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Relógio do Ser*

“Deixar de viver fragmentariamente.”   E. M. Forster   Andar, caminhar nas nuvens, deslizando memórias no tempo que desloca a imagem entre o olho e a velocidade dos objetos em movimento, naquilo que tem de mais sagrado, a capacidade de pensar, sentindo o líquido dos sonhos, adiar os acontecimentos no relógio que desaparece diante da relação do tempo com o viver do absolutamente – nada mais para viver – tudo tão perdido, sintaxe dos sentimentos, uma construção de aromas, sabor da comida, gole do vinho, e a sensação de ter vivido tempo suficiente para não lembrar do que já foi vivido. O resgate da memória está nesse acolhimento de histórias, de leituras, longas horas na água, observar a vida na profundeza das águas do imaginário, e o relógio quebrado no movimento das braceadas, a respiração no sopro de voz no inaudível, retrato colado na alma, sem tempo, a busca de uma compreensão da leitura, um desejo de voltar para um lugar em companhia do tempo sobreposto sobre o Nada. O sopr...

Quem é este outro?*

  Você está a minha frente. Com seus pensamentos e sentimentos. Eu estou ao seu lado. Com sentimentos e pensamentos. Estamos realmente juntos ou somos ilhas com um mar entre nós? Queremos relacionar, mas não sabemos como fazer uma ponte entre nós. Estamos agarrados em nossos egos ora inflado, ora vitimizados. Defendidos em nosso porto ilusoriamente seguro. Será que você me aceitará? Será que corresponderei a sua expectativa? Será que serei amado e compreendido por você? São questões que me fecham neste meu mundo e não lanço mar adentro para lhe encontrar. Será que conseguirei lhe controlar? Será que modificarei você? Será que lhe mostrarei quanto inteligente sou e minha ideias as verdadeiras? São outros pensamentos que dominam minha mente insegura e frágil. Teoricamente é lindo dizer que amo você. Será verdade isto? Sinto a dimensão do amor? Ou amar é apenas desejo de minhas faltas? Preciso ter consciência que tem muitos dentro de você e de mim. Um Olimpo inteiro com deus...

Gestos e Silêncios: o abstrato do cotidiano*

A vida se revela em detalhes que não se deixam capturar pela pressa. São movimentos discretos, quase invisíveis, mas carregados de mundos inteiros. A existência não se mostra apenas nos grandes acontecimentos: ela se insinua nos intervalos, nos gestos mínimos, nos cheiros e sons que retornam sem aviso, insistindo em permanecer. O cotidiano guarda uma densidade que escapa ao olhar apressurado. Um olhar que se desvia, uma respiração mais longa, o toque breve em um objeto qualquer: tudo isso arquiva memórias e devolve ao presente aquilo que parecia esquecido. O corpo, sem pedir licença, guarda lembranças em gestos repetidos e transforma o vivido em presença. Na escuta clínica, o invisível se manifesta quando a fala é interrompida e o silêncio se abre como espaço frutífero. Não é vazio, mas terreno de reinvenção. Uma partilhante, ao narrar sua rotina, é tomada pelo cheiro de pão fresco que a transporta à infância; o presente se ilumina pelo passado e o tempo se dobra em camadas. Outro ...

Um olhar sobre a autogenia*

Cada autogenia é uma autogenia porque é vivida por uma singularidade. Uma pessoa carrega dentro de si um mundo de vivências, experiências, possibilidades. Cada autobiografia é vasta, inusitada e às vezes impermeável em alguns aspectos, sendo necessária a delicadeza proposta pela Filosofia Clínica para transitar naquilo que a pessoa autoriza e até mesmo proteger aquilo que ela não consegue expressar, assim como algumas expressividades e comportamentos incompreendidos, até então, pelo senso comum ou pela ciência tradicional. Cada caminho autogênico é único. Com seus horizontes mais ou menos abertos. Com fronteiras para estabelecer, outras para cruzar. Ainda que os encontros ocorram, que existam conexões ao longo da vida, o percurso existencial de cada ser que habita a terra, será irrepetível. Dos pássaros às onças, gente…Miguel Angelo Caruzo compartilhou uma reflexão sobre isso em suas redes sociais. Ele diz: “Você pode se inspirar em pessoas, buscar modelos de comportamento ou seguir ...

Silêncio que acolhe*

Gostaria de relatar uma ida minha ao Teatro, quando a noite terminou com forte emoção e muitas reflexões. Era uma noite fresca em São Paulo, dia 26 de fevereiro de 2011, o Teatro Tucarena. A peça, Dueto Para Um, uma adaptação de um dos textos mais conhecidos do inglês Tom Kempinski, inclusive virou filme em 1986 dirigido por Andei Konchalorsky e roteirizado pelo próprio Tom Kempinski, no Brasil foi batizado de Sede de Amar tendo a atriz Julie Andrews no papel do personagem Stephanie. Texto bem escrito, diálogos fortes, a história verídica conta a trajetória da renomada violoncelista inglesa Jacqueline Dupré, que no auge da sua carreira profissional, vê-se impedida de exercer sua vocação por adquirir uma doença degenerativa. A violoncelista vivia em Londres, concertista de renome internacional, era um dos gênios da arte interpretativa do séc. XX segundo João Carlos Martins. Casada com o pianista e maestro Daniel Baremboim é por ele incentivada a procurar uma ajuda terapêutica para cuida...

Autoconhecimento e liberdade*

Se conhecer faz toda a diferença, pois é isso que nos permite não mais nos demorarmos tanto onde persistir é uma tarefa em vão. E curiosamente, é o fenômeno do autoconhecimento que nos dá poder e lucidez suficientes para deixar passar algumas circunstâncias ou recomeçar sempre que estivermos num caminho ruim ou que já não faz mais sentido, sobretudo, porque o seu lugar já é no passado. Somente o autoconhecimento nos liberta e nos ensina a dizer não quando é preciso doa a quem doer comova a quem comover. É pelo autoconhecimento que descobrimos a fundo o valor de compreender que tudo que nos tira a paz não merece durar ao nosso lado mais do que o tempo mínimo e inevitável. Enfim, se conhecer é fundamental demais porque é isso que melhor nos faz conhecer tão bem qualquer pessoa e sair tranquilamente de mãos dadas na direção de tudo que realmente importa, desde se ausentar em paz de um restaurante quando o menu não nos agrada até mesmo escolher conscientemente partir, tolerar ou se manter ...

Super-heróis do cotidiano*

  Se você só vê gente viva e já acha que está de bom tamanho; se o mais próximo que chegou de um gnomo ou fada foi através de desenhos animados; e se até considera viagem astral uma ideia bem bolada, mas prefere apreciá-la em relatos alheios, esta crônica é pra você. Pra você que, assim como eu, também é uma pessoa comum. Ou seja: nunca viu espírito, não tem o dom da clarividência, não faz ideia de como se hipnotiza alguém e também não consegue ir muito além do ascendente nas interpretações de mapa astral. Somos pessoas comuns, com nossas limitações, mas também com potencialidades e é sobre elas que quero falar. Muito embora não consigamos acessar esses níveis mais sutis da existência, nós, seres humanos comuns, também temos poderes. Super poderes, pra falar a verdade! Cito quatro, primordialmente: autoconhecimento, autogoverno, autossuperação e auto esquecimento. Autoconhecimento é olhar com honestidade e franqueza pra si mesmo, analisando virtudes e qualidades, mas também fra...

Tornando-se filósofo clínico***

Quando começamos a estudar filosofia clínica, chegamos com pré-juízos e termos agendados no intelecto sobre ela, pensamos que ela é filosófica como a filosofia. Esse foi o meu caso. Eu estava imbuído de conceitos, juízos, ideias, cheio de agendamentos vindos da filosofia, do meu convívio com a psicologia, da minha história de vida e ideias gerais vindas dos princípios de verdade. Para entendê-la, precisei me desconstruir conceitualmente. Entendi que minhas noções prévias não se encaixam nessa nova abordagem, por esta ter como fundamento a singularidade. Ao entender isso, uma porta se abriu para compreender a proposta da filosofia clínica; o método olha para cada pessoa de modo individual; cada atendimento é único. As noções de áreas alheias à filosofia clínica não se aplicam a ela, mesmo que ela tenha sido fundamentada na filosofia, ela é singular como cada partilhante. Essa ideia clarifica o paradigma terapêutico. Quando comecei o pré-estágio, pude vê-la na perspectiva de um parti...

Sobre a importância dos estudos*

  Muitos intelectuais acreditam lidar com problemas absolutamente novos, jamais pensados anteriormente - problemas como, por exemplo, a questão da "inteligência artificial", o caráter autofágico da democracia, a proposta do gênero neutro na língua portuguesa. O que os intelectuais do nosso tempo ignoram - devido à sua deficiência cultural - é que esses problemas já eram discutidos, sob outras formas, há milhares de anos. * * * O caso específico da proposta do pronome neutro é emblemático. Os defensores da inclusão do pronome neutro nas normas gramaticais do português partem da posição filosófica convencionalista radical a respeito da linguagem, segundo a qual a língua - com a sua gramática e o seu léxico - é completamente convencional e pode ser alterada deliberadamente (por razões políticas, por exemplo). Essa posição é a mesma defendida por Hermógenes no "Crátilo" de Platão (que Ross propõe ter sido escrito em 388 a.C.). Todavia, no "Crátilo" o c...

Fundamentação prática em Filosofia Clínica*

Vi que no âmago da criação pode muito bem existir algo tão incontrolável e incompreensível como um vulcão em erupção.                                   Anne Rice, Pandora   A arte terapêutica constitui-se a partir das interrogações e reflexões compartilhadas no espaço clínico. Introspecção silenciosa em ousadias de descoberta anuncia uma transgressora liberdade de ser um. Expressividade em desocultar a matéria-prima contida nas invisíveis formas em desdobramentos de viver. Elenco de aparência inexplicável em rotas protegidas pelas tramas conceituais. Possibilidades de um não-sei-quê contido nas hipóteses em experimentação. Introspecção silenciosa em ousadias de descoberta. Interseção em ponto de partida, possui significados de natureza própria. Uma das características fundamentais na terapia, esse exercício voltad...

Uma perspectiva prática da recíproca***

A metodologia da Filosofia Clínica contempla elementos que constituem a estrutura de pensamento e os modos de agir de cada pessoa. Alguns elementos, como a inversão e a recíproca, podem estar tanto na espacialidade intelectiva quanto nas ações do indivíduo. Simplificadamente, inversão é o movimento de trazer o outro ao seu próprio mundo, enquanto a recíproca é ir em direção ao outro. No espaço terapêutico, a recíproca pode fazer parte da qualificação da relação terapeuta/partilhante, sendo utilizada pelo terapeuta que escuta, acolhe e, principalmente, se isenta de suas perspectivas do mundo e das relações diante do discurso existencial do partilhante. Assim, considera essencialmente o outro para possibilitar o espaço da construção compartilhada. Em um esboço preliminar, através do discurso existencial do partilhante, a recíproca pode aparecer como tópico importante da estrutura de pensamento. Com a evolução do tempo terapêutico, através do acesso à historicidade, às circunstâncias, à l...

Artigo da Revista Internacional de Filosofia Aplicada*

                              *Profa. Dra. Arantxa Serantes                        **Prof. Dr. Fernando Carbonell da Fontoura Para ler o artigo acesse o link abaixo: Vista de La Filosofía Clínica como singularidad: Una propuesta metodológica desde las humanidades

Inquietude Investigativa*

Na filosofia clínica, há quem aprenda o método e o utilize no consultório e quem, além de realizar os atendimentos, também continue a ensinar, pesquisar, aprofundar e questionar a fundamentação e a prática.   Assim, os formados seguem acompanhando os resultados das pesquisas e os adaptam ao seu trabalho no consultório. Seu tempo é mais empenhado em fazer o atendimento da melhor maneira possível com os recursos bibliográficos e audiovisuais ao seu alcance. Com isso, podem se tornar excelentes profissionais da área, exercendo seu trabalho como filósofos clínicos. Esse é o caso da maioria daqueles que concluem a formação. O segundo grupo mencionado é constituído de uma minoria. São filósofos clínicos que não se contentam em receber o conteúdo apresentado por quem os ensinou. Antes, continuam suas investigações em prol de ter um método cada vez mais aprimorado. Por isso, pesquisam as bibliografias, reveem os fundamentos, questionam seus pares, propõem novos caminhos etc. Esse grup...