Pular para o conteúdo principal

Postagens

Translate

Notas do consultório do filósofo II***

A apresentação da Filosofia Clínica como um novo paradigma terapêutico,  tendo em vista sua fundamentação teórica e prática, r ecoloca a urgência em decifrar sua estrutura de pensamento. Trata-se de uma abordagem essencialmente brasileira, onde a partilha das novas ideias e atividades - desde os idos de 1990 -, quando recebia críticas de quem não sabia o que dizia - como alguns, ainda hoje, não sabem -, ao referir suas narrativas como algo que já existia. Assim aparece uma dificuldade, por parte de muitos contemporâneos, em estabelecer uma interseção aprendiz com sua mensagem. A estranheza dos novos territórios diante do olhar, parece ofuscar quem estava acostumado a determinados tons de claridade. Talvez haja necessidade de ajustar o velho óculos, para enxergar o que desafia o alcance de suas lentes. É o caso do conceito de singularidade, o qual se traduz - no dicionário comum - como: peculiaridade, esquisitice, particularidade, extravagância, excentricidade, destacar-se, sobressa...

A matemática simbólica e a singularidade***

A novidade da filosofia clínica é a afirmação da singularidade. Cada partilhante é critério de si, a partir de sua historicidade, fornecendo parâmetros à realização dos procedimentos clínicos ao terapeuta. Mas, alguns desdobramentos dessa abordagem terapêutica são questionáveis. Refiro-me a questões relativas à matemática simbólica.    Para refletirmos, uso a filosofia clínica como o método para melhor explicá-la, corrigi-la e desenvolvê-la. As linhas seguintes demandam concisão. Considero a filosofia clínica capaz de compreender formulações complexas ao analisar suas composições estruturais. No início da “Filosofia Clínica: propedêutica”, Lúcio Packter destinou as primeiras linhas para explicar o contexto histórico que permeou sua vida no período no qual iniciava suas pesquisas para a sistematização daquilo que mais tarde receberia o nome de filosofia clínica. A categoria circunstância descrita pelo autor nos ajuda a suspeitar que como o mundo parece é um tópico determinante ...

A metafísica de Alberto Caeiro***

De todos os heterônimos de Fernando Pessoa talvez seja Alberto Caeiro, um dos meus neopagãos prediletos, ao acionar em nós o submodo em direção às sensações (da abstração intelectiva para sensação corpórea), que mais dialogue com sensorial & abstrato, o tópico 3 da estrutura de pensamento. Entendendo por sensorial o que deriva diretamente dos sentidos (dimensão do mundo sensível, concreto, plano dos fatos) e por abstrato o que se liga aos conceitos (dimensão do mundo inteligível ou arquetípico, plano das ideias). estrutura de pensamento, por sua vez, definida como um conjunto plástico e dinâmico de 30 tópicos que, em combinações várias, servem de constructos a serem preenchidos pela diversidade que em cada um de nós habita de modo peculiar. Em clínica observamos que nem sempre o reiteradamente analisado é real e propício à sua integralidade. Em algumas singularidades a ponderação excessiva pode fragmentar o olhar, impedir conexões necessárias, gerar pontos cegos, romper com o fluxo...

Como o mundo me parece?***

Flatland – O Mundo Plano, de Edwin A. Abbott, é uma obra singular sob a aparência de uma fábula matemática, que constrói uma reflexão profunda acerca das limitações cognitivas, sociais e epistemológicas capazes de moldar uma visão de mundo subjetivista. Esse livro foi publicado em 1884 e se trata de um romance que permanece surpreendentemente atual justamente porque não se limita ao seu contexto histórico vitoriano, mas opera como uma alegoria aberta sobre dogmatismo, hierarquia, poder, educação e, sobretudo, toca no fenômeno da dificuldade estrutural que pode ocorrer no que tange ao reconhecimento dos limites das nossas próprias certezas. O enredo se desenvolve a partir da perspectiva de um personagem narrador que habita Flatland, um mundo bidimensional onde todas as formas geométricas possuem vida, consciência e status social. Nesse universo, a hierarquia social é rigidamente definida pela geometria: quanto maior o número de lados, maior o prestígio social. Círculos representam a eli...

Investigação das águas*

“A imagem mental é a imagem que é descrita quando alguém descreve sua imaginação”. (Wittgenstein) Comer todas as palavras e certezas de palavras, vãos em muros, filamentos do tempo, a história, paixão e fome dos olhos, diafragma da alma, um escape de som, uma luz entre os corpos, um resto de palavras, o som quase silêncio entre o medo e a revelação, a fome do desejo nas paredes do tempo, e o corpo abundantemente dança em luz que suaviza os movimentos, o som perdido entre os livros, uma letra entre as letras, a formação de nuvens no outono, o céu se fecha, os olhos de sal, mareados, o instante final do esquecimento desaparece entre os restos dos dias, afasia da desrazão em águas profundas, um mar de realidade, um revestimento encobrindo a palavra, a claridade na luz do sol cortando o revestimento, o emergir. De volta. É como trazer as palavras e o corpo de volta à superfície. E os braços em longos, demorados movimentos, chapinhar entre plantas submersas, mistura de cansaço e carpas pass...

As dores e as delícias do estudo da Filosofia Clínica*

Andei perdida de textos escritos, pensei que esse lado escritora meu havia se perdido por entre a vida corrida do dia a dia. As palavras iam e vinham na minha mente, mas eu não conseguia capturá-las com precisão. Terminando a pós esse ano me deparo com o trabalho final e petrifico entre mil e uma ideias. Conflitos, incertezas, questionamentos, dúvidas quanto a tudo o que aprendi e tudo que experienciei... Sinto-me mais conhecedora das minhas sombras e da minha luz. Entretanto, questiono o porquê dessa escolha dentre tantas outras que envolvem a filosofia. Sempre tive vocação para as questões existenciais, seja na minha representação de mundo, como na representação de mundo de outros. Mas vir a ser - filósofa clínica - é uma tarefa delicada que me faz temer muitas coisas. Ser cuidadora é algo muito frágil e precioso. Tenho percebido carências tão primárias nas pessoas com as quais convivo que penso se realmente há uma segurança de "melhor viver" através de qualquer terapia. Eu...

Revista da Casa da Filosofia Clínica Outono 2026 - Ed. 16

Nesta 16ª Edição comemoramos os quatro anos da Revista da Casa da Filosofia Clínica. Um momento oportuno para refletirmos sobre essa marca histórica. Assim, transitamos por espacialidades estabelecendo uma relação entre o início, via deslocamento longo, e o agora, com o deslocamento curto, preenchendo os dados divisórios a partir da narrativa. CLIQUE AQUI PARA LER  

O que a Filosofia Clínica não é*

Não tendo pretensão de definir um conceito sobre o que é a Filosofia Clínica (F.C.), mas antes convidá-lo a refletirmos sobre alguns aspectos daquilo que ela não é, me apresento: Sou Ancile, habilitada à pesquisa em F.C. e Graduada em Psicologia. Atuo com psicoterapia de inspiração existencialista há 12 anos. Se no Novo Paradigma ainda me sinto como uma criança sendo alfabetizada, na área psi posso dizer que já concluí as “séries iniciais” e me sinto segura para propor a tentativa de traçarmos um paralelo no sentido de ressaltar as diferenças essenciais de cada área. Trago algumas características metodológicas das 3 grandes áreas  psis , Psicologia, Psicanálise e Psiquiatria, suas diferenças entre si e em relação à Filosofia Clínica. Começando pela Psicologia, fundada em 1879 por Wilhelm Wundt (1832-1920), a partir da criação do Laboratório de Psicologia Experimental na Universidade de Leipzig, Alemanha. São muitas escolas de pensamento desde então, com variadas teorias que buscam,...

Estruturação de raciocínio?***

Para falar sobre o décimo tópico é preciso começar pelo motivo de sua criação. Nos Cadernos, principal referência pedagógica nos primeiros anos da filosofia clínica, existem determinações sobre não trabalhar com indivíduos apresentando raciocínio desestruturado. É descrita a possibilidade deste “tipo” de atendimento sob consentimento familiar e acompanhamento médico simultâneo à terapia. Há também a ideia de definir ou diagnosticar o raciocínio bem estruturado e o contrário da boa estruturação. Os critérios são: capacidade de agendar e responder apropriadamente a um estímulo, relação íntima e/ou justificável entre termo antecedente e termo subsequente, firme relação entre causa e efeito, contiguidade e semelhança, associação coerente e justificável de ideias e capacidade de interpretação lógica, literal e via bom-senso. O problema se dá na constituição da proposta do tópico. Em sua descrição existem elementos contraditórios em relação ao exercício da filosofia clínica. Ao afirmar a imp...

Esquizofrenia?*

"O que quero enfatizar agora, desde o início, é que a alegação de que algumas pessoas têm uma doença chamada esquizofrenia (enquanto outras supostamente não têm) foi baseada apenas na autoridade médica e não em qualquer descoberta médica; que foi, em outras palavras, resultado de uma decisão política e ética e não de um trabalho empírico ou científico." Thomas Szasz.  Esquizofrenia: el símbolo sagrado de la psiquiatria .  p. 13 Os comportamentos humanos podem ser considerados normais ou anormais somente em referência a algum padrão. E isso não é novo. Os primeiros estabelecimentos de reclusão ou confinamento de pessoas “anormais” vêm antes do século XV e essa prática de avaliação de anormalidade muito antes desse tempo.  No entanto, as explicações sobre esses comportamentos podem ser de várias áreas tais como sociais, antropológicas, éticas, políticas etc., mas não médica. A não ser que esta pessoa tenha uma lesão no cérebro onde diretamente esteja afetada suas condições ...

Discernimento: O silêncio que cria direções*

  Há momentos em que a vida nos pede pausa. Não uma pausa qualquer, mas aquela em que colocamos tudo diante de nós: vínculos, lembranças, hábitos, certezas. É como espalhar sobre a mesa os objetos que carregamos. Alguns ainda nos sustentam, outros já perderam sentido. O exercício do discernimento começa nesse gesto: separar o que fortalece daquilo que apenas ocupa espaço. Esse movimento não é perda, mas libertação. Revisar não significa negar o passado, e sim reconhecer que ele cumpriu sua função. Há vínculos que nos apoiaram e agora se tornaram peso. Há ideias que nos guiaram e hoje limitam nossa visão. O cuidado de si consiste em revisitar constantemente esses mapas e perguntar: ainda correspondem ao que sou? Em certas situações, não basta ajustar rotas: é preciso redesenhar o mapa inteiro. Isso pode significar abandonar certezas, redefinir prioridades ou aceitar que o silêncio também é direção. O vazio que surge não é ausência, mas presença, nele se revela o essencial. Lib...

Filosofia Clínica: uma introdução***

Esta é uma breve introdução à Filosofia Clínica. Por meio dela, pretendo elucidar algumas dúvidas iniciais dos interessados em compreender esse método e, caso queiram conhecer mais, com as informações apresentadas, saberão como e o que buscar em outros textos e livros. A Filosofia Clínica, ao longo dos seus trinta anos, possui uma base sólida. Por isso, há muitos conceitos que requerem aprofundamento, pois apesar de ser “simples” na apresentação dos conteúdos constituintes do método, ela é complexa em sua aplicação, pelo fato de lidar com pessoas. Além disso, a prática muitas das vezes fundamentará a sua teoria. A  Filosofia Clínica visa auxiliar a quem procura terapia a alcançar seu bem-estar subjetivo, trabalhando suas questões existenciais conforme cada singularidade. É importante dizer que sem a noção de singularidade ela seria apenas mais um método terapêutico. Cada pessoa é única, possuindo a sua experiência de vida, sua cultura, seu modo de ver o mundo, seu jeito de sentir e...

Aberturas Existenciais***

Os processos de autogenia costumam revelar reorientação de rotas, reinvenção de rumos, abertura de caminhos. Em clínica, algumas vezes a pessoa inicia a terapia já nesse estágio de transformação pessoal. São tempos de travessia, onde pode ocorrer de a partilhante vivenciar suas experiências novas, pelo viés discursivo antigo e pelos princípios de verdade vigentes em seu grupo de convivência. Instantes que podem levar a pessoa a classificar suas novidades em discursos que apontam estranhamentos para si ou para os outros, tais como: "eu pareço uma adolescente"; "já me disseram que eu pareço uma personagem, que não vou sustentar isso por muito tempo", e, talvez a partilhante esteja apenas passando por um momento de abertura existencial a ressoar em ressignificação pessoal, familiar, de trabalho, novas buscas, experimentando desejos sexuais, atitudes de empoderamento frente aos que lhe exerceram poder ao longo da vida... Então, ainda que ela esteja saboreando e recolori...