A filosofia clínica é um método
terapêutico fundamentado na ideia de que cada indivíduo é um ser único, com uma
história pessoal e subjetividade própria. Na formação, aprendemos que essa
abordagem parte de compreender como o partilhante enxerga a existência e, a
partir de sua representação de mundo, se conduz a clínica. Os procedimentos são
feitos baseados no que ocorre nessa troca, em construção compartilhada.
Ao contrário de abordagens generalizantes, que tendem a agrupar as pessoas em categorias pré-determinadas, a filosofia clínica busca entender cada personalidade. O terapeuta não vai encaixar o partilhante em nenhuma tipologia, a máxima do método é que cada pessoa é critério de si mesma.
O filósofo clínico atua como um facilitador do diálogo, promovendo a reflexão sobre questões trazidas pelo partilhante e ajudando-o a compreender e lidar com sua própria singularidade. Essa abordagem terapêutica propõe que não existem respostas universais para os problemas humanos e defende um espaço de reflexão no qual cada indivíduo pode encontrar seus próprios caminhos e significados. Falar sobre algo é dar corpo a esse algo, é trazer a ideia para o palpável ou o mais palpável que o subjetivo pode chegar.
Ao começar os estudos em filosofia clínica logo se percebe que a singularidade é o seu alicerce, uma vez que serve como base para a compreensão do processo terapêutico.
Quando o partilhante chega ao consultório a primeira questão a aparecer é o assunto imediato, ou seja, o motivo que o levou à terapia. Cessada a fala sobre sua queixa inicial, a etapa seguinte é a coleta de sua historicidade, na qual é orientado a contar sua história de vida desde o seu nascimento até os dias atuais. O filósofo clínico faz a análise dos exames categoriais, da estrutura de pensamento e dos submodos do partilhante.
Os exames categoriais, constituídos pelo assunto imediato e último, circunstância, lugar, tempo e relação ajudam o terapeuta a compreender como o partilhante se situa existencialmente. Essa é a ferramenta usada para acessar o mundo do outro. A estrutura de pensamento está ligada a como o sujeito se constitui, são trinta tópicos que envolvem a análise e compreensão da forma como o indivíduo organiza suas ideias, conceitos e argumentos. Já os trinta e dois submodos são os meios para a viabilização da estrutura de pensamento. Ao passar por essas três etapas, montando a estrutura de pensamento, identificando os tópicos determinantes e como eles dialogam entre si, chega-se ao assunto último. O assunto último é singular e pode ser um conflito ou uma questão entre dois tópicos, ou mais, da estrutura de pensamento.
Mesmo que fique evidente a importância da singularidade, no início, essa afirmação pode soar vaga. Por mais que pareça haver um consenso sobre seu significado, há nuances que podem causar confusão na hora de pensar essa abordagem. Algumas vezes a singularidade é usada como sinônimo de extraordinário, para se referir a algo ou alguém que se diferencie por fugir do comum.
Ao contrário, ser singular na filosofia clínica significa algo ordinário da condição humana. Se diz que todos os partilhantes são singulares pois cada pessoa é única em suas experiências, visão de mundo e necessidades, cada uma vai levar para o consultório as verdades sob a lente que enxerga a vida, tendo sua responsabilidade sobre si mesma, sendo exclusivamente o seu corpo. Vivendo sua experiência a partir do que seu corpo lhe permite fazer fisicamente e de como seu corpo se encaixa na sociedade, dos padrões sociais que lhe são impostos a partir do seu estereótipo.
Os padrões sociais são conjuntos de normas e valores que são compartilhados por uma determinada sociedade em um dado momento histórico, eles não são fixos e imutáveis, sofrem alterações ao longo da história. Esse organismo vivo, que é a sociedade, dita como lidar com as necessidades básicas de ser gente, impondo convicções e dogmas. Essas tradições podem ganhar uma potente característica de fatalidade que de tão entranhadas nos princípios de verdade deixam de ser questionadas. Quanto o padrão social pode restringir a singularidade?
Por mais que se tenha nascido num mundo que impõe inúmeros padrões sociais que restringem e definem, para a filosofia clínica há, acima de tudo, a percepção pessoal. Os padrões sociais, podem oferecer um ponto de referência e um contexto para a compreensão do indivíduo em sua relação com a sociedade. Alguns vão dedicar grande reflexão a esses paradigmas sociais, enquanto para outros esse tema pode não ser central. E o foco da clínica está naquilo que se mostra relevante para construir a estrutura de pensamento do partilhante. São as questões levantadas por ele mesmo sobre sua passagem pela terra que fornecem à clínica sua matéria prima. Portanto, é nessa singularidade que se encontra a essência dessa prática terapêutica.
*Lara Freitas
Filósofa. Filósofa Clínica. Escritora.
Rio de Janeiro/RJ
**Texto originalmente publicado na edição primavera/2023 da Revista da Casa da Filosofia Clínica.
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