Philip Slate.

Dr. Julius resolve procurá-lo, pois este abandonou os tratamentos a mais de 22 anos, que fim teria levado este paciente, inteligente, bonito, arrogante, indiferente às pessoas e as coisas, contido em suas emoções, químico, que o procura por ter grande impulso sexual. Eles se encontram, e Dr. Julius percebe que o mesmo homem de 22 anos, ainda se apresentava o mesmo nas relações pessoais, mas havia conseguido se livrar daquela obsessão sexual, tendo sido Schopenhauer seu terapeuta. Agora professor e terapeuta. Philip pede para que Julius seja seu Supervisor Terapeuta, (“Não é porque você não conseguiu ser um bom terapeuta para mim, que não possa ser um bom Supervisor Terapeuta”). Julius coloca a condição de ele freqüentar uma terapia em grupo, pois achava que ele só poderia ser um terapeuta, se melhorasse sua condição de se relacionar com as pessoas, se importar com seus pacientes. Um encontro no estilo do Eu-Tu de Buber.

O grupo de terapia é formado por 6 pessoas; ( Bonnie, Rebeca, Pam, Gill, Stuart, Tony). Pam se encontra ausente, por estar fazendo uma viagem Índia.. Philip Slate se apresenta ao grupo, começa então uma linda trama terapêutica recheada de observações muito inteligentes que Philip faz com os pensamentos, idéias e aforismos de Schopenhauer nas vidas de cada um do grupo. Dr. Julius percebe um grande desafio, sente-se muitas vezes enciumado, mas experiente e mais sensato por força de sua doença, consegue fazer um trabalho brilhante com o grupo. As coisas se esquentam com a chegada de Pam, que fica arrasada ao ver que Philip faz parte de seu grupo, o espanto é por causa de seu envolvimento com Philip quando muito nova,18 anos, em um curso de verão, Philip era o AP (Assistente de Professor), e havia se relacionado com sua amiga Molly e abandonou-as sem dizer o por quê. As sessões continuam, seguidas de grandes revelações.

“Se não conto meu segredo, ele é meu prisioneiro. Se o deixo escapar, sou prisioneiro dele.”

"A árvore do silêncio dá os frutos da paz.”

O fato de saber que o grupo ia acabar fazia com que os participantes tratassem seus assuntos mais importantes, daí pioneiros como Otto Rank e Carl Rogers, sempre datarem o término já no início do tratamento.

A penúltima sessão, inicia-se com sentimentos diversos, o grupo iria acabar, os assuntos de cada um não mais seria abordados, outros olhavam para Julius como que quisessem guardar seu rosto na memórias. Mas uma síntese se fazia necessária. Julius descreve a razão de cada um estar ali. Pam, por problemas com os homens; Rebecca porque sua aparência influenciava sua relação com os outros, Tony por causa de uma relação destrutiva com Lizzy e brigas com ouros homens; Gill veio por causa de conflitos conjugais; Stuart, porque a mulher ameaçava deixa-lo; Bonnie, por solidão, problemas com a filha e o ex-marido e Philip como condição de obter orientação, porém mais do que ter a orientação, era importante mostrar à Philip que ele precisava melhorar sua relação pessoal, com o mundo social. “Coma como homem, beba como homem (...) case-se, tenha filhos, participe da comunidade, saiba como suportar as afrontas e os outros”. Epícteto

Julius, sempre conduziu a terapia com motivação emocional, e interação dos participantes, e nas últimas reuniões havia intensificado com Philip que se rende, se despe de sua armadura fria e da mansão de idéias de Schopenhauer, sente o calor do grupo, percebe que a sala é quente, e que o lugar onde mora é gelo, mas quanto ao amor diz desconhece-lo. “Sou solitário e ninguém que me conheceu, jamais gostou de mim”. Pam então lhe diz que quando abandonada por ele, ligou e escreveu diversas vezes para ele, diz que podia ter amado, gostado, que foi o homem mais bonito, e repete várias vezes.

Philip se afasta, chora, e Julius o acolhe.

No dia seguinte à sessão Julius passa mal, fica em coma por três dias e morre.

Três anos depois, Philip e Tony iniciam seus trabalhos de terapia, o primeiro como orientador, com as idéias da filosofia que podem ajudar as pessoas e o segundo como facilitador emocional.

Título: A Cura de Schopenhauer
Autor: Irvin D. Yalom
Ano: 2006

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Ladrões de Subjetividades
Por Por Mariana Oliveira Reis Flores - mari7flores@hotmail.com
Filósofa Clínica
Rio de Janeiro/RJ

Resenha do texto “Ladrões de sonhos e sabonetes. Sobre os modos de subjetivação da infância na cultura do consumo”, de Rita Marisa Ribes Pereira, Adriana Cerdeira, Beatriz Andreiuolo e Solange Jobim e Souza.

O capitalismo, mascarado pelas idéias de progresso, eficiência e superação, vem exercendo um domínio cada vez maior sobre o corpo social, de forma que, incentivando a cultura do consumismo, este sistema econômico sob o qual vivemos vem instalando na sociedade modelos de subjetividades pré-definidos pela falsa promessa de felicidade, que inclusive a concebe muito mais como um “produto” a ser adquirido do que de fato um bem-estar individual e coletivo, totalmente isenta de quaisquer outros valores senão o status social.

Reduzindo-se os valores morais em valores capitais, inescrupulosamente a mídia exerce o seu papel de “ponte” entre o produto (objeto de consumo) e o “objeto” consumidor. O homem é, numa relação como esta, “objeto” que consome e obrigatoriamente conivente com a situação econômica e cultural estabelecida; já que estando numa sociedade cada vez mais objetificada, em que a quantidade vale mais que a qualidade – e em que todas as relações sociais estabelecidas têm seu “prazo de validade”, “tempo de vida útil”, ou são “descartáveis” – o indivíduo simplesmente não percebe a que tipo de situação social está sendo submetido. Pior: ele se convence, através do discurso da mídia, tida como um dos principais instrumentos de dominação social exercida pelo capitalismo perverso, de que o “ter” é mais importante que o “ser”.

Transformando tudo em produto, o modo de ser singular de cada um, bem como seus próprios desejos, buscas e questões existenciais são substituídos pela subjetividade vendida e anunciada por uma minoria que detém o poder e que manipula as massas. Desta forma, esta minoria conserva as velhas lutas de classe, cumprindo as leis perversas do sistema capitalista.

Esta mesma situação é reproduzida, como não podia ser diferente, dentro das escolas, que contraditoriamente, funcionam como um espaço no qual a criança tem a sua existência social questionada através de comparações com os padrões de consumo das outras. Não possuir um “bem” de consumo da moda, estimulada pela mídia, assim como não poder realizar uma viagem à Disneylândia, por exemplo, é sinônimo de exclusão, frustração e infelicidade.

As diferenças entre os modos de ser são artificialmente equiparadas pelo estabelecimento de padrões ideais de vida, ou melhor, de vida consumista. Os programas de televisão, os ídolos da música infanto-juvenil, desenhos animados, todos servem para estimular estereótipos e a venda de produtos, os mais variados possíveis. Tanto aqueles licenciados quanto os “piratas” têm efetivamente uma função pujante no aquecimento dos mercados, formal e informal, respectivamente. Isso quer dizer que a “venda” dos paradigmas culturais se dá na mídia tanto para as classes altas como para as mais baixas, havendo o desejo de consumir os mesmos símbolos em toda a esfera social. Porém, há que se ressaltar que nichos diferenciados vão existir de acordo com o poder aquisitivo, tal como ele é distribuído. Nesse contexto, um boneco “original” do Mickey, por exemplo, tem um valor, não apenas de compra como também social, maior que um correlato “pirata” destinado às classes menos abastadas. As crianças fazem constantes comparações não apenas com relação ao que possuem, mas também quanto ao “seu” ser melhor ou pior que o “do outro”.

O espaço escolar, ao invés de oferecer às crianças a possibilidade de questionarem e refletirem acerca da sua realidade, funciona para reforçar o senso comum nas crianças, principalmente no que diz respeito ao consumo. Abandonando o seu papel fundamental de respeitar a pluralidade e trabalhar com as individualidades em seus respectivos contextos, a escola e os educadores se omitem quanto ao consumismo com o qual a mídia bombardeia seus alunos. A homogeneização provocada pelos padrões de consumo acaba por eclipsar as diferenças naturais e as opiniões individuais, ou seja, tudo aquilo que nos difere, como seres humanos, de um simples rebanho, uma massa ignóbil.

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Informação Dirigida: Filme Equilibrium
Por Valéria Sayão – sayaov@yahoo.com.br
Especialista em Filosofia Clínica no RJ


Ficha Técnica
Gênero: Ação/Ficção Científica/Suspense
Roteiro e Direção: Kurt Wimmer.
Elenco: Christian Bale, Emily Watson, Taye Diggs e Sean Bean.
EUA/2002. 107 min.


Introdução

Equilibrium é um daqueles famosos filmes cult, com um roteiro sólido, boas atuações e cenas de ação de tirar o fôlego, que foi lançado nos Estados Unidos em 2002, com baixo orçamento e fracasso de bilheteria, mas que por suas características marcantes reúne uma horda de fãs.

Assim como em Matrix, Equilibrium passa-se num futuro devastado. Só que em vez de o homem ser escravo das máquinas, ele é escravo dele mesmo. Humano e pessoal o roteiro coloca várias reviravoltas no caminho de John Preton, personagem central, elevando a história sempre um nível em termos de qualidade, o que faz com que o clímax do filme chegue com um tom até mesmo épico para o personagem que por dentro vive atormentado por um grande dilema existencial.

Equilibrium recorre mais uma vez ao tema do futuro negro, encontrado em tantas obras famosas como: Blade Runner, Cidade das Sombras, Brazil – O Filme, A.I. – Inteligência Artificial, etc. À princípio, parece ser o mesmo velho clichê de sempre (e não deixa de ser):

“Num futuro incerto, a raça humana foi quase totalmente devastada da Terra. Para salvar o mundo, os governantes decidiram criar uma droga capaz de inibir o sentimento humano e garantir a paz para sempre. Em nome dessa sociedade perfeita, tudo que pudesse provocar qualquer sentimento foi destruído: livros, arte, música. Mas um grupo se nega a tomar a droga e agora a cidade está cercada de sacerdotes da lei, que vieram para exterminar os rebeldes. Até que o mais temido de todos, o sacerdote John Preston, resolve parar de tomar a droga. Com sentimentos, ele pode cair numa emboscada, a não ser que consiga manter o equilíbrio de suas novas emoções”.

Análise Informal do filme Equilibrium


Na análise da existência humana, no mundo, verificamos que nos movemos numa sabedoria, resultante da liberdade de nossa vontade, que dispensa, e ao mesmo tempo solicita as emoções. Esta dinâmica que muda de pessoa para pessoa, de época para época e na própria pessoa durante a vida, indica as condições modais em que ela exerce a sua singularidade.

Lucio Packter diz, também, que é impossível encontrar na Terra duas pessoas com a mesma estrutura de pensamento. E que na tentativa de se realizarem por si mesmas, as pessoas seguem associando e qualificando, informalmente, seus tópicos estruturais ao mesmo tempo em que vivenciam estados afetivos tais como prazer, dor, alegria, tristeza, amor, ódio, bem-estar, mal-estar, esperança, desejo, saudade, carinho e outros sentimentos que acabam por desenhar os contornos de suas interseções inter-estruturais.

Esta liberdade ou plasticidade, como diz Lúcio Packter, é necessária ao equilíbrio do ser consigo próprio e com o mundo, porque cada pessoa tem um modo único de ser e de estar existencialmente:

“Mas eu, sendo pobre, tendo apenas meus sonhos, lancei meus sonhos sob seus pés.
Caminhei suavemente porque você pisou nos meus sonhos”. (Yeat’s).

Esta visão humanista proposta por Lúcio Packter representa a antítese da visão autoritária dos governantes no filme Equilibrium, e encontra eco na luta e afã dos rebeldes pela reconquista de seus direitos às emoções. O filme nos mostra que sem as emoções o homem pode se alienar e encerrar-se na totalidade que o priva da capacidade de se definir em versão própria.

Em verdade, o filme Equilibrium nos conduz, em recíproca de inversão, à trajetória do herói John Preston que, sendo tocado pelas emoções, passa a exercer sobre si próprio um processo epistemológico que altera seus programas emocionais e existenciais. Redefine suas leis internas e seus critérios de verdade, conduzindo-o finalmente à autogenia que irá definir seu papel existencial na luta pela liberdade da singularidade do homem no mundo.

Vale acrescentar que a aplicação metodológica do cinema como intrumental teórico e prático no aprendizado do conteúdo teórico terapêutico dos dados tópicos apresentados pela Filosofia Clínica oferece, em recíproca, uma visão fenomenológica da vida cotidiana que contribui para uma melhor compreensão epistemológica das possibilidades de abordagens terapêuticas. Assim, com o auxílio do filme Equilibrium, podemos compreender a importância daquilo que em Filosofia Clínica chamamos de “malha intelectiva bem estruturada” para um bem viver. E que, a exemplo do filme, agindo como rebeldes, podemos nos tornar verdadeiros heróis em nossas próprias vidas.

Bibliografia:

1. PACKTER, Lúcio. Cadernos de Filosofia Clínica, Instituto Packter de
Filosofia Clínica. Porto Alegre/RS-2007.

2. STRASSBURGER, Hélio. Anotações de aulas. Rio de Janeiro/RJ –
2007/2008

3. PAULO, Margarida Nichele. Compêndio de Filosofia Clínica. Porto
Alegre/RS – 2001.

4. da Silva, Márcio José Andrade e Moreira, Olga Cristina Hack.
Revista Internacional de Filosofia Clínica, Instituto Packter Nº3.
Porto Alegre/RS - 2006

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Resenha do livro “Filosofia Clínica, estudos de fundamentação”, de José Maurício Carvalho
Por Ana Carolina Sales dos Santos
Especialista em Filosofia Clínica
São João del Rei/MG


O livro de José Maurício de Carvalho defende a hipótese de que a filosofia clínica é fundamentada principalmente no método fenomenológico. A hipótese fenomenológica foi usada por diversos psiquiatras e psicólogos para servir de fundamento às ciências humanas. No cenário internacional, basta lembrar Karl Jaspers, no Brasil, Nilton Campos, que foi diretor do Instituto de Psicologia da UFRJ, Antônio Gomes Pena, Elson Arruda, Eustáquio Portela, todos se valendo da fenomenologia para justificar sua prática terapêutica. José Maurício expõe em cinco capítulos a sua hipótese.

Na introdução, a filosofia clínica é apresentada como um método que “busca nos vinte e sete séculos de tradição filosófica elementos para entender a singularidade existencial que constitui o mundo de cada pessoa (...) Uma rica tradição de pensar a vida humana na circunstância em que ela se dá (p. 13), é a maneira contemporânea de pensar a subjetividade conforme ensinaram os existencialistas e Ortega y Gasset. Essa é a forma de mostrar que apesar de ter sua origem histórica por volta do século sexto antes de Cristo, a filosofia se apresenta de forma atual, nos permitindo aproximar a construção da filosofia clínica com vertentes da filosofia contemporânea. E é esta atualidade a que o autor se refere no texto: “a filosofia clínica faz uma retrospectiva de todo o passado filosófico, mas o traz até nosso tempo à luz de uma filosofia contemporânea, a fenomenologia existencial”. (p.14) Está explicito que a clínica tem por objetivo fundamental ajudar quem a procura. A técnica espera vencer choques eventualmente existentes na Estrutura de Pensamento dos partilhantes.

No primeiro capítulo, o autor expõe os meandros da técnica. Afirma: “A filosofia clínica é um método de psicoterapia que não se desenvolveu no espaço da Psicologia ou da Medicina (...). Lúcio Packter constituiu um método de ajuda pessoal, valendo-se de aspectos do mundo interior do existente que as correntes filosóficas contemporâneas nos revelaram, pois a filosofia contemporânea focou com especial atenção o homem e o universo”. (p. 18) O clínico começa ordenando os fatos da vida do partilhante, diz o autor: “Na filosofia clínica este contato inicial, filósofo e partilhante, é considerado a base de todos os outros procedimentos (...). O clínico ordena aquilo que o partilhante lhe conta desordenadamente, ele procura construir uma história sem saltos temporais ou lógicos para que ela se torne mais completa, coerente e ordenada possível (...). O clínico não avança, nessa etapa, hipóteses explicativas do que se passa com a pessoa e nem lhe sugere o que deve falar.” (p.19) Concluída a fase do levantamento histórico da vida do partilhante, iniciam-se os exames categoriais, onde o clínico vai usar das categorias para localizar o partilhante no mundo. “Lúcio emprega cinco categorias: assunto imediato e último, circunstância, lugar, tempo e relação. Através delas o criador da filosofia clínica descreve como o homem se situa no mundo”. (p. 23). A análise categorial dá as indicações do vínculo que a pessoa estabelece com o que está a sua volta. Concluída a análise, o clínico faz o levantamento da EP do partilhante. “A EP resume tudo o que a pessoa conhece, sente, intui; enfim, é a descrição do mundo da pessoa através das estruturas de pensamento que ela privilegia” (p. 26). A EP é constituída por trinta tópicos que podem ser combinados em infinitas alternativas, por este motivo vai haver várias formas de EPs, todas entendidas como singulares. São os seguintes tópicos que formam as diferentes EPs: Como o mundo me parece; o que a pessoa acha de si mesma; sensorial e abstrato; emoções; pré-juízos; termos agendados do intelecto; termos universais, particulares ou singulares; termos unívocos e equívocos; discurso completo e incompleto; estrutura de pensamento; busca; paixão dominante; comportamento e função; espacialidade; semiose; significado; armadilha conceitual; axiologia; singularidade existencial; epistemologia; expressividade; papel existencial; ação; hipótese; experimentação; princípio de verdade; análise da estrutura; interseções; dados da matemática simbólica; autogenia. Seguindo sua explanação o autor nos expõe coloca a tábua de submodos. “Na filosofia clínica denominam-se submodos os procedimentos utilizados pela pessoa para resolver os seus problemas (...). O que o filósofo clínico colhe na EP são os submodos porque a pessoa enquanto vive está fazendo determinadas coisas e o submodo é justamente a maneira como ela efetiva aquilo que busca realizar.” (p. 47) Os submodos se colocam como os “remédios“ da alma. Para Lúcio, há um total de 32 submodos, que listamos a seguir: em direção ao termo singular; em direção ao termo universal; em direção às sensações; em direção às idéias complexas; esquema resolutivo; em direção ao desfecho; inversão; recíproca de inversão; divisão; argumentação derivada; atalho; busca; deslocamento curto; deslocamento longo; adição; roteirizar; percepcionar; esteticidade; esteticidade seletiva; tradução; informação dirigida; intuição; retroação; intencionalidade dirigida; axiologia; autogenia; epistemologia; reconstrução; análise indireta; expressividade; princípios de verdade. Afirma o autor do livro que: “O uso dos submodos destina-se a superar choques existentes na estrutura de pensamento do partilhante” (p. 58).

No segundo capítulo, o autor tenta mostrar como a filosofia clínica está diretamente ligada à fenomenologia, iniciando assim, a fundamentação da técnica, a qual dedica todo o seu esforço. Ele afirma: “Ao esclarecer como a fenomenologia se insere na prática da clínica filosófica tentaremos evidenciar que a fenomenologia oferece os elementos que asseguram a unidade e coerência da filosofia clínica. É ela que dá a chave para o diálogo com a tradição filosófica do ocidente” (p. 79). O autor entende que os tópicos da EP são como “patamares nos quais o mundo aparece na consciência” (p. 81), uma espécie de extrato da consciência. Segundo ele, a fenomenologia está presente na clínica “desde o início quando o filósofo acolhe o partilhante em atitude de respeitosa empatia com seus sentimentos, atitudes e expectativas” (p. 82). A fenomenologia sem dúvida é uma das bases da filosofia clínica tanto na relação filósofo/partilhante, quanto na montagem da EP do partilhante. “A filosofia clínica ganha também com fenomenologia porque se depara com um paradigma capaz de mostrar como se articulam os tópicos da EP, como é possível superar choques existenciais presentes na malha intelectiva. (...) é importante o reconhecimento da fenomenologia como filosofia porque ela sustenta idéia de que o homem é um sendo, é um mundo em contínua elaboração.” (p. 110).

No terceiro capítulo, o objetivo é mostrar a diferença entre a fenomenologia e a psiquiatria, tendo por pano de fundo Karl Jaspers. Jaspers, apesar de conhecer e aplicar a fenomenologia que é algo novo, ainda se move no terreno da psiquiatria tradicional. Apesar disso, ele inicia um procedimento pioneiro que é aplicar o método fenomenológico à psiquiatria. O autor afirma que há uma incongruência na psiquiatria fenomenológica quando aplica as tipologias e classifica as doenças, para esclarecer esta forma de abordar os problemas já foi superada. “Para Jaspers, a fenomenologia trouxe uma forma compreensiva de examinar os fatos psicológicos, além de consistir numa maneira de entender o que seja a realidade”(p. 136). O interessante na análise de Jaspers sobre a psiquiatria é que ele considera que o partilhante é um ser único e singular, do mesmo modo que a filosofia clínica.Outro ponto importante é que Jaspers crê que a terapia segue somente até certo ponto. Afirma: “A análise filosófica da relação de ajuda sugere que há limites para a ajuda que oferece. Jaspers resume este em dois pontos principais: o primeiro é que a terapia não substitui a vida e a vida é uma construção contínua e permanente que nasce das escolhas de cada pessoa(...). O outro é que o terapeuta deve contar que, por mais que o sujeito possa mudar, é preciso estar preparado para o fato de que nem tudo é mutável, alguma coisa nele não o é. A terapia não pode tudo, não consegue libertar o sujeito de todos os problemas” (p. 182). Jaspers acredita que a psicologia se tornará uma ciência de fato. Entende a consciência como: “um dos estratos do modo humano de ser”(p. 185). Jaspers nos diz que a Filosofia e a Psicologia não podem andar separadas, uma precisa da ajuda da outra. “É evidente que o estudo dos fatos psicológicos e dos problemas filosóficos não se resumem um ao outro, mas significa que nem a filosofia pode refletir sobre o modo de ser do homem sem considerar aquilo que a investigação psicológica propõe como conhecimento objetivo, nem a psicologia pode deixar de observar a crítica metodológica que a filosofia permite” (p. 188). Assim, Jaspers faz uma reflexão sobre o encontro terapêutico que se aplica ao que se faz na filosofia clínica, ele acredita que a relação pessoal seja o fato primordial, se não fundamental para que haja uma boa terapia. Diz o autor: “A fenomenologia fala da mediação do encontro com o mundo através do corpo e é isso o que Jaspers procura mostrar nos seus estudos sobre psicoterapia (...) Sem a decisão de dialogar, não há verdadeiro encontro, sem a decisão de efetivar o encontro, ele não se concretiza; logo, o encontro nasce da decisão pessoal, não pode prescindir dela. Para tratar o fenômeno da aproximação deve-se considerar o quadro conceitual comum que permite o entendimento” (p. 189). Ora, os eixos nucleares que são usados por Jaspers na fundamentação da atividade clínica também estão presentes na clínica filosófica.

No capítulo seguinte, o autor faz uma equivalência entre o pensamento de Ortega y Gasset e a filosofia clínica. Deixa nos claro que, apesar de Ortega ser um raciovitalista, os seus estudos parecem dar um fechamento as reflexões fenomenológicas, apesar dos fundamentos teóricos de ambas as escolas serem diferentes. Inicia fazendo uma explanação de como a filosofia raciovitalista de Ortega pode ajudar os filósofos clínicos a entenderem os exames categoriais. Afirma a respeito: “Ortega ensina que as opções de cada um dão à trajetória da sua vida um caráter singular, confirmando a tese dos fenomenólogos. O filósofo clínico diz o mesmo quando afirma que a pessoa desse ou daquele modo ao se referir à maneira como cada um faz suas escolhas e vai vivendo (...) O filósofo clínico está atento para que ao menos essa forma de ver o mundo não contemple choques na malha intelectiva da pessoa. Para Ortega y Gasset as pessoas querem mais do que evitar choques, esperam conseguir a própria felicidade. É claro que cada pessoa entenderá que o caminho para a sua felicidade é único, próprio; porém acrescenta Ortega, os sentimentos de bem-estar e satisfação estão associados não só à ausência de conflitos, mas ao tanto que conseguimos amar e realizar o nosso projeto de vida, nossa missão” (p. 198). Ortega entende que cada pessoa tem uma vocação e que no caminho da vida temos que fazer escolhas, podendo ou não operacionalizar a vocação; porém, quando não a seguimos, nossa vida torna-se o fazer por fazer, não há mais objetivos. “Ao referir-se à vocação de cada um, Ortega deixa o ensinamento de respeito ao caminho escolhido pelas pessoas, a trilha de cada um é construção pessoal, nisso rigorosamente igual ao que ensinaram os fenomenólogos. O filósofo clínico não deve interferir nas decisões do partilhante, as lições de Ortega são boa referência para isso” (p.202 e p.203). Ortega tem uma visão de circunstância ampla e consegue englobar não só a categoria circunstância da filosofia clínica, mas tudo o que o exame categorial permite englobar. Ele ensina que o homem não pode ser pensado a não ser em uma determinada circunstância. Enfim, explica que a noção de circunstância em Ortega y Gasset aprofunda para o filósofo clínico a noção de sujeito em situação proposta também, pela escola fenomenológica existencial.

No quinto e último capítulo, o autor trata da linguagem esclarecendo que a filosofia analítica pode ter ajudado Lúcio Packter a fundamentar a filosofia clínica, mas que não pode ser entendida como seu fundamento. Diz: “É possível notar alguma proximidade entre a fenomenologia, raciovitalismo e a analítica da linguagem na preocupação com o contexto da comunicação. Nos três casos, dá-se atenção à circunstância pragmática da linguagem, à compreensão dos vocábulos depende dela. No entanto, esta aproximação não significa que se trate da mesma coisa. A fenomenologia entende que o uso da linguagem não se restringe ao espaço rígido da comunicação lógica, o mundo de cada um comporta uma maneira de expressar que é única. Ortega também faz distinção entre o espaço objetivo da cultura e o uso criativo das palavras. Este último é válido porque o sujeito não perde a sua singularidade pelo fato de pertencer a uma cultura. A expressão poética ou simbólica é, muitas vezes, a melhor forma de traduzir uma realidade vivida” (p.244). O autor também nos coloca que a analítica da linguagem não considera a linguagem corporal, de sinais ou o silêncio, coisas que se mostram fundamentais na clínica. “Até porque em clínica a questão não é criar um espaço objetivo de discussão, sendo a comunicação realizada além da linguagem discursiva. Quantas vezes o silêncio compartilhado, caminhar ao lado do partilhante, ou mesmo observar os seus gestos é muito mais revelador do que se passa em sua vida?” (p.246).

Conclui dizendo que a fenomenologia existencial é o fundamento epistemológico para a filosofia clínica. Diz que, apesar de o homem ser único e singular, ele vive em sociedade e que este viver em conjunto interfere diretamente no que cada um é. E que o sujeito está em constante diálogo com o mundo em que vive. “A atenção a tantas possibilidades que o existente tem, isto é, observar como ele faz suas escolhas, é fundamental na prática clínica, porque mesmo assegurada a sua liberdade, observa-se uma relativa constância no modo como cada pessoa articula sua experiência temporal: passado, presente e futuro na sua história de vida. Este tempo não é o mesmo com que se mede a passagem dos fenômenos naturais, tempo observado no ritmo do universo, mas o período de realização do modo de ser ou do projeto existencial de cada homem” (p.267).

O livro de José Maurício de Carvalho, além de comentaras várias influências da filosofia clínica, nos faz ver principalmente como a fenomenologia articula e dá sentido à criação de Lúcio Packter.

A obra explicita os fundamentos fenomenológicos da prática da clínica, referindo-se principalmente ao legado de Husserl, Merlau-Ponty, Max Scheler, Karl Jaspers. Não podemos deixar de citar, o raciovitalismo de Ortega y Gasset que se mostra fundamental para completar as descobertas da análise existencial. Os ensinamentos destes fenomenólogos ajudaram Lúcio Packter a criar o travamento lógico e metodológico da clínica filosófica. É com base nisto que o autor da obra se baseia para defender sua hipótese. Em nossa avaliação José Maurício justifica sua tese, que é um capítulo fundamental da epistemologia da filosofia clínica. Trata-se de uma obra importante para todos que desejam entender a filosofia clínica do ponto de vista fenomenológico.

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"A arte de compartilhar"
Por Ana Cristina da Conceição
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS


KRAUSE, Idalina. A arte de compartilhar. Porto Alegre: Editora Evangraf Ltda., 2007. 96 p.


A arte de compartilhar, obra escrita pela filósofa clínica Idalina Krause é um livro leve e objetivo, onde compartilha suas vivências de consultório. Conforme a própria autora nos diz: é “uma conversação, um pensar sobre as possíveis relações do terapeuta com seus partilhantes”. Neste contexto ela relata suas experiências de filósofa clínica.

Nessa dinâmica a presença de Idalina Krause na vida das pessoas em atendimento foi significativa. Seu carinho e respeito pelo ser humano podem ser notados nos textos de linguagem acessível, onde se mostra uma profissional amante do ser humano em seus desdobramentos existenciais.

Como estudante de filosofia clínica, pude apreender nas entrelinhas da obra, o destaque e o alerta para a opção de ‘ser filosófos clínicos’, bem assim, o sentido de cuidar, para alguém apaixonado, pelo que faz. A escolha profissional possui como pré-requisito a tomada de consciência do papel existencial.

Sobre os métodos usados pela filosofia clínica a autora mostra, através de suas experiências, ser a fenomenologia, analítica da linguagem, historicismo e estruturalismo, fundamentos importantes ao sucesso dos atendimentos. A autora também destaca a importância de saber ouvir, ponto de partida para conhecer o partilhante. Uma escuta com agendamentos mínimos, para não interferir na expressividade do partilhante na primeira etapa da clínica.

Idalina Krause refere em sua experiência, pessoas encontrando saídas para suas inquietações ao passarem a limpo suas problemáticas. Por isso a necessidade da interferência mínima na fase dos exames categoriais.

Cada pessoa se expressa de um jeito próprio: através do silêncio, escrita, dado verbal ou gestos. O trabalho inicial do filósofo clínico é deixar o partilhante à vontade e buscar um ambiente agradável para a terapia. A interseção positiva entre filósofo clínico e partilhante pode qualificar os encontros.

Segundo a autora, outro ponto importante para aperfeiçoar a terapia é a qualidade da recíproca de inversão. Destaca esse tópico quando fala de sua experiência com cegos num trabalho intitulado: “Projeto Parceiros Voluntários em Porto Alegre”, ao ser designada para trabalhar na Associação de Cegos do Rio Grande do Sul (Acergs).

Idalina Krause narra suas alegrias e espantos com o mundo do outro. Esta realidade fez com que ela buscasse informações sobre a representação desse mundo. Buscou conhecer suas circunstâncias. Diz ela: “Observei os murais com cartazes todos em braille. A máquina que imprime estes informativos em relevo. A necessidade que o portador de deficiência tem de se comunicar é incrível.”

Também pesquisou a literatura sobre o tema, visando conhecer as áreas sensitivas do sujeito portador de deficiência visual. “É importante, ao tratarmos com deficientes visuais, agirmos de maneira natural e participar com eles da vida social. Logo percebi que são seres maravilhosos dotados de muitas qualidades: alegres, expansivos, vivazes. Possuem estruturas pessoais ricas, pois aprenderam no decorrer de suas existências a superar limites de todos os tipos. São criaturas belas que travam batalhas diárias, enfrentando todas as adversidades impostas por um mundo extremamente voltado às aparências”. A autora vivenciou o mundo dos deficientes visuais que atendeu e, usando de recursos (procedimentos) próprios a eles conseguiu realizar uma boa clínica.

Em outro texto nos leva a pensar sobre os pré-conceitos que podemos ter com relação às pessoas que procuram terapia. Ela cita comentários que ouviu como: “em clínica, a pessoa chega e despeja todo o seu lixo sobre o terapeuta”. Nesse sentido, teríamos dificuldade de vislumbrar a pessoa como singularidade em uma “obra de arte existencial”.

O sujeito que procura a ajuda de um terapeuta, via de regra, encontra-se numa situação de dor e sofrimento, em busca de compartilhar suas questões na terapia. Isso, longe de ser lixo, revela nossa existência e, como a própria autora refere: “pensar assim é um prejuízo enorme podendo inviabilizar a clínica”.

No texto onde aborda o tema da solidão, Idalina Krause nos lembra que vivemos em um mundo onde esta sensação se faz presente na vida de muitas pessoas. A sociedade atual funciona, predominantemente, como uma reprodutora de indivíduos com dificuldades para trocas e experiências, expressar sentimentos e idéias relacionados com a existência.

Em muitos casos, o filósofo clínico pode estar sendo a última esperança na vida de alguém. Cabe ao terapeuta tentar manter uma acolhida com um mínimo de pré-juízos, permitindo a expressão dessas novidades que vão chegando através das vivências ao ser sujeito em cada um.

Seus textos demonstram preocupação e respeito ao partilhante. A postura humanista se destaca quando narra seu trabalho com os “pacientes terminais”. A autora cita aqui o quanto chamou a atenção o desconforto das pessoas “ao serem rotulados nos hospitais como pacientes terminais”. De acordo com Idalina Krause é justamente o contrário, pois testemunhou pessoas consideradas terminais, lutando muito por sua sobrevivência e não apenas esperando a morte chegar.

Caberia aqui pensar um pouco sobre a denominação: “pacientes terminais”. Existem circunstâncias difíceis, mas isso não deve impedir a busca por uma melhora subjetiva. Mesmo nesses momentos ainda se trata de um sujeito em perspectivas de superação.

Assim refere a autora: “A prática clínica não é como um comprido efervescente. É um trabalho de muito tempo, de delicadeza e paciência. É um mexer de águas que falam de emoções e vivências profundas que por vezes parece que não conseguiremos atingir. A recompensa está quando há resultados positivos, que fazem valer nossos esforços.” A terapia é, muitas vezes, a resultante da abertura pessoal e busca por ingressar nesse universo de cuidado e atenção, se colocando disposta a superar circunstâncias de adversidade e sofrimento.

O resultado de um processo terapêutico pode ser imprevisível. Muitos aspectos entram em jogo, como: a qualidade da interseção, envolvimento da pessoa com a sua clínica, os tempos subjetivos e as possibilidades de desconstrução.

Parece existir um momento específico para cada um resolver suas questões existenciais. Tudo o que acontece na terapia depende da natureza e alcance dos encontros clínicos. O filósofo clínico não é alguém com receitas, aconselhamentos ou soluções pré-fabricadas para os problemas. A clínica é uma conquista diária onde a dedicação da pessoa se mostra indispensável. Os ensinamentos da autora se traduzem em práticas de respeito, carinho e humanidade compartilhada.

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Comentário ao livro “Poéticas da Singularidade”. Editora E-papers/RJ, de Hélio Strassburger
Por Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ


“Nem sabia se era começo ou fim. Poderia ser tudo ou nada.”
H.S.

A impressão que tive durante quase toda a leitura foi a de que estava diante de uma poesia. Não estou sendo sugestionada pelo título; acontece com os seus artigos em geral. O seu ritmo é o da poesia que provoca, que não quer esclarecer, mas dar uma chance aos mais epistemológicos de se deliciar. Você força o leitor a fazer um certo ajuste para entrar no mundo da especulação e acredito que este seja pelo menos um de seus estilos. A ausência de pronomes definidos e a sensação de que estou a todo o momento sendo levada a um caminho de sugestões, como um convite a um passeio pela complexidade das palavras, expressam bem esse sentimento.

Não há obviedade na leitura, mas e daí...também não o há no ser humano (pré-juízos meus!), mas você a faz de uma maneira curiosa que impele a uma reflexão quase artística. Muitas vezes me perdia na beleza da escolha dos termos que para muitos poderiam até ser considerados como equívocos e tinha que fazer a releitura para encontrar o verdadeiro sentido, ou pelo menos aquele que minha estrutura conseguiu perceber, para só então fazer uma apreensão e, assim, internalizar uma possível proposta. É uma dança de possibilidades e é justamente aí que reside a riqueza do texto.

Parece-me que você não tem nenhuma intenção de ser elucidativo, isto é, não tenta em quase nenhum momento tornar claro o seu recado. Deixa a quem se aventura a emoção desse passeio por entre suas impressões acerca da singularidade, que por si só, convenhamos, já seria uma grande viagem. Não considero que seja fácil chegar a um consenso sobre o texto, mas qual que se preze se presta a consensos? Se assim não fosse não exerceriam encantos sobre os que os lêem, pois estariam condenados a superficialidade dos que nada, ou muito pouco, têm a dizer, dando voltas e mais voltas sem chegar a qualquer paragem. Não que me importe tanto com isso, pois há beleza em qualquer lugar, só dependendo isso do instante da estrutura de pensamento, que é plástica o bastante para se permitir, teoricamente, a qualquer movimento.

Mas, sabe, às vezes o ritmo incomoda pela extensão e pelo contexto, pois para quem não o conhece pode ser uma leitura um tanto caótica e estranha. Sinceramente não o recomendaria a um leigo que estivesse tentando compreender algo, partindo do zero, sobre a Filosofia Clínica, embora esta esteja plenamente situada em cada frase, rica ou não em seus vice conceitos, que parecem ser belos submodos seus, eu arriscaria dizer.

Talvez a poesia tenha seus limites (ou seja, talvez o meu tempo com relação a este conceito e esta percepção sejam limitados), mas a verdade é que, mesmo me encantando com essas associações, ou essas impressões subjetivas, e mesmo você tendo sido fiel ao seu título tratando justamente de uma poética, devo deixar claro que o texto me incomodou. Mas esclareço que agradeço peço incômodo, pois o julgo necessário, pois, caso contrário, de onde parte o pressuposto justamente que nos faz levantar os olhos e ter uma visão diferenciada do próximo? E o que estaria eu fazendo em um curso de formação em Filosofia Clínica? Nossa, como este próximo é complexo; como essa singularidade simples e terna (ou talvez justamente o contrário) pode reverberar e contagiar. Como as palavras, em suas ricas disposições, podem iniciar as conseqüências do vôo da borboleta.

Pois é, mas o fato é que eu realmente não o recomendaria a nenhum leitor sem antes traçar com muita calma a sua estrutura de pensamento. Não iria querer correr o risco de olharem para mim indagando o que fazer com essa bela loucura. Mas concordo que talvez fosse o meio mais eficaz de tornar óbvio o que a Filosofia Clínica, na sua mais singela pretensão, quer transmitir.
A singularidade poética de cada ser consciente é justamente o que me fascina na Filosofia Clínica. As muitas possibilidades que se abrem em torno de cada um e de cada uma das aventuras passíveis de serem vivenciadas é o que torna bela a caminhada. Não importa para onde o olhar se remeta, o que conta é que há uma consciência envolvida, uma respiração conjunta que nos impulsiona, mesmo que não saibamos exatamente para onde, ou para quê.

Ah, sim, você foi muito rígido em seu capítulo sobre a “Formação do filósofo clínico”. Gostaria de saber de onde vem a pretensão de como se deve direcionar o exercício peculiar de cada candidato a filósofo clínico. As sugestões estão bem estruturadas e parto do princípio de que são resultado de suas vivências didáticas, mas isso não o autoriza a ser tão determinante assim. Prefiro acreditar nas boas surpresas de cada encontro.

Mas confesso que em muitos momentos fiquei emocionada, principalmente pela forma como me senti instigada e provocada. Aceitei como um desafio, como aceito a vida assim. E são justamente tais situações que fazem com que muito, de tudo, valha a pena.

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Resenha do filme "ANTES DE PARTIR"
Por Silvana Barbosa
Especialista em Filosofia Clínica
São João del Rei/MG


Ficha Técnica
Título Original: The Bucket List
Gênero: Comédia Dramática
Tempo de Duração: 97 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 2007
Site Oficial: www.antesdepartir.com.br
Estúdio: Storyline Entertainment / Zadan/Meron / Two Ton Films
Distribuição: Warner Bros.
Direção: Rob Reiner
Roteiro: Justin Zackham
Produção: Alan Greisman, Neil Meron, Rob Reiner e Craig Zadan
Música: Marc Shaiman
Fotografia: John Schwartzman
Desenho de Produção: Bill Brzeski
Direção de Arte: Jay Pelissier
Figurino: Molly Maginnis
Edição: Robert Leighton
Efeitos Especiais: Ring of Fire Studios

Elenco
Jack Nicholson (Edward Cole)
Morgan Freeman (Carter Chambers)
Sean Hayes (Thomas)
Beverly Todd (Virginia Chambers)
Rob Morrow (Dr. Hollins)
Alfonso Freeman (Roger Chambers)
Rowena King (Angelica)
Annton Berry Jr. (Kai)
Verda Bridges (Shandra)
Destiny Brownridge (Maya)
Brian Copeland (Lee)
Ian Anthony Dale (Instrutor)

O filme começa mostrando Carter Chambers (Morgan Freeman) que é um homem casado, e que há 46 anos trabalha como mecânico. Submetido a um tratamento experimental para combater o câncer, ele se sente mal no trabalho e com isso é internado em um hospital. Logo passa a ter como companheiro de quarto Edward Cole (Jack Nicholson), um rico empresário que é dono do próprio hospital. Edward deseja ter um quarto só para si mas, como sempre pregou que em seus hospitais, todo quarto precisa ter dois leitos para que seja viável financeiramente, não pode ter seu desejo atendido pois isto afetaria a imagem de seus negócios. Edward também está com câncer e, após ser operado, descobre que tem poucos meses de vida. O mesmo acontece com Carter, que decide escrever a "lista da bota", algo que seu professor de filosofia na faculdade passou como trabalho muitas décadas atrás. A lista consiste em desejos que Carter deseja realizar antes de morrer. Ao tomar conhecimento dela Edward propõe que eles a realizem, e faz também sua própria lista e nela consta uma viagem pelo mundo para aproveitar seus últimos meses de vida.

Nessa aventura ele inclui seu amigo Carter e o convida com todas as despesas pagas. Carter a principio reluta pois gostaria de passar seus últimos meses de vida ao lado da família e isso é o que a família espera dele, mas Edward o convence do contrário, e ambos embarcam nessa viagem.

Essa decisão de Carter, afeta muito sua família que não a aceita e eles entram em conflito. Carter alegando que sempre fez tudo pela família, decide ir assim mesmo e para fazer algo em seu proveito próprio.

Eles passam por diversos lugares, África, China, Everest e ao longo da viagem vão se tornando mais íntimos ao ponto de Edward confessar a Carter que tem uma filha, mas que eles não se falam em função de um desentendimento no passado. Carter ao saber disso tenta a todo custo aproximar pai e filha mas em vão ( usa o submodo errado ). Os diálogos são muito interessantes e chegam a comentar como gostariam de serem enterrados.

Até que a viagem chega ao fim e eles retornam, Carter para sua família e Edward para sua solidão. Carter piora e é internado e vem a falecer. Edward resolve então procurar a filha para se despedir e fazem as pazes. Ao fim eles são creimados e suas cinzas deixadas na montanha que Carter amava, o Monte Everest.

Análise informal do Filme:

O que pude observar ao longo do filme é que o tempo todo ele trabalha a emoção dos protagonistas como estrutura de pensamento, uma vez que estão em fase terminal de uma doença grave, nada mais natural. Através da lista feita por cada um deles fica claro também a singularidade defendida por Lúcio Packter e tão importante para a Filosofia clínica. Um exemplo dessa singularidade é o tópico da EP “Como o mundo parece” que é totalmente diferente em cada um deles, enquanto um vive para a família e em função dela, o outro vive para o trabalho e diversão.
Quando os dois criam laços de amizades Carter passa por uma autogenia ao resolver ir com o amigo mundo afora, deixando de lado seus pré-juízos e axiologias, e entrando em conflito com sua família. Ele toma uma atitude radical ao decidir viajar e não passar seus últimos momentos com a família, como já estava programado.
Edward por sua vez usa as viagens como submodo para superar a doença e esquecer que não tem uma família para cuidar dele. O tópico busca também é forte como submodo, pois o que eles buscam é aproveitar ao máximo os últimos meses de vida. E para Edward isso funciona muito bem até certo momento.

Enfim, é um filme rico em detalhes que vale a pena serem observados e nele pude constatar a importância da singularidade. Duas pessoas passando pelo mesmo problema, mas cada uma enfrentando a seu modo. É trabalhando essa singularidade que a Filosofia Clínica se distingue das demais e se torna tão única. Singular.

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Livro - Poéticas de singularidade
Por Prof. Dr. José Mauricio de Carvalho
16 de November de 2008

STRASSBURGER, Hélio. Filosofia Clínica, poéticas de singularidade. Rio de Janeiro: e-papers, 2007. 116 p.

O livro de Hélio Strassburger expõe suas experiências fazendo um relato singular da filosofia clínica por um terapeuta experiente e sensível. O autor percorre em vinte e seis pequenos textos os momentos fundamentais da relação clínico-partilhante e das singularidades desse processo, valendo-se do estilo poético.
A filosofia clínica é apresentada como “escrita em reciprocidade de compartilhar (...) aquilo que, para muitas pessoas, é o mais sagrado, sua história de vida” (p. 7). Essa é sua forma de reconhecer que existir é coexistir. É sobre esta relação compartilhada que o autor descreve “uma fenomenologia do fazer clínico que esboça encantamentos indizíveis ao olhar de senso comum” (p. 8). Evidencia-se a sua convicção de que a atividade clínica não pode ser bem descrita com linguajar comum, só a poética alcança seus recantos mais escondidos. O propósito da clínica é promover uma “interação transformadora com as crises” (p. 9). Ela é uma forma de indicar novos roteiros de vida para pessoas cujos choques na estrutura de pensamento tornaram a vida difícil e sem sentido.

O início do processo revela a aproximação de mundos diversos, terapeuta e partilhante vivem realidades distantes porque focam a circunstância de maneira diferente. Hélio assume um pressuposto da fenomenologia, não há um mundo em si, mas vários de acordo com a atitude existencial adotada pelos sujeitos. Na fase inicial do processo é preciso cuidado para não reduzir o mundo do partilhante a uma tipologia rígida ameaçando sua singularidade, pois como o homem é existência isso significa que sua estrutura de pensamento constitui uma ótica da existência. O espírito do encontro é a abertura à mudança, o cuidador não reduz as alternativas do partilhante. “O ir e vir das interseções, afirma o autor, aprecia roteiros para a desconstrução das antinomias da inflexibilidade” (p.13). É este encontro que promove a desconstrução de conflitos íntimos incompreensíveis “nos paradoxos das fórmulas prontas” (p. 14).

O reconhecimento da singularidade existencial é o aspecto mais marcante do início do processo. Em linguagem fenomenológica isso significa que o homem é um projeto único e seu ter que ser o torna histórico. A habilidade do cuidador leva o partilhante a lhe apresentar sua história de vida da forma que ele julgue mais fácil expor suas intimidades mais fundas, suas dores mais escondidas. “Vestígios dessa raridade existencial se antecipam nos primeiros encontros, através do sofrer em pedidos de ajuda” (p. 15). Nesse momento, explica o autor, a atenção se concentra na reciprocidade cuidador – partilhante. O propósito da acolhida existencial é permitir “a ruptura com as estruturações de onde tirava forças para limitar as possibilidades de melhor viver” (p. 16). Ao ser acolhido, o partilhante encontra alternativas para reconstruir sua vida, superando os nós existenciais nascidos nos conflitos de sua estrutura de pensamento. O terapeuta acompanha a jornada única do partilhante, pois o viver é “um jeito único na subjetividade de cada pessoa” (p. 19). O ambiente de liberdade no compartilhar de experiências “nunca se confunde com o artificialismo do laboratório” (p. 20). O desafio da relação será então a de favorecer o acesso do partilhante a seu mundo, mesmo que ele pareça absurdo, pois “a vida busca escrever seus melhores roteiros a partir de sua existência” (p. 22).

O mundo do partilhante começa a se abrir com as primeiras queixas denominadas de assunto imediato. Quanto mais o partilhante encontra acolhida ao expor sua queixa inicial, quando melhor compreendida sua história de vida e mais bem elaborado o planejamento clínico, mais ele muda. Para Hélio sua transformação é atribuída à magia das interseções, mas isso não significa ausência de uma técnica precisa de ajuda. Os encontros expõem o mundo do partilhante e aí se encontra o reflexo de suas origens. O autor reconhece que as experiências das fases iniciais da vida são muito intensas e se refletem no decorrer da existência, confirmando o que as principais escolas de psicologia dizem sobre as aprendizagens na infância. Assim, os medos começam a se mostrar numa viagem para trás, para lugares existenciais escondidos. Ele diz que “a insegurança e o medo podem descortinar temores de raiz mais funda, alimentam-se com o cristalizar dos sonhos em abstrações cada vez mais distantes” (p. 28).

Os encontros clínicos expõem paisagens de um passado distante que, apesar de longínquos, revelam a vida mesma. Essa perspectiva de análise é fundamentalmente fenomenológica, reconhece que a existência é situada e que o estar presente no mundo possui um sentido temporal. A ida a lugares distantes é também, uma viagem ao passado e a lugares que a consciência conserva vivos. No passado as lembranças se modificam no que o autor denomina feitiço do tempo e que é a forma como o “viver contido re-inaugura-se na insanidade normalizada dos dias” (p. 32). O encontro com o passado permite re-significar experiências e romper os choques formados na estrutura do pensamento. Qual o sentido que tem um fato? Depende das possíveis atitudes do sujeito tendo em vista sua estrutura de pensamento, se mais ou menos emotiva, mais ou menos inversiva, mais ou menos epistemológica, etc.

O encontro clínico é revelado como troca de impressões humanas nem sempre traduzíveis pelas palavras. Ao comentar a expressividade do silêncio, o autor explica porque a filosofia clínica não se resume à analítica de linguagem, uma vez que o silêncio do encontro propicia uma reconstrução de choques inalcançados “pela lógica do dizer” (p. 35). E isso é fundamental na técnica porque o silêncio traduz “o pressuposto para a conexão com as instâncias mais profundas do viver, lá onde a contemplação do livre curso das idéias encontra-se com a eterna novidade de si mesma” (p. 35). E textos de Clarice Lispector são empregados para traduzir encontros onde o que se sente não é dito em palavras. A linguagem é um caminho possível para o íntimo, mas é só uma das maneiras de chegar lá. “As palavras podem estabelecer vínculos de aproximação ou distanciamento entre as pessoas” (p. 40).

O terapeuta descobre assim uma das mais maravilhosas funções da poesia que é a de deixar aparecer o mundo íntimo da pessoa quando a linguagem precisa e objetiva empregada pela ciência positiva e a analítica de linguagem não parece a melhor para traduzir o que o partilhante quer dizer. Por isso ele faz referência a Heidegger e ao papel da linguagem que “longe de abandonar o lugar da poesia, (...) permite que toda movimentação do dizer seja reconduzida para a origem sempre mais velada” (p. 44). Essa ida ao mundo do outro ganha uma feição mais claramente fenomenológica quando a referência a Heidegger se completa com as teses de Merleau-Ponty. O autor afirma que Merleau-Ponty diz existir “uma maneira de introduzir o outro como incógnita em sendo a única que considera sua alteridade e a explica” (p. 47). O encontro com o mundo do outro pode ser comparado a um ir atrás do espelho até os sonhos e símbolos pelos quais ele se expressa. O autor menciona também Rubem Alves para quem “não sabemos o nome de nossos desejos mais profundos. Resta-nos, segundo ele, suspirar suspiros que são profundos demais para palavras” (p. 49). O partilhante pode encontrar muitas formas de se expressar e “criar uma linguagem sua e se expressar no dizer sem palavras” (p. 53).

A intuição fenomenológica é a forma do autor reconhecer o fato primitivo da consciência, isto é, pensar a vida do sujeito como abertura ao que não é o sujeito. O que não é o indivíduo é, no mínimo as coisas e pessoas que o rodeiam e a implicação sujeito mundo assim expressa por Hélio: “deixamos a verdadeira essência das coisas falar imediatamente para nós, deciframos a autêntica assinatura das coisas” (p. 53). No caso do clínico a intuição fenomenológica se manifesta nos projetos existenciais dos partilhantes, cujas partes se organizam e reorganizam como as figuras do caleidoscópio. A terapia permite que os elementos do projeto possam se combinar com risco reduzido para a pessoa e seus próximos. Hélio explica: “em terapia pode-se ir bem longe sem sair do lugar. Em alguns casos, chegar até onde o interseção permita. Para, quem sabe depois, voltar e saborear a renovação dos antigos refúgios” (p. 62).

A clínica igualmente propicia descobrir vivências escondidas no dia-a-dia. “Na magia do desvendar-se íntimos distanciamentos podem se evidenciar singularidades calcadas pelo não-ver das cotidianas cegueiras” (p. 63). O espaço do encontro clínico-partilhante cria o ambiente para a expressão do que é exótico na vida e é esquecido pela própria pessoa. E esse encontro, pelas dificuldades de caracterização, não mereceu ainda um relato preciso do exercício do cuidador. Trata-se, contudo, de atividade com objetivo definido “construir indícios aos novos endereços existenciais para onde a pessoa encaminha as suas buscas” (p. 77). Os endereços existenciais traduzem chamados íntimos que Ortega y Gasset denominava vocação.

A revelação do mundo do partilhante, ainda que mostre muita singularidade, não é comparável ao que a psiquiatria denomina loucura. Sobre o assunto o autor faz referência ao trabalho de Michel Foucault e a função da loucura que o filósofo francês diz ser “aproximar-se tão perto quanto possível da razão” (p. 81). Sobre a imagem que o autor constrói da loucura reflete “aspectos de um mundo desconhecido pelo próprio sujeito. Uma espécie exilada na própria casa” (p. 85). A loucura é um processo de re-significação que a pessoa realiza, mesmo que sem sucesso.

A filosofia clínica é apresentada nesse livro como cúmplice do bem viver, forma de obter uma vida com mais qualidade pela superação dos nós existenciais que nascem dos choques presentes na estrutura de pensamento do partilhante. Não se trata, pois, de “normalizar ou curar” (p. 95). A técnica é apresentada como uma forma de terapia compreensiva que não se mostra nos antigos paradigmas. A preparação do filósofo clínico para realizar este procedimento é específica, inclui aulas presenciais, estudo de textos, pré-estágio e prática de atendimento.

A filosofia clínica para o partilhante é a oportunidade de rever a vida, experimentar devaneios, buscar compreender a si próprio. Buscar nexo onde ele parece não existir.

O livro de Hélio Strassburger não é uma introdução à filosofia clínica, também não é uma exposição objetiva ou detalhada da técnica. É um relato íntimo de vivências terapêuticas apresentadas em linguagem poética, nem sempre de simples compreensão. É, sobretudo, uma revelação luminosa do encontro pessoal e das riquezas dos mundos singulares. O acesso à singularidade pessoal é sempre um desafio da clínica.

A obra foi construída sobre os pressupostos fundamentais da fenomenologia existencial como procuramos evidenciar, num diálogo que aproxima Heidegger e Merleau-Ponty.

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Quando Coisas ruins acontecem às pessoas boas

Autor: Harold S. Kusher

Editora Nonel- São Paulo

Título original: When bad things happen to good people (1981)

Dr. Rubens Garavello Machado
Porto Alegre/RS


Prefácio:

No prefácio, o rabino Henry Sobel, comenta que se trata de uma pequena obra prima e que talvez seja o mais compreensivo e compreensível livro de filosofia teológica já escrito. Ressalta que o autor chega à conclusão que a crença na onipotência de Deus é cruel e ilusória. A partir daí propõe uma abordagem diferente ,e até certo ponto revolucionária. Não são os atos de Deus, que causam dor e sofrimento ao homem, e sim uma “aleatoridade” do universo. Chega ele a conclusão que não podemos entender ou responder a pergunta do motivo que coisas ruins acontecem a pessoas boas. A pergunta seria então o que fazer? Será que conseguimos aceitar o fato de que esta vida é imperfeita?

Apresentação:

Na apresentação, o autor nos informa ser ele um rabino ,morando na cidade de Boston e ter sido abatido por um violento acontecimento. Seu filho ,quando completou a idade de 3 anos,foi diagnosticado como portador de uma patologia de nome Progéria. Esta doença não permitiria que a criança se desenvolvesse e certamente morreria no inicio da adolescência. Foi mergulhado neste imenso sofrimento que começo a gestar este livro.É um livro para ajudar as pessoas que como ele passam por um sofrimento como este.Ele diz textualmente “é um livro para ajudar outras pessoas que acaso algum dia se encontrassem em situação semelhante”

CAPITULO 1- Por que os justos sofrem?

Muitas pessoas têm a tendência de explicar este fato invocando um sentimento de culpa por não terem feito isto ou aquilo Desta forma acham na culpa a explicação para os males que as acometem.Lembram de ensinamentos bíblicos tipo “Er, porém,primogênito de Judá,era perverso perante o Senhor ,pelo que o Senhor o fez morrer” . Este é o pensamento mágico que atribui a Deus uma qualidade de juiz justo, que castiga o pecador. No entanto como explicar que criancinhas morram ao caírem de uma janela?

CAPITULO 2- Um homem chamado Jó.

Na Bíblia encontramos o Livro de Jó (escrito há 2500 anos) é um longo poema filosófico questionando o porque coisas ruins acontecem à pessoa boas.Sinteticamente relata que Deus instigado pelo diabo para provar que seu servo Jó só era um homem bom e justo porque havia sido brindado com inúmeras benesses. Deus antão manda muitos sofrimentos para ele (morte de seus filhos, perda de todos os seus bens, doenças). Frente a isso ele permanece fiel e Deus o recompensa lhe restituído tudo em dobro. A grande mensagem deste livro é entendermos que coisas ruins acontecem mesmo independentemente da vontade de Deus. E a grande pergunta não é “Deus porque fazes isto comigo/” e sim “Deus vê o que esta acontecendo comigo. Podes me ajudar?” Recorremos a Deus em busca de fortalecimento. Na realidade é muito difícil para nós mudar esta maneira de pensar pois fomos ensinados a crer em um Deus onividente, onisciente e onipotente. É importante aceitarmos que existem muitas coisas que fogem ao controle de Deus.

CAPITULO 3- Nem sempre existe uma razão

Importante é aceitar a idéia de ocorrer fatos sem qualquer razão. Não existe uma explicação racional para um terremoto,um enchente,um raio .

CAPITULO 4- Não há exceção para os bons

As leis da natureza não abrem exceções para os bons .Deus não interferem nas leis da natureza. Um terremoto não é um ato de Deus. Ato de Deus é a coragem das pessoas na reconstrução de suas vidas. A dor é o preço que pagamos por estarmos vivos.Não existe resposta satisfatória para os nossos males.

CAPÍTULO 5 - Deus nos deixa espaço para sermos humanos

Por sermos criados livres temos a possibilidade de cometer atos maus e com isso ferir nossos semelhantes .Deus não tem nada a ver com isso. Auschwitz,porque aconteceu? E Deus onde estava? Novamente respondemos Deus não tem nada a ver com isso. Isto ocorreu porque alguns homens resolverão serem maus. Usaram sua liberdade.

CAPÍTULO 6- Deus ajuda aos que param de castigar-se

Um das piores coisas que acontecem a quem foi ferido pela vida é a tendência a aumentar as proporções do mal recebido, ferindo-se a si próprio uma segunda vez. Muitas vezes a pergunta Porque Deus fez isso comigo? Não é realmente uma pergunta mas sim um grito de dor.Muitas vezes ao tentar consolar alguém usamos frases tipo: foi melhor assim! Ou podia ser pior!Isso é negativo. Na realidade o que a pessoa que sofre necessita é de simpatia mais do que de conselhos . Necessita é de compaixão.Precisa é de conforto físico, que a sustente em vez de condená-la. È melhor se dizer: ta certo aconteceu é terrível e não faz sentido.

Muitas vezes o sentimento de culpa é oportuno e necessário. O sentimento de culpa faz as pessoas se esforçarem a melhorar. No entanto o sentimento de culpa por algo que não depende de nós nos impede de crescer.

Uma lenda antiga chinesa relata que uma mãe que teve seu único filho morto e na sua dor ela se aproximou do mestre e disse “ de que orações ou encantamentos mágicos dispões para trazer o meu filho de volta a vida?” o mestre em vez de mandá-la embora disse “ traze-me um grão de mostarda de um lar que jamais conheceu a tristeza. Nós usaremos para expulsar a tristeza de tua vida” A mulher em sua busca envolveu-se tanto em amenizar a dor das outras pessoas que esqueceu de buscar a semente mágica e não percebeu que acabara de expulsar a tristeza de sua alma.

CAPÍTULO 7- Deus não pode fazer tudo,mas faz coisas muito importantes

Orar pela saúde de uma pessoa ,pelo resultado favorável de uma operação tem implicações que só podem preocupar a alguém que pensa. Se as orações funcionassem como muitas pessoas acham ninguém morreria. O importante é saber que a oração não pode mudar a natureza. O que a oração pode fazer e ela faz, é nos colocar em contato com as outras pessoas,pessoas que partilham dos mesmos interesses e valores que nós. A oração faz que não nos sentimos sós. A oração também é uma grande oportunidade de nós colocar em contato com Deus. Devemos rezar não por milagres mas por coragem ,por fortaleza para suportar o insuportável,

Para que serve então a religião?

O autor reconhece que crê em Deus mas depois do sofrimento que passou mudou sua maneira a respeito de Deus. Começou acreditar que Ele é limitado sobre as leis da natureza. Certamente Deus odeia o sofrimento ,mas não pode eliminá-lo. Deus não é cruel não causa desgraças. As coisas que nos afligem não são punições por nosso mau comportamento. Para que então serve Deus? Quem precisa de religião?Nos precisamos de Deus porque é Ele que nos da forças para suportarmos as tragédias.

Podemos carregar qualquer fardo ,desde que pensemos que há um sentido para isso.Não devemos nos perguntar o porque isso me aconteceu e sim já que aconteceu,que vou fazer?

Portanto a resposta à pergunta do porque coisas ruins acontecem às pessoas boas é aceitar que o mundo não é perfeito. É aceitar com amor um mundo imperfeito . Esta capacidade de amor e perdoar são as armas que Deus nos deu para aceitar isso.

Comentário final: o texto do rabino Kusher,é uma visão nova do sofrimento.É uma honesta tentativa de procurar dar resposta à pergunta que muitas vezes é feita pela maioria das pessoas frente a uma desgraça: Porquê isto aconteceu comigo? Como isto acontece a uma criança inocente? Ou então a revolta “Deus não é justo!”. A visão do rabino, nos leva não a tentar compreender o incompreensível,mas a ter a visão que coisas acontecem simplesmente porque acontecem, sem que possamos entender. Que para nos seres finitos não é possível compreender o infinito,Deus. É pois uma reflexão que certamente ajudara a muitos e manterá a fé daqueles que frente a desgraças pessoais se tornam descrentes e revoltados. É belo livro e uma leitura agradável.

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Título: A Escuta e o Silêncio. Lições do Diálogo na Filosofia Clínica / Listen And Silence. Lessons from Dialog in Clinical Philosophy
Autor: Will Goya
Ano: 2008
Editora: UCG
Páginas: 422
ISBN: 978-85-7103-496
Valor: R$ 30,00 (trinta reais)

Por Mônica Aiub
Filósofa Clínica
Presidente da Associação Nacional dos Filósofos Clínicos
São Paulo/SP


Em edição bilíngüe, português-inglês, Will Goya, filósofo clínico, inicia seu texto afirmando ser um livro sobre o amor. Ele apresenta a Filosofia Clínica como uma atividade terapêutica, uma práxis filosófica, um exercício prático de alteridade.

A primeira parte do livro apresenta a Filosofia Clínica, não de maneira didática, mas a partir de um estudo de caso. A história de Laura exemplifica os eixos fundamentais do instrumental filosófico clínico. A exposição dos Exames Categoriais, Estrutura de Pensamento e Submodos é permeada por recortes da historicidade de Laura, permitindo ao leitor uma aproximação ao funcionamento dos procedimentos clínicos. Trata-se, é claro, de um exemplo, pois esse instrumental é composto de formas vazias, preenchidas pela historicidade de cada pessoa atendida (em filosofia clínica denominada partilhante).

"Tivesse esse trabalho a pretensão de uma ontologia, da busca por um conceito filosófico de ser humano, penso que haveria de entendê-lo como uma subjetividade holoplástica, não uma plasticidade pelo lado de fora, em que uma pessoa se adapta ao seu contorno externo, mas como um predicado constitutivamente aberto à sua redefinição" (p.32).

Ainda na primeira parte, e ainda tendo por exemplo a história de Laura, no capítulo Palavras que escutam,Will mostra a importância de falar à pessoa em linguagem que lhe permita ?escutar o melhor de si mesma?. ?Palavras que escutam são aquelas que dizem ao outro o quão profundamente ele foi ouvido? (p. 124). A partir da escuta do histórico de Laura, o autor demonstra como se dirigiu à partilhante durante a clínica, fazendo uso de seu jogo de linguagem. Obviamente, as frases dirigidas a Laura fazem sentido apenas a ela, não sendo possível fazer uso dos mesmos enunciados para outra pessoa, ainda que o objetivo clínico seja o mesmo. Em Palavras que silenciam, o autor, a partir do pensamento de filósofos como Ludwig Wittgenstein, Karl Popper e John Searle, aborda temas como inconsciente, intencionalidade e linguagem.

No capítulo seguinte, A terapia é uma tragédia, Will apresenta a tragédia na concepção grega clássica, tragikos, ?o indivíduo é investido de heroísmo pela grandeza de enfrentar o seu destino e reerguer-se existencialmente das inevitáveis quedas da vida? (p.155). O conceito de neurose em Freud e uma reflexão sobre a felicidade são elementos de destaque nesse capítulo.
A segunda parte do livro, A Ética da Escuta, aponta para fundamentos filosóficos da prática clínica. No capítulo A Filosofia do Encontro, teorias de Heidegger, Nietzsche, Sartre, Max Scheler, etc. são apresentadas como contribuições à Filosofia Clínica, sem que ocorra o privilégio de uma teoria, ou a disputa teórica.

O autor fecha o capítulo afirmando que ?um filósofo clínico é feito exatamente pelos dois termos que o definem? (p. 179) e, portanto, não lhe cabe a separação entre teoria e prática. No capítulo A linguagem da aproximação, Will trata de questões éticas e aponta para alguns limites da clínica. ?É isto e outras coisas? é a expressão que sintetiza o capítulo, alertando para a impossibilidade de um conhecimento absoluto, de uma compreensão plena.

Na última parte, Quando o amor fala todos são ouvidos... o autor partilha sua aprendizagem na clínica filosófica, lições de ética, cuidados para se ter na presença de outrem, enfim, suas reflexões acerca de vivências em Filosofia Clínica.

Com duplo prefácio, de Lúcio Packter e Pierre Weil, o livro nos mostra que a filosofia, amor à sabedoria, em sua versão clínica, não é a atividade de quem ama o conceito e é rival do outro, mas daquele que ama o outro, e constrói com ele conceitos, na legitimidade de sua diferença.