Vistas entre palavras

Entrevista com o Filósofo Clínico e Professor Will Goya:




1.Sou filósofo pela Universidade Federal de Goiás, mestre em filosofia política pela mesma universidade e filósofo clínico pelo Instituto Packter. Estudo Filosofia Clínica desde 1998, tendo como professor o querido amigo e excepcional filósofo clínico Lúcio Packter. Conselheiro do Instituto Packter, conferencista, professor universitário com quatorze anos de sala de aula, pai de dois filhos lindos, e também poeta, sempre me dediquei a alguma forma de atividade voluntária, como um exercício pessoal de espiritualização. Adoro sorvete, malhação, céu azul, praia, café, oração... amo dançar... e sou completamente apaixonado por clínica de consultório, sala de aula e, no todo, me envolver com a humanidade das pessoas. Atualmente, organizo e apresento o Café Filosófico “entre amigos”, em Goiânia (todos os eventos são filmados e se encontram disponíveis no site: www.willgoya.com). Acho que isso resume muito.


2.Minha monografia de graduação (1991) foi sobre o caráter terapêutico da filosofia, com base nas leituras de Protágoras e Carl Gustav Jung. Na época não tinha a menor ideia do trabalho de Packter, e meu escrito jamais intencionou alguma prática clínica. Na verdade, foi mais uma crença ou uma aposta na função que a filosofia deveria também orientar existencialmente as pessoas para o “mundo da vida”, contra o tradicional academicismo das faculdades brasileiras de filosofia. Perseguindo a mesma linha de pesquisa, caminhei no sentido de encontrar um filósofo que também fosse psicoterapeuta, e acabei estudando Erich Fromm, escrevendo sobre uma filosofia e uma educação terapêuticas. Dois anos depois conheci a Filosofia Clínica e de imediato comecei minha especialização na área.


3. Buscando localizar na minha vida leituras que poderiam ter me inspirado no trabalho de filósofo clínico, tenho dificuldades em limitar algo que em mim fosse determinante. Bom... sempre quis ser psicólogo, desde muito menino, então comecei lendo excertos de Freud, mas me apaixonei mesmo com a espiritualidade sistêmica de Jung. Devorava os livros desse grande pensador. Maslow, Sartre, Sócrates, Fernando Sabino, Chico Xavier, Fritjof Capra, Camus, André Gide, Kafka... são alguns pensadores que marcaram muito meu modo de ser, na infância e na adolescência.

Quando chegou a época de escolher um curso superior, fazer faculdade, compreendi que minhas dúvidas tinham muito mais exigências conceituais e teóricas do que operatórias e psicológicas. Por isso decidi fazer filosofia a psicologia. Uma vez cursando o nível superior, naturalmente, pus-me a estudar os clássicos da história do pensamento. Os livros, na época, eram meus amigos, meu namoro, meu acordar e meu dormir. Tenho para mim o que considero epígrafe das minhas mais profundas convicções, minha filosofia moral e minha crença na Filosofia Clínica, a sabedoria de Paulo de Tarso: “se eu tivesse todo conhecimento e não tivesse amor, eu nada teria”.


Sobre práticas que me inspiraram o exercício da Filosofia Clínica, devo dizer que as atividades voluntárias enraizaram na minha alma o desejo e a alegria de servir ao outro, de tratá-lo como próximo. Entendi, e vivo isso, que ser voluntário não quer dizer não ser remunerado. Não tem nada a ver com isso, mas com trabalhar, com servir de profunda boa vontade.

E não há boa vontade sem compaixão, quero dizer, se vamos trabalhar de coração para servir a alguém, é preciso se colocar no lugar daquele que de alguma forma nos pede ajuda. E há pedido mais convincente do que as linguagens do sofrimento? A prática de um filósofo clínico é útil quando solicitada, porém é mais bela ainda quando não solicitada, por apenas ele haver compreendido a alegria de ajudar. Afinal, todos sofremos e precisamos de ajuda. De todas as pessoas que conheci na vida, o querido amigo Lúcio Packter é um dos homens mais generosos que já tive a felicidade de conviver, sem nunca pedir nada em troca. Nunca mesmo.

Não bastando, está sempre calmo, amigo, com a fala mansa e o abraço afetuoso, sempre escutando os problemas, as vaidades e as pequenezas das pessoas, com amor. Em doze anos que o conheço nunca o vi reclamar, ofender ou mostrar-se mesquinho, de qualquer forma. Diante disso, acho que posso sem dificuldades enfatizar duas práticas que inspiraram meu trabalho: os anos de serviços voluntários em trabalhos sociais, e as lições vivas do exemplo cotidiano do filósofo clínico e amigo Lúcio.


4. A única referência real, na e da Filosofia Clínica, acredito só é possível quando posta em relação, pois essa é uma filosofia relacional, uma ética de alteridade. Somos todos em relação a. O homem é historicidade, contexto, comparações. Logo, se houver algum elogio feito a qualquer filósofo clínico, penso que o mais honesto é redistribuir o mérito entre todos que contribuíram para o pensamento alcançar efeitos.

Nenhum de nós inventou a filosofia, mas herdamos séculos de raciocínios, valores... teorias e conceitos. Como poderíamos, de repente, dizer que uma pessoa, seja quem for, é sozinha meritória da própria inteligência se nem mesmo inventou a língua em que elabora suas ideias? E o que dizer dos erros, quando cometidos por mim ou por algum colega filósofo clínico, se não que isso também é responsabilidade comum dos que se amam e juntos carregam a tarefa de ajudar os outros? E não devemos começar com os mais próximos?


5. Minha mensagem é que todos aqueles que chamarem para o seu nome o título de “filósofo clínico” precisam cultivar, acima de tudo, a humildade de não se sentirem melhores que ninguém. Se filósofo significa ter “amor ao conhecimento”, ser “amigo da verdade”, então o filósofo clínico é aquele que tem amor às verdades íntimas do outro. Muito pessoalmente, vivo e defendo a convicção de que filósofo clínico é aquele que tem amor ao seu partilhante, e que partilhante é aquele que o nosso coração pode eleger como amigo, gostemos dele ou não.

_______________



Entrevista // José Ângelo Gaiarsa*




"Somos muito mais versáteis e precisamos desenvolver isso"

Por que "amar o próximo" é algo que fica mais no discurso que na prática?

O "próximo" é sempre algo coletivo, pois na prática ele é meu inimigo, meu competidor. Eu posso até amar o próximo, desde que ele seja sempre o mesmo. É fato que estamos todos "emoldurados", não usamos 10% de nossa aptidão de movimento. Todo mundo sabe qual o seu jeito. Se você sai dele, os conhecidos falam: "como assim?" E a paralisia que você aprendeu na infância está fadada a ser eterna.

As pessoas se sentem mais seguras quando "o outro" é sempre o mesmo...

Sim, pois é preferível ter o outro sob controle que amá-lo. A "educação" consiste em limitar movimentos. Você não faz ideia das possibilidades do nosso aparelho locomotor, a nossa capacidade de movimento é infinita. A soma de todas as danças, lutas, esportes e artes circenses é o que o corpo humano pode fazer. E a restrição de movimentos é mortífera. É ser morto em vida, virar um paspalho bem comportado, com meia dúzia de movimentos repetidos. Como duas estátuas podem se amar, ou dois bonecos articulados podem se amar, dançar, ter relações sexuais, a não ser de formas pré-estabelecidas? Somos muito mais versáteis e precisamos desenvolver isso.

Como?

Para bem amar é preciso repensar a posição machista da sociedade. Sexo para o homem começa quando ele entra na gangue, que é a pior forma de "machice". E para me aproximar de uma mulher com amor, preciso perder 80 % da minha "machice". Antes de mais nada, amar envolve um profundo respeito pela mulher. Coisa que o machão não tem nem de longe. Das inversões mais radicais da espécie humana, a maior é a opressão da fêmea. A mulher vive para manter a vida, é dona indiscutível da natureza. O melhor que o homem pode fazer é pôr-se a serviço dela. E experimentar prazeres como nunca sentiu na vida, em vez da vulgaríssima trepada. Talvez a maior revolução seja o avanço da mulher na representação social. Sempre falo de um partido das mães e de uma escola para a família. Sei que a mulher corre o sério risco de se contaminar e virar "macho". Eu espero que não, pois a mulher não é inerentemente agressiva. O macho é. Enquanto os machos dominarem o mundo, a humanidade será a catástrofe que já tem sido.

Do que trata seu último livro, A inconsciência coletiva?

Ele tem muito do Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago. Tem a ver com não querer olhar a si, não se deixar influir pelo outros.

Qual a importância do trabalho de Wilhelm Reich, tema que o senhor desenvolve não só na nova obra, mas ao longo de sua carreira?

Podemos entender a partir da diferença entre Freud e Reich. Freud disse: "deita aí e fala. Eu não quero te ver". Após certo número de encontros, ele se sentia um pouco embaraçado de ficar diante da pessoa, pois é difícil ficar sem interagir. O jeito é só escutar. É a antecipação da psicologia pelo celular. Por sua vez, Reich começou a reparar no paciente e viu que tudo o que havia de inconsciente nele está expresso pelo corpo. E assim começou a psicologia do corpo.

O senhor ganhou fama nacional com um programa de TV bastante assistido pormães que não sabem o que fazer com seus filhos. Hoje, o que diria para essa audiência?

É difícil, não gosto de dar conselhos, pois a criança é um produto que aparece no mundo sem instruções para uso. Mas posso dizer o seguinte: seu filho não é nada do que você pensa. Ele não é bobo, não é inocente, não é ingenuo, ele é muito esperto, muito atento, e aprende dez vezes mais depressa que você. O melhor que você pode fazer por ele é respeitá-lo a tratá-lo como criança. É até mais importante que amá-lo.

*Psicoterapeuta e amigo da Filosofia Clínica.

Da Redação do DIARIODEPERNAMBUCO.COM.BR. Entrevista de 04.06.2009.

_______________


Entrevista com o Filósofo Clínico e Professor Sebastião Soares - Belo Horizonte/MG.




1)Inicialmente um mini-currículo, contendo suas principais atividades.

- Filósofo Clínico (formado na primeira turma de Minas Gerais), Professor, Jornalista e Escritor;
- Vice presidente da Associação Mineira de Filosofia Clínica
- Presidente do Instituto Mineiro de Filosofia Clínica;
- Professor Titular de Filosofia em Belo Horizonte;
- Graduado em Letras e Filosofia (UFMG);
- Pós-graduado em Filosofia Clínica, Filosofia Política, Linguística, Administração de Recursos Humanos, Educação Popular, Administração Pública etc.


2)Como você descobriu a Filosofia Clínica ?

Através de uma primeira matéria publicada na “Folha de São Paulo” soube da Filosofia Clínica no Rio Grande do Sul e me interessei pela terapia, em função de um processo de autogenia no qual eu me encontrava. No final de 1997, o jornal ‘O Tempo”, de Belo Horizonte, publicou dois artigos em que professores de filosofia da Universidade Federal de Minas Gerais opinavam sobre a possibilidade da Filosofia ser aplicada no exercício terapêutico, tendo por referência as primeiras informações que começavam a ser veiculadas sobre a Filosofia Clínica e o trabalho pioneiro de Lúcio Packter.

Em um destes artigos, o professor Rodrigo Duarte, um mestre em toda a acepção do termo, respeitado e reconhecido pelo seu trabalho acadêmico, não só defendia a filosofia como terapia, como indicava a experiência da Filosofia Clínica que se iniciava. Daí tive conhecimento de que seria aberta uma turma de Filosofia Clínica em Belo Horizonte, a primeira em Minas Gerais. Fiz a matrícula e aguardei, ansiosamente, o início das aulas.

Logo de início fui contaminado pela proposta metodológica da Filosofia Clínica: o absoluto pode ser apenas um momento relativo e, no plano existencial, a verdade é de cada pessoa, na sua medida, no seu tamanho, na forma de ser de cada singularidade. Um método que consiste, basicamente, na boa interseção de EPs para com as pessoas, no pleno reconhecimento do outro como alteridade e possibilidade, em um vínculo profundo que se chama humanismo. “Meu método se revela em um carinho intenso, em um amor que é latente em minha fala, em minha alma”, como afirma Lúcio.

O curso, através do professor Hélio Strassburger, não só me tornou filósofo clínico, como contribuiu para que eu me despertasse de um velho “sono dogmático” na efetivação do processo autogênico.

3) Fale um pouco sobre seu desenvolvimento em direção ao ser terapeuta.

Antes de ser filósofo clínico eu participei de muitos movimentos sociais, integrei grupos de resistência à Ditadura Militar, me tornei lutador social, exerci – ainda exerço – trabalho de professor e jornalista – atividades nas quais sempre permeava uma terapia informal. Nessas atividades eram recorrentes os encontros e interseções com pessoas que me procuravam para uma opinião, um conselho, dado que, por um padrão na minha Estrutura de Pensamento – e também, por ser mineiro – eu, em geral, me posicionava de modo mais inversivo, mais ouvia do que falava. No jornalismo, esse padrão é uma necessidade profissional.

Ao me tornar filósofo clínico o saber ouvir tornou-se uma exigência ética, no sentido de que é necessário ouvir não apenas o dado de semiose verbal, mas as diversas “falas” do partilhante, as infinitas possibilidades discursivas da pessoa nas mais distintas manifestações das suas semioses.

Com o início da prática em consultório outras particularidades foram se mostrando e, ao mesmo tempo, as demandas de estudo, pesquisa, estudo, pesquisa cresceram. Posteriormente dediquei-me a alguns atendimentos especializados, a crianças e adolescentes, através do “Projeto Escola”, desenvolvido em Belo Horizonte e em São João Del Rey; depois passei a atender pessoas com queixas de obesidade mórbida, em especial as que se preparavam para cirurgias de redução de estômago, com atendimentos, estudos e pesquisas em Belo Horizonte e em Conselheiro Lafaiete, com atendimentos compartilhados com a medicina.

Em seguida dediquei-me, e ainda me dedico, a compreender o trabalho da filosofia clínica com grupos, trabalhando em organizações coletivas, com pesquisa avançada em torno dos “filósofos da administração” e atendimentos em Belo Horizonte, Brasília e São Paulo.

Em decorrência de demanda surgida em consultório, direcionei os meus estudos, também, para a filosofia da mente e para a neurociência, com atendimentos a partilhantes com danos cerebrais decorrentes de traumas neurológicos, de forma compartilhada com médicos neurocirurgiões, cardiologistas, fonoaudiólogos e psicólogos, inclusive coordenando grupo de estudos nesta área em Uberlândia e Belo Horizonte.

4)Indique algumas fontes de inspiração (teórica e prática) ao seu trabalho.

No âmbito da Filosofia Clínica, minhas referência s principais são Lúcio Packter, Hélio Strassburger, Mônica Aiub e o prof. José Maurício, este pela excelente contribuição à fundamentação. Admiro e me inspiro, também, nos trabalhos de Idalina Krause e Mariza Niederauer.
Com relação aos grandes pensadores da filosofia as influências e referências são muitas, mas, com maior determinação para os filósofos e filósofas que se dedicam à cultura do humanismo, na perspectiva de que é possível a emancipação humana em um outro mundo possível e necessário, mais justo, mais fraterno e mais solidário.


5) Quais as recomendações à quem está se iniciando em Filosofia Clínica ?

O primeiro compromisso tem que ser com o estudo, sistemático, permanente. Entender, também, que a filosofia clínica não é uma reflexão teórica de uma nova “abordagem” filosófica ou mais uma “leitura” da filosofia, mas uma práxis, um fazer terapêutico com base na filosofia produzida ao longo de mais de 2.500 anos. Todas as adaptações dos pensadores empreendia por Lúcio Packter, desde a filosofia antiga até a produção contemporânea, voltam-se, exclusivamente, para apontar e determinar os espaços e métodos da prática clínica. Quando se estuda historicismo, epistemologia, analítica da linguagem, lógica formal e fenomenologia, por exemplo, o objetivo não é o conhecimento avançado e profundo destas escolas filosóficas, o que, também, é necessário; não é conhecimento diletante, trata-se de aprender a aprender um jeito novo de fazer filosofia no cotidiano das existencialidades, nos distintos e variantes endereços existenciais de cada pessoa, na singularidade concreta das suas vivências e dos seus projetos. Portanto, uma prática.

Outra recomendação: apreender a ouvir. Não apenas escutar, mas ouvir até mesmo os grandes silêncios das narrativas de cada pessoa, com amor e carinho, no encontro das alteridades. E por fim, compromisso ético, como a substância determinante do processo terapêutico; respeito ético à forma de ser e de funcionar de cada pessoa.

6) Como você vê o crescimento desse novo paradigma no Brasil e exterior ?

É interessante observar, desde os primeiros passos do Lúcio Packter, desde o trabalho de filósofos clínicos como Hélio Strasburger, Margarida Nichele Paulo entre outros que, fortalecidos com a coragem dos pioneiros, tiveram a audácia de semear a filosofia clínica pelo Brasil e pelo mundo. Hoje, com milhares de filósofos, especialistas, mestres, doutores em várias universidades do País, a filosofia clínica não provoca tanta ojeriza como nos primeiros momentos da sua implantação. As rejeições atuais, em geral, vêm das mesmas fontes do “não li e não gostei”.

Para o florescimento, foi necessária muita doação para suportar ofensas e insultos decorrentes, em muitos casos, pelo fato de que o novo assusta, especialmente para as cabeças acadêmicas adormecidas na cinza morna do comodismo das verdades absolutas. O despertar para uma nova proposta, a transição para um novo paradigma requer abertura, disponibilidade e generosidade, artigos que costumam ser raros no universo autosuficiente das mentes ilustradas.
Mas, passado o vendaval destrutivo inicial, a Filosofia Clinica, pela incansável dedicação de muitos pioneiros, sobreviveu, cresceu e se multiplicou. Hoje, alicerçada em centros, institutos e associações, é mais do que uma nova opção teórica ou um novo discurso filosófico, é, a filosofia clínica, a possibilidade profissional real de milhares de filósofos espalhados pelo Brasil e em outros países. Uma construção permanente que se faz pelas ações compartilhadas de cada um.

_______________


Entrevista com a Filósofa Clínica e Professora Idalina Krause - Porto Alegre/RS:




Idalina Krause é bacharel e licenciada em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS), com especialização em Filosofia Contemporânea e Brasileira (PUC/RS) e em Filosofia Clínica (Instituto Packter, Porto Alegre). Atua desde 1998 como filósofa clínica em consultório. É professora do curso à distância de Filosofia do Instituto Packter. Publicou em 2007 o livro A arte de compartilhar, onde relata suas experiências em clínica. Seus escritos também podem acessados no blog: http://percepcoesinsones.blogspot.com/ e no site https://sites.google.com/site/idalinakrause/home (em atualização).

E-mail: idalinakrause@yahoo.com.br


Perguntas:

1) Como você descobriu a Filosofia Clínica ?

Foi muito interessante o meu primeiro contato com a Filosofia Clínica. Ela chegou na minha vida em uma época em que eu estava triste e cansada pela vida profissional que levava e vi o anúncio sobre o curso em um jornal local aqui de Porto Alegre .
Mesmo com formação em Filosofia, eu exercia na época a atividade de contadora, mesma profissão de meu pai. Aliás, os meus clientes neste período já me pegavam para confidenciar problemas familiares, seus amores, buscas, suas problemáticas existenciais.
Acredito que seja da minha essência o saber ouvir, já usava de uma forma informal os conhecimentos da filosofia nesses casos. Eram muito gostosos esses papos que a gente levava. Inclusive, alguns de meus clientes desta fase são meus amigos até hoje.
Em Trópico de capricórnio, de Henry Miller, tem uma passagem que fala do “salto”, como libertação para escapar do “mecanismo de relojoaria”. A Filosofia Clínica para mim foi este salto na busca de mim mesma, do aperfeiçoamento, da dedicação, da pesquisa do estudo para ter uma boa formação e instrumental suficiente para prestar atendimento aos partilhantes que nos chegam. Longe dos “gabinetes empoeirados” como fala Nietzsche, das repartições públicas enfadonhas, “vazias”, encontrei novos ares para respirar e tantas outras águas para beber, matando a minha sede de novos saberes.
Ainda fazendo referência a Miller posso dizer que a formação e o aperfeiçoamento foram como música: “Música é o som silencioso feito pelo nadador no oceano da consciência. É uma recompensa que só pode ser dada por si próprio”.
O exercício existencial é a nossa vida com todo o seu movimento, sua duração, suas intensidades, alegrias, pesares e prazeres. Foi assim simplificadamente que a Filosofia Clínica chegou e ficou na minha vida.


2) Fale um pouco do desenvolvimento do 'ser Filósofa Clínica' desde o começo de sua caminhada de estudos na formação.

Acho que com a formação primeiro vem o deslumbre, depois o choque, depois o se despir, após reconstruir, depois dedicação, trabalho e estudos constantes.
Deslumbre como exemplo do ar que falei acima, é diferente do ar rarefeito da academia; é a novidade de colocar os conhecimentos filosóficos na prática. Saberes dos mais variados autores da história da filosofia no exercício de conhecer, buscar entendimento sobre o humano.
Isso choca muitas vezes, pois são abertas portas e janelas das quais tu não tinhas acesso, deste modo é um mergulho.
O se despir que falo é que quando adentramos no profundo dos Exames Categoriais, estudos sobre as mais variadas Estruturas de Pensamento e Submodos, isso tudo acaba se configurando numa auto-análise, da tua visão de mundo, pré-juízos, buscas, significados, axiologia etc. E muitas vezes isso causa estranheza, mas é parte do processo de formação, transformação do que vem à superfície.
E esta metamorfose toda exige desconstruções, reconstruções constantes que irão surgir com as leituras, pesquisa e principalmente com o atendimento de consultório. Costumo brincar com os meus alunos usando um termo popular que alguns poderão achar chulo, mas serve como vice-conceito, o de ter cuidado para não “fazer nas coxas”. Se pretendem ser bons filósofos clínicos, pensadores que se debruçam sobre as inúmeras possibilidade da existência humana, com certeza a produção de saberes deverá acontecer de uma forma integral, de corpo e alma.
Caso contrário, será qualquer coisa sem a febre das paixões. Isso é o que me move neste o princípio, o nunca saber tudo, o inusitado, ter a abertura e o frescor de ser aprendiz, não professar: trocar.

3) Como você vê a expansão da Filosofia Clínica, com a ampliação das parceiras com faculdades e universidades, clínicas, hospitais e consultórios ? Inclusive com o início da graduação em Filosofia Clínica, prevista para 2011.

Acho que é uma expansão positiva, que chega para brindar a todos que tem trabalhado
com ética e responsabilidade que o exercício da Filosofia Clínica exige. Mas gostaria de pontuar que nesse processo que vem ocorrendo lenta, mas progressivamente, não podemos de maneira nenhuma perder o foco inicial. E quando falo em foco inicial é a qualidade na formação do Filósofo Clínico. Nossos esforços devem atentar sempre nesta direção. Isso fará com que a Filosofia Clínica adentre cada vez mais e onde quer que seja, será vista e respeitada.

4) Indique algumas fontes de inspiração teórica ao seu trabalho.
Nossa são tantas! Sou uma curiosa contumaz, devoradora de livros. Tentarei alguns, por ordem alfabética os principais:

Aristóteles – Ética a Nicômaco
Austin – Sentido e percepção
Bergson – Matéria e memória
Barthes – (todos)
Beauvoir – A convidada
Boff – Saber cuidar
Calligaris – Cartas a um jovem terapeuta
Chauí – Repressão sexual
Deleuze – (todos)
Foucault – (todos)
Hume – Investigação sobre o entendimento humano
Kant – Crítica da razão pura
Kierkegaard – Desespero. A doença mortal
Lou Andreas-salomé – Carta aberta a Freud
Merleau-Ponty – Elogio da filosofia e Fenomenologia da Percepção
Nietzsche – (todos)
Sartre - (todos)
Schopenhauer – O mundo como vontade e representação – A arte de ser feliz
Sacks – Um antropólogo em marte e o homem que confundiu sua mulher com um chapéu
Spinoza - Ética
Wittgenstein – Tractatus lógico-philosophicus e Investigação filosóficas

Acho que esses já dão um bom caldo, muito o que pensar e refletir. Além da boa literatura que é fundamental numa boa formação. Aqui vão outras dicas:

Caio Fernando Abreu – Ovelhas negras
Antonin Artaud – Escritos de Antonin Artaud
Samuel Beckett – Malone morre
Gustave Falubert – Educação sentimental e Madame Bovary
Henry Miller – Trópico de capricórnio
Rainer Maria Rilke – O livro das horas
João Guimarães Rosa – Grande sertão veredas
Van Gogh – Cartas a Théo
Oscar Wilde – De profundis e outros escritos do cárcere
Clarice Lispector – (todos)
Ferreira Gullar – Crime na flora
Fernando Pessoa – (todos)
Florbela Espanca - (todos)
Cora Coralina – Poemas dos becos de Goiás
Charles Baudelaire – Paraísos Artificiais
Raduan Nassar – Lavoura arcaica
Virginia Woolf – Objetos sólidos
Bukowski - Os 25 melhores poemas de Charles Bukowski

5) O que você tem a dizer aos estudantes que estão iniciando o curso de Filosofia Clínica ?

Bem-vindos! Prepare-se para uma revolução em suas existências.
Se o caminho a ser percorrido for feito com ética, trabalho e responsabilidade terão sucesso.
Estudem!!! A filosofia é uma amante, a Filosofia Clínica idem. Tenham prazer, alegria no exercício do pensar, no estudo e na pesquisa do humano.
Amem, se apaixonem, ela vai retribuir com carinho todas as trocas de carícias de saberes e sabores únicos do trabalho terapêutico.

“O trabalho terapêutico é uma arte que requer sabedoria, habilidade, imaginação para acomodar, adaptar, construir, desconstruir, amenizar choques, equilibrar. Somos contempladores de universos, paisagens que se deixam revelar em suas belezas singulares em constante devir”. (Trecho do livro A arte de compartilhar).

_______________



Entrevista com o Filósofo Clínico e Professor Bruno Packter - Florianópolis/SC:




Breve historicidade e um mini-currículo:

É formado em Engenharia Civil pela Universidade do Sul Catarinense. Após viagens aos EUA e Europa retorna ao Brasil e cursa graduação em Filosofia na mesma instituição em Florianópolis.

Foi aluno de Hélio Strassburger e concluiu a pós-graduação em Filosofia Clínica pelo Instituto Packter em Florianópolis. Na capital catarinense hoje é professor titular e onde atende em consultório. É também professor titular de Filosofia Clínica nas cidades de Blumenau, Brusque e Tubarão onde ministra o curso de pós-graduação presencial em Filosofia Clínica.

É professor do curso de graduação a distância em Filosofia pelo Instituto Packter de Porto Alegre - RS. Realiza palestras e encontros sobre a Filosofia Clínica em diversas cidades do sul do Brasil, seja como convidado seja como idealizador.


1) Fale um pouco sobre a construção do 'ser terapeuta' em sua vida e o papel da Filosofia Clínica. Estudos, pesquisas, caminhada existencial...

R. Nosso trabalho, passa pela interseção com outras pessoas, como lidar com as estruturações das pessoas e outras questões.

Quanto maior o conhecimento e a sabedoria de ser terapeuta, os estudos em dia, as pesquisas, os bons agendamentos subjetivamente falando, maior será a tranqüilidade nas buscas de resoluções trabalhadas na vida e no consultório.

Sobre caminhada existencial, a forma como cada um de nós conhece as coisas da vida é única. Se for unívoca, melhor, em alguns casos.

Guiar os outros, no sentido de uma caminhada existencial, não basta ter somente o conhecimento técnico; é necessário ser humanista, se importar com a pessoa, caso contrário, inviabilizaremos o atendimento.

Percebo, muitas vezes, que a clínica não é analgesia pela vida, mas um passar pela vida, atenuando, dentro do possível, as dores. Nem tudo na vida é hedonista, relativo às emoções (tópico IV).

Nesta trajetória, nem toda alma deve ser anestesiada. É preciso estar aberto ao contexto, ao histórico da pessoa, as suas contingências e exercitar existencialmente a pessoa dentro do seu mundo, através de sua estrutura do pensamento: afastando, precipitando, resolvendo questões e etc.


2) Compartilhe algumas palavras sobre sua atividade de consultório como Filósofo Clínico.

R. Aprendi com nossos mestres que na clínica filosófica não há demérito em não saber. É preciso ter postura de humildade no consultório.

Muitas vezes, temos que ir direto ao que é fundamental à pessoa, ver o que está na sua alma, sua necessidade. Às vezes, a pessoa busca uma miragem na sua vida, por exemplo.

Em clínica, o ideal é ter paz de espírito: não misturar elementos, ter o foco no que será trabalhado.

Algumas pessoas demoram muito para nos procurar, temos nosso método, nossas regras e etc. Alguns procuram o consultório como alento para outras coisas.

Algumas vezes, o partilhante, após trabalhar suas questões estará pronto subjetivamente para dar continuidade ao caminhar existencial. Alguns não querem e, nestes casos, o que podemos fazer, muitas vezes, é lamentar.

Nos encontros com os partilhantes, com pessoas dispostas a compartilhar suas histórias de vida, surgiam dúvidas, angústias, quando começava na arte de clinicar; aos poucos, elas se tornavam mais suaves.

Nos primeiros passos da clínica filosófica, procurava auxílio nos estudos, nas conversas com os mestres.

A partir do que estudamos na filosofia clínica, aprendemos, entre tantas questões, que receitas prontas, para os problemas da vida, não existem. Existe o funcionamento e a maneira pelos quais a pessoa se estruturou ao longo da vida.

Entender, por exemplo, como acessar as coisas boas das pessoas e em nós mesmos é um dos objetivos em nossa caminhada.

Ser humano, algumas vezes, é isso: errar e acertar são as conseqüências da vida.

O que se semeia existencialmente? Bons livros, bons filmes, boas conversas, boas pessoas? Novas colheitas chegam todos os anos e podemos mudar isto.

Exercitando estas coisas, faz com que vivamos não em um paraíso, mas um viver melhor.

“Nós somos o maior testemunho do que sabemos ou não sabemos”, segundo nos ensina Lúcio Packter.


3) Como você vê a Filosofia Clínica nos dias de hoje, as perspectivas para amanhã e depois ?

R. A filosofia clínica trabalha hoje em conjunto e em parceria com profissionais de diversas áreas do conhecimento: pedagogia, educação física, enfermagem, medicina, farmácia, psicologia, fisioterapia, direito, administração, serviço social e muitas outras. Sejam filósofos clínicos que atuam nestas áreas ou profissionais destas áreas citadas que buscam auxílio e abrigo nos ensinamentos da Filosofia Clínica.

Temos colegas hoje no Brasil e no exterior fazendo um excelente trabalho clínico.

Também, especialistas em pesquisa tratando do aprofundamento de tópicos estruturais e conformações submodais que significam avanços na neurociência, por exemplo.

Minha opinião traz a paixão que tenho pela filosofia clínica.

Encontrar a própria voz, o próprio caminho é um trabalho de tempo subjetivo demorado e, muitas vezes, solitário na clínica filosófica, mas que nos enriquece a cada momento.

O futuro irá conforme a estruturação dos colegas e alunos envolvidos, através das suas circunstâncias.

Portanto, não há garantias, pois, em muitos casos, os resultados costumam aparecer, após muito trabalho e estudos em dia também.


4) Mencione algumas fontes de inspiração bibliográfica ao seu trabalho.

R.

Crime e castigo, de Fiódor Dostoievski;

Matéria e Memória: Ensaio sobre a relação do corpo com o espírito, de Henri Bergson;

Eu e Tu, de Buber, Martin;

Tornar-se Pessoa, de Carl Rogers;

Ana e o Dr.Finkelstein, de Lúcio Packter;

Filosofia Clínica - diálogo com a Lógica dos Excessos, de Hélio Strassburger;

Microfísica do Poder, Michel Foucault;

Sobre o Corpo, de Thomas Hobbes;

Fenomenologia da Percepção, de Maurice Meleau-Ponty;

Ética Prática, de Peter Singer;

Mente, Cérebro e Ciência, de John Searle;

Intencionalidade, de John Searle;

O Mundo Como Vontade e Representação (III Parte), de Arthur Schopenhauer, para citar apenas alguns.


5) Qual a sua mensagem para os estudantes de Filosofia Clínica hoje matriculados no Brasil e exterior, que são desde os mais jovens e recém saídos da academia até profissionais já reconhecidos em suas respectivas áreas de atuação ?

R. Logo nas primeiras aulas, o aluno nota o motivo do encantamento no país inteiro com a filosofia clínica. Muitas vezes, os pensamentos começam a fluir e “ventar”, percebendo ele que não há mais uma resposta pronta para as coisas da vida... os caminhos começam a ter multiplicidade.

Nestes caminhos, outras questões surgem.

Portanto, passo os agendamentos recebidos e que sigo neste movimento existencial: muito trabalho, muito estudo e muita ética, com fundamentação teórica bem sólida. Nossa prática clínica exige isso, pois trabalharemos com pessoas que sentem, que sangram, portanto não há outra maneira.

Meu desejo é que as pessoas utilizem a filosofia clínica em suas vidas nos momentos nos quais o contexto tenha isso como demanda.

A certificação que recebemos do curso não é apenas o que aprendemos, pois precisará ter continuidade na vida, na nossa atuação profissional e na própria existência.

_______________