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Atento à singularidade*

Pode ser incômoda a ideia da singularidade proposta pela filosofia clínica. Mesmo entre filósofos clínicos e estudantes há a possibilidade de uma inclinação para generalizar algum comportamento a ser adotado ou um idealizar um fim a se alcançar para a obtenção do bem-estar subjetivo. Reconhecer cada pessoa como única, requer a aceitação de que para cada uma delas as orientações de vida são irrepetíveis e a fonte onde se encontra os parâmetros é a própria pessoa atendida. Os filósofos clínicos levam suas vidas com suas verdades, emoções, princípios etc. Porém, quando está diante de um partilhante, seus juízos sobre como viver, seus valores, como vê o mundo etc. devem ficar suspensos. Um processo no qual o terapeuta busca compreender a pessoa a quem atende com um mínimo de mácula de suas próprias verdades. Lembre-se de que não há uma negação de um referencial objetivo. As diferenças provêm da experiência de cada pessoa em relação aos elementos internos e externos. Não há um só modo de li...

El Instante Aprendiz***

* Traducción:    Prof. Dra. Arantxa Serantes (La Coruña/Espanha) Al esbozar apuntes sobre una lógica de la locura, un envés del absurdo se desvela en astillas de múltiples caras. Frontera donde la normalidad se reconoce en sus paradojas. Una de las características de la expresividad delirante es ensimismarse en desacuerdo con el mundo alrededor. Crea dialectos de difícil acceso para proteger sus versiones de mayor intimidad. El papel de la Filosofía Clínica en la intersección con la crisis inmediata también es presentación indeterminada en un proceso caracterizado por la exageración de la manifestación del que comparte. Un no saber vehicula provisionales verdades en el compartir deconstructivo de las sesiones. Representaciones existenciales difusas se alternan en narrativas del tiempo de la persona. El lenguaje de la locura se constituye en un conjunto de convivencias estúpidas. El punto de partida es la extraordinaria lengua de la persona estructurada en alguna forma caótica....

Ponto Cego***

O conceito de paradigma é determinante nas concepções de mundos como vontade e representação, tanto para uma perspectiva subjetivista quanto objetivista. A história da ciência e do pensamento humano é marcada por contínuas rupturas paradigmáticas. Teorias e crenças antes consideradas inquestionáveis foram por diversas vezes descartadas conforme descobertas, novos dados e perspectivas vieram à tona. Esse processo recorrente nem sempre ocorre sem resistência ou violência. Apegos a paradigmas estabelecidos, o que não é raro, pode criar um ponto cego epistêmico onde a própria estrutura de conhecimento em voga impede a percepção das suas limitações. Os paradigmas são estruturas fundamentais que moldam a forma como interpretamos o mundo. Segundo Morin (2005, p. 128), "um paradigma impõe seleção e organização do conhecimento, mas também exclui o que não se encaixa". Essa seleção pode se tornar um viés cognitivo ao restringir a percepção exclusivamente ao que reforça o paradigma vige...

Unanimidade científica?*

Amigos, não existe “a posição da ciência”. Como mostraram Bachelard, Kuhn, Feyerabend e muitos outros depois deles, a idéia de uma posição unitária da ciência não passa de uma idealização, de uma sinédoque, de uma personificação. "A ciência" não afirma nada; "a ciência" não sustenta posição nenhuma. Quem afirma, quem sustenta as suas posições, são "os cientistas" e "os grupos de pesquisa". E eles não afirmam nada em uníssono, eles não pensam em bloco: não existe unanimidade em nenhum campo científico. Como diz Feyerabend em "Ambiguità e armonia: lezioni trentine", "o monstro 'ciência' que fala com uma única voz é uma colagem feita por propagandistas, reducionistas e educadores. Dizer que 'somos obrigados a tomar a ciência como guia em questões relacionadas à realidade' não é só errado – é um conselho que não faz sentido". Afinal, em todos os ramos da investigação científica – na física, na biologia, na sociolog...

Ler e escrever como terapia*

Os caminhos para se chegar a uma melhor condição de bem-estar subjetivo são tão diversos quantos são os indivíduos. Para alguns, conversar semanalmente com o terapeuta é o melhor dos caminhos. Para outros, a alma sorri mesmo é com uma boa conversa jogada fora junto daqueles amigos sinceros que dizem coisas bonitas com a mesma naturalidade com que convidam a refletir sobre as falhas e fissuras no seu jeito de ser e existir. Tão bem faz, igualmente, para algumas pessoas, a prática da fé e da espiritualidade, ou da solidão momentânea, para ficar de encontro com seus próprios pensamentos, com seus próprios sentimentos. A lista é infindável: brincar com os netinhos, tomar chimarrão na praça, paquerar ao pôr do sol, cozinhar para o amor da sua vida, cuidar de plantas e jardins… tudo isso faz bem, gera prazer e satisfação em viver, para muitas pessoas. Para um sem-número de sujeitos, porém, existe um método que historicamente se estabeleceu como charmoso para retratar das dores e alegrias que...

Ser e Não-Ser*

Não! Não renuncio à vida. Não vou seguir atirando na sarjeta cada sagrado segundo desta breve viagem, nas mãos da racionalidade, civismo e bom senso excessivos... O que de selvagem me restou travestiu-se na fôrma da ignomínia. Todavia, o fogo que arde no âmago das profundezas da vera essência, derrete as tolices formais e devolve a verdade imprecisa, pura, inocente. E só assim há coerência; o que não há no medo, nem na medida. O que não há na causa, nem no efeito. O que não há no tempo, nem no espaço. Coisas essas, que somente existem na opressão em que nos afogamos por nossos próprios meios. E tampouco neste asqueroso âmbito temos qualquer mérito ou recompensa. Escravidão, escravidão! Cegueira, cegueira, coletiva cegueira!!! Se liberdade não há, que ao menos não haja o grilhão. Gênero? Instituições? Moral? Formação? Modelos de aparência e conduta? A quantas chaves mais deveríamos nos trancafiar num cotidiano oco, padrão, robótico, mecânico, eletrônico, com o controle remoto nas mãos d...

Outono*

Os soluços finos Dos violinos De outono Ferem minha alma Com a lânguida e calma monotonia do sono. Paul Verlaine (tradução de Juremir Machado da Silva)   Meu amor é uma flor perdida na escuridão, eu sei de tudo e nada disse que sei nada sobre a vida. Chegada a hora de me manifestar, a razão anda perdida, os fanáticos percorrem os corpos. Eles são o fundamento desta pobreza de espírito, ainda ando devagar, quase correndo, e a fronteira é parte da vida. Devo ir adiante sem olhar para trás, devo ir avante remoendo a linguagem, desopilando o espírito? Tenho que escutar a sabedoria do velho sentado à beira da estrada, logo em frente a um bar, cuja placa deixa claro aos viajantes: “Atendemos só os filhos de Deus”. O velho olha-me e diz que não é para levar a sério, que entre e compre o que bem quiser, pois o filho dele é só um fanático, não entende nada da vida, só dizer que é o que ele quer que seja, que eu compre e caia fora. Antes que ele percebesse já tinha partido e o velho me comen...

A singularidade e os princípios de verdade*

A filosofia clínica é um método terapêutico fundamentado na ideia de que cada indivíduo é um ser único, com uma história pessoal e subjetividade própria. Na formação, aprendemos que essa abordagem parte de compreender como o partilhante enxerga a existência e, a partir de sua representação de mundo, se conduz a clínica. Os procedimentos são feitos baseados no que ocorre nessa troca, em construção compartilhada. Ao contrário de abordagens generalizantes, que tendem a agrupar as pessoas em categorias pré-determinadas, a filosofia clínica busca entender cada personalidade. O terapeuta não vai encaixar o partilhante em nenhuma tipologia, a máxima do método é que cada pessoa é critério de si mesma. O filósofo clínico atua como um facilitador do diálogo, promovendo a reflexão sobre questões trazidas pelo partilhante e ajudando-o a compreender e lidar com sua própria singularidade. Essa abordagem terapêutica propõe que não existem respostas universais para os problemas humanos e defende um es...

Linguagem e singularidade*

A noção de linguagem que Wittgenstein apresenta nas suas Investigações Filosóficas, cuja concepção é a de que o significado das palavras depende de seu uso na linguagem, em Filosofia Clínica se traduz como um dos princípios dos cuidados de que deve ter o filósofo clínico na sua atividade clínica, nas acolhidas existenciais a que se dispõe, e que, adversamente às técnicas tradicionais da psiquiatria ou das psicologias tradicionais - que não fazem senão hermenêutica sobre o discurso ou expressividade do indivíduo - permitirá guardar o sentido mais original da palavra no contexto discursivo do sujeito, ou seja, respeitando ou limitando-se a entendê-lo a partir e à medida de um sujeito em seu território. Sendo um projeto único, permite-se acessar todo um vocabulário, recheado de significados singulares para cada expressão de sua semiose. Aquilo a que chamou “jogos de linguagem” refere-se, segundo o próprio Wittgenstein, aos vários usos das palavras e ao conjunto das atividades com as quais...

Quase certeza*

Desde que me lembro por gente, tentei fazer as coisas para agradar aos outros, queria que todos gostassem de mim. Cumpria aquilo que a cultura pregava como certo. Naquela época, a maneira digna e decente de se viver incluía obediência, perfeição, honestidade, estudo, trabalho, sucesso. Precisava provar para a família e a sociedade o meu valor, então segui todas as regras ao pé da letra. Nunca perdi o ano na escola, obedeci e respeitei meus pais e professores, fiz faculdade de Medicina, arranjei um emprego, casei no cartório e sinagoga, tive um filho. Sabe aquela propaganda de margarina com a família perfeita? Era mais ou menos assim, só faltou o cachorro correndo pelo jardim. O tempo passou voando, como se minha vida estivesse rodando por uma esteira rolante acelerada. Nem todas minhas escolhas foram minhas. Eu era ator de um roteiro planejado para mim e nem me dava conta. Mesmo assim eu gostava e me sentia bem. Recebia aplausos em todos os palcos. Não sei precisar quando nem como, mas...

Entre a Festa e as Cinzas*

  O carnaval é a festa do povo. É o instante em que a cidade se abre em cores, tambores e passos improvisados. As ruas se tornam palco, e cada esquina guarda uma história de alegria. Há crianças correndo atrás de confetes, há idosos sorrindo como se voltassem a ser jovens, há foliões que acreditam que a vida inteira cabe em quatro dias de samba. Mas nem tudo é brilho. No calor da multidão, há quem confunda liberdade com desmedida. Embriagados pela sensação de que tudo é permitido, muitos se deixam levar por ilusões que parecem eternas. Gestos impensados, atitudes que na vida comum jamais seriam tomadas, surgem como se fossem parte natural da folia. E assim, o que deveria ser apenas celebração se transforma em excesso, e o excesso, em arrependimento. Porque todo carnaval tem sua quarta-feira de cinzas. É o dia em que o silêncio invade as ruas, os confetes se misturam ao pó e a fantasia se desfaz. O corpo cobra o preço da euforia, e a alma se vê diante de perguntas inevitáveis: q...

Entre o Ter e o Ser*

  Agora não são somente as pessoas comuns na rede social: são também os profissionais da palavra - os escritores, os jornalistas, os colunistas - a fazer uso dos chatgpts para escrever. "O texto é de IA, mas as idéias são minhas". Sinto muito: as idéias não são suas. Você pode ter desejos, memórias e afetos; idéias, no sentido do pensamento mesmo, você não tem. * * * Explico: uma idéia não existe flutuando dentro de uma cabeça. Toda verdadeira idéia é tecida, desde o primeiro momento, numa teia argumentativa mais ou menos complexa, a depender do tecelão (vale lembrar que, em latim, "textus" é "tecido"). Quem não tece não tem tecido - tem apenas fios soltos, que nada são realmente. Isto é: não existe idéia sem argumentos estabilizados e ordenados, um após o outro, numa organização que reflete a própria estrutura de pensamento da pessoa. Ou: o pensamento se realiza e se conhece na sua exteriorização como linguagem pública. Ora, quem simplesmente es...

Normal e Patológico*

Filosofia Clínica - O ensino da filosofia clínica começou há trinta anos. Inicialmente, Lúcio Packter lecionou em Porto Alegre, no Instituto Packter. Paulatinamente, por todo o país. Hélio Strassburger, junto a Lúcio, se encaminhou para outros estados brasileiros para ensinar essa nova abordagem terapêutica. Além de diretor por mais de uma década do Instituto Packter, Strassburger também ampliou os horizontes de possibilidade de atendimento desse método para hospitais psiquiátricos no Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, mostrando que os filósofos clínicos são convidados a pensar o método, a aprofundar e a atualizar seus fundamentos teóricos e práticos. ******** Antigos e novos leitores - Alguém que lê há anos pode oferecer dicas valiosas para novos leitores. Mas, é preciso ter cuidado ao ouvir essas sugestões. A experiência de quem dialoga com livros por anos ou décadas permite análises profundas sobre as obras, estabelecendo diálogos com contextos, épocas, correntes de p...

Criticidade e Literatura*

Nem a gripe que me pegou de jeito esses dias abalou a vontade de dividir com vocês um pouco da relíquia que tenho em mãos... Ganhei de um amigo recente, o jornalista e escritor Celso Viola, um dos editores da Revista, a Edição 1, Maio de 2012, da ALEF, Revista de Literatura Ibero-americana, que traz esse nome em homenagem ao escritor argentino Jorge Luis Borges. Já no Editorial (ALEF ao leitor), deixa claro a que veio: para aproximar produtores culturais, de línguas e culturas diversas, irmanados pela resistência ao predomínio monetário, cultural e ideológico.     Minha alegria não poderia ser maior ao saber que foi gestada em minha cidade natal, Gramado / RS.     Mesmo enfermo, o pensamento crítico ainda vive e no que depender de mim e de outros tantos que tenho encontrado pelo caminho, seguirá pulsando...   Tem um artigo interessantíssimo sobre as bases do modernismo em Portugal, que faz integrar dois brasileiros à Geração Orpheu, citados pelo próprio Fer...