sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Amar o próximo como a si mesmo

Roberto Calvet
Filósofo Clínico
Rio de Janeiro/RJ

A Filosofia Clínica, ao abordar um pensamento como este, não vai buscar o significado universal destes termos; pelo contrário, na fala de quem profere tais palavras, vai entender o que é amar para esta pessoa, como ela se relaciona (interseção) com o próximo, o que ela pensa de si mesmo.

Existem nesta frase três elementos que, conforme a representação que cada pessoa tem de mundo, podem gerar ações, comportamentos e sentimentos os mais diversos.

Eu não sei, a princípio, como você se ama para querer o seu amor. Eu não sei o que é amar para você. Também não sei como você se vê ou como vê o mundo. Ser alvo desta sentença, amar ao próximo como a si mesmo, dependendo de como são essas três coisas para você (amar, o próximo, si mesmo) pode ser algo maravilhoso, mas também pode ser uma tremenda agressão se os significados forem diferentes para mim. Estes são os cuidados que o filósofo clínico tem quando pratica a sua clínica.

A Filosofia Clínica exige do terapeuta uma graduação de quatro anos em filosofia. Depois, uma pós-graduação de mais dois anos, um pré-estágio de um ano – onde o filósofo vai fazer terapia com outro filósofo clínico, observando os métodos da filosofia clínica, ao mesmo tempo em que ocupa o papel de partilhante (assim é chamado o paciente na filosofia clínica); e depois mais dois anos de estágio supervisionado, onde começará a fazer atendimentos com a supervisão de seu orientador.

É uma formação que exige no mínimo nove anos de preparação.

A terapia na Filosofia Clínica não é uma conversa intelectual e abstrata onde se recomendam leituras de filósofos ou discutem-se conceitos. Pode até ser, caso esta se mostre a melhor forma de se comunicar com o partilhante, mas em princípio nem falamos sobre filosofia no consultório.

Toda nossa bagagem filosófica nos permite a construção de métodos, técnicas e posturas que possibilitam nossa escuta atenta do outro, sem preconceitos ou pré-juízos. Não enquadramos as pessoas em sintomas, tipologias ou interpretações; pelo contrário, chegamos até outro ser humano como se encontrássemos um novo universo a ser descoberto, com leis físicas novas, onde teremos que aprender tudo novamente.

Uma vez feito este trabalho de aprendizado do que é o outro, de como ele se relaciona com o mundo, de como ele se percebe, partimos para ajudá-lo a resolver a questão que o fez procurar a terapia.

Pode ser ajudando-lhe a lidar com seus próprios recursos, ensinando-lhe novos ou mesmo através de novas criações, pois a filosofia clínica, como a vida, não é algo acabado, fechado e estático, mas uma terapia que está sempre se desenvolvendo, buscando se aperfeiçoar, sempre aberta a novas contribuições, diálogos e questões.

Não existe somente uma verdade para a filosofia clínica. Trabalhamos pelo menos com duas: a verdade convencionada e a verdade subjetiva. A subjetiva é a de cada um, conforme começamos nossa conversa aqui. A convencionada é a que compartilhamos para tornar possível nossa convivência em grupo, social.

Um dos nossos trabalhos na terapia é entender como estas duas verdades se dão para a pessoa que nos procura; os conflitos que podem advir daí e, através de uma terapia que se mostra extremamente rápida e eficaz, porque geralmente dura de seis meses a um ano e meio, trabalhar a questão que a levou a buscar a terapia a fim de proporcionar-lhe felicidade ou bem estar existencial conforme sua representação de mundo.

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