quinta-feira, 29 de abril de 2010

A insanidade do possível*



Entre diversos momentos ditos “passados em branco”, o esquecimento é futuro. Cada instante traz uma sensação em si, inerente ao próprio momento. As circunstâncias são únicas na sua solidão. Imensidão de vácuos que se interconectam em alguma linguagem, ou talvez, uma des-linguagem que se fecha em seu próprio vazio esperando tradução. Momentos de larga espera permeados de esperança vagam os pensamentos ditos insanos. Cada sorriso de loucura é uma lacuna de possibilidades aguardando o momento de viabilizá-las, traduzir-se em direção ao outro. Expressividades que se abrem na sucessão dos dias, sabendo-se momentâneas, conhecendo-se fugazes no rio sempre renovado das circunstâncias.

Retroceder às passagens perdidas no vazio do esquecimento é um deslocar-se decrescente pautado sempre no momento atual. Uma ponte de significados e re-significações que se atualizam à medida que caminhamos para trás. Possibilidade de revisitar-se em papéis antes vividos, atualizando-se em uma re-leitura de novos significados em circunstâncias ditas similares.

Atualizar-se é um retroceder ao futuro onde se descobrem caminhos e possibilidades, que embora sempre presentes, se apagaram na tentativa de ser e se esqueceram. O olvido pode ser o que resta de uma possibilidade trilhada nas incertezas do viver. E o insano é a página em branco. É o vice-conceito da expressividade barrada pelas razões cotidianas das certezas absolutas. O interior se agarra no vazio de si na larga espera pelo devaneio exterior.

Mas há uma asa delirante em cada argumento da razão que também aguarda pelo momento de esquecer-se ... pelo momento de perder-se sem traduções na corrente interna das incertezas, das dúvidas, das filosofias e da loucura de ser. Fazendo assim, sempre essa ponte entre o possível e o impossível, transcendendo-se nas possibilidades do impossível.

* Fernanda Moura
Poetiza, Filósofa Clínica
México
Sonhos e Foucault

Cássia Regina da Silva Luz
Goiânia/GO



Foucault se utiliza de um texto de Artemidoro "A Chave dos sonhos", para averiguação de articulações e métodos utilizados na maneira de conhecer dos gregos. "A análise dos sonhos fazia parte das técnicas de existência. Já que as imagens do sono eram consideradas, pelo menos algumas dessas imagens, como signos de realidade ou mensagens do futuro, decifrá-las tinha um grande valor: uma vida racional não podia poupar-se desta tarefa." [1] Com efeito, o ato de sonhar estava relacionado a um encadeamento político, o homem virtuoso poderia ser reconhecido na constituição própria de seu sonho, ou seja, o indivíduo que jaz conquistado o equilíbrio não havia mais de ter sonhos desequilibrados como falta ou excesso, desejo ou medo. O que queremos acentuar aqui é que o cidadão grego cultivava como hábito essencial para existência analisar os sonhos, por valores interiores, colocando-os em revista frente às suas próprias experiências. Peira (experiência), é antes de tudo seu próprio testemunho.

O texto de Artemidoro revela uma diferença no modo de conhecer, mas não só, também uma diferenciação na maneira de promover este conhecimento correlacionando o ser político moral ao cuidado de si. Uma ética do sujeito que se distancia um pouco do cuidado de si dos estóicos e epicuristas, a qual Foucault trabalha no seu texto como sendo a época de Ouro. Nos séculos I, II, a.C. as práticas do auto-exame se estendem numa atividade de reflexão mais passiva. O cuidar de si exige não só um reconhecimento, mas um saber reconhecer a patogenia no interior de si mesmo, utilizar se de regras e princípios que o auxiliem na prática do auto exame, como atividade essencial para a rígida conduta no bom caminho. O racional haveria de se adequar ao saber. E como por ironia o cuidar de si há de ser voluntário, ou seja, o sujeito de vontade se torna sustentação de um aprendizado exterior, e é com essa desenvoltura que se relaciona enquanto sujeito de conhecimento. Numa palavra, na grade de analises válidas para o corpo e a alma, praticar a privação do que é considerado supérfluo é ato de necessidade, era essencial a abstinência em tudo o considerado excesso. Esse processo revela o trabalho do pensamento sobre ele mesmo, no intuito de examina-lo, controla-lo, e encaminha-lo no bom caminho. Tal postura está relacionada com regras de memorização.

Aqui podemos detectar uma necessidade do desvinculamento de si, numa atitude virtuosa, memorizar certas regras exteriores, e que vão compondo o cuidar de si. Apesar de envolver o mesmo termo, traz consigo outras características que aos poucos se justapõem, dando uma dimensão mais deslocada para o ser ético e político.

A prática da rememorização da pedagogia grega tinha por objeto princípios filosóficos fundamentais, inclusive um posterior desprendimento do educando. Na época de ouro, esta prática está relacionada à memorização de regras de conduta que devem permanecer sempre fixas na lembrança, permitindo ao indivíduo a sabedoria de escolher meios convenientes para manter o equilíbrio. Enquanto que a respectiva aplicação já na era cristã da prática da rememorização, é no sentido de memorizar não só suas faltas, mas as leis que julgam-nas como pecado. E esta prática está orientada para constituição do eu sem qualquer continuidade com o sujeito de conhecimento ou de vontade. Mas antes, este jogo de verdade está definido pela sua correspondência com a realidade por uma tendência obrigacional, que por uma força estranha exterior aplica sobre si mesmo um “tu deves”. A rememorização surge como adequação a realidade das leis impostas. E não mais com o objetivo de abrir no indivíduo um espaço onde a verdade pudesse surgir e atuar como uma força de vontade, através da presença da memória a da eficiência do discurso.

O conhecimento ou o cuidar de si na era cristã está voltado para o exterior do ser, ao invés da alma voltar sobre si mesma para encontrar sua natureza ( como em Platão), a ordem é prender o que se aprende com o mestre nas duas mãos, até que faça parte de nós, e possamos reconhecê-las como nossas verdades. Tais princípios se articulam muito relacionados ao modo de conhecer dos pagãos; diz Sêneca e Plutarco: “devemos voltar ao exterior em busca do discurso até fazer dele o nosso”. O que convém assinalar aqui, é a relação de dependência do discípulo em relação à seu mestre por toda vida.

Para Foucault, a paradoxalidade nas práticas do auto-exame e da confissão que constituíram o cuidado de si do indivíduo grego para o da era cristã é fundamental para nos determos nos pontos de transferência para a constituição do eu moderno.

Diz Foucault: “Ora através dessas modificações de temas preexistentes pode-se reconhecer o desenvolvimento de uma arte da existência dominada pelo cuidado de si. Essa arte de si mesmo já não insiste tanto sobre os excessos sobre os quais é possível entregar-se, e que conviria dominar para exercer sua dominação sobre os outros, ela sublinha cada vez mais a fragilidade do indivíduo em relação aos diversos males que a atividade sexual pode suscitar. Ela também sublinha a necessidade de submeter esta última a uma forma universal pelo qual está ligado e que para todos os humanos, se fundamenta ao mesmo tempo em natureza e em razão. Ela acentua igualmente a importância em desenvolver todas as práticas e todos os exercícios pelos quais pode-se manter o controle sobre si, e chegar no final das contas a um puro gozo de si. Não é a acentuação das formas de interdição que está na origem dessas modificações na moral sexual, é o desenvolvimento de uma arte da existência que gravita em torno da questão de si mesmo, de sua própria dependência e independência, de sua forma universal e do vinculo que se pode e deve estabelecer com outros, dos procedimento pelos quais se exerce seu controle sobre si próprio e da maneira pela qual se pode estabelecer a plena soberania sobre si.”[2]

BIBLIOGRAFIA

FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade 2. O Uso dos Prazeres. 7ª ed. Rio de Janeiro: Graal,1984. O texto “Modificações”.

FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade 3. O Cuidado de Si. Rio de Janeiro: Graal, 1985. O texto “A Chave dos Sonhos”.

[1] FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade 3. O Cuidado de Si. Rio de Janeiro: Graal, 1985. Página 14.

[2] FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade 3. O Cuidado de Si. Rio de Janeiro: Graal, 1985. Página 234.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Filosofia Pop?!

Silvia Soares Santana
Uberlândia/MG


A filosofia não é pop, assim como diz a filósofa do fantástico, Viviane Mosé. Mas ela pode se tornar pop se as pessoas não tiverem um método ao iniciar as leituras e debates filosóficos. De modo bem simples método é a concepção de mundo de um determinado filósofo.

Todos nascemos filósofos. Mas filosofamos espontaneamente. O pensar é inato. Pensador é todo homem. Mas pensar por si só não basta, é preciso saber pensar.

O pop então seria o filosofar espontâneo, o que também não basta. O essencial é se elevar culturalmente, o que não significa aderir às filosofias prontas. Filosofar, embora seja uma atividade cotidiana, não pode ser tratada como modismo. Ora, se a elevação cultural e intelectual fosse possível através de manuais, muitos já teriam se elevado quando da publicação da obra O Mundo de Sofia. No entanto, o filosofar permanece espontâneo e medíocre. Sem desconsiderar a seriedade de tais obras, pois reconhecemos que muitos se enveredaram na filosofia por intermédio delas.

Não pretendo ser um tribunal contra o quadro apresentado por Viviane Somé, muito menos ir contra aos comentadores e autores de manuais e convites. Pelo contrário, considero fundamental o papel desses intelectuais, e como coloca a filósofa "tem um grau de banalização num interesse pela filosofia, mas, fica um rastro". E considero que a partir desse rastro que está sendo lançado no ar é que surge a vontade e, posteriormente, o prazer de se filosofar. Porque sem exceção todos os homens se comprazem em conhecer.

Mas o caminho é um pouco árduo até chegarmos nesse ponto que nos compraz. É árduo, pois o método é a própria obra do filósofo, cujo conteúdo diz respeito também a nossa realidade.

Todavia, para não cairmos na banalização, e nem tornar a filosofia pop, é preciso deixar a espontaneidade e retornar aos clássicos. E nestes, enquanto fonte primária, não há nada de excepcional. O que não dá para entender é o porque se subestima tanto a capacidade intelectual das massas.

E um estigma que deve ser banido é com a noção de que só acadêmico tem acesso aos clássicos. Como se, para leitura de tais textos necessitasse de uma mente brilhante. Como se, ao vulgo restassem somente os manuais. Não é preciso ser gênio e muito menos ser grego para filosofar. Já filosofamos cotidianamente.

Como tudo na vida, filosofar requer tempo. Mas este é uma questão de escolha e mudança de hábitos - ou você escolhe crescer intelectualmente ou você escolhe o caminho, os produtos e as idéias que outras pessoas pensaram para você. Quanto a primeira escolha somos responsáveis por ela, quanto a segunda já não podemos reclamar.

Enfim, comprar pensamentos prontos e idéias padronizadas nos parece mais fácil do que nos debruçarmos sobre nós mesmos e descobrir o potencial do nosso pensar.

A filosofia não pretende ser auto-ajuda, nem tem em si uma finalidade prática. Mas ela é justamente uma das maiores forças espirituais que nos impedem de soçobrar na barbaria e nos ajudam a permanecer homem e vir a sê-lo cada vez mais.




A arte de compartilhar
Idalina Krause
Porto Alegre


Filosofia, educação, saúde, arte de compartilhar, filosofia clínica. Fiquei pensando, remoendo, idéias e sentimentos.

Pensei no lema do bom terapeuta - “amor e trabalho” - e tudo o que foi construído nessa trajetória. O amor puro de Schopenhauer, onde a compaixão é o conhecimento da dor alheia que é também a dor do mundo. E o trabalho onde não haja a traição da espiritualidade alegre e contemplativa que é o próprio homem, que nos traga “a boa consciência”, como bem nos lembra Nietzsche.

Uma das primeiras perguntas que faço nas minhas aulas é: “Vocês gostam de gente?”
Sim, porque trabalhar com Filosofia Clínica é ficar diante da humanidade em pessoa, diante de um ser humano, um alguém com todas as suas singularidades.

A segunda pergunta: Vocês acham que ser terapeuta, ser um filósofo clínico é possível para toda e qualquer pessoa? Acho que não.

O que é preciso para ser um bom terapeuta, um filósofo clínico, que vai usar seus conhecimentos filosóficos, seus saberes como educador, compartilhando artes, na busca de uma melhor qualidade de vida de seus partilhantes?

Amor por gentes, pelo seu trabalho, arte, criação e considero fundamental um bom traço de caráter. E isso não se consegue apenas durante a formação, porque é preciso que esteja lá essencialmente com cada um que busca ser terapeuta desde o começo. É preciso haver uma formação contínua, uma busca que não se esgota em um curso ou uma experiência pedagógica. É preciso um fazer e um refletir sobre esse fazer constantemente.

Para além disso, é desejável um conjunto de traços particulares, de bom efeito moral, traços éticos que vão nortear suas ações e o seu trabalho. Sem essa base, essa dedicação, sem essa sustentação, os alicerces acabam por ruir como um castelo de cartas.

Basta fazer dois anos de formação, mas pré-estágio e estágio e já se está pronto para ser um bom terapeuta? Não.

A formação é uma passagem, é um aperfeiçoamento daquilo que está latente num terapeuta. Durante essa trajetória, esse devir, agregamos mais instrumentos, mais qualificação para lidar com o humano.

Somos pesquisadores de humanidades, alunos, terapeutas, filósofos, sempre em formação (a-luno, significa sem luz). Procuramos uma luzinha: “Melhor aceitar a explicação mais simples, mesmo que não seja simples, mesmo que não explique muita coisa. Não precisa luz forte, uma luzinha basta para a gente viver da estranhidão, basta que seja uma luzinha fiel”. (Samuel Beckett)

Acredito que cada ser humano, tem uma luz própria. Dependerá muito de nossas ações, nossas práticas, sabermos buscá-la.

Uma das proposições mais belas da Filosofia Clínica é a construção compartilhada. Ela tem uma força, uma intensidade poderosa e é com esse propósito que entramos na “festa” da interseção.

Estabelecer interseção é algo fácil? Nem sempre. Mas, na minha concepção, há alguns posicionamentos básicos que podem agir como facilitadores, para essa dança, essa interseção que passa a se estabelecer. Além do que já salientei anteriormente, não podemos esquecer que estamos diante de uma estrutura plástica, dois corpos em movimentos que se dão a conhecer.

Escuta e ouvir: Escutar é estar atento para ouvir. Alguns aqui podem estar me escutando, sons, palavras, ruídos. Mas ouvir é isso, além de uma viagem que me proponho fazer para ir ao mundo do outro. Fui escolhida para isso, esse sujeito propõe um descortinamento, quer trocar, mostrar seu universo mais íntimo. E toda a minha atenção, ligação, respeito ao que começa me chegar estão dispostos nessa direção.

Perceberei dores, odores, alegrias, horrores, palavras, ações entrecortados de silêncios, suspiros de alma, paralisias e transbordamentos, complexidades, nuances, cores, simplicidades, nessa interseção hora estabelecida.

Escutar e ouvir é um exercício fascinante, primeiros passos para um tango, uma valsa, um rap, um funk, um clássico, uma novidade, só ouvindo verdadeiramente, escutando saberemos.

Isso basta?

É preciso algo mais, não atropelar, não induzir, não agendar, não julgar. Devo ser presença, presença que acolhe naturalmente, sem invasão. Mais tranqüilidade, serenidade, um olhar que diga “sim”. Um gesto de “estou te acompanhando”. Teu universo me interessa, estou indo contigo, te saco, quero saber de ti. Me conta tua história, quero visitar teus endereços existenciais. O “como” se faz é a tônica, “o amor busca para que o entendimento encontre”. (Ortega y Gasset)

Nessa vivência que se estabelece, somos companheiros, um filósofo outro partilhante, numa duração de tempo maior ou menor que varia de caso a caso.
Acolha o que a pessoa traz. A boa clínica demanda tempo, não é um comprimido efervescente, é um trabalho de delicadeza e paciência. É acompanhar desdobramentos.

A clínica vai além da técnica, dos saberes e dos conceitos filosóficos. Não temos uma fórmula pronta, temos instrumentos para acompanhar um processo em constante devir. Hora mais lento, hora rápido, raso, largo, profundo, doloroso, alegre, manso ou feroz, que constrói ou desconstrói. Às vezes, se deixa ver com maior nitidez, às vezes ainda se esconde por não estar pronto para se mostrar. Silencia e grita, acalma e agita. Ganha força, refaz, desfaz.

Há surpresas que não estão contempladas, apesar de todo o planejamento clínico obrigatório. Aí entra o poder criativo do filósofo clínico, quando surge o imprevisível, nuances do inesperado.

Um exemplo que costumo citar é de um caso no qual um partilhante não queria contar a sua história. Várias consultas que giravam em torno do assunto imediato e último.
O que fazer? Sem conhecer as circunstâncias mais amplas dessa existência, seu tempo subjetivo, suas relações, os endereços, lugares, como detalhar os choques dessa estrutura de pensamento? Como saber suas formas de ação ou submodos?

Aí veio a luz. Dentro do relato que novamente girava no problema que estava enfrentado no momento. Eu perguntei: E antes disso? Foi a alternativa que surgiu, consegui colher o histórico por retroação. E a partir daí a clínica fluiu com naturalidade.

A terapia é um desafio, é trabalhoso, leva tempo. A clínica não é uma ciência exata, as variáveis vão ao infinito. E nem uma pessoa será igual a outra. Cada partilhante que chega é único.

Uma das abordagens que faço no meu livro e que tenho repetido em encontros, aulas e workshops é a ênfase na formação. Para ser um bom terapeuta, além de estudar, se dedicar, ler, aprofundar os conhecimentos é preciso por em prática esses saberes.

Para mim, foi fundamental o trabalho voluntário, que comecei já antes da Filosofia Clínica na época da faculdade. No antigo Projeto Rondon. E após os estágios fui novamente fazer voluntariado com deficientes visuais.

Sair é preciso, ir para o mundo, colocar em práticas as idéias, os conceitos. O atendimento no domicílio é outra experiência que também recomendo. Essas práticas trarão com certeza aprimoramento, um novo empirismo entre sujeitos, riquezas existenciais que vão auxiliar nos devires seguintes e isso fará diferença.

Amadurecemos muito com isso, quebramos muito pré-juízos, vamos encarar outras tantas realidades, agregamos com isso força, novas perspectivas diante do mundo. Isso nos torna mais criativos, temos novos materiais para estudo e pesquisa.

Os estudos são constantes. Bons livros, bons filmes, seminários, grupos de estudos, encontros. Tudo o que possa servir para o aperfeiçoamento, para excelência de aulas, atendimentos, para nos enriquecer como seres humanos. Tornará qualquer tipo de relação mais qualificada seja na vida, na clínica em sala de aula. E isso irá transparecer pela intensidade das novas interseções.

Penso, acredito, que nesse tempo todo da Filosofia Clínica, onde lidamos diretamente com os saberes filosóficos, com educação e com a saúde crescemos muito. Caminhamos, entre erros e acertos.

E cresceu mais, quem lutou, buscou aperfeiçoamento que não se esgota nunca, pois a vida é um perpétuo móbile. Que criou, cultivou, distribuiu e auxiliou. Sendo uma luzinha fiel nessa trajetória. Quantas pessoas passaram por nós? Quantos ainda virão?

Se fizermos bem o nosso trabalho, com ética e responsabilidade, esse será o nosso reconhecimento, a nossa alegria e nossa marca no tempo.

A Filosofia Clínica é a arte de compartilhar.


Escuta e reflexões sobre raciocínio desestruturado e amor

Elise Nogueira
Juiz de Fora



Visto que a historicidade é fator determinante da clínica filosófica, o que se faz diante de um partilhante que apresenta o tópico raciocínio desestruturado?

A primeira questão a ser respondida é: o que é estrutura? Deverá ser o que é lógico? Se olharmos pelas lentes da Lógica Formal, onde 2+2 é sempre igual a 4, podemos dizer que há uma estrutura. Mas o que acontece quando o partilhante nos diz que “laranja” + ”bola” é igual a “carro”?

Do professor Hélio Strassburger, que aborda a lógica da diferença, pude extrair uma pérola filosófica trazida por um de seus partilhantes da clínica psiquiátrica, cujo tópico raciocínio é tido como desestruturado. Segue-se então:

“Hélio, o mundo lá fora é pequeno demais para mim!”

O que é isso senão uma demonstração clara do que é a Lógica da singularidade ou Lógica Modal? Poderia uma pessoa que soma “laranja” com “bola” resultando “carro” caber neste mundo lógico e formal? Seguido a esse primeiro momento de reflexão, o próximo passo é saber como entender esta lógica ilógica.

Em suas pesquisas filosóficas, Will Goya diz ser necessária na clínica uma nova ética, a da alteridade e do amor, que em sua reflexão teria sido inaugurada pelo filósofo Lúcio Packter ao pensar a Filosofia Clínica.

Mas que amor é este Will? A clínica não seria possível por outras motivações? Sim. O amor aqui abordado não é o do tópico emoções, não é sentimento. Ele pode ser isso como também outras coisas. Este amor significa aquilo que interliga um ser ao outro.

Então o mais importante é a ligação, o contato, a interseção, que pode ser feita por meio do amor sentimento ou também por outras coisas. Ora, então como acontece isso na prática?

Um partilhante da clínica psiquiátrica sempre nos contava a mesma história. Contar histórias é tópico submodal seu, a Esteticidade, por meio do qual se fazia entender a ele mesmo. Basicamente ele contava assim:

“Eu estava na roça, peguei um carro por uma estrada cheia de curvas. O carro derrapou e caiu em um lago. Aí eu afundei e fiquei lá no fundo, morto.”

Ouvíamos sempre essa mesma história, com algumas variantes, sem tentar interpretá-la. Em certo momento da clínica, foi usado um procedimento de agendamento mínimo:

“Sim, e depois que você caiu no lago e ficou morto lá no fundo?”

Foi então que a “mágica” aconteceu. Ele nos olha nos olhos e responde mais ou menos assim:

“Aí vocês vieram, me tiraram de lá do fundo e me salvaram. Quando vocês vêm aqui, vocês alegram meu coração.”

Após o espanto clínico, pude fazer minhas considerações ditas teóricas. Analisando esta fala pela Lógica Formal temos:

Roça = roça

Estrada = estrada

Carro = carro

Lago = lago

Morte = morte

Assim teríamos o seguinte “diagnóstico”: se o partilhante está aqui, logo não está morto. Se está dizendo que está morto, logo está louco.

Fazendo a leitura da mesma fala pela Lógica Modal, temos:

Roça = lugar em que sua família mora e para onde vai ao sair do manicômio.

Estrada = neste caminho de retorno faz uso de drogas.

Carro = a família chama a ambulância que corre pelas curvas da estrada.

Lago = chega à clínica psiquiátrica e é novamente internado.

Morte = ao ser internado se fecha em seu mundo interno.

Percebe-se que existe sempre um significado lógico para cada elemento da sua história, embora não entendidos pela Lógica Formal. Aqui 2+2 não é igual a 4 simplesmente porque o 2 não é 2, o outro 2 também não é 2 e muito menos o 4 é 4.

Qual o segredo para se ler nas entrelinhas desta lógica singular? Geralmente, por não se fazer entender, estes seres singulares são lançados no “lago profundo”. Ter a expressividade tolhida pode significar a morte do ser, a solidão ontológica trazida pelo professor e psicólogo José Maurício. Então podemos entender o que o partilhante quer dizer ao falar que o mundo lá fora é pequeno demais para ele.

A Lógica Modal não tem fôrma e não cabe dentro da Lógica Formal. Sua forma é única e dada por aquele que a criou. Como a estrutura de pensamento de cada um é plástica, esta forma também pode mudar a qualquer momento. Além disso, somente quem a constrói sabe o seu significado.

Para entender esta lógica singular é preciso abandonar os livros e as teorias da ciência normal. Temos que aguçar a percepção utilizando os sentidos. Temos que tomar a mesma cor do Outro, como faz o camaleão, e tangenciar sua singularidade sem interferências até que ela se abra e permita que haja a interação entre as duas estruturas de pensamento.

O Outro, tido como louco, é um livro vivo e mágico que se abre por sua própria conta. É um livro onde as letras são invisíveis e falam por si mesmas. Não podemos abri-lo nem lê-lo por nossa vontade, pois sua história só acontece quando ele confia e se abre.

Então é preciso que este Outro diferente não se sinta ameaçado por críticas, rótulos, segregações, entre outras coisas, para que aos poucos ele saia do fundo do lago e permita que se entre em seu mundo. Quando isso acontece, é como se pudéssemos caminhar sobre as águas. É um momento mágico, o momento da interseção.

Uma vez ouvi dizer que fazer sexo não é somente fazer uso dos órgãos sexuais. Tudo que nos penetra por qualquer órgão sensorial, nos fecunda, cria algo novo em nós. Invadir a estrutura de pensamento de um partilhante com intervenções grosseiras, com nossos conceitos, preconceitos e cientificismo pode ser comparado a um estupro.

Na clínica filosófica, a fórmula para interagir com outra pessoa chama-se recíproca de inversão e exige escuta, abertura, respeito, calma, paciência, compreensão, alteridade, amor, isso e todas as outras coisas que possam ajudar ao outro a fazer amor consigo mesmo, a se fecundar, a se gestar e a se parir, se ele assim o quiser fazer.

Rosangela Rossi
Juiz de Fora/MG


Minha alma convida a:

·Aquietar-me e me silenciar.
·Viver a fruição, na ação do agora.
·Furtar-me dos desejos em prol da vontade soberana e divina.
·Viver o hoje serenamente, momento a momento.
·Domar meus impulsos.
·Observar sem pressa no mergulhar profundo.
·Estar por inteiro na relação com outro.
·Colocar-me a caminhar diante qualquer dificuldade.
·Caminhar docemente sobre a terra, pois ela é sagrada.
·Estar consciente e amorosa mesmo frente às dores.
·Ter compaixão frente ao sofrimento do outro.
·Vaziar os julgamentos.
·Tirar as projeções que me distancia dos outros.
·Ser mansa e prudente, confiante e cheia de ternura.
·Ser grata pelo mínimo.
·Plantar e colher no tempo certo.
·Compartilhar sem competir.
·Deixar o outro ir à frente.
·Respeitar as singularidades.
·Render-me frente ao universo infinito.
·Valorizar as mínimas coisas e acontecimentos.
·Compreender as tragédias e doenças.
·Comungar o pão nosso de cada dia.
·Servir incondicionalmente, amar constantemente.
·Compreender e perdoar humildemente.
·Ser simples e desapegada.
·Disciplinar, disciplinar e disciplinar...
·Calar e escutar.
·Falar diante as injustiças.
·Confiar plenamente no TaoDeusUniversoInfinito.
·Receber as bênçãos da vida e feliz Ser!

Do curso: As Bênçãos da vida, o caminho da plenitude. GAC 2010

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Terapia que promove o conhecimento pessoal é tema de palestra em Florianópolis


A epistemologia auxilia pacientes que buscam o autoconhecimento


Pequenas atitudes podem dizer muito sobre a personalidade e a imagem que se pretende passar ao mundo exterior. Porém, na intenção de transmitir uma mensagem positiva aos outros, algumas pessoas esquecem o quanto é importante se autoconhecer e aprender a lidar com conflitos internos.
A segunda parte da palestra Filosofia Clínica, a Educação e o Conhecimento, que será realizada no próximo dia 22 de abril na Livrarias Catarinense no Beiramar Shopping, promoverá um debate entre os participantes e o palestrante Bruno Packter sobre a importância e a eficácia das diferentes formas de se obter conhecimento.
“Algumas pessoas precisam ver algo funcionando mecanicamente para a partir daí terem a vontade de conhecer; outras, dão validade apenas aos dados teóricos; e ainda existem as pessoas que em geral conhecem com a vivência emocional, desvalorizando aprendizagens teóricas”, afirma Bruno Packter.
Na Filosofia Clínica, o termo epistemologia é usado para definir os critérios usados no reconhecimento da verdade. Cada indivíduo possui os seus parâmetros pessoais para criar a sua bagagem de conhecimento. De acordo com as características pessoais, costumam-se usar as sensações, abstrações ou vivencias, havendo casos em que todas são usadas em um mesmo processo de aprendizagem, de forma intercalada.
Durante o tratamento com um filósofo clínico, o paciente é orientado, recebe sugestões e passa por um processo terapêutico personalizado, baseado no modo como a pessoa absorve e procede informações.
Sobre o Palestrante
Bruno Packter é graduado em Filosofia pela UNISUL, em Florianópolis, e pós-graduado em Filosofia Clínica pelo Instituto Packter, de Porto Alegre.
Professor do curso de graduação à distância em Filosofia pelo Instituto Packter, também ministra o curso de pós-graduação presencial em Filosofia Clínica nas cidades de Florianópolis, Blumenau, Brusque e Tubarão.
Sobre o Evento
A segunda parte da palestra Filosofia Clínica, a Educação e o Conhecimento será realizada no próximo dia 22 de abril, as 19h30, na Livrarias Catarinense no Beiramar Shopping, Rua Bocaiúva, nº 2468, piso Joaquina, em Florianópolis.

A entrada é gratuita. Mais informações pelo telefone (48) 3271.6030.

Dialéticas da escuta

Ana Cristina da Conceição
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS



Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens.
Fernando Pessoa



A sociedade pós-moderna pode ser caracterizada como a sociedade do silêncio. Não o silêncio como ausência de ruídos, mas àquele indicativo de lacunas existenciais. Cada pessoa calada em si mesma. Esse estado de espírito pode ter causas as mais variadas e surpreendentes. É estranho dizer algo assim para uma sociedade – brasileira – onde as distâncias entre seus integrantes, a partir do surgimento das novas tecnologias e o aperfeiçoamento dos sistemas de comunicação foram diminuídas.
Por que apesar de conectados uns aos outros, a presença desse silêncio ainda oprime, sufoca e contribui para desestruturar muita gente? A falta de alguém para compartilhar talvez ajude a explicar esse fenômeno. Temos em nossas vidas dezenas de pessoas aparentemente tão próximas, falando e com indicativos de escuta, no entanto, são cada vez mais raros os momentos em que nosso dizer encontra alguma repercussão.
Quem sabe por isso, a busca por terapia, onde a pessoa possa compartilhar angústias, ansiedades e medos, descubra territórios tão essenciais ao ser humano.
Antes do aprendizado da palavra falada somos mudos. Só depois, na convivência com os outros, através de ruídos e sons é que algum vocabulário começa a se estruturar. Com o tempo, o querer dizer vai compondo raciocínios, organizando e criando significados dentro de cada um e o contar vai elaborando seus discursos. Assim, para falar é importante ouvir, ler e compartilhar com atenção e interesse os fatos da vida. Um dos caminhos para o terapeuta obter algum êxito, é aprender com as múltiplas possibilidades oferecidas pela reciprocidade.
Qualificar a escuta é um dos principais procedimentos a quem se especializa em alguma forma de terapia. A maioria dos profissionais utiliza um conjunto de ferramentas para executar seu trabalho. Um artesão, por exemplo, para confeccionar uma peça, tem o cuidado de escolher as técnicas adequadas para realizar seu trabalho. Ele tem ciência de que cada peça é única. Em terapia isso não é muito diferente. Cada sujeito chega como uma peça singular, reivindicando algum sentido para seu mundo. A escuta, nesse sentido, se faz ponto de partida.
Cada abordagem clínica tem seu jeito de realizar interseção com o mundo do outro. Em Filosofia Clínica a singularidade das pessoas chega até nós de um jeito especial. O partilhante é, para o terapeuta, um aprendizado em processo de re-começo. Sua expressividade pode acontecer através do dado verbal, nos gestos, com a escrita ou pelo silêncio. O Filósofo Clínico exercita, nos atendimentos, uma escuta epistemológica e fenomenológica: o agendamento mínimo.
Realizar uma escuta clínica de qualidade é uma conquista a cada sessão. O Filósofo Clínico se torna cúmplice dos discursos produzidos pelo outro, quando visita seu mundo através da subjetividade. A qualificação da interseção pode descrever estruturas de maior intimidade.
Assim, a escuta clínica (redução fenomenológica possível) pode ser para o Filósofo Clínico, um procedimento de maior alcance na malha intelectiva da pessoa. Estamos falando aqui de uma relação onde o sujeito esteja se utilizando do dado verbal para se expressar.
Desse ponto de vista, a mudança, esperada, desejada, assumida, torna-se paradoxalmente produtora de identidade. Aderir a ela, não é nesse caso “morrer um pouco” deixando partir, com o que foi uma parte de si que não será mais: é talvez, exatamente ao contrário, um dos meios mais elementares de afirmar sua própria existência, tanto ao olhar de si mesmo como diante de outrem. É mudar se não “a vida”, em todo caso, o sentido de sua própria vida. (Eric Landowski, Presenças do outro, pág. 93).


Ainda assim pré-juízos e preconceitos estão por todo lado. A busca por aprender a escutar propõe evitar distorções nos conteúdo de fala. Enquanto o partilhante está relatando suas vivências é importante um distanciamento aproximado. Aqui não se trata de julgar ou efetuar alguma forma de interpretação. O papel do terapeuta é cuidar, dar atenção e compartilhar. Encontrar algum ponto de equilíbrio ou conforto existencial ao sujeito.
Muitos virão ao Filósofo Clínico buscando algum espaço de partilha. Também é importante não efetuar comparações, pois cada caso é único. Quando se trata de escutar, cada escuta é escuta nova. A historia de cada um por mais semelhanças que possua, é diferente.
Aqui noções de certo ou errado não cabem ao exercício clínico do Filósofo. Sua estrutura de pensamento, impregnada de valores, sentimentos e verdades é singular. Aprender com o partilhante, através do fenômeno narrativo, se constitui um grande aliado para aproximação com o desconhecido.
A compaixão pelo partilhante pode existir em clínica, mas não deve interferir nos propósitos da terapia. O silêncio imposto ao sujeito pode levá-lo ao caminho da somatização, significando que muitos chegarão ao consultório com algum tipo de expressividade a dificultar e torcer as percepções iniciais dessa relação de ajuda. O significado da escuta clínica também é contribuir com as descobertas, organização, re-significação ou elaboração dos próprios enredos.
As dialéticas da escuta compartilhada podem favorecer as falas, até então inexatas ou confusas, em seu inédito aparecimento. As palavras podem oferecer um sentido novo para uma vida até então silenciada.


terça-feira, 20 de abril de 2010

“MATANDO A SAUDADE”

Ildo Meyer
Médico e Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS


Gosto muito de pensar e escrever sobre as múltiplas maneiras como o ser humano interage automaticamente com o cotidiano. Pelo menos uma vez por semana, alguém faz uma sugestão de assunto para que eu desenvolva. Alguns chegam na hora certa e me inspiram, outros são engavetados. Observem uma pequena amostra da diversidade.

O milionário que recebe conselhos de amigos alertando para as mulheres que se aproximam em busca de dinheiro. Sua resposta categórica é que elas estão certas na escolha, pois recursos não lhe faltam e ele dá com prazer ou em troca de.

Construções modernas de quartos minúsculos e paredes ultra finas, onde o vizinho do 507 escuta e consegue saber quantas vezes o morador do 607 foi ao banheiro durante a noite, qual o tipo de sapato que usava, quantas pessoas dormiram na cama, se fizeram sexo e até mesmo se foi bom ou ruim.

Homens que se referem a seu órgão sexual na terceira pessoa do singular, como se fosse outra pessoa ou entidade. “Ele funciona quando quer, independente de minha vontade”, “Ele falou mais alto”. Como assim?

Por mais que eu me esforce, não adianta; se não estou vivenciando, não consigo desenvolver o pensamento. Chega um momento em que o raciocínio tranca. Preciso estar sentindo para que as idéias façam sentido e possam ser escritas. E o que sinto agora é algo que as pessoas costumam chamar de saudade. Ainda não consegui definir se é uma sensação agradável ou não, mas vamos lá.

Lembro com alegria da minha infância fazendo molecagens na rua e sei que não posso regredir no tempo e voltar aos dez anos de idade. Cresci, virei adulto e minha cabeça já é outra. Ficaram as lembranças. Ainda brinco de esconde-esconde debaixo do edredon, faço caretas no espelho e na hora de tomar injeção, escrevo bobagens no blog, mas aquela inocência gostosa ficou para trás. Não sinto vontade de voltar ao passado e acho que isto não se chama saudade. São lembranças...

Lembro de meus avós que devem estar no céu, mas não consigo imaginar um diálogo se nos encontrássemos hoje. Eles com a mentalidade que tinham e eu com esta cabeça modelo 2010. Tenho ótimas lembranças deles me carregando no colo e oferecendo balas e chocolates, mas não apostaria num reencontro maior do que longos abraços e curtas conversas. As caras feias de discordância ideológica dominariam o cenário. Acho então que isto também não se chama saudade, e sim lembranças, recordações, nostalgia...

Saudade é quando você quer que a pessoa ou a situação retorne, mas não sabe se vai acontecer, não está mais no seu controle. É diferente da infância que já passou ou de alguém que morreu, pois estes deixam lembranças, mas não voltam. Saudade a gente sente de algo que está ai vivo, solto e nunca deixou de existir, e assume o tom fatalista quando nos joga num vazio onde percebemos que o objeto do desejo talvez nunca mais seja possível. Saudade é a desconfortável esperança de um reencontro sabe-se lá quando.

Uma ausência que fica ali, presente em cada pensamento, em cada lágrima, em cada silêncio, em cada música. Sentimos saudade do filho que foi morar em outra cidade, da mulher que foi embora, do emprego que deixamos para trás, do amigo que não faz contato. Acho que saudade sempre tem um pouco de auto-acusação e arrependimento. Poderia ter sido diferente? O que eu fiz de errado? Ainda dá pra reverter?

Muitas vezes confundimos saudade com nostalgia...

Começo a acreditar que o caminho para que a saudade pare de doer e possa ser uma sensação agradável em nossas vidas é assumir que a falta que sentimos é um sinal de amor. O amado pode não estar mais ali, mas o amor permanece. Saudade é amor que aconteceu um dia e que ainda permanece incrustado dentro de nó, marcando nosso consciente e subconsciente. Aceitar as mudanças e os finais, não significa esquecer, passar uma borracha. Cada momento é único e deixa marcas. Algumas são apagadas com o tempo, outras ofuscadas por lembranças mais recentes e as que realmente valeram a pena, “vão deixar saudade” e com vontade de repetir a dose.

Algumas sugestões de assuntos, embora super interessantes, ainda estão engavetadas esperando que eu as retome um dia. Assim funcionam os amores que marcaram nossas vidas e não estão mais ao nosso lado: desejamos encontrá-los, ficar com eles e “matar” as saudades. Enquanto isto não acontece, remexo as gavetas e a alma. O problema é que muitas vezes não sabemos como refazer as relações interrompidas, e elas ficam, quase como objetos, escondidas em gavetas sem chave. Melhor não dar chances pra saudade e se entregar, demonstrar o afeto, “comer a presença” das pessoas amadas no momento certo. Esta é a chave que abre corações, e ao invés de “matar ou morrer de saudades”, dá vida ao amor.

domingo, 18 de abril de 2010

UM BEIJO ROUBADO (De Wong Kar Wai, com Norah Jones)

Por Rose Pedrosa
Filósofa Clínica
Fortaleza/CE

Atualmente tenho assistido as obras do diretor Wong Kar Wai pela forma agradabilíssima que consegue contar uma história sensível. Esteticamente muito atraente e impressionante, com planos pensados na medida certa e cortes que dão um charme a mais, Wong Kar-Wai mantém pelo menos essa marca que é tão recorrente em seus filmes orientais. Além disso, o filme traz uma excepcional fotografia, repleta de jogos de cor e sombras, obra de Darius Khondji. Ele foi diretor de fotografia de Delicatessen (1991). A trilha sonora de My Blueberry Nights foi assinada por Ry Cooder (Paris, Texas).

O cineasta chinês Wong Kar Wai, autor de lindas películas que já conquistaram prêmios como In the Mood for Love (Amor à Flor da Pele, de 2000), com Happy Together (Felizes Juntos), além de ter causado polêmica com 2046 (2046: Os Segredos do Amor, de 2004). Em 2008 estreiou mais uma de suas obras primas My Blueberry Nights (Um beijo roubado) onde apresenta a estréia da musa do jazz e do pop Norah Jones, para protagonizar ao lado de outros grandes nomes como Natalie Portman, Rachel Weisz, David Strathairn e Jude Law.

A película, Um Beijo Roubado, traz a história de uma mulher que quer resolver sua questões interiores sobre o amor e para isso decide embarcar numa jornada através da América. No meio do caminho, no entanto, ela vai encontrando uma série de personagens incomuns. O que centraliza a película não são as viagens, mas a distância.

A indicação do cineasta pela artista Norah Jones é justificada por suas próprias palavras: “Quando se escuta a sua voz, só sua voz, já se pode escutar uma história; por isso, gosto dela; por isso, quis fazer um filme com ela".

Prestes a começar a filmar, Norah desceu do avião com pouca bagagem e um violão, imaginando que teria tempo de compor entre um take e outro. Semanas se passaram e o diretor nunca ouviu ao menos um acorde vindo do quarto da artista, a poucas portas no mesmo corredor de hotel. Mas ficou surpreso quando, ao final da jornada, recebeu da cantora um CD com a gravação de “The story”, escolhida para abrir o disco com a trilha do longa.

A película, como prefiro me referir a obra de Wong Kar Wai, é uma arte complexa onde traz linguagens diferentes atuando num contexto de grande sensibilidade. Um dos maiores gênios da atualidade, e alguns de seus filmes já se encontram em listas especializadas como referências para se entender o cinema multiétnico de hoje. Com ele, comprova-se que o centro criativo da sétima arte, mais e mais, nunca esteve tão desdobrado em inúmeras forças criativas fora do eixo EUA-Europa.
intellectus-intellectus.blogspot.com

sexta-feira, 16 de abril de 2010

título - Filosofia Clínica e Existencialismo

Mariana Flores
Rio de Janeiro

Quando Heidegger diz que ao existirmos somos obrigados a erguer uma essência, deixa implícita a idéia de que quando nos deparamos com a existência, - a minha, a tua, a do mundo, a das coisas... - somos levados, por nós mesmos, pela própria consciência, a buscar sentido para o simples fato de existirmos. Se somos lançados num mundo ainda e para sempre “estranho”, estamos naturalmente passíveis de erguermos uma estrutura de pensamento, que não é mais que um esboço daquilo que somos – ou estamos sendo... Nós simplesmente existimos, nos debruçamos sobre nós mesmos, mergulhamos, conscientes, naquilo que chamamos existência e podemos, assim, assumir caminhos, buscas e sentidos para sermos.

A consciência é uma episteme. Ter consciência é saber. Sabemos que existimos porque somos, necessariamente, seres conscientes; e através desta consciência sabemos que a existência por si só representa um problema, cuja origem e razão nós ignoramos. Sabemos nada sobre ele; apenas que ele existe, e assim é. Na ausência de uma Verdade universal e absoluta que nos dê respostas positivistas sobre aquilo que nos parece tão obscuro, é circundando o que nos falta que possibilitamos a busca. Seja ela qual for.

É no âmbito do infinito que opera a Filosofia Clínica. Dar ao ser a liberdade para seu desdobrar-se, oferecer ao indivíduo um pequeno rabisco de suas infinitas possibilidades de ser e revelação, esta é, sem dúvida, a grande contribuição do novo paradigma terapêutico, que em muito nos têm enriquecido, já apenas pela tentativa de resguardar a essência, a pureza e a originalidade do ser, e respeitando em cada berço uma singularidade. Clínica e Filosofia dançam a melodia das possibilidades...Juntas, elas tornam possível a delícia e a beleza de um ballet...

O existencialismo heideggeriano e a estrutura de pensamento

Heidegger se afasta da fenomenologia de seu mestre Husserl e se debruça sobre a ontologia, como uma crítica à tradição filosófica – a metafísica ocidental, iniciada em Platão – e uma tentativa de uma nova perspectiva da filosofia, que se caracteriza pelo resgate da ontologia como a busca pelo essencial , pelo fundamental e pelo mais originário. A questão do Ser obtém inovador olhar quando Heidegger refuta a objetificação do ser, tal como acontece nas perspectivas aristotélica, que acabou por enredar ser e ente, subdividindo-o em substância e acidente, e moderna, cuja tendência direcionava-se sempre para uma classificação e categorização do ser. A principal questão, agora, tal como ele diz no texto de abertura de Ser e Tempo, é quanto ao sentido do ser.

A tradição filosófica caracteriza duas tipologias: ser e ente; entretanto, a perspectiva heideggeriana traz à tona a questão do ser do ente. Isto é, em todo ente há um ser; ou ainda, ser e ente são caminham juntos, inseparavelmente. O problema aí se caracteriza pela seguinte questão: Qual é o ser do ente?

Se nos concentrarmos na idéia de ente, perceberemos que há uma dualidade conceitual. Toda a idéia do ser leva consigo a idéia do não-ser; a verdade e a não-verdade. As coisas são e também não são. Toda afirmação traz consigo a idéia da sua negação.

A preocupação de Heidegger é a de desvelar o sentido do ser enquanto revelação e manifestação, tal como ele se mostra, e para isso seria necessária uma análise ontológica e hermenêutica, ou seja, de compreensão e interpretativa do sentido do ser. Portanto, caberia o seguinte questionamento: que é o ser que somos?

O homem é o único ser que busca a essência de seu ser; é ele quem está presente no mundo, e é ele também que estabelece uma relação epistemológica consigo próprio e com o mundo que o cerca. Está paradoxalmente presente e ausente; ele é, dentro da perspectiva heideggeriana, o ser-aí; é Dasein; é presença.

Partindo agora desta idéia de ser, como pre-sença, não há referencial mais fundamental para o humano que o tempo; ser presente é ser agora. E a idéia do presente, do agora, está diretamente relacionada às idéias de passado e futuro. A idéia do ser-aí, do ser presente, não teria sentido se o homem não tivesse como principal referência o tempo em que vive, desde de que se viu consciente de si, de sua existência e a das coisas. É, portanto, a temporalidade a principal estrutura do homem.

Além disso, a idéia da pré-sença traz consigo, inerente em seu ser uma idéia de futuro, de possibilidade, de vir-a-ser...Ou seja, o homem é o ser que, estando aí, já lançado numa existência, localizado num espaço que é o próprio mundo, guiando-se pelo tempo, é também um projeto, e como projeto, está repleto de possibilidades de ser e lançado numa estrutura de movimento permanente, que se chama tempo.

Sob a perspectiva da Filosofia Clínica, sugiro uma interpretação que pode nos ser útil para uma tentativa de compreensão da importância desta estrutura fundamental a que Heiddegger chama temporalidade, sem a qual o homem não seria capaz de erguer uma estrutura de pensamento representativa de tudo aquilo que compõe o seu ser na realidade em que vive, ou seja, no mundo.

A partir de um conjunto de lembranças e vivências, guardadas na reminiscência, representativas do significado de uma história de vida individual e singular – a historicidade-, pode-se esboçar o que chamamos de estrutura de pensamento. Esta estrutura de pensamento, por sua vez, é a base de todo um ideário que o homem adquire ao longo de sua existência, desdobrando-se em inúmeras partes e originando uma série de outras particularidades que compõem todo o ser. São as nossas vivências que vão despertar em nós pré-juízos, valores, buscas, impressões, paixões, papéis existenciais, enfim, uma infinidade de especialidades componentes para a formação, ainda inacabada, de nossa estrutura de pensamento, que no fundo, não representa mais do que aquilo que somos....E porque somos o que estamos sendo - não somos almas imóveis, sequer somos uma Verdade, mas várias - estamos constantemente à mercê do mar que é a existência.

Portanto, cada ser-no-mundo, cada um de nós navega no mar que é o seu próprio...Erguemos uma estrutura de pensamento que flutua numa aparente superfície. A cada mergulho descobrimos a imensurabilidade do profundo, e que linguagem e filosofia não são ainda capazes de abarcar a densidade da realidade tal como é para nós e em nós. Porém, o que nos dá a condição necessária para um movimento interno, grande possibilitador da vida, é a eterna inépcia de conhecimento do todo que somos; é o espaço vazio, esta parte dentro de nós que nos falta e que se chama o nada. É a busca.

A procura pelo sentido, a busca por tornar o não-ser um ser, a pura tentativa de conhecermos o desconhecido, de tornar afirmação o que se mostra negação, é esta dialética que nos move, nos leva a cada movimento e manifestação, nos faz alteridade e nos propulsiona para além...

Há uma existência que precede qualquer movimento. Embora não a tenhamos escolhido, decidimos dar continuidade. Liberdade é procedência natural, é criação e construção humanas. Como seres livres, inauguramos uma essência e elegemos uma vida.



"…Desde criança tive a tendência para criar em meu torno um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram. (Não sei, bem entendido, se realmente não existiram, ou se sou eu que não existo. Nestas coisas, como em todas, não devemos ser dogmáticos.) Desde que me conheço como sendo aquilo a que chamo eu, me lembro de precisar mentalmente, em figura, movimentos, carácter e história, várias figuras irreais que eram para mim tão visíveis e minhas como as coisas daquilo a que chamamos, porventura abusivamente, a vida-real. Esta tendência, que me vem desde que me lembro de ser um eu, tem me acompanhado sempre, mudando um pouco o tipo de música com que me encanta, mas não alterando nunca a sua maneira de encantar."

Fernando Pessoa Carta a Casais Monteiro (13-1-1935)



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FILOSOFIA CLÍNICA por ROSE PEDROSA




O ATENDIMENTO. Em 2001 desenvolvo minha prática clínica segundo os métodos que orientam a teoria e a prática da Filosofia Clínica. Lúcio Packter, o criador da Filosofia Clínica apresenta outras alternativas de atendimento compatível com as exigências de cada estrutura existencial, obviamente asseguradas pela conduta ética do filósofo clínico, pelos fundamentos, procedimentos adquiridos durante a formação.

Infelizmente, a repórter Adriana Negreiros, naquela época, diante de um fenômeno filosófico, que traz o paradigma do complexus no conhecimento das estruturas existencias, foi tomada pela ignorãncia, pelo total desconhecimento da teoria que se apresentava de forma tão impactante, desmoronando doutrinas terapêuticas, conservadas a duras penas na vida humana. Porém, a fim de oferecer uma informação polêmica se socorreu a outros profissionais que também não conheciam a teoria e por isso era impossível apresentar uma análise, uma crítica compatível ao bom senso, preferiram ousar, do que procurar, indagar saber do que estava acontecendo. Foram precipitados. Eu diria no sentido amplo do termo faltou uma abertura...

A Filosofia Clínica é uma humanidade fundada no conhecimento inacabado, reinventado a cada situação, a cada evento, a cada existência, a cada pessoa a partir de um contexto que traz uma diversidade de resultados que inevitavelmente vem de um conjunto de religações de saberes.
As sessões em Filosofia Clínica podem acontecer durante uma caminha ao ar livre, diante de um por do sol ao mar. Porém não podemos negliciar em dizer que esta opção ela é autorizada por um contexto das circunstâncias, do impoderável, do ambiente, do que cerca a pessoa, do que escuta a pessoa. Conduzir uma sessão terapêutica fora das paredes do consultório não é algo imediatamente tranquilo, o filósofo clínico precisa estar atento as exigências existencias da pessoa que acompanha.
Adriana Negreiros podia ter feito uma linda e polêmica materia sobre o assunto, se antes tivesse tido oportunidade de pesquisar sobre o tema.

JAZZ COM NORAH JONES

Dia 30 de março a cantora Norah Jones fez aniversário. Filha do músico indiano Ravi Shankar, Norah Jones foi criada no subúrbio de Dallas, Texas, com sua mãe, Sue, sem a presença do pai. Ela nasceu em Nova York no dia 30 de março de 1979 e mudou-se para Texas aos 4 anos de idade. Seu interesse pela música foi despertado logo cedo por influência de sua mãe, dona de uma vasta coleção de discos de Billie Holiday. Norah estudou Artes Plásticas e Visuais no Booker T. Washington High School. Com apenas 5 anos de idade, Norah já soltava a voz em corais de igreja e começou a ter aulas de piano aos 7 anos. Mas foi com 16 anos que ela fez seu primeiro show, interpretando a música "I'll Be Seeing You", de Billie Holiday em uma cafeteria local. Nessa mesma época, conquistou o prêmio Down Beat Student Music Awards, como Melhor Vocalista de Jazz e Melhor Composição Original, em 1996, e o SMA, como Melhor Vocalista de Jazz, em 1997. Norah se especializou em piano jazz na University of North Texas e nesta mesma época, cantou com uma banda chamada Laszlo, que fazia uma mistura de jazz e rock. Porém deixou o Texas em 99 e fez as malas para Manhattan em busca de novas oportunidades. Fez apresentações com a banda Wax Poetic por cerca de um ano, mas logo resolveu montar seu próprio grupo com Jesse Harris, Lee Alexander, e Dan Rieser. Seu disco de estréia, "Come Away With Me", premiado como Melhor Disco do Ano pelo Grammy 2003, começou a ser gravado em 2001. Um trabalho muito elogiado, é marcado pela mistura de elementos de jazz, soul, country, e folk-pop.
ESCUTE A VOZ E A BATIDA DO CORAÇÃO DE NORAH JONES: http://letras.terra.com.br/norah-jones/

Quando silenciar é alienação.

Rosangela Rossi

Sábados pela manhã. Cafefil. Gente que tem a coragem de pensar e dizer o que vem de dentro, sem medo da crítica e das oposições epistemológicas. Como é bom filosofar e aprender a história da filosofia! Vicia e aquece nosso coração.

A pergunta que não me calou esta semana: - Será que silenciar e falar no mesmo tom é sabedoria?

Pensei, repensei e li vários autores sobre o silenciar. Eu mesmo publiquei no meu último trabalho: Meditações Filosóficas um texto sobre a importância do silenciar. Mas, agora, repenso nos cuidados que precisamos ter com este silenciar.

Até que ponto não se passou a silenciar por medo da crítica? O silenciar não pode também conter uma repressão e medo da exposição? Quantas vezes não se silencia para disfarçar e mostrar uma sabedoria, que no fundo é falsa? Ou mesmo representar um papel de educado e fino, quando na verdade é uma máscara social para enganar os outros?

Nem sempre o silenciar tem a riqueza que sabemos ser necessária para um diálogo honesto e verdadeiro. Ele pode ser um simulacro. Pode esconder o desejo de poder e controle.

Um verdadeiro silenciar é fundamental a boa escuta, que se torna fundamental para o diálogo. Mas, saber falar também é honestidade, é a capacidade de doar-se e compartilhar os saberes, é expressão do entusiasmo e amor, que deseja colaborar no exercício do pensar bem.

Saber e ter coragem de falar e expor, se sujeitar às críticas e julgamentos, assim como vibrar num diálogo expondo o seu pensar e suas crenças é fantástico e bom exercício de calor humano. Ainda não somos anjos e muito menos fantoches da corte francesa nos tempos dos salões onde a fofoca corria solta atrás dos leques.

Falar e calar são, pois um exercício de sabedoria e arte de dialogar. Muitas vezes, o falar alto demonstra o entusiasmo que vem da alma e demonstra a intensidade festiva da celebração da vida. Quantas vezes o silenciar neurótico, fruto da repressão e do medo não expressa a energia contida das almas deprimidas que negam a vida e são submetidas ao que os outros pensam e acham?

O que verdadeiramente importa é a liberdade de escolher a hora de calar e falar sem se preocupar com padrões impostos. Não podemos nos calar frente a injustiça, a mentira, as aberrações em nome do saber poder, dos controles autoritários e das opiniões forjadas em nome de verdades absolutas. Não podemos calar frente uma política que explora e rouba descaradamente, dos crimes hediondos e dos massacres em nome de Deus. Não podemos calar, com a falsa elegância, representar um papel e deixar a opressão tomar conta.

Silenciar é fundamental, porém, saber falar torna-se essencial para despertar as almas adormecidas. Vivam os livros! Vivam os artistas! Vivam as pessoas corajosas que não se quedam diante os falsos moralismos!

Que saibamos falar quando é tempo de falar e silenciar, sem tagarelice interna, quando se faz tempo de escutar.