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Criticidade e Literatura*

Nem a gripe que me pegou de jeito esses dias abalou a vontade de dividir com vocês um pouco da relíquia que tenho em mãos... Ganhei de um amigo recente, o jornalista e escritor Celso Viola, um dos editores da Revista, a Edição 1, Maio de 2012, da ALEF, Revista de Literatura Ibero-americana, que traz esse nome em homenagem ao escritor argentino Jorge Luis Borges. Já no Editorial (ALEF ao leitor), deixa claro a que veio: para aproximar produtores culturais, de línguas e culturas diversas, irmanados pela resistência ao predomínio monetário, cultural e ideológico.     Minha alegria não poderia ser maior ao saber que foi gestada em minha cidade natal, Gramado / RS.     Mesmo enfermo, o pensamento crítico ainda vive e no que depender de mim e de outros tantos que tenho encontrado pelo caminho, seguirá pulsando...   Tem um artigo interessantíssimo sobre as bases do modernismo em Portugal, que faz integrar dois brasileiros à Geração Orpheu, citados pelo próprio Fer...

Herói (1)*

A figura do herói como aquele que passa por dificuldades e, através de força interna e externa, persistência, coragem e determinação vence seus obstáculos serve hoje de motivação para empreitadas pessoais. E este herói, diz-nos a sociedade e o conceito de resiliência (devidamente mal aplicado, diga-se de passagem), está no nosso lado, no dia a dia, naquele ou naquela que luta diariamente pelo sucesso no jogo da vida. É, como em Homero, um herói solitário e individual, mas também é como em Hesíodo, um herói que dá conta não de ações guerreiras em favor de uma pátria, mas de ações mundanas que dignificam sua luta e dão valor à sua vida de trabalhador. Partindo desse pressuposto moderno de herói é que o senso comum, aqui entendido como o modo de ser de pensamento cotidiano (Márcia Tiburi, Filosofia Prática – ética vida cotidiana e vida virtual) divulga essas atitudes, posturas e condutas éticas como modelo de virtude. Assim até os participantes do Big Brother tornam-se heróis frente ao ap...

Percepção Incomum*

  O filme: "Edward Mãos de Tesoura" é de 1990, com direção de Tim Burton. Uma produção dos EUA e duração de 1h45min. Roteiro de Caroline Thompson e Tim Burton. No elenco: Johnny Depp, Winona Ryder, dentre outros. Sua reflexão pode ser abordada de múltiplos pontos de vista, tantos quantos forem os envolvidos com sua análise e sintonia. A inspiração para o roteiro vem da adolescência de Tim Burton, ao recuperar ilustrações sobre sua sensação de isolamento e dificuldades em se relacionar com os moradores de sua cidade. A partir daí, se inicia o trabalho de Caroline Thompson e Tim Burton, para desenvolver esse rascunho preliminar. É significativo lembrar que o esboço se apresenta na percepção de um jovem extraordinário, o qual não consegue se enturmar com o gesso da vida  normal . Quase uma aula de enraizamento, reconstrução, deslocamento longo, para atualizar uma autopercepção de Tim Burton. As cenas iniciais destacam uma aptidão -  borogodó  - de Peg, vendedora de Avon...

Princípios de verdade e categoria lugar***

Em filosofia clínica é possível a aproximação com a singularidade através dos relatos. Nesse sentido, à medida que os encontros acontecem, o tempo avança e o filósofo clínico consegue mais dados para entender e cuidar do assunto último. São os elementos da fala apreendidos durante a partilha que constituem o conhecimento do terapeuta sobre o assistido. Os componentes da fala são acatados e resguardados sobre a perspectiva de uma postura específica. Essa postura é a escuta. Ela não é interpretativa, mas compreensiva. Se trata da associação traçada entre a fenomenologia, a analítica da linguagem, a hermenêutica compreensiva e o estruturalismo, para o filósofo clínico. Partes da filosofia clínica que propiciam a compreensão. Qualquer estudo feito fora do parâmetro descrito incorre em contaminação do discurso no sentido e significado original. Quando alguém conversa sobre determinada cidade, bairro ou estado faz descrições acerca de um exame categorial. Enquanto a pessoa discorre mostra o ...

Relógio do Ser*

“Deixar de viver fragmentariamente.”   E. M. Forster   Andar, caminhar nas nuvens, deslizando memórias no tempo que desloca a imagem entre o olho e a velocidade dos objetos em movimento, naquilo que tem de mais sagrado, a capacidade de pensar, sentindo o líquido dos sonhos, adiar os acontecimentos no relógio que desaparece diante da relação do tempo com o viver do absolutamente – nada mais para viver – tudo tão perdido, sintaxe dos sentimentos, uma construção de aromas, sabor da comida, gole do vinho, e a sensação de ter vivido tempo suficiente para não lembrar do que já foi vivido. O resgate da memória está nesse acolhimento de histórias, de leituras, longas horas na água, observar a vida na profundeza das águas do imaginário, e o relógio quebrado no movimento das braceadas, a respiração no sopro de voz no inaudível, retrato colado na alma, sem tempo, a busca de uma compreensão da leitura, um desejo de voltar para um lugar em companhia do tempo sobreposto sobre o Nada. O sopr...

Quem é este outro?*

  Você está a minha frente. Com seus pensamentos e sentimentos. Eu estou ao seu lado. Com sentimentos e pensamentos. Estamos realmente juntos ou somos ilhas com um mar entre nós? Queremos relacionar, mas não sabemos como fazer uma ponte entre nós. Estamos agarrados em nossos egos ora inflado, ora vitimizados. Defendidos em nosso porto ilusoriamente seguro. Será que você me aceitará? Será que corresponderei a sua expectativa? Será que serei amado e compreendido por você? São questões que me fecham neste meu mundo e não lanço mar adentro para lhe encontrar. Será que conseguirei lhe controlar? Será que modificarei você? Será que lhe mostrarei quanto inteligente sou e minha ideias as verdadeiras? São outros pensamentos que dominam minha mente insegura e frágil. Teoricamente é lindo dizer que amo você. Será verdade isto? Sinto a dimensão do amor? Ou amar é apenas desejo de minhas faltas? Preciso ter consciência que tem muitos dentro de você e de mim. Um Olimpo inteiro com deus...

Gestos e Silêncios: o abstrato do cotidiano*

A vida se revela em detalhes que não se deixam capturar pela pressa. São movimentos discretos, quase invisíveis, mas carregados de mundos inteiros. A existência não se mostra apenas nos grandes acontecimentos: ela se insinua nos intervalos, nos gestos mínimos, nos cheiros e sons que retornam sem aviso, insistindo em permanecer. O cotidiano guarda uma densidade que escapa ao olhar apressurado. Um olhar que se desvia, uma respiração mais longa, o toque breve em um objeto qualquer: tudo isso arquiva memórias e devolve ao presente aquilo que parecia esquecido. O corpo, sem pedir licença, guarda lembranças em gestos repetidos e transforma o vivido em presença. Na escuta clínica, o invisível se manifesta quando a fala é interrompida e o silêncio se abre como espaço frutífero. Não é vazio, mas terreno de reinvenção. Uma partilhante, ao narrar sua rotina, é tomada pelo cheiro de pão fresco que a transporta à infância; o presente se ilumina pelo passado e o tempo se dobra em camadas. Outro ...

Um olhar sobre a autogenia*

Cada autogenia é uma autogenia porque é vivida por uma singularidade. Uma pessoa carrega dentro de si um mundo de vivências, experiências, possibilidades. Cada autobiografia é vasta, inusitada e às vezes impermeável em alguns aspectos, sendo necessária a delicadeza proposta pela Filosofia Clínica para transitar naquilo que a pessoa autoriza e até mesmo proteger aquilo que ela não consegue expressar, assim como algumas expressividades e comportamentos incompreendidos, até então, pelo senso comum ou pela ciência tradicional. Cada caminho autogênico é único. Com seus horizontes mais ou menos abertos. Com fronteiras para estabelecer, outras para cruzar. Ainda que os encontros ocorram, que existam conexões ao longo da vida, o percurso existencial de cada ser que habita a terra, será irrepetível. Dos pássaros às onças, gente…Miguel Angelo Caruzo compartilhou uma reflexão sobre isso em suas redes sociais. Ele diz: “Você pode se inspirar em pessoas, buscar modelos de comportamento ou seguir ...

Silêncio que acolhe*

Gostaria de relatar uma ida minha ao Teatro, quando a noite terminou com forte emoção e muitas reflexões. Era uma noite fresca em São Paulo, dia 26 de fevereiro de 2011, o Teatro Tucarena. A peça, Dueto Para Um, uma adaptação de um dos textos mais conhecidos do inglês Tom Kempinski, inclusive virou filme em 1986 dirigido por Andei Konchalorsky e roteirizado pelo próprio Tom Kempinski, no Brasil foi batizado de Sede de Amar tendo a atriz Julie Andrews no papel do personagem Stephanie. Texto bem escrito, diálogos fortes, a história verídica conta a trajetória da renomada violoncelista inglesa Jacqueline Dupré, que no auge da sua carreira profissional, vê-se impedida de exercer sua vocação por adquirir uma doença degenerativa. A violoncelista vivia em Londres, concertista de renome internacional, era um dos gênios da arte interpretativa do séc. XX segundo João Carlos Martins. Casada com o pianista e maestro Daniel Baremboim é por ele incentivada a procurar uma ajuda terapêutica para cuida...

Autoconhecimento e liberdade*

Se conhecer faz toda a diferença, pois é isso que nos permite não mais nos demorarmos tanto onde persistir é uma tarefa em vão. E curiosamente, é o fenômeno do autoconhecimento que nos dá poder e lucidez suficientes para deixar passar algumas circunstâncias ou recomeçar sempre que estivermos num caminho ruim ou que já não faz mais sentido, sobretudo, porque o seu lugar já é no passado. Somente o autoconhecimento nos liberta e nos ensina a dizer não quando é preciso doa a quem doer comova a quem comover. É pelo autoconhecimento que descobrimos a fundo o valor de compreender que tudo que nos tira a paz não merece durar ao nosso lado mais do que o tempo mínimo e inevitável. Enfim, se conhecer é fundamental demais porque é isso que melhor nos faz conhecer tão bem qualquer pessoa e sair tranquilamente de mãos dadas na direção de tudo que realmente importa, desde se ausentar em paz de um restaurante quando o menu não nos agrada até mesmo escolher conscientemente partir, tolerar ou se manter ...

Super-heróis do cotidiano*

  Se você só vê gente viva e já acha que está de bom tamanho; se o mais próximo que chegou de um gnomo ou fada foi através de desenhos animados; e se até considera viagem astral uma ideia bem bolada, mas prefere apreciá-la em relatos alheios, esta crônica é pra você. Pra você que, assim como eu, também é uma pessoa comum. Ou seja: nunca viu espírito, não tem o dom da clarividência, não faz ideia de como se hipnotiza alguém e também não consegue ir muito além do ascendente nas interpretações de mapa astral. Somos pessoas comuns, com nossas limitações, mas também com potencialidades e é sobre elas que quero falar. Muito embora não consigamos acessar esses níveis mais sutis da existência, nós, seres humanos comuns, também temos poderes. Super poderes, pra falar a verdade! Cito quatro, primordialmente: autoconhecimento, autogoverno, autossuperação e auto esquecimento. Autoconhecimento é olhar com honestidade e franqueza pra si mesmo, analisando virtudes e qualidades, mas também fra...

Tornando-se filósofo clínico***

Quando começamos a estudar filosofia clínica, chegamos com pré-juízos e termos agendados no intelecto sobre ela, pensamos que ela é filosófica como a filosofia. Esse foi o meu caso. Eu estava imbuído de conceitos, juízos, ideias, cheio de agendamentos vindos da filosofia, do meu convívio com a psicologia, da minha história de vida e ideias gerais vindas dos princípios de verdade. Para entendê-la, precisei me desconstruir conceitualmente. Entendi que minhas noções prévias não se encaixam nessa nova abordagem, por esta ter como fundamento a singularidade. Ao entender isso, uma porta se abriu para compreender a proposta da filosofia clínica; o método olha para cada pessoa de modo individual; cada atendimento é único. As noções de áreas alheias à filosofia clínica não se aplicam a ela, mesmo que ela tenha sido fundamentada na filosofia, ela é singular como cada partilhante. Essa ideia clarifica o paradigma terapêutico. Quando comecei o pré-estágio, pude vê-la na perspectiva de um parti...