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Entre o espelho e o mistério*

Há presenças que atravessam nossa vida e deixam marcas difíceis de nomear. Às vezes, alguém surge sem qualquer acontecimento extraordinário e, ainda assim, algo se desloca internamente. Pode ser fascínio, desconforto, curiosidade ou resistência. A reação parece dirigida à pessoa diante de nós, mas logo surge uma questão mais inquietante: o que exatamente foi tocado em nossa interioridade?   Vivemos sob a convicção de que sabemos quem somos. Construímos uma narrativa relativamente coerente sobre nossa identidade, organizamos lembranças, reconhecemos qualidades e assumimos limites. Essa construção oferece estabilidade. No entanto, basta uma relação nos afetar profundamente para que essa segurança revele sua fragilidade.   A antiga exortação de Delfos, "conhece-te a ti mesmo", permanece atual porque o autoconhecimento não é um destino, mas uma tarefa sempre reaberta. Quanto mais avançamos nessa busca, mais percebemos regiões de nós mesmos que permanecem invisíveis. Possibilidade...

Uma revolução copernicana*

Falar de terapia hoje em dia é falar de um iFood de modalidades de atendimento terapêutico; muitas possuem semelhanças com pequenas diferenças entre si. A maioria possui um leque de parâmetros externos à pessoa que é atendida, isto é, os critérios normativos e tipológicos. Isso vira um self service de conceitos, ideologias e diagnósticos, nos quais as pessoas são encaixadas e deixam de se reconhecer segundo suas características individuais e únicas. Tais parâmetros estão fora das pessoas e procuram ditar o que cada um é. Entre as terapias existentes há um princípio de verdade que as une sobre esses conceitos, levando a sociedade a vê-los como norma e qualificador de cada sujeito. Em muitos âmbitos da sociedade, os indivíduos se justificam por esses parâmetros externos. Mas existe alguma abordagem terapêutica que se diferencie das demais?   Sim, e se chama filosofia clínica. Ela está fazendo uma revolução copernicana entre as abordagens terapêuticas. Porém, antes de falar sobre ...

Uma arqueologia do oculto*

                   Há algo de intrigante na coincidência de dois livros que, à primeira vista, numa análise superficial ou meramente disciplinar não teriam razão para dialogar. Mas considerando uma perspectiva pluriversal, interdisciplinar e transdisciplinar, de um lado a recente leitura de A vida secreta das palavras I, de Hélio Strassburger, um ensaio filosófico-clínico que investe contra a psiquiatria diagnóstica em nome da singularidade irredutível de cada sujeito. De outro, uma leitura de 2025, A vida secreta dos números, de Kate Kitagawa e Timothy Revell, história global da matemática que desmonta o eurocentrismo para revelar os pioneiros apagados pela narrativa hegemônica. O que os une, para além do título, nesse caso, seria que ambos operam uma arqueologia do oculto, desenterrando aquilo que regimes de saber configuraram como invisível.          Strassburger constrói a sua argumentação so...

Notas sobre as ideologias do cuidado***

  Em algum ponto do verão de 2010, no café Odeon no centro histórico no Rio de Janeiro, encontrei com Roberto Calvet, uma das referências afetivas e filosóficas da filosofia clínica naquela cidade. Buscamos um lugar para dar continuidade às aulas da especialização. Encontramos um espaço próximo de onde estávamos, com vista para a baía de Guanabara. Ali formei minha última turma da filosofia clínica na capital fluminense. Nesse dia fui surpreendido com um presente singular, o livro: “Van Gogh – o suicida da sociedade” de Antonin Artaud, traduzido pelo poeta Ferreira Gullar para a editora José Olympio/RJ, em sua segunda edição de 2007. Uma obra preciosa, desde a qualidade do papel, as ilustrações, os textos cuidadosamente selecionados. A publicação se deu a partir dos cadernos manuscritos do autor. Antonin Artaud foi um poeta, ator, dramaturgo, e pensador da cultura. O qual, devido aos tratamentos psiquiátricos, teve dificuldades com a própria genialidade, isolando-se, sob muitos...

O Livro e a Paisagem: Uma reflexão sobre conhecimento, experiência e a arte de escutar*

"Teme o homem de um só livro." A advertência, atribuída a São Tomás de Aquino, atravessou os séculos sem perder sua força provocativa. Em um tempo marcado pela especialização, ela pode parecer desconfortável. Estaria o pensador medieval desconfiando do conhecimento profundo? Nada sugere isso. Sua obra testemunha precisamente o contrário. A advertência parece apontar para algo mais sutil: o risco não está em conhecer profundamente um livro, uma teoria ou um campo do saber, mas em transformá-los na única lente pela qual observamos a realidade. A especialização figura entre as maiores conquistas da inteligência humana. Graças a ela, avançamos na ciência, na medicina, na tecnologia e na filosofia. O especialista amplia fronteiras e torna visíveis aspectos do mundo que, sem sua dedicação, permaneceriam obscuros. Todavia, toda conquista intelectual traz consigo uma tentação: confundir profundidade com totalidade. À medida que nos aprofundamos em determinado conhecimento, po...

Singularidade*

Para a Filosofia (obviamente alguns autores, isso não é uma aceitação geral), a singularidade é um exercício, pois nascemos particulares – somos parte de algum grupo, de alguma família, de uma cidade etc. – e tornamo-nos singulares, com o esforço de imprimir nossa personalidade única. Para alguns, somos universais desde que nascemos, pois fazemos parte do todo seja da humanidade, do universo, da ecologia etc. Em alguns casos, em uma Filosofia ontológica, nossa existência é única, porém atrelada a gêneros ou espécies. Tornamo-nos – seja o que for - comparando-nos com outros ou em hierarquia com outros gêneros ou espécies. A Filosofia Clínica tem o pressuposto da singularidade na abordagem com o fenômeno humano, mesmo que o próprio indivíduo que venha até um filósofo clínico não se considere singular. Alguns não querem ser vistos existencialmente como singulares, mas como existindo em grupos ou em conexão com particulares ou universais. Assim se efetivam existencialmente.  Para algun...

Pedra no sapato***

Alguns discursos sobre a filosofia clínica podem ser encantadores. Falar sobre o fato de cada pessoa ser única, exaltando a singularidade; referir-se ao fato de haver uma construção compartilhada entre filósofo clínico e partilhante; mencionar os procedimentos clínicos únicos para cada indivíduo; defender o dirigir-se ao outro, via recíproca de inversão, a fim de compreender sua representação de mundo; entre tantas outras características, podem expor a realidade do consultório, mas nem sempre refletem seus reais desafios. Uma das possíveis negligências com as quais o filósofo clínico pode se deparar encontra-se no desafio da suspensão de juízo. A ideia de acolher o partilhante por meio da postura fenomenológica – ao realizar a “epoché” – pode ser discursivamente linda. Respeitar o outro como um “solo sagrado” diante do qual deve-se “tirar as sandálias” das verdades pessoais a fim de compreender o outro a partir de si constitui uma apresentação comum nos textos, nos discursos e nas re...

Revista da Casa da Filosofia Clínica Primavera 2026 - Ed. 18

  Nesta edição de primavera, os textos que vocês encontrarão a seguir foram escritos por pessoas que, cada uma a seu modo. Filósofos clínicos e aspirantes que enviaram suas reflexões como quem planta sementes num jardim compartilhado. Que a leitura seja para vocês o que a primavera é para a terra: um despertar para oque já estava vivo, pulsante e em continuada transformação, apenas esperando o momento de se fazer presente ao outro. CLIQUE AQUI PARA LER

El Instante Aprendiz***

* Traducción:    Prof. Dra. Arantxa Serantes (La Coruña/Espanha) Al esbozar apuntes sobre una lógica de la locura, un envés del absurdo se desvela en astillas de múltiples caras. Frontera donde la normalidad se reconoce en sus paradojas. Una de las características de la expresividad delirante es ensimismarse en desacuerdo con el mundo alrededor. Crea dialectos de difícil acceso para proteger sus versiones de mayor intimidad. El papel de la Filosofía Clínica en la intersección con la crisis inmediata también es presentación indeterminada en un proceso caracterizado por la exageración de la manifestación del que comparte. Un no saber vehicula provisionales verdades en el compartir deconstructivo de las sesiones. Representaciones existenciales difusas se alternan en narrativas del tiempo de la persona. El lenguaje de la locura se constituye en un conjunto de convivencias estúpidas. El punto de partida es la extraordinaria lengua de la persona estructurada en alguna forma caótica....

Relógio do Ser*

“Deixar de viver fragmentariamente.”   E. M. Forster   Andar, caminhar nas nuvens, deslizando memórias no tempo que desloca a imagem entre o olho e a velocidade dos objetos em movimento, naquilo que tem de mais sagrado, a capacidade de pensar, sentindo o líquido dos sonhos, adiar os acontecimentos no relógio que desaparece diante da relação do tempo com o viver do absolutamente – nada mais para viver – tudo tão perdido, sintaxe dos sentimentos, uma construção de aromas, sabor da comida, gole do vinho, e a sensação de ter vivido tempo suficiente para não lembrar do que já foi vivido. O resgate da memória está nesse acolhimento de histórias, de leituras, longas horas na água, observar a vida na profundeza das águas do imaginário, e o relógio quebrado no movimento das braceadas, a respiração no sopro de voz no inaudível, retrato colado na alma, sem tempo, a busca de uma compreensão da leitura, um desejo de voltar para um lugar em companhia do tempo sobreposto sobre o Nada. O sopr...

O que a Filosofia Clínica não é***

Não tendo pretensão de definir um conceito sobre o que é a Filosofia Clínica (F.C.), mas antes convidá-lo a refletirmos sobre alguns aspectos daquilo que ela não é, me apresento: Sou Ancile, habilitada à pesquisa em F.C. e Graduada em Psicologia. Atuo com psicoterapia de inspiração existencialista há 12 anos. Se no Novo Paradigma ainda me sinto como uma criança sendo alfabetizada, na área psi posso dizer que já concluí as “séries iniciais” e me sinto segura para propor a tentativa de traçarmos um paralelo no sentido de ressaltar as diferenças essenciais de cada área. Trago algumas características metodológicas das 3 grandes áreas psis , Psicologia, Psicanálise e Psiquiatria, suas diferenças entre si e em relação à Filosofia Clínica. Começando pela Psicologia, fundada em 1879 por Wilhelm Wundt (1832-1920), a partir da criação do Laboratório de Psicologia Experimental na Universidade de Leipzig, Alemanha. São muitas escolas de pensamento desde então, com variadas teorias que buscam, mais...