quinta-feira, 19 de agosto de 2010

*Bússolas subjetivas

...Porque no vasto oceano,
a minha eventual desarmonia
é só uma gota
desafinada.
Mais nada.
Lya Luft


A malha intelectiva é única e cada sujeito desenvolve um eixo subjetivo a instituir sua historicidade. Inseridos numa cultura manifestamos nosso ser no mundo: espiritualidade, linguagem, arte ou raciocínio. Habilidades capazes de proporcionar uma possível consciência de quem somos através das experiências adquiridas.

Um dos tópicos da estrutura de pensamento é inspirado nos estudos de Schopenhauer, em seu livro: “O mundo como vontade e representação”. Ele diz: “o mundo é a minha representação”. Pela capacidade de abstração e reflexão o homem pode alcançá-la.

O entorno do indivíduo é concebido e percebido na relação com ele mesmo. São duas metades essenciais, necessárias e inseparáveis: objeto e sujeito. Nesse sentido essas representações são tantas quanto o número de pessoas: enquanto para um o mundo é um espaço prazeroso e de realizações, para outro pode ser uma ‘via crucis’, ou ainda, como um lugar sem sentido.

Isso ajuda a entender melhor as caminhadas existenciais seguindo na contra mão, pois, se biologicamente tentamos descrever a vida numa forma linear, subjetivamente nem sempre é assim.

A prática clínica mostra algumas variações sobre esse assunto. A diferença, às vezes radical, entre a certidão de nascimento, idade biológica, e a existência subjetiva é um exemplo: Um indivíduo pode estar, fisiologicamente, vivenciando seus 50 anos e ter um ou mais tópicos aparecendo como se estivesse com 10 ou 20 anos.

Recordo o caso de R: “uma mulher de 49 anos, mãe de três filhos. Ao falar sobre seu papel existencial como artesã mostra-se segura. Uma pessoa empreendedora, criativa e com buscas definidas. Apresenta submodos adequados para realizar seus negócios, no entanto, quando sua história segue em direção as emoções surge uma menina de 10 anos, desprotegida e em busca de afeto.”

O contrário também acontece. Sujeitos de pouca idade apresentando tópicos com trejeitos de uma vida de 60 anos.

Como o caso de M.: “um adolescente de 16 anos. Suas buscas caminham em direção a uma formação acadêmica ainda a ser definida. Gosta de música, namorar, viajar, sair com seus amigos. Vive uma fase de experimentação de si mesmo. Transita entre esportes radicais e leituras filosóficas. Após os exames categoriais percebe-se que suas verdades subjetivas são de um homem de 50 anos.”

Essa incongruência pode ser um dos motivos das várias interseções encontradas: positiva, mista, indefinida ou negativa.

O contato com o novo é uma experiência cotidiana. Pessoas passando pelas nossas vidas a todo o momento e despertando em nós sentimentos de simpatia, indiferença ou dúvida.

Em “Filosofia Clínica - Poéticas da Singularidade”, Hélio Strassburger reflete: “Existe um ponto de frágil equilíbrio nas relações entre as pessoas. Alianças para aproximação com o extraordinário da condição humana. Pelas rotas de acesso à representação de cada um, vastos e inexplorados continentes podem mostrar-se.”

Encontros momentâneos chegam a ser agradáveis, mas a continuidade das convivências pode se mostrar insuportável. Um grupo escolar, por exemplo: quando resolvem passar mais tempo juntos é comum surgirem discussões, afrontamentos ou formação de sub-grupos.

Esse comportamento pode estar relacionado ao momento de cada um. Se isolarmos um tópico da estrutura de pensamento, perceberemos aspectos diferenciados: enquanto um possui esse tópico como um sujeito de 20 anos, outro poderá expressar esse mesmo tópico como se tivesse 30.

Nesse sentido os encontros podem seguir caminhos diferentes. Essas formas estapafúrdias de ser ajudam a compreender, e, quem sabe, deixar de lado pré-juízos referentes a alguns relacionamentos, considerados anormais: um jovem de 19 anos, apaixonado por uma mulher de 50 anos ou vice-versa.

A relação entre duas pessoas, compreendida a partir da sua estrutura de pensamento, pode ir bem além das aparências ou do convívio de superfície em muitas sociedades.

A causa desses distanciamentos entre idade biológica e idade subjetiva, pode ser encontrada na historicidade, via interseção entre o Filósofo e seu Partilhante.

Essas manifestações devem ser entendidas, se possível, a partir de seus contextos e desdobramentos existenciais. A estrutura de pensamento em sua plasticidade, pode mudar, inclusive com as crises a sugerir autogenias.

*Ana Cristina da Conceição
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS

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